A prisão da vingança
O Evangelho do Rei • Sermon • Submitted • Presented
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Texto base:
“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas.Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado.
Esse é o nosso desejo
Esse é o nosso desejo
Eu gosto bastante de assistir séries policiais, séries de investigação. E eu lembro de uma série que eu assisti e reassisti algumas vezes, chamada O Mentalista. Nessa série, o protagonista teve sua esposa e sua filha assassinadas e, a partir daquele momento, a vida inteira daquele homem gira em torno de uma única coisa: encontrar o culpado, um serial killer.
E durante seis temporadas inteiras, tudo naquela história se resumia a isso. Cada pista, cada caso, cada investigação, tudo estava relacionado ao desejo do protagonista em encontrar o assassino da sua família.
E eu lembro que, quando finalmente chegou o momento em que ele encontrou o assassino, a maneira como tudo aconteceu me frustrou. Porque, depois de tudo o que aquele homem sofreu, depois de toda a crueldade que o serial killer foi capaz de fazer com inúmeras pessoas, eu esperava mais raiva. Eu esperava, no mínimo, o mesmo grau de violência que, por vezes, o assassino teve com as suas vítimas. Porém, foi algo que acabou rápido demais.
A realidade é que todos nós, em algum nível, gostamos da ideia de vingança. Gostamos quando vemos alguém pagando pelo mal que fez. Rimos dos vídeos na internet em que ladrões acabam se dando mal depois de um roubo, ou de pessoas que são humilhadas depois de começarem alguma confusão.
Existe dentro de nós um sentimento quase automático de: “Fez mal, então merece sofrer também”. No entanto, o que nos move a esse sentimento muitas vezes não é um senso de justiça, como gostamos de acreditar, mas sim um desejo quase desumano e sanguinário por vingança. Afinal, tratando-se de nós mesmos, o nosso coração tem dificuldade de aceitar que alguém nos fira e saia impune.
O que Jesus trata nesse trecho do Sermão do Monte é algo que vai muito além da violência e de agressões. Nesse texto, Jesus trata de um tipo de escravidão em que, por vezes, o nosso coração se encontra.
Limite e não autorização
Limite e não autorização
Aqui vemos o mesmo movimento que Jesus vem fazendo desde o início do capítulo 5. Nos últimos textos, Jesus já mostrou que o problema nunca foi apenas o ato externo. O homicídio, o adultério, o abandono e a mentira não começam naquilo que é visível. Eles começam no coração. E, no texto dessa noite não é diferente.
Logo de início, Jesus como das outras vezes retorna para aquilo que encontramos no Antigo Testamento:
“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’.
Seja em Êxodo, Levítico ou Deuteronômio, encontramos esse princípio jurídico sendo apresentado e reforçado.Eu sei que gostamos de olhar para o passado e pensar que as coisas eram melhores. Mas, quando falamos sobre violência, vingança e injustiça, a verdade é que, em qualquer período da história, o coração humano continua sendo o mesmo.
O povo, recém-saído da escravidão no Egito, precisava de leis que organizassem a vida da nação e garantissem, minimamente, justiça entre as pessoas. E é nesse contexto que surge aquilo que conhecemos como a lei do “olho por olho e dente por dente”.
O problema é que normalmente nós (e as pessoas na época de Jesus) lemos e compreendemos essa lei da maneira errada. Porque a lei de talião não foi criada para incentivar a vingança, mas sim para limitar a violência.
Por exemplo: Se alguém arrancasse o olho de outro homem, a tendência natural não seria apenas arrancar o olho do agressor também. Seria destruir sua família inteira. Seria responder com crueldade ainda maior.Então, aquilo que Deus estabelece na Lei não é uma autorização para a vingança pessoal. É um limite para impedir que a violência se torne interminável.
No entanto, assim como muitas outras vezes, as pessoas conseguiram perverter aquilo que Deus havia falado. Nesse caso, o que foi criado para impedir o avanço da violência passou a alimentar ainda mais o desejo humano de revidar. E é nesse ponto da história que Jesus aparece, mudando toda a nossa perspectiva.
Um tipo certo de ofensa
Um tipo certo de ofensa
Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso...
O termo “perverso” aqui fala de alguém mal, alguém corrupto, alguém inclinado à maldade ou até mesmo à destruição. E é importante compreendermos corretamente aquilo que Jesus está ensinando.
Certamente, Jesus não está defendendo uma passividade absoluta diante do mal. Ele não está dizendo que alguém deve aceitar um perigo letal sem reagir, que uma pessoa não pode fazer um curso de autodefesa ou que ela não pode lutar por justiça.
Jesus não está proibindo o uso de tribunais ou advogados. Jesus também não está ensinando que uma mulher vítima de violência doméstica deve permanecer calada, ou que alguém que saiba de um abuso simplesmente não faça nada.
Precisamos lembrar que tudo aquilo que Jesus está ensinando no Sermão do Monte está conectado entre si. Ainda no início do capítulo 5, nas bem-aventuranças, Jesus falou sobre aqueles que seriam perseguidos, insultados e caluniados por desejarem viver a justiça de Deus aqui na terra (v.11). Ou seja, Jesus já deixou claro que essas coisas fariam parte da vida daqueles que agora vivem segundo o padrão do Reino de Deus.
