Quem você está tentando impressionar?

O Evangelho do Rei  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Transcript
Texto base:
Matthew 6:1–8 NVI
“Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial. “Portanto, quando você der esmola, não anuncie isso com trombetas, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem honrados pelos outros. Eu lhes garanto que eles já receberam sua plena recompensa. Mas quando você der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que está fazendo a direita, de forma que você preste a sua ajuda em segredo. E seu Pai, que vê o que é feito em segredo, o recompensará. “E quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Eu lhes asseguro que eles já receberam sua plena recompensa. Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em secreto. Então seu Pai, que vê em secreto, o recompensará. E quando orarem, não fiquem sempre repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos. Não sejam iguais a eles, porque o seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem.
Matthew 6:16–18 NVI
“Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a fim de que os outros vejam que eles estão jejuando. Eu lhes digo verdadeiramente que eles já receberam sua plena recompensa. Ao jejuar, arrume o cabelo e lave o rosto,para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê em secreto. E seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.

Exemplo de incoerência

Eu lembro que, quando mais novo, uma das coisas mais legais nos finais de semana era combinar com alguns amigos para passar o domingo inteiro na igreja. Afinal, onde a gente congregava, o culto de domingo era de manhã, à tarde e à noite. E, nessa, a gente acabava ajudando o pessoal no louvor nos três horários.
Porém, era entre um culto e outro que a gente aproveitava e se divertia. E, em um determinado domingo, eu lembro de uma conversa que aconteceu no intervalo desses cultos que me chocou de uma forma a ponto de eu não conseguir esquecer.
Naquela igreja, havia um irmão que era bem fervoroso e bem conhecido na igreja. E era uma daquelas pessoas que todo mundo respeitava. Quando ele chegava, as pessoas até temerosas (sem falar nas reuniões de obreiros quando ele pedia a palavra). No mais, ele era visto como uma pessoa muito espiritual.
Tanto que, antes de começarmos o culto, sempre nos reuníamos para orar. E, naquela época, o pastor nos obrigava a orar por 30 minutos antes de todas as reuniões. E, em todas as vezes que esse irmão estava, por mais que todos estivessem orando, apenas a voz dele era possível de ouvir. No fim, ele era reconhecido exatamente por isso: pela sua intensidade, pela sua devoção, pela imagem de um homem de Deus que ele carregava.
Porém, em um daqueles domingos que estávamos entre os jovens da igreja, entre um culto e outro, alguém começou a tirar barato do filho desse irmão, dizendo que ele estava ficando cada vez mais parecido com o pai. Foi então que ele olhou para a gente e disse: "—Deus que me livre, eu não quero ficar igual ao meu pai. Vocês dizem isso porque não conhecem ele em casa". Na mesma hora, o ambiente pesou e ficou aquele climão. Querendo ou não, para a igreja aquele irmão era um exemplo de espiritualidade, mas para aquele filho, o pai era um exemplo de incoerência.
Olhando para esse trecho do sermão do monte, é impressionante como Jesus fala de algo tão atual e urgente para os nossos dias. E ao longo desse texto, eu acredito que existem algumas verdades que precisam ser compreendidas e fazer parte das nossas vidas.

