Seja Espiritual
Direção: Comece o ano bem e tenha um ano bom • Sermon • Submitted • Presented
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Transcript
Texto base:
Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais, deverão restaurá-lo com mansidão. Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado. Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo. Se alguém se considera alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Cada um examine os próprios atos, e então poderá orgulhar-se de si mesmo, sem se comparar com ninguém, pois cada um deverá levar a própria carga. O que está sendo instruído na palavra partilhe todas as coisas boas com aquele que o instrui. Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá. Quem semeia para a sua carne, da carne colherá destruição; mas quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna. E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos. Portanto, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, especialmente aos da família da fé.
Enfim, o terceiro alerta
Enfim, o terceiro alerta
“Seja Humano!” e “Seja Responsável!” são os dois primeiros alertas dessa nossa minissérie de mensagens. E essas duas realidades, se formos sinceros, podem ser encontradas em muitas pessoas que nem estiverem conosco nos últimos domingos.
Existem pessoas que não são cristãs, que nunca ouviram as pregações dessa série, que talvez nunca tenham aberto a Bíblia, e ainda assim demonstram mais empatia, mais cuidado e mais responsabilidade do que muitos que se dizem cristãos.
A verdade é que podemos nos tornar mais educados, mais conscientes, mais funcionais dentro da sociedade, sem nunca termos sido realmente confrontados pelo evangelho. E isso nos obriga a fazer uma pergunta honesta: “o que, então, nos diferencia? O que torna nós, que somos cristãos, diferentes das pessoas que estão aí fora?”
Porque empatia, cuidado e responsabilidade não são exclusividades da fé cristã. Por esse motivo que Deus não está apenas nos alertando: “Seja Humano!” ou “Seja Responsável!”. Existe um terceiro e último alerta nessa série, que complementa o aviso de Deus que é “Seja Espiritual!”.
Agora, quando falamos em espiritualidade, muita gente imagina alguém mais emotivo, mais intenso, mais religioso. Outros até chegam a pensar em alguém que fala mais sobre Deus, alguém que ora alto, que demonstra fervor, que manifesta diversos dons ou que exerce diversos ministérios.
Talvez muitas dessas coisas possam fazer parte do que é ser espiritual. No entanto, a definição que a Bíblia nos dá de alguém espiritual pode ser um pouco diferente do que nós hoje imaginamos.
E, para compreendermos do jeito certo, não existe outra pessoa melhor do que Paulo para nos explicar. Afinal, é ele o escritor bíblico que, não somente em Gálatas, mas em outras cartas, se dirige mais vezes àqueles que são espirituais.
Nem todos
Nem todos
Resumidamente, Paulo não define espiritualidade pelos dons, nem muito menos por alguma expressão de linguagem, pelas roupas de uma pessoa ou pela intensidade com que alguém demonstra as suas emoções em um período de culto.Mesmo sendo óbvia demais, a primeira coisa que Paulo nos mostra é que nem todos são espirituais. O apóstolo começa escrevendo:
Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais, deverão restaurá-lo...
Devemos lembrar que Paulo escreve essa carta para uma igreja. Paulo não escreve a qualquer tipo de pessoa, mas para os seus irmãos em Cristo. Ainda assim, ele não diz “todos vocês”, ele diz “vocês que são espirituais”.Isso deixa nas entrelinhas o que nem sempre gostamos de admitir: que nem todos que estão na igreja são espirituais — isso de acordo com a definição que a Bíblia nos dá do que é ser espiritual.
Frequentar cultos, participar de atividades dentro da igreja, falar sobre Deus, não faz alguém ser espiritual. A espiritualidade bíblica não é definida pelo ambiente em que a pessoa está inserida — embora o “estar reunidos” cumpre um papel importante dentro da nossa espiritualidade. A espiritualidade bíblica é definida pelo nível de maturidade que o cristão vive.
