Seja Humano!
Direção: Comece o ano bem e tenha um ano bom • Sermon • Submitted • Presented
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Transcript
Texto base:
Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais, deverão restaurá-lo com mansidão. Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado. Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo. Se alguém se considera alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Cada um examine os próprios atos, e então poderá orgulhar-se de si mesmo, sem se comparar com ninguém, pois cada um deverá levar a própria carga. O que está sendo instruído na palavra partilhe todas as coisas boas com aquele que o instrui. Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá. Quem semeia para a sua carne, da carne colherá destruição; mas quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna. E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos. Portanto, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, especialmente aos da família da fé.
Introdução
Introdução
A carta aos Gálatas nasce de um problema interno. Paulo não trata da perseguição externa que muitos cristãos na época sofriam, mas sim, de um falso ensino que surgiu dentro daquelas igrejas, que de forma velada, afirmava que o sacrifício de Jesus não era suficiente. Era preciso acrescentar leis da Antiga Aliança.
Então, do capítulo 01 ao capítulo 04, Paulo trata da verdade do Evangelho, confrontando de maneira objetiva e direta os falsos ensinos que surgiram naquelas igrejas. No capítulo 05, Paulo fala sobre a liberdade no Espírito. O tipo de liberdade que nos livra do legalismo imposto pela religião. E, então, no capítulo 6, ele nos mostra como essa liberdade que nos é garantida pelo Evangelho de Jesus deve ser colocada em prática no dia a dia. Em outras palavras, depois de corrigir a teologia e o modo de pensar, Paulo agora corrige a maneira como essas pessoas estavam se tratando.
Evangelho vs Religião
Evangelho vs Religião
Eu cheguei à conclusão, depois de todos esses meus anos dentro da igreja, de que a religião possui um poder muito grande — um poder capaz de desumanizar as pessoas. E eu te explico o porquê.
Quando a religião, ou a religiosidade, assume o lugar do evangelho, as pessoas deixam de ser pessoas e passam a ser apenas funções, números ou simplesmente meros objetos. A religião vê alguém apenas como parte de uma soma, dentro muitos outros números. Alguém que serve e, quando não serve, pode ser descartado. Alguém que funciona e, quando não funciona, pode ser jogado fora. A religião é responsável por esse tipo de divisão.
A religião é responsável por criar hierarquias e dependência. Afinal, somente aqueles que possuem determinado status espiritual parecem ter acesso, voz ou autoridade diante de Deus.
A religião produz seus ritos, os seus códigos e as suas exigências.E apenas aqueles que sabem o que fazer, quando fazer e como fazer, são reconhecidos como parte do grupo, o restante não serve para nada.
No fim das contas, a religião deixa de enxergar pessoas como gente de verdade. A religião apenas vê desempenho e utilidade. Por consequência disso, o religioso não vê histórias, ele não considera dores. O religioso é aquele que acaba ignorando as fraquezas dos outros e se torna insensível às dificuldades das pessoas.
Jesus combateu isso em seus confrontos contra os fariseus e os doutores da lei de sua época, e de certa forma, Paulo, no capítulo 06, passa a corrigir esse tipo de visão em seus leitores que possivelmente adotaram por conta do falso ensino.
Paulo passa a falar de um tipo de visão que olha para o outro — para o próximo — de outra forma. Paulo que reapresentou o Evangelho novamente aos Gálatas, relembra esses irmãos, que o Evangelho trata e nos ensina a lidar com pessoas reais, com falhas reais e em situações reais.
Pessoas falham!
Pessoas falham!
E a primeira coisa que Paulo deixa muito clara é esta: pessoas falham.
Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais, deverão restaurá-lo com mansidão...
Paulo não trata a queda como algo distante, improvável ou até mesmo raro. Ele parte da realidade de como a vida cristã realmente é vivida no dia a dia. A questão é que, muitas vezes, o ambiente religioso cria a ideia de que a falha é algo anormal, algo que não deveria acontecer entre nós. E, em partes, isso faz todo sentido. Afinal, o pecado, e qualquer tipo de pecado, é uma afronta a Deus.
No entanto, o que acontece em muitos desses ambientes, é a exigência da perfeição dos outros, sem levar em consideração que todos nós somos seres em construção contínua por Deus. Paulo não escreve como alguém surpreso com a possibilidade de cair. Ele escreve como alguém que entende a condição humana.Não é uma questão de passar pano para quem caiu ou errou, mas de entender que isso é algo que pode e vai acontecer em nosso meio.
Saber que em nosso meio, haverá pessoas que serão surpreendidas pelo pecado não é relativizar o erro. Afinal, essa expressão “se alguém for surpreendido em pecado” é muito importante para compreendermos isso. Paulo não está falando de alguém que desejou cair, nem de alguém que planejou a queda, e nem muito menos de alguém que arquitetou o erro com frieza. Ele está falando de alguém que foi surpreendido. Alguém que, por um instante, não foi vigilante. Alguém que se viu envolvido com algo que nunca imaginou enfrentar e contra o qual, muitas vezes, lutou.
O grande problema está em sermos insensíveis e não percebermos essa diferença entre as pessoas que estão ao nosso redor.
