O Perigo de se tornar inútil

O Evangelho do Rei  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Texto base:
Matthew 5:13–16 NVI
“Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens. “Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.

Uma terra em decomposição e em trevas

Eu confesso que pensei em trazer algumas manchetes de jornais, mas elas só comprovariam algo que você já sabe: o mundo parece cada vez mais perdido.
Embora alguns defendam que o homem do mundo moderno é evoluído. Embora tenhamos avançado no campo da tecnologia e da medicina. A verdade que não conseguimos esconder — principalmente depois de assistir um jornal ou ler matérias do dia a dia na interneté que essa terra em que vivemos está em decomposição. Esse mundo está perdido em trevas.
Basta abrir o celular ou talvez uma conversa no trabalho. Basta observar o rumo que muitas histórias têm tomado. A sensação que muitas vezes nos acompanha é essa: parece que não pode piorar, então a próxima notícia chega — e ficamos sem acreditar.
O mundo mudou em tecnologia, mas não mudou em essência. O primeiro capítulo depois da queda já nos apresenta um irmão matando o outro. O problema nunca foi estrutural, sempre foi moral e espiritual. E é em meio a essa realidade, em meio à nossa realidade, que vemos Deus em missão. Sim, Deus está em missão e, aqui em nosso texto, vemos que Ele nos chama para essa missão.

Nosso campo de atuação

Quando Jesus sobe naquele monte, em Mateus 5, Ele não está falando com os seus discípulos inseridos em um mundo saudável e perfeito. Ele não está formando discípulos para uma sociedade totalmente equilibrada. Jesus sabe exatamente o tipo de cenário em que os seus seguidores viviam e viveriam.
O chamado de Jesus não é para nos retirarmos desse mundo, ou talvez para encontrarmos alguma caverna e nos protegermos. O cenário onde a nossa fé é colocada à prova, é nesse ambiente em trevas. O campo de atuação dos discípulos de Jesus é essa terra em decomposição.
Sabendo dessa realidade e da necessidade do mundo, Jesus declara algo — aqui nesse texto — que revela, tanto a identidade, quanto a função dos cidadãos do seu Reino. Ou seja, quem eles são e o que eles devem fazer.

Vocês são!

No início do v.13 e no início do v.14, Jesus utiliza basicamente a mesma construção linguística. Vemos a mesma estrutura usada por Jesus para introduzir dois elementos no texto que, embora sejam diferentes, caminham juntos.
No v.13, Jesus diz: “Vocês são o sal da terra...”. No v.14, Ele diz: “Vocês são a luz do mundo...”.
Primeiramente, logo após tratar do caráter daqueles que fazem parte do seu reino nas bem-aventuranças, Jesus passa a declarar a identidade daqueles que fazem desse reino. A sequência que encontramos após as bem-aventuranças não é uma ordem, mas sim uma afirmação feita pelo próprio Jesus. Não é uma questão de tentarmos ser sal. Também não é uma questão de nos esforçarmos para nos tornar luz. Aqui, Jesus também não diz: “vocês serão” ou “vocês tentarão ser”, mas sim, “vocês são”é uma constatação.
E essa constatação de Jesus, precisamos ter em mente, que não é feita a respeito de qualquer pessoa na multidão. Jesus está falando com os seus discípulos, com as pessoas que ouviram o chamado do reino e que foram moldadas por Ele.
Jesus não deseja com essa afirmação falar sobre uma conquista ou algo que podemos fazer, mas sim sobre quem somos. Ser alguém, nesse ponto do ensino de Jesus, é uma progressão natural para aqueles — e somente para aqueles —, que são bem-aventurados. A identidade que Jesus afirma que seus discípulos possuem, só pode ser real se a pessoa antes for misericordiosa. A pessoa só pode SER aquilo que Jesus diz aqui nesse texto, se antes ela for aquela que tem fome e sede de justiça. Em outras palavras, as bem-aventuranças não são uma introdução poética. Elas são o fundamento da identidade daquele que faz parte do Reino. E é após essa afirmação de que SOMOS, que Jesus diz QUEM SOMOS: o Sal e a Luz.
Esses dois elementos não são escolhidos por acaso. Jesus poderia ter usado muitas outras comparações, mas Ele escolhe duas coisas que são simples, que são comuns e que estão presentes no cotidiano, não só daquelas pessoas, mas também no nosso.
A intenção de Jesus, ao usar esses dois elementos, é apontar para algo essencial na identidade de seu discípulo: Quem somos não pode ser considerado como uma mera descrição. Jesus não está falando a respeito de um rotulo ou de um título sem significado.
Ao afirmar isso sobre os seus discípulos, Jesus demonstra que aquilo que somos deve exercer influência onde estamos. Se vocês são sal, algo muda onde vocês estão. Se vocês são luz, algo se torna visível por causa da presença de vocês.
O sal é algo que exerce uma influência que, a princípio, é invisível. Quando o sal é colocado na refeição, você pode não o enxergar. Afinal, ele se mistura, se dissolve, ele deixa de aparecer, mas é impossível não perceber o seu efeito ali. Você pode não ver o sal, mas sente o gosto. Você pode não identificar onde ele está, mas percebe que algo foi alterado.
A luz opera de maneira diferente. Se o sal influência de forma invisível, a luz influência de maneira imediatamente perceptível. Quando a luz entra em um ambiente escuro, a escuridão que ali deixa de existir. Aquilo que antes estava oculto passa a ser visto. Aquilo que antes era indefinido agora se torna claro. A luz altera o ambiente pela sua própria presença.
Jesus aqui não está apenas descrevendo quem somos, Ele está mostrando que a nossa identidade tem (e deve ter) um impacto real no cenário onde nós estamos inseridos. É impossível ser sal e ser luz e as coisas continuarem da mesma forma.
Se somos cidadãos desse Reino, se o nosso caráter foi moldado e expressa o que encontramos nas bem-aventuranças, então a nossa presença no mundo não pode ser neutra. Onde o discípulo de Cristo está, algo deve ser diferente.