Por exemplo, em 1 Coríntios, Paulo afirma que não conseguiu tratar alguns irmãos como espirituais, mas sim como carnais. Não porque eles não fossem convertidos, mas porque viviam de forma imatura, como crianças.
Em outras palavras, ser espiritual não é algo automático para todos que se dizem cristão. Ser espiritual, de acordo com a Palavra de Deus, está diretamente ligado a crescimento, discernimento e maturidade.
De Deus não se zomba
De Deus não se zomba
Então, depois de deixar claro que nem todos são espirituais, Paulo avança no texto:
Não se deixem enganar: de Deus não se zomba...
Eu confesso que esse versículo sempre me pareceu como se Paulo estivesse fazendo um alerta solto, desconectado. Mas, na verdade, acontece exatamente o oposto.
Sabemos que o texto começa com alguém que foi surpreendido em pecado.Desde o início, Paulo faz algo curioso. Ele rapidamente tira o foco de quem caiu e coloca o foco em quem está de pé. Logo de início, ele chama aqueles que são espirituais — sabendo, como já vimos, que nem todos são —, para restaurar o irmão que caiu com mansidão.
A partir daí, Paulo gasta muito mais tempo tratando do coração de quem ajuda do que da situação de quem caiu. Em primeiro lugar ele alerta sobre o risco do autoengano, do perigo de olharmos para quem falhou e nos acharmos melhores, mais fortes e capazes. O próximo passo do Apóstolo, é uma convocação ao autoexame e por fim um lembrete de que todos nós temos responsabilidades que são intransferíveis.
É exatamente nesse ponto que o v.07 entra. Quando Paulo diz “não se deixe enganar”, ele retoma o tema que já vimos no domingo passado: o autoengano. Só que agora ele aprofunda muito mais isso.
Vivemos hoje em uma época de performance. Vivemos dias em que as pessoas não precisam ser, elas apenas precisam parecer que são. A maneira como nos apresentamos e como atuamos diante das pessoas fala muito mais e convence muito mais do que a maneira como nós verdadeiramente somos. Os filmes, as séries, as redes sociais, o mercado de trabalho e tudo mais nos ensinam a ser assim.
Passamos a nos importar com o tipo de corte do nosso cabelo, com a roupa que nós vestimos, com o jeito que nós falamos, não porque isso comunica de alguma forma quem somos, mas porque isso convence as outras pessoas a acreditarem na mentira que nós contamos para nós mesmos.
Por esse motivo, que diante da farsa do autoengano, Paulo novamente nos alerta para que não caiamos nesse grande erro. E, dessa vez, o alerta é muito mais grave. Afinal, a questão agora não é sobre nós mesmos, mas sobre Deus.
Hoje, muitos vivem uma espiritualidade de fachada, uma espiritualidade de discurso, uma espiritualidade que é construída apenas para ser vista pelos outros, como se Deus não pudesse enxergar a verdade. Muitos imaginam que Deus se impressiona com as nossas belas palavras, com a sua aparência ou até mesmo com o seu envolvimento com aquilo que se diz obra de Deus. E, diante desse tipo de atitude, Paulo acaba chamando isso pelo nome certo: zombaria. Não no sentido de piada, mas no sentido de tratar Deus como alguém que pode ser enganado.
A definição que a Palavra de Deus nos dá sobre ser espiritualnão é uma encenação, não é aquilo que nós mostramos quando estamos entre irmãos. A espiritualidade bíblica é vivida, sim, diante dos homens, mas principalmente diante de Deus. E Ele vê todas as coisas. E Ele conhece a tudo.
Espiritualidade “chão de fábrica”
Espiritualidade “chão de fábrica”
Até aqui, o texto bíblico nos ensinou duas coisas claras: A primeira é que nem todos são espirituais. E a segunda é que a verdadeira espiritualidade não é vivida por aparências, para impressionar pessoas, mas é vivida diante de Deus, diante daquele de quem ninguém pode zombar.
No entanto, não paramos por aqui. Para encerrar o seu apontamento, Paulo fala de algo que vai na contramão do que muitas pessoas hoje pensam ser espiritualidade.