A coisa certa e o motivo errado

A primeira dessas verdades é que é possível fazer a coisa certa pelo motivo errado.Logo no início, Jesus diz:
Mateus 06.01a
Matthew 6:1 NVI
“Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos por eles...
É interessante lembrar que, há alguns versículos, em Mateus 05.20, Jesus afirmou que a justiça dos seus discípulos precisava exceder em muito a dos fariseus e dos mestres da lei. E, a partir daquele momento, ele começou a mostrar como a verdadeira justiça não era apenas uma questão de comportamento externo. O problema nunca foi apenas matar, adulterar, mentir ou buscar vingança. O problema sempre esteve no coração do ser humano.
Agora, ao chegar ao capítulo 6, Jesus, surpreendentemente, continua tratando exatamente da mesma questão. A diferença é que, antes, ele nos falou sobre pecados que normalmente associamos à maldade e à crueldade do homem. Porém, agora, ele passa a falar sobre coisas que normalmente associamos à espiritualidade, a atitudes que vemos e esperamos de pessoas que se dizem participantes do Reino de Deus.
Aqui, Jesus não está corrigindo ladrões, assassinos ou adúlteros. Jesus está falando sobre pessoas que ajudam os necessitados, gente que ora, pessoas que jejuam.
Principalmente aqui fica claro que o foco de Jesus no Sermão do Monte não é falar sobre aqueles que estão longe de Deus, sobre aqueles que abandonaram a fé ou sobre os inimigos do Reino. Jesus fala sobre aqueles que estão perto, aqueles que frequentam o ambiente religioso, sobre aqueles que demonstram uma postura altamente espiritual.
Porém, seria o problema ajudar alguém que está passando necessidade? Ou será que Jesus enxerga algum problema em dedicar tempo à oração? Quem sabe, será que Jesus está problematizando o jejum? Por certo não.
Afinal, é o próprio Mestre que pressupõe que os seus discípulos farão essas coisas. É importante percebermos nesse texto que Jesus não diz:"se vocês derem esmolas", mas sim: "quando vocês derem esmolas". Ele não diz: "se vocês orarem", ele diz: "quando vocês orarem". Ele não diz: "se vocês jejuarem", mas sim: "quando jejuarem".
Em outras palavras, Jesus espera que os cidadãos do Reino pratiquem essas coisas. Jesus espera que os seus discípulos sejam generosos, sejam pessoas de oração, gente que compreende e se dedica ao jejum. Logo, o problema, portanto, não está apenas naquilo que nós fazemos. O problema está principalmente no motivo pelo qual nós estamos fazendo.
Lembre-se: é possível fazer aquilo que é certo e, mesmo assim, estar errado. É possível sustentar uma imagem de alguém admirável aos olhos das pessoas e, mesmo assim, ser odioso aos olhos de Deus.
Por esse motivo, Jesus usa a palavra "hipócritas" nesses três exemplos. E, mesmo que estejamos familiarizados com o significado dessa palavra, o termo que Jesus usa nesse contexto era o mesmo usado para denominar os atores que utilizavam máscaras para representar um personagem diante de um público, numa peça teatral da época.
Segundo Jesus, existem aqueles que usam da espiritualidade e da religião para encenar algo que não é verdadeiro. São pessoas que externamente parecem buscar a Deus, mas não estão preocupadas em agradar a Deus. Gente preocupada em construir um tipo de imagem diante das pessoas, sem se importar com aquele que nos vê de verdade.
Os três exemplos apresentados por Jesus nos falam sobre isso:alguém que dá esmolas aos necessitados para ser honrado pelos homens; alguém que ora em pé e em alta voz nas sinagogas e nas esquinas para ser visto pelos homens; e alguém que faz uma cara de coitado enquanto jejua para que as pessoas saibam disso.
Sabe, existe algo dentro de nós que gosta do reconhecimento. Afinal, quem não gosta de ouvir um bom elogio? Quem não gosta de ser valorizado por algo que fez? Quem não se sente feliz quando é reconhecido pelo seu esforço, pelo seu trabalho ou pela sua dedicação a Deus?
De verdade, é muito bom quando alguém nos diz que fomos usados por Deus. É gratificante quando alguém percebe o nosso esforço. Se formos honestos, assumiremos facilmente que é importante para nós quando recebemos um elogio depois de servir ou ajudar alguém. O erro não está nisso.
O grande erro começa quando deixamos de fazer as coisas pela motivação correta, que é agradar a Deus, que é por causa do amor que temos a Ele e que é para manifestar a sua glória ao mundo, e passamos a fazer essas coisas pelo reconhecimento que elas podem produzir.Em outras palavras, o problema não é o reconhecimento, mas sim fazer as coisas pelo reconhecimento.
Esse é um tipo de pecado difícil de perceber. Afinal, ele consegue se vestir de espiritualidade. É um pecado que escolhe a melhor roupa, que se esconde atrás de uma linguagem de igreja e que consegue cantar, orar e servir aos irmãos.
Esse é o tipo de pecado que acontece diante de todos e do qual dificilmente alguém acaba se escandalizando. Afinal, é algo altamente camuflado. E é exatamente por isso que Jesus chama a nossa atenção e diz: “Tenham o cuidado...” (V.01).