O Perigo da Inutilidade

É então que, logo após afirmar a nossa identidade, Jesus torna o seu ensino ainda mais sério. Porque, depois de afirmar quem somos, Cristo nos dá um alerta:
Matthew 5:13 NVI
...Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens.
E também:
Matthew 5:15 NVI
...ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha...
O fato de sermos sal não significa que automaticamente exerceremos a nossa função. O fato de sermos luz não significa que inevitavelmente brilharemos. Segundo aquilo que Jesus nos ensina aqui, existe a possibilidade da inutilidadeexiste o perigo de se tornar inútil.
Por exemplo, quando Jesus fala sobre o sal, Ele não fala apenas sobre perder o sabor ou sobre a função que o sal tinha em sua época de retardar a decomposição de certos alimentos. Jesus não está discutindo química, Ele está falando sobre incoerência. O sal existe para influenciar. Se ele deixa de influenciar, ele perde aquilo que é da sua natureza, ele deixa de cumprir a sua razão de existir.
Em outras palavras, Jesus está dizendo que é possível carregar um rótulo e, ainda assim, perder a sua natureza. É possível estar próximo da fé e, ainda assim, não exercer influência alguma; estar inserido no mundo e, ainda assim, não alterar nada ao redor.
Porém, se o sal perde o sabor, ele não se torna neutro, ele se torna inútil, e o seu destino, como próprio Jesus diz, é ser jogado fora e pisado pelos homens.
Agora, quando Jesus fala sobre a luz, o problema nesse caso não é perder a sua característica, é esconder a sua função. Afinal, a luz continua sendo luz mesmo quando escondida. Porém, quando um ambiente se encontra em trevas e a luz se esconde, ela deixa de cumprir o propósito para o qual foi acesa.
A função da luz não é existir escondida, mas tornar visível o que está ao redor.Jesus apela aqui para algo óbvio. Diferente do nosso tempo, nos dias de Jesus a luz não era um simples apertar de interruptor. E, por isso, não fazia sentido algum acender algo cuja finalidade é iluminar e, logo em seguida, esconder essa luz.
[“Imagine que todas as luzes da igreja estão apagadas...” — LUZES DA IGREJA]
No início desse sermão, nós não fizemos muito esforço para lembrar que vivemos em uma terra em decomposição, em um mundo perdido em trevas, um mundo onde as manchetes parecem competir entre si para ver qual delas é a mais absurda.
E, quando nós observamos esse texto, é exatamente nessa terra que Jesus disse que somos o sal. É exatamente nesse mundo que Ele disse que nós somos a luz.
Então, a pergunta que naturalmente surge é: no ambiente onde nós estamos inseridos, na nossa família, no nosso trabalho, na nossa universidade, na nossa vizinhança, há sinais da nossa influência como sal? Há sinais do que nós deveríamos revelar como luz ou tudo permanece exatamente como está?
Eu me lembro de uma época em que ser cristão provocava temor até mesmo nos bandidos. Houve um tempo em que, se um assaltante fosse roubar alguém e essa pessoa dissesse que era cristã, o assaltante daria meia-volta.
Hoje em dia, quando o assaltante decide roubar alguém e essa pessoa diz que é cristã, o assaltante também diz ser, ainda pede o celular e, no final do assalto, diz: “Deus abençoe!”. Hoje, ser “crente” se tornou apenas um rótulo.
Olhemos para a situação do nosso país! Este é o lugar que dizem possuir uma bancada evangélica onde muitos, se consideram pastores e outros até mesmo apóstolos. Vejamos a influência que essas pessoas exercem. Tal influência retarda a decomposição dessa terra verde e amarela? Esses que se dizem de Cristo, revelam como luz aquilo que Cristo espera que um cidadão do seu reino?
Se somos sal, a nossa fé precisa afetar as nossas decisões e quem está ao nosso redor. Se somos luz, a nossa fé precisa ser perceptível nas escolhas que fazemos e nos relacionamentos que temos.
O perigo de nos tornarmos inúteis não está na vergonha de falarmos que somos cristãos. O perigo está na ausência do impacto que ser cristão deveria trazer ao mundo.
Se o sal perde o seu sabor, ele não deixa de existir, ele apenas deixa de fazer a diferença. Se a luz é escondida, ela não deixa de ser luz, ela apenas deixa de cumprir o seu propósito. A questão não é aquilo que o mundo está fazendo. A questão é aquilo que nós, sal e luz, não estamos fazendo.