Um dos grandes equívocos do nosso tempo é imaginar que ser espiritual é algo relacionado: ou àquela pessoa que ora em línguas, que parece sentir Deus mais do que os outros, que constantemente procura demonstrar isso para todos, procura falar para todo mundo que está jejuando, que posiciona a câmera para filmar ou tirar foto enquanto orando e que, por vezes, faz muito barulho, mas não produz efeito algum. Ou àquela pessoa que, por parecer pura demais e santa demais, está desconectada do resto do mundo. Esse é aquele tipo de pessoa que acredita que tudo o que se vê e tudo o que se pode tocar deste lado da eternidade é do diabo.
Para o primeiro tipo de pessoa, o nosso texto não trata diretamente, até porque isso é uma aberração dos nossos dias. Afinal, esse primeiro tipo de pessoa é alguém que, assim como vemos nas notícias e nas redes sociais, não tem problemas em expor a sua intimidade para que todos vejam e conheçam.
Da mesma maneira que mulheres e homens expõem os seus corpos na internet para que todos vejam, ao invés de se preservarem para a intimidade do casamento, existem aqueles que, seguindo os padrões deste mundo, também demonstram aquilo que deveria fazer parte da sua intimidade com Deus.
Para esse tipo de atitude, saber que de Deus não se zomba já seria suficiente. No entanto, também podemos ver o próprio Jesus tratando a respeito disso no Evangelho de Mateus, em seu Sermão do Monte.
Agora, aqui em Gálatas 06 Paulo trata a respeito do segundo tipo de pessoa. Aquele tipo de pessoa que por ser tão “espiritual” acredita que deve estar longe da vida, que tudo se resolve apenas na oração e está em um nível superior do que todos nós.
Para Paulo, ser espiritual não é ser neutro. A Palavra de Deus nos ensina que ninguém pode ser espiritual em “tese”. Ou essa espiritualidade é manifesta em ações e produz algo bom, ou o fato de haver nenhum tipo de ação, acaba produzindo algo ruim.
...Pois o que o homem semear, isso também colherá. Quem semeia para a sua carne, da carne colherá destruição; mas quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna.
Nesse instante, deve nos surgir uma pergunta: “Por que Paulo, que está falando àqueles que são espirituais no v.01, agora trata sobre o princípio bíblico da semeadura em seu argumento?” “Por que Paulo, que inicia esse capítulo convocando alguns irmãos à restauração do outro, agora fala sobre o que o homem planta e sobre aquilo que ele colhe?”
Textos como esse alinham o nosso entendimento e o nosso coração para aquilo que a Palavra de Deus nos mostra que é o correto. Tanto o trabalhar na restauração de quem caiu como o ato de semear e colher são coisas que estão no campo da ação.
É por esse motivo que Paulo encerra o início desse capítulo nos convocando a fazermos o bem (v.09;10). Paulo nos chama a perseverarmos e a não desanimarmos, não de braços cruzados e nem muito menos tendo uma postura de crente desassociado da vida, mas sim agindo.
Para Deus, ser espiritual não é apenas alguém que ora muito, lê muito a Bíblia e fala muito sobre Ele. Ser espiritual, é fazer tudo isso somado à ação.
Lembremos de uma parábola que o nosso Senhor conta (Lc 10.25-37):Um viajante seguia o seu caminho, um caminho perigoso, e é surpreendido por ladrões que, não contentes em tomar aquilo que pertencia àquele homem, também o agrediram e o deixaram no caminho para morrer.
Jesus conta que nessa parábola aquele homem, talvez agonizando em dor, finalmente encontra alguém vindo em sua direção: um sacerdote, alguém que tinha suas responsabilidades no templo, alguém que cuidava dos sacrifícios, alguém que era o exemplo de uma pessoa próxima de Deus. No entanto, o sacerdote age como se a vida daquele homem não valesse nada e continua o seu caminho.