Esse texto não é ensinar sobre covardia ou omissão diante da maldade do mundo. O ponto de Jesus é que existe um tipo de desafeto e ofensa que causa em nós uma certa reação que precisa ser observada e tratada. E isso fica ainda mais claro quando observamos os exemplos que Jesus apresenta logo em seguida.
Ofereça a outra
Ofereça a outra
O primeiro exemplo:
...Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.
Existe uma questão cultural importante nesse exemplo, pois, quando Jesus fala sobre atingir a face direita de outra pessoa, muito provavelmente Ele está se referindo a um tapa dado com as costas da mão. Nesse caso, não era apenas uma agressão física, mas sim uma humilhação pública. Esse gesto era uma maneira de diminuir alguém diante dos outros.
Por esse motivo, alguns comentaristas afirmam que, naquela época, muitas pessoas prefeririam uma chicotada a um tapa no rosto. A ideia aqui vai muito além da violência física. Jesus está falando sobre honra, sobre ego, sobre orgulho ferido.
Que levem a capa!
Que levem a capa!
O segundo exemplo:
E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa.
Esse é um daqueles textos que temos dificuldade de entender por que é algo muito distante do nosso dia a dia. Afinal, nós já não nos vestimos dessa maneira.
Naquela época, a túnica era uma veste simples, comum. Porém, a capa possuía um grande valor, principalmente para uma pessoa pobre. Em muitos casos, ela servia até mesmo como cobertor durante a noite.
Por esse motivo, encontramos na própria lei uma orientação de que, caso alguém tivesse uma dívida, a capa poderia até ser tomada como garantia. No entanto, ela precisava ser devolvida ao final do dia, para que a pessoa pudesse se cobrir durante a noite.
Mais uma vez, Jesus trabalha aqui com a ideia de abrir mão do direito pessoal, de abrir da necessidade constante de vencer toda disputa e de abrir mão de preservar a própria honra a qualquer custo.
Prepare-se para caminhar!
Prepare-se para caminhar!
O terceiro exemplo:
Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas.
Aqui, Jesus faz referência a uma lei romana que permitia aos soldados obrigarem civis a carregarem seus equipamentos por uma milha (o que equivale a aproximadamente mil e quatrocentos metros).
Lembremos que os judeus haviam sido dominados pelos romanos, e serem obrigados a abandonar aquilo que estavam fazendo para carregar os equipamentos dos seus opressores certamente era algo humilhante. Era um lembrete constante da opressão romana sobre o povo. Mais uma vez, Jesus está falando sobre honra, sobre ego e sobre orgulho ferido.
Não espere o retorno
Não espere o retorno
Por fim, o último exemplo:
Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado.
É óbvio que Jesus não está nos ensinando a ajudar as pessoas de maneira deliberada e sem discernimento algum. O pastor Martyn Lloyd-Jones diz que Jesus não nos encoraja a ajudar pessoas fraudulentas ou pedintes profissionais.
O que Jesus quer nos mostrar com esse último exemplo é que nós, sendo Seus discípulos, precisamos estar prontamente disponíveis a abrir mão daquilo que é nosso para ajudar o outro quando necessário. Ou seja, eu abro mão de algo que é meu por causa de outra pessoa.
Existe algo que une a tudo isso
Existe algo que une a tudo isso
Quando lemos esse texto, podemos pensar que todos esses exemplos são aleatórios. Porém, quando meditamos e compreendemos o que está por trás de cada um deles, percebemos que existe algo que une todos eles.
Jesus fala sobre situações extremamente pessoais. Situações que mexem com o nosso orgulho, com a nossa honra, com os nossos direitos e até mesmo com aquilo que nós possuímos. E, em todos esses exemplos, Jesus deseja nos ensinar sobre um tipo de escravidão: a escravidão que a vingança pode causar.
A prisão da vingança
A prisão da vingança
Difícil coisa é seguirmos em frente. Porque, quando somos feridos de verdade, feridos no nosso ego, feridos na nossa honra, existe algo dentro de nós que começa a desejar compensação. Queremos a oportunidade de revidar, de devolver.
Se formos sinceros, não é um simples sentimento de justiça. Se alguém faz algo contra nós, algo que nos machuca, queremos que a outra pessoa sinta a dor. Queremos que ela experimente o peso daquilo que causou na gente. Queremos que ela se arrependa, não porque agora teve consciência do que fez, mas porque está sofrendo, porque está sangrando.
Nos tornamos escravos da vingança porque, a partir do momento em que alguém faz algo contra a nossa vida, passamos a pensar nisso enquanto dirigimos, imaginamos discussões que nunca aconteceram, ensaiamos respostas mentalmente, sonhamos com situações em que finalmente teremos a oportunidade de devolver tudo aquilo que fizeram contra nós. E, na grande maioria dos casos, alimentamos tudo isso em silêncio.