Daí Glória a Deus!

E por que devemos ser diferentes? Por que devemos exercer influência onde estamos? A resposta está logo em seguida no v.16:
Matthew 5:16 NVI
Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.
O objetivo de ser sal e de ser luz nesse mundo não é que nos vejam ou nos admirem. O objetivo é que glorifiquem o nosso Pai que está nos céus.
O sal não é o elemento principal de uma refeição. A sua função é realçar o sabor. Pois, quando o sal chama atenção para si próprio, torna a refeição salgada demais e o prato intragável.
A luz também não pode chamar atenção para si. A luz tem como objetivo clarear e iluminar o ambiente. Quando uma luz é muito forte, ela perde a sua função e, ao invés de facilitar a vida das pessoas, acaba ofuscando e cegando os outros.
O fato de sermos diferentes do mundo e de influenciarmos tudo ao nosso redor tem como único objetivo a Glória de Deus, e não a nossa. Porém, alguém pode ouvir isso e pensar algo que você já deve ter pensado, mas ficou com medo de externalizar:
“Então, eu faço tudo certo. Procuro viver de forma diferente. Procuro ser misericordioso e pacificador e, no final das contas, quem recebe o reconhecimento é Deus?”
A verdade é que, se a gente não entender corretamente o que significa “glorificar a Deus”, isso pode soar estranho. Para algumas pessoas, pode até parecer injusto, como se Deus fosse uma divindade carente de aplausos, como se Ele fosse alguém que não suporta ver outras pessoas sendo elogiadas no lugar dEle. Isso faz necessário entendermos o que é glorificar a Deus.
Primeiramente, para entender o que é glorificar a Deus, precisamos entender o que é a Glória de Deus. Por toda a Bíblia, a Glória de Deus é compreendida como a manifestação visível e perceptível de quem de quem Deus é. A Glória de Deus é o peso da realidade de Deus sendo percebido por nós.
No Antigo Testamento, quando a Glória do Senhor enchia o tabernáculo ou o templo, aquilo era a manifestação visível da presença de Deus. Nós não vemos Deus, mas a Glória de Deus é uma maneira que podemos perceber Ele em nossa realidade. É como se o invisível se tornasse perceptível.
Por esse motivo, Glorificar a Deus, não é acrescentar algo a Ele. Não é aumentar o que já é infinito. Glorificar a Deus é tornar visível e reconhecido aquilo que já é verdadeiro sobre Ele.
Quando Jesus disse que as pessoas verão as nossas boas obras e glorificarão ao Pai, Ele está dizendo que, por meio da nossa vida, algo da realidade de Deus se tornará perceptível. Elas verão misericórdia e perceberão que Deus é misericordioso. Elas verão justiça e perceberão que Deus é justo. Em outras palavras, quando alguém glorifica a Deus essa pessoa reconhece a manifestação de Deus em outra pessoa. Glorificar a Deus pela vida de alguém é reconhecer publicamente que aquilo que vemos nessa pessoa é evidência da atuação e do caráter de Deus.
Por esse motivo nós não produzimos essa glória e não depende de nós. A questão é que, nós refletimos essa Glória, e foi para isso que nós fomos criados.
Eu acho muito bonito a maneira como a Bíblia descreve o futuro. Um dos cenários que as Escrituras nos oferecem a respeito de como será a eternidade está em Livro de Habacuque 02.14 que aponta para uma realidade futura:
Habakkuk 2:14 NVI
...a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas enchem o mar.
Isaías em seu livro também tem uma visão em que seres celestiais proclamam:
Isaiah 6:3 NVI
...“Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos, a terra inteira está cheia da sua glória”.
Haverá um dia em que não será um canto isolado e não será também uma manifestação restrita no tempo. Haverá um dia em que a Glória de Deus não será percebida apenas em lampejos. Haverá um dia em que a Glória de Deus