A religião exige uma aparência de perfeição. O Evangelho lida com a fragilidade humana como ela realmente é. E é por esse motivo que, diante de alguém surpreendido em pecado, Paulo não nos diz para afastar, expor ou descartar, mas nos instrui a restaurar essa pessoa com mansidão.
Restaurar é tratar a pessoa como alguém que ainda tem valor. O Evangelho não ignora o erro, mas também não reduz a pessoa ao erro. Ele trata o pecado com seriedade, sem tratar o pecador com desprezo. Para a cura das igrejas da Galácia, Paulo não apenas corrige a maneira como eles creem, mas também corrige a maneira como lidam com o pecado e com aqueles que fazem parte da família da fé.
Nós podemos falhar!
Nós podemos falhar!
Logo em seguida, depois de assumir a possibilidade de pessoas serem surpreendidas pelo pecado e de nos chamar à restauração, Paulo nos apresenta o motivo pelo qual devemos agir dessa maneira. Ele nos chama a olhar para nós mesmos.
...Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado.
Esse alerta de Paulo corrige uma postura muito comum no ambiente religioso: a ideia de que o erro do outro torna essa pessoa inferior, uma pessoa de segunda classe. E, pelo fato de eu não ter cometido o mesmo erro, então eu sou alguém melhor.
Facilmente, quando alguém cai, surge em nossa mente o pensamento de que: “isso nunca aconteceria comigo”, “eu não seria capaz de fazer isso”. Paulo escreve exatamente para confrontar esse tipo de orgulho espiritual que, por muitas vezes, nós temos.
Quando ele diz “cuide-se, porém, cada um”, ele está nos lembrando que ninguém está em uma posição tão elevada que não possa cair. Para falar a verdade, se acreditamos que estamos em uma posição tão elevada, esse é um dos principais motivos que pode nos levar à queda.
Paulo não está nos ensinando que devemos restaurar o outro porque somos melhores, mais maduros ou mais capacitados, mas sim porque nós também somos suscetíveis ao erro. É belo o fato de que o mesmo texto que nos chama à restauração do outro, também nos chama à vigilância do nosso coração.
Dentro da comunidade dos discípulos de Jesus, não somos chamados a desconfiar do nosso próximo, mas sim a termos uma consciência humilde sobre nós mesmos. Eu não ajudo porque eu estou acima de alguém, mas porque eu estou no mesmo caminho. Eu não estendo a mão porque sou melhor do que a outra pessoa, mas eu estendo a mão porque um dia pode ser eu que tropece.
Se Envolva!
Se Envolva!
E então, finalizando a primeira parte do seu argumento, Paulo torna ainda mais concreta essa nova forma de relacionamento que o Evangelho produz.Ele deixa claro que trabalhar na restauração de alguém não é apenas corrigir com palavras, nem ter um discurso bonito sobre a graça de Deus, mas é se envolver. E por esse motivo ele escreve:
Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo.
O que o apóstolo está dizendo é que o Evangelho cria uma comunidade onde as pessoas não apenas falam sobre amor, mas estão dispostas e disponíveis a carregar juntas os fardos uns dos outros. Isso é se aproximar da dor do outro, é entrar na dificuldade do outro, é não tratar o sofrimento alheio como algo distante.
Novamente aqui, nós vemos a diferença entre a lógica da religiosidade e a lógica do Evangelho. A religião costuma dizer: “isso é problema seu”. O Evangelho diz: “nós precisamos caminhar juntos. Eu posso te ajudar!”.
É claro que o texto não está nos ensinando que devemos assumir responsabilidades que não são nossas. A verdade é que ele está deixando claro que existem momentos em que todos nós carregamos um peso grande demais para estarmos sozinhos.
Trocamos os nossos fardos com o fardo de Jesus, mas ainda assim, seguindo o exemplo do mestre, devemos estar atentos às necessidades dos nossos irmãos. Ninguém pode negar que existem dores que paralisam pessoas, existem processos que, se não forem compartilhados, acabam nos esmagando, nos destruindo.
Se alguém/você não deseja se envolver com a dor do outro, se alguém/você não quer se aproximar da dificuldade do outro, se alguém/você prefere manter distância do problema do outro, essa pessoa/você está no lugar errado e, principalmente, está servindo ao deus errado.
O Evangelho de Cristo Jesus não fala sobre distância, mas sobre aproximação. Não fala sobre observar enquanto alguém se afunda na própria lama, mas sobre ir ao encontro de quem precisa de nós. A imagem que precisamos ter em mente é de um campo de guerra. Cristo não espera que façamos isso quando tudo está perfeito em nossas vidas, mas sim, enquanto estamos em meio a batalha. Isso é cumprir a lei de Cristo, como Paulo afirma.
Seja Humano!
Seja Humano!
Compreender que as pessoas erram, trabalhar na restauração delas, ter a consciência de que nós também podemos errar e que devemos estar envolvidos com a dor do nosso próximo, são coisas que estão de acordo com algo que Deus falou comigo no final do ano passado.