Nos esforçamos para continuar vivendo normalmente. Trabalhamos, conversamos, vamos até a igreja, sorrimos, mas, por dentro, contamos os segundos para o momento em que desfrutaremos da “justa retribuição”.
Existem pessoas que não conseguem ouvir determinados nomes sem sentir algo ruim crescendo no peito. Pessoas que revivem conversas de dez anos atrás como se tivessem acontecido ontem. Pessoas que entram em determinados lugares imaginando reencontros e discussões do passado. Gente que não consegue ir a uma festa de família. Gente que abre a rede social esperando encontrar sinais de que a outra pessoa finalmente quebrou a cara.
Porque a vingança pode até parecer libertadora, mas ela é uma prisão. Ela nos prende ao momento em que tudo aconteceu. Nos prende ao desejo de devolver aquilo que fizeram contra nós. E, quanto mais alimentamos isso dentro do nosso coração, mais aquilo começa a dominar a maneira como pensamos, como sentimos e como reagimos.
A ferida pode ter acontecido uma vez, mas nós continuamos revivendo isso todos os dias. E, sem perceber, começamos a viver em função disso.
Quando alimentamos esse desejo, a ferida continua aberta dentro do nosso coração. Afinal, a vingança possui essa capacidade: a capacidade de manter viva a dor que deveríamos entregar diante de Deus.
Não podemos nos perder
Não podemos nos perder
Aquilo que Jesus está ensinando nesse texto passa justamente por algo que temos muita dificuldade em fazer, que é: abrir mão.
Abrir mão da necessidade de vencer toda discussão. Abrir mão da necessidade de restaurar o nosso orgulho pelos nossos próprios esforços. Abrir mão da necessidade de fazer o outro sofrer na mesma medida em que nós sofremos. Até porque, normalmente, interpretamos qualquer tipo de renúncia como derrota.
Porém, o discípulo de Cristo precisa compreender as coisas de uma maneira totalmente diferente. Devemos aprender que existem momentos em que nós precisamos perder para não nos perdermos.
Porque, na tentativa de defender a nossa honra, acabamos perdendo a nossa paz. Na tentativa de devolver a dor e o sofrimento, nos tornamos pessoas amargas e frias. Na tentativa de retribuir o mal, acabamos aprisionados àquilo que fizeram contra nós.
[IMAGEM DO CACHORRO NO TELÃO] — Um cachorro subia até o alto de um monte todos os dias, depois de passar o dia inteiro cuidando do rebanho de ovelhas. No entanto, todos os dias um corvo aparecia para provocá-lo e fazer chacota com ele. Um certo dia o cachorro resolveu revidar. Resolveu acabar de uma vez por todas com aquele corvo. O problema é que, na tentativa de atingir o corvo, ele não percebe que está pulando em direção ao abismo. O que a gente aprende com isso, é que existem pessoas tão determinadas a destruir quem as feriu que, no final, acabam destruindo a si mesmas.
A vingança pode até satisfazer o nosso ego por alguns instantes, mas ela não tem o poder de produzir paz. Ela não pode curar o nosso coração. Ela apenas prolonga a nossa dor e muitas vezes nos leva a destruição.
Aquilo que Jesus nos ensina é que o cidadão do Reino não pode viver dominado por esse sentimento de retribuição pecaminosa. O cidadão do Reino entende que nem toda afronta precisa ser respondida, nem toda humilhação precisa de revanche e nem toda ofensa exige compensação.
Muitos aqui ficariam surpresos ao descobrirem que existe uma liberdade que nasce quando deixamos de viver dominados pela necessidade constante de defender o nosso ego e a nós mesmos.
Cristo nos deu o maior exemplo disso:
Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens.
Jesus abriu mão da Sua glória, dos Seus direitos divinos, da Sua posição. E foi justamente através dessa aparente derrota que Deus realizou a maior vitória da história.
Talvez seja exatamente isso que nós precisamos aprender hoje aqui!Você pode perder a honra se alguém lhe der um tapa no rosto. Pode perder a capa. Pode perder tempo caminhando uma segunda milha. Pode abrir mão até de alguma coisa que é sua. Mas não pode se perder.
Não permita que a raiva domine você, que o orgulho governe o seu coração, que o desejo de compensação transforme você em alguém frio, amargo e preso à dor. Afinal de contas, a vingança promete devolver algo que perdemos, mas normalmente só tira ainda mais de nós mesmos.
Entregue ao Senhor Deus toda e qualquer situação que tem afligido o seu coração. Lembre-se de que temos um Deus que é o Juiz de toda a terra, como vemos em Gênesis 18.25. O justo Juiz, como lemos em Salmos 07.11. O Rei de justiça, de Hebreus 07.02.
O justo não precisa justificar a si mesmo. Ele tem um Deus que trabalha em sua defesa.
Que a ira não nos domine. Que o orgulho não nos governe. Que a dureza do nosso coração não transforme pessoas em descartáveis. Que a falsidade não nos roube e que a vingança não nos aprisione. Porque o Reino de Deus forma pessoas livres o suficiente para abrir mão do que é necessário sem perder o próprio coração.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 17 de maio de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (São Paulo-Noite)
Por Alex Amaral
Soli Deo Gloria