Logo em seguida, aquele homem, quase à beira da morte, se encontra com um levita, alguém que também tinha responsabilidades no templo, alguém que não somente era responsável pela música, mas também pela organização, pelo cuidado e pela guarda do templo de Deus. No entanto, o levita também age como se aquele homem não fosse ninguém e continua o seu caminho.
É então que Jesus choca os seus primeiros ouvintes. A figura do samaritano, surgindo nessa parábola, produz o mesmo efeito como se Jesus falasse para alguém que diz ser de direita que o personagem aqui seria o Lula, ou se Jesus falasse para alguém que diz ser de esquerda que o personagem aqui seria o Bolsonaro.
A figura do samaritano produz exatamente esse desconforto para quem ouvia pela primeira vez. Era algo impensável. Mas ele foi o único disposto que parou o que estava fazendo, socorreu aquele homem e cuidou das suas feridas.
Jesus conta essa parábola como resposta a alguém que perguntou: “quem é o meu próximo?” (Lc10.29). Mas é interessante olhar para essa história e perceber que quem demonstra estar mais perto da espiritualidade que a Bíblia define não é o sacerdote, nem muito menos o levita, que desfrutavam de um status religioso da época, mas sim alguém que ninguém esperaria nada.
Enfim, o fim
Enfim, o fim
Ao longo dessas três semanas, Deus nos deu três alertas simples, mas profundamente exigentes: “Seja Humano!”, “Seja Responsável” e “Seja Espiritual!”. Esses alertas são um chamado de Deus para estarmos alinhados com o seu coração.
Normalmente, quando um ano começa, nós chegamos diante de Deus com uma lista de pedidos. Queremos um emprego melhor, um salário maior, uma porta aberta, uma cura, a conversão de alguém da família, uma mudança de cenário. E não há nada de errado em olhar para essas coisas. A Bíblia nos encoraja a pedir. O problema é quando achamos que a obra de Deus começa do lado de fora, enquanto Ele está interessado, antes de tudo, em trabalhar do lado de dentro.
Muitas vezes, nós oramos para que Deus mude situações, enquanto Ele está nos chamando a mudar postura. Nós estamos pedindo para que Ele faça algo novo, enquanto estamos ignorando o que Ele já nos pediu.
Seja humano, seja responsável e seja espiritual. Esses três alertas são um chamado de Deus para vivermos de um jeito que agrade o seu coração. Isso não é uma forma que barganhar com Deus. É verdade que a graça nos salva e nós não fazemos por onde. Não podemos comprar Deus sendo bonzinhos ou fazendo a coisa certa. Mas a graça que nos salva também nos chama a viver uma vida que reflita o fato de termos sido salvos.
Eu tenho aprendido, ao longo da vida com Deus, que sempre quando eu procuro agradar o seu coração — não por interesse, não por troca, mas por obediência —, eu vejo Deus agindo em áreas que, por muito tempo, eu tentei resolver sozinho e nunca consegui.
“Ser humano” nos ensina a olhar para o outro, a ver que nós não somos o centro do mundo e que existem pessoas que precisam da nossa ajuda. “Ser Responsável” nos ensina a olhar para nós mesmos, não com uma atitude orgulhosa, mas com uma atitude sincera, e a ver que temos as nossas limitações e que precisamos mudar e ser transformados em muitas coisas. “Ser Espiritual” nos ensina a viver tudo isso diante de Deus, da maneira como Ele assim espera.
Quando essas três coisas caminham juntas, a nossa fé, a nossa crença, deixa de ser apenas um discurso e passa a ser uma vida que faz sentido. Talvez a maior resposta para as nossas orações não comece com Deus mudando tudo ao nosso redor, mas com Ele mudando, primeiramente, quem nós somos aqui dentro.Isso deve estar em nossa mente no início deste ano e no decorrer de todos os dias.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém.
Sermão exposto no dia: 25 de janeiro de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (Mandaqui-Noite)
Por Alex Carvalho
Soli Deo Gloria