Aquilo que Deus valoriza

A segunda verdade que encontramos nesse texto é que Deus se interessa com aquilo que acontece no secreto.
Na sexta-feira, uma das coisas que aprendemos é que, sempre que encontramos no texto bíblico a repetição de uma ideia ou de uma palavra, isso é algo que o autor bíblico deseja destacar. Nesse caso, é o próprio Jesus que repete conscientemente: “Seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.” (v. 04;06;18).
A parte mais importante das nossas vidas é aquela que somente Deus pode ver. Qualquer pessoa consegue enxergar aquilo que fazemos diante dos outros. As pessoas nos veem quando estamos na igreja. As pessoas nos veem quando estamos no trabalho ou na escola. Mas, se formos honestos, existe uma parte da nossa vida que ninguém conhece.
Existe uma versão de nós que é a que mais se aproxima de quem somos de verdade e que só surge quando ninguém está observando. É nesse lugar, onde não existe plateia, onde a família e os amigos não estão por perto, que podemos ter a certeza de que Deus nos vê.
Jesus não está dizendo apenas que Deus vê aquilo que fazemos de errado quando ninguém está olhando. Nesse mesmo trecho, que ele critica e condena os religiosos hipócritas da sua época. Ele aponta para um Pai que nos vê quando ninguém vê.
Deus ouve orações que ninguém ouviu. Deus conhece lágrimas que ninguém sabe que derramamos. Deus vê batalhas que ninguém imagina que estamos enfrentando. Conhece tentações que nunca contamos para ninguém. Deus vê renúncias que passam despercebidas pelos outros.
Jesus não fala sobre um Deus distante que apenas fiscaliza as nossas vidas, procurando um erro ou uma brecha para nos punir. Jesus fala sobre um Pai. Um Pai que vê, um Pai que conhece, um Pai que se importa, um Pai que não ignora aquilo que acontece quando a porta se fecha.
É claro que Jesus não está condenando a oração pública. Afinal, ele mesmo orava diante das pessoas, os discípulos oravam diante das pessoas e a igreja primitiva orava diante das pessoas. O problema nunca foi orar em público!
O problema é quando existe oração em público, mas não existe oração em secreto. O problema é quando gastamos o nosso tempo sustentando uma aparência diante das pessoas, mas não temos tempo para cultivar intimidade com Deus no secreto.
Precisamos aprender a valorizar aquilo que Deus valoriza.Somos atraídos facilmente por aquilo que é visível. Gostamos dos grandes momentos, dos grandes resultados. Valorizamos o palco, as luzes, os elogios. Enquanto isso, aquilo que é importante para Deus, muitas vezes nós desprezamos.

Em busca da recompensa

A terceira verdade que encontramos nesse texto é que aquilo que buscamos revela quem governa o nosso coração.
Existe uma outra palavra nesse trecho do Sermão do Monte que se repete também e chama a nossa atenção, e a palavra é “recompensa”.
Na verdade, Jesus nos mostra um contraste muito interessante. Por um lado, ele fala sobre uma recompensa recebida por aqueles que praticam as suas obras de justiça diante dos homens. Por outro, ele fala de uma recompensa concedida pelo Pai, que vê seus filhos em secreto.
Em nenhum momento Jesus está condenando a ideia de recompensa. Ele não diz que almejar e esperar a recompensa é algo demoníaco. Pelo contrário, a diferença não está simplesmente na recompensa, mas naquilo que cada pessoa está procurando.
Os hipócritas faziam as suas obras para serem vistos. Eles queriam admiração, queriam reconhecimento. E, sobre esses, Jesus diz que, sendo assim, eles já receberam a sua recompensa.
Agora, aqueles que vivem diante do Pai e que buscam se relacionar com Deus longe dos olhares e dos elogios dos homens, esses recebem do Pai a recompensa.

