Seja Responsável!
Direção: Comece o ano bem e tenha um ano bom • Sermon • Submitted • Presented
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Transcript
[Ao pregar na IVA Diadema optei por excluir a introdução (“Maturidade e Responsabilidade”) da série por não fazer sentido para as pessoas que não acompanharam tudo desde o início]
Texto base:
Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais, deverão restaurá-lo com mansidão. Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado. Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo. Se alguém se considera alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Cada um examine os próprios atos, e então poderá orgulhar-se de si mesmo, sem se comparar com ninguém, pois cada um deverá levar a própria carga. O que está sendo instruído na palavra partilhe todas as coisas boas com aquele que o instrui. Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá. Quem semeia para a sua carne, da carne colherá destruição; mas quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna. E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos. Portanto, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, especialmente aos da família da fé.
Maturidade e Responsabilidade
Maturidade e Responsabilidade
Ter em mente o sermão do último domingo ou fazer uma leitura superficial e apressada do nosso texto pode nos levar a pensar que Paulo está se contradizendo. Afinal, em poucos versículos, o apóstolo nos recomenda carregarmos os fardos pesados uns dos outros e, logo após, também afirma que cada um deve levar a sua própria carga. No entanto, longe de se contradizer, Paulo está conduzindo o seu argumento para um lugar muito bem definido.
Eu lembro que, quando era mais novo, todas as vezes que meu pai comprava um relógio ou algum eletrônico para a casa, sem que ele se desse conta, eu era o primeiro a retirar aquele plástico que protegia a tela, seja do relógio, do leitor de VHS ou do DVD. Naquela época, para mim, não fazia o menor sentido manter o plástico nas coisas, pois, afinal, elas foram feitas para não serem exibidas assim.
No entanto, meu pai sempre me repreendia. Falava de como aquele miserável plástico poderia proteger o objeto e que eu só fazia isso porque não era do meu bolso que saía o dinheiro para comprar aquele aparelho.
Hoje, com 32 anos, casado, pai de dois filhos dois filhos e trabalhando todas as semanas, eu não só procuro manter o plástico das coisas, como ainda compro película de vidro, película de cerâmica, película 3D e qualquer outra coisa que prometa proteger seja o celular, o painel do carro ou qualquer coisa de casa.
O tempo não apenas trouxe maturidade. O tempo trouxe responsabilidade. E é exatamente para esse lugar que Paulo está guiando o seu argumento nesse texto.
Contrariando aquilo que normalmente chama a nossa atenção quando algo assim acontece no ambiente da igreja, Paulo demonstra estar mais preocupado com aqueles que vão lidar com quem caiu do que com a própria pessoa que foi surpreendida pelo pecado. Em outras palavras, o problema central do texto não é quem caiu, mas quem está de pé e vai lidar com essa queda. E aqui Paulo nos apresenta o risco que todos nós corremos.
Não se autoengane!
Não se autoengane!
Paulo diz:
Se alguém se considera alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo.
O cenário é o seguinte: alguém foi surpreendido pelo pecado. Essa pessoa deve ser restaurada com mansidão por aqueles que são espirituais, porém, em meio ao processo de restauração, Paulo nos transmite um importante alerta.
Aqui não existe um inimigo externo evidente, nem um confronto imediato, nem muito menos algum alarme tocando. Paulo não fala de um erro visível, mas fala de algo muito mais perigoso, porque é algo interno. Paulo não fala sobre alguém que foi enganado, mas sobre alguém que é capaz de enganar a si mesmo.
O autoengano é um risco porque nos faz achar que estamos bem justamente quando deveríamos estar atentos. Aqui, em nosso texto, Paulo não se direciona à pessoa que caiu, mas àquele que é chamado para restaurar com mansidão quem vacilou os pés. Paulo fala com gente que se considera madura, gente que se vê como estável, firme, alguém que acredita estar em “outro nível” em sua caminhada com Deus.
Aquele que “se considera ser alguma coisa, não sendo nada”, é alguém que se acha apto a ajudar quem caiu, porque pensa que isso nunca pode acontecer consigo. Note que o perigo que Paulo nos aponta não está em lidar com o pecado do outro, mas em fazer isso achando que não corremos risco algum. No entanto, a verdade é que o maior risco não é você cair, mas é acreditar que você não pode cair.
Esse é o tipo de coisa que produz em nós uma ilusão de segurança espiritual. Quando isso acontece, acreditamos que o tempo de igreja elimina a vigilância, que a nossa experiência substitui o cuidado que deveríamos ter e que até mesmo o que fazemos para Deus imuniza o nosso coração. O autoengano não nos afasta da igreja e das “coisas de Deus”, mas nos afasta da verdade.
O autoengano nos convence de que certos alertas já não são mais para nós. De que certos cuidados são apenas para quem está começando. De que a pregação é para quem não veio ou quem não está mais entre nós.
O que esse texto nos ensina é que o orgulho não se manifesta apenas em palavras arrogantes ou em andar com o nariz em pé pelas ruas, mas também em um julgamento equivocado a nosso respeito. E como disse o pastor Hernandes Dias Lopes:
“Nada é mais contrário à santidade do que o orgulho.”
Como se proteger do autoengano?
Como se proteger do autoengano?
Por isso, depois de nos apresentar o risco, Paulo não nos deixa apenas com o alerta. Ele não expõe o problema e abandona o leitor. Ele avança no argumento e nos apresenta dois movimentos claros, duas medidas práticas que lidam diretamente com o risco do autoengano.
Olhe para os seus atos
Olhe para os seus atos
Cada um examine os próprios atos, e então poderá orgulhar-se de si mesmo, sem se comparar com ninguém,
O que esse texto nos ensina de maneira clara é que o autoengano só prospera onde o autoexame é negligenciado.Diante do risco de enganar a si mesmo, não somos convidados a olhar para fora, mas sim a olhar para dentro.
A verdade é que, se formos sinceros, a prática do autoexame não ocupa um lugar central na espiritualidade de muitos cristãos. Por vezes, lembramos de olhar para nós mesmos e julgar a nós mesmos apenas em momentos específicos, como no culto da ceia, por exemplo. No entanto, o nosso texto não sugere que isso deve ser algo feito ocasionalmente, mas sim, deveria ser uma prática diária, um verdadeiro hábito na vida de todo cristão.
“Examinar os próprios atos” nos protege de estarmos enganados a nosso próprio respeito, pois quando examinamos a nós mesmos, passamos a lidar com a vida real, e não com a vida como gostaríamos que fosse. Reconhecemos os nossos limites, sabemos das nossas fragilidades e temos ciência das áreas que ainda precisam ser cuidadas em nossas vidas.
“Examinar os próprios atos” nos protege do orgulho, pois quem olha para si e tem consciência da sua própria condição não se coloca acima dos outros. Não é uma questão de se rebaixar; não é uma questão de se diminuir, mas de estar no lugar certo.
“Examinar os próprios atos” nos protege da comparação. Mesmo que algumas pessoas tentem negar, a verdade é que a comparação é uma das estratégias mais comuns para fugir do confronto pessoal. Afinal, enquanto eu me comparo com alguém, acabo aliviando a minha própria consciência. Enquanto eu olho para o outro, deixo de olhar para mim mesmo. O “Examinar os próprios atos”, rompe com essa lógica porque muda a referência. Aquele que caiu deixa de ser o nosso parâmetro, e a nossa própria vida se torna o alvo de observação.
Esse tipo de hábito espiritual não é um exercício de culpa, mas de lucidez. Não é uma atitude de se menosprezar ou de se diminuir, mas uma atitude sincera em primeiro lugar, diante daquele que nos conhece mais do que a nós mesmos e que não somos capazes de enganá-lo. Em segundo lugar,uma atitude correta diante do nosso próximo, e em terceiro lugar, uma atitude correta com a gente mesmo.
Cada um com seu cada qual
Cada um com seu cada qual
No entanto, contra o autoengano não basta apenas saber mais sobre si. Paulo não está interessado em trazer apenas uma nova consciência a nosso próprio respeito, mas também em demonstrar que independente do caminho que escolhemos teremos consequências. Lemos no v.05:
Cada um examine os próprios atos, e então poderá orgulhar-se de si mesmo, sem se comparar com ninguém, pois cada um deverá levar a própria carga.
O apóstolo Paulo, poucos versículos antes, disse que devemos carregar os fardos pesados uns dos outros. Agora, ele afirma que cada um deve levar a sua própria carga. Longe de ser uma contradição, esse tipo de situação em um texto bíblico não faz com que um texto anule o outro, mas sim que um complemente o outro, nos conduzindo a uma compreensão mais madura, real e equilibrada da vida cristã.
O que aprendemos aqui é que existem fardos que a comunidade da fé ajuda a carregar. No entanto, também existem responsabilidades que são intransferíveis.
Existem fardos que caminhamos juntos para carregar, mas há cargas que Deus nunca entregou a outra pessoa.
Paulo é simples, direto e impossível de ser mal compreendido. Cada um deverá levar a sua própria carga. Aqui não há exceções, não há substituições e não pode haver terceirização.
O “enganar a si mesmo” ocorre não somente quando a pessoa negligencia o autoexame, mas também quando terceiriza aquilo que Deus entregou de forma exclusiva a ela. Viver em comunhão é essencial. Ter um olhar e uma atitude mais humana para com os outros é algo que Deus espera de nós. Mas não podemos esquecer que a vida espiritual não pode ser vivida por procuração.
Trabalhando por um tempo em uma rádio evangélica, não foram apenas uma ou duas vezes que ouvi um pastor fazer o convite para que, se a pessoa não tivesse fé, comparecesse a determinada igreja, porque o pastor teria fé por ela.
Esse texto confronta uma mentalidade muito comum nas igrejas de hoje em dia. A mentalidade de que, por estarmos em um lugar onde se fala de amor, graça, cuidado e misericórdia, então podemos viver com menos vigilância.
Sabemos que temos irmãos que oram por nós, sabemos que o pastor se preocupa conosco de alguma maneira, sabemos que podemos pedir socorro caso precisemos e, por conta de tudo isso, acabamos vivendo uma vida com Cristo de forma irresponsável.
“Cada um deverá levar a própria carga”
Seja responsável!
Seja responsável!
No ano passado, o primeiro alerta que Deus me deu em oração, para alinhar o nosso coração à sua vontade para este ano, foi: seja humano. Deus falou comigo sobre a necessidade que nós temos de agir de forma mais parecida com Cristo. A necessidade de olharmos para o outro, de sermos misericordiosos, de demonstrarmos graça. Porém, o segundo alerta que Deus deseja nos dar é esse: seja responsável.
Existem coisas em nossas vidas que não cabe a outra pessoa a responsabilidade de cuidar e zelar. Existem situações que nós enfrentamos que não serão resolvidas pela ação de outra pessoa, senão por nós mesmos. Meu querido, entenda que ninguém vai fazer a oração que você deve fazer. Ninguém vai ler a Bíblia que você deve ler. Ninguém vai jejuar quando quem precisa é você.
Eu conversava com um irmão aqui da igreja, e ele contou o caso de uma pessoa que conheceu, que deixou de ir à igreja e percebeu que ninguém mandou mensagem. Foi então que decidiu postar uma foto consumindo bebida alcoólica, porque sabia que, se fizesse isso, alguém notaria e alguém finalmente mandaria uma mensagem perguntando o que estava acontecendo.
Esse tipo de situação demonstra não somente uma carência que a pessoa espera ser suprida com uma mensagem do pastor ou de um membro da igreja, como também revela que muitas pessoas sabem exatamente aquilo que devem fazer e não fazem. E assim, terceirizaram a culpa e a sua responsabilidade.
Existem pessoas que vivem caçando conselhos, mesmo já sabendo exatamente o que precisam fazer. Procuram o pastor A, pedem oração para o pastor B e depois choram para o pastor C. Pessoas que pedem para colocar o nome em oração, que estão à procura de mais uma palavra profética, que, por mais uma vez, estão procurando uma direção de Deus, quando, na verdade, o problema não é falta de orientação ou até mesmo de oração das outras pessoas, mas resistência em obedecer. O problema é a falta de disposição para mudar.
A verdade é que pessoas assim não percebem que, enquanto não houver arrependimento e decisão, nenhum conselho, nenhuma oração forte feita por um pastor ou apóstolo, nenhuma campanha e nenhum óleo ungido vão surtir qualquer efeito.
Talvez hoje Deus não esteja nos chamando a fazer algo novo. Talvez a questão não seja assumir uma nova direção, ter uma nova palavra sobre a sua vida, mas assumir com seriedade aquilo que já sabemos que precisamos fazer.
Talvez o que falte para a sua vida hoje não seja uma palavra profética. Talvez o que falte para a sua família não sejam sete encontros durante sete semanas. Talvez o que falte para o seu serviço fluir e prosperar não seja a bênção do pastor sobre a sua vida. Talvez o que falte para você seja assumir a responsabilidade.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém.
Sermão exposto no dia: 18 de janeiro de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (Mandaqui-Noite)
Por Alex Carvalho
Soli Deo Gloria