Depois de enfrentarmos um ano desafiador, a minha oração foi a respeito daquilo que Deus tinha reservado para nós nesse novo ano. Nisso, Deus me deu três palavras de ordem, palavras que funcionam como placas de trânsito que nos apontam a direção correta para esse ano e para toda nossa vida com Cristo.
E a primeira palavra de ordem, que resume tudo que ouvimos hoje, foi: Seja humano! Sim, Seja Humano!
A humanidade restaurada em Cristo
A humanidade restaurada em Cristo
O pecado não apenas nos afastou de Deus. O pecado também nos afastou de quem nós deveríamos ser. Deus nos criou à sua imagem e semelhança (Gn 01.26). Fomos criados para refletir algo do seu caráter, da sua bondade e do seu cuidado. O que o pecado fez não foi apenas nos tornar culpados diante de Deus, mas nos deformar a ponto de não vivermos mais de acordo como fomos criados pelo Criador.
Quando Paulo descreve as consequências do pecado em Romanos 01, a imagem que surge não é apenas de pessoas distantes de Deus, mas de pessoas profundamente desfiguradas. Ali vemos gente entregue às suas paixões, aos seus desejos, aos seus impulsos. Pessoas que passam a viver guiadas pelos seus instintos, pelos seus sentimentos ou pela vontade do momento.Paulo diz que, por desprezarem o conhecimento de Deus, essas pessoas foram entregues a uma disposição mental reprovável (Rm 01.28). É como se o ser humano fosse perdendo aquilo o torna verdadeiramente humano.
E, se nós olharmos para o mundo ao nosso redor, para as notícias que nos cercam, perceberemos como, muitas vezes, as pessoas passam a agir não como pessoas, mas como alguém dominado apenas por impulsos, pelos desejos. Em outras palavras, pessoas que mais se parecem com animais do que com gente.
Talvez seja por isso que, ao assistirmos a esses documentários sobre a vida na selva, ficamos surpresos com a forma como os animais possuem atitudes de seres humanos. Mas, na realidade, o fato não é que a natureza imita a humanidade, mas que o homem, hoje, se assemelha muito mais a um animal do que a uma pessoa de verdade.
O sacrifício de Jesus não apenas nos garante perdão e restaura nossa comunhão com Deus, ele também resgata a nossa verdadeira humanidade. Paulo afirma, em 1 Coríntios 15, que o primeiro homem, Adão, se tornou um ser vivente, mas o último Adão, que é Cristo Jesus, tornou-se espírito vivificante (1Co 15.45). Em outras palavras, se em Adão vemos a humanidade deformada pelo pecado, em Cristo nós vemos a humanidade vivificada por Deus, como Deus sempre planejou.
Jesus não é apenas o nosso Salvador, ele é o verdadeiro homem, ele é o homem perfeito. Nele nós vemos o que significa viver plenamente como humano. Cristo Jesus nos resgatou em seu sacrifício não apenas para nos salvar do inferno e da ira eterna de Deus, mas para nos devolver aquilo que o pecado tentou roubar: a nossa humanidade.
Essa semana eu pude celebrar um casamento e, no momento da festa, no discurso da noiva, ela passou a agradecer os convidados e, de forma bem sincera, contou um pouco da história deles. Disse que tudo o que estava vivendo naquele dia foi fruto de muito esforço e que houve momentos em que eles tiveram até que vender trufas para conseguir pagar todo o casamento. Então ela disse algo que me marcou. Ela virou para os convidados e disse: “—aproveitem o dia de hoje, porque é por vocês que nós fizemos isso e porque isso também é o nosso sonho”.
Muitas vezes, nós vivemos de forma tão automática, tão centrada em nós mesmos, que não somos capazes de considerar o esforço do outro, o sonho do outro, o sentimento do outro. Olhamos para o nosso próprio conforto. Aceitamos apenas a nossa própria opinião e aquilo que é mais fácil para nós.
Essa é a deformação que o pecado nos trouxe. Não conseguimos olhar para o outro e enxergar o que é importante para ele. Não conseguimos honrar quando algo custa muito para alguém.
A verdade é que se preocupar com o outro, trabalhar na restauração de quem caiu, ter uma visão correta de si mesmo e até mesmo levar os fardos pesados das outras pessoas não são atitudes que nascem naturalmente em nós.Tudo isso é fruto da redenção. É exatamente isso que Cristo faz quando nos alcança. Ele nos tira do lugar em que nós só enxergamos a nós mesmos e nos devolve a capacidade de enxergar o outro.
Por isso, quando eu digo “Seja Humano!”, eu não estou falando de educação, de gentileza ou de boas maneiras. Eu falo de viver a vida a partir da obra de Cristo, com uma humanidade restaurada, capaz de amar, de considerar, de respeitar e de tratar as pessoas como Cristo fez.
A primeira mensagem deste ano é exatamente um alinhamento àquilo que Deus espera dos seus filhos e que também podemos ver como exemplo na pessoa de Cristo Jesus. Seja Humano!
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém.
Sermão exposto no dia: 11 de janeiro de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (Mandaqui-Noite)
Por Alex Carvalho
Soli Deo Gloria