O Pai que nos vê em secreto

A pergunta que devemos fazer nesta noite é: que tipo de recompensa estamos buscando?
Já faz um tempo que, num certo dia, eu estava mexendo no computador em casa quando, de repente, a Rafa, que era bem mais novinha, chegou com uma folha de sulfite toda rabiscada, com algumas letras perdidas pela folha. E, naquele momento, eu tive que parar tudo o que estava fazendo para poder perguntar o que aquela obra de arte significava. Foi então que ela me disse que era eu e ela, e que naquelas letras perdidas estava escrito: “Eu te amo”.
Para ela, uma criança, o mais importante não era o desenho, mas sim o olhar de quem ela ama. Naquele instante, ela queria que o pai visse o desenho. Ela queria que o pai se alegrasse com o desenho. Ela queria ver o pai observando o desenho e aprovando a obra de arte.
Todos nós, em certa medida, somos assim. Todos nós estamos procurando o olhar de alguém. Todos nós estamos tentando agradar alguém. Buscamos alguma recompensa. A questão é: de quem é o olhar que mais importa para nós?
Os religiosos dos dias de Jesus, e até dos nossos dias, eles se contentam com o olhar e a aprovação dos homens. Mas o discípulo de Jesus, o cidadão do Reino, espera algo infinitamente melhor.
O discípulo de Jesus aprende, ao longo da jornada, que existe uma enorme diferença entre ser admirado pelas pessoas e ser conhecido por Deus. No final das contas, os aplausos dos homens são passageiros. Os elogios dependem do momento. Pois, querendo ou não, as pessoas nos conhecem apenas por aquilo que conseguem enxergar. Mas o Pai nos conhece completamente.
Deus é o único que conhece aquilo que nós mostramos ao mundo e aquilo que nós escondemos das pessoas. Ele conhece as nossas vitórias e as nossas derrotas, conhece os nossos acertos e os nossos erros, sabe dos nossos segredos, conhece os nossos pecados e, ainda assim, nos convida para perto.
Talvez, para algumas pessoas que desejam ardentemente a aprovação dos homens, esse texto do Sermão do Monte possa ser visto como um castigo. Afinal, para quem espera o reconhecimento, ouvir de Jesus que a melhor coisa é o anonimato do secreto pode ser algo doloroso.
No entanto, esse texto é um convite! Um convite para abandonarmos a necessidade de impressionar as pessoas. Um convite para descansarmos no amor do nosso Pai.Um convite para descobrir que existe uma alegria muito maior do que ser reconhecido pelos homens: a alegria de ser amado por Deus.
Que tipo de recompensa nós estamos buscando hoje? Quem é a pessoa que eu e você mais queremos agradar? A resposta para essa pergunta revela muito mais sobre o nosso coração do que podemos imaginar.
Que Deus nos livre de uma fé que existe apenas quando as pessoas estão olhando. Que Deus nos livre de uma vida santa que é apenas aparência. Que Deus nos conceda a alegria de viver diante dele, sabendo que o nosso Pai nos vê, o nosso Pai nos conhece, o nosso Pai se importa com a gente. E é o nosso Pai que vai nos recompensar quando o buscarmos de todo o coração.
No final das contas, a maior recompensa do Reino nunca foi o reconhecimento dos homens. A maior recompensa do Reino sempre foi o próprio Deus e que Ele tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 07 de junho de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (São Paulo-Noite)
Por Alex Amaral
Soli Deo Gloria
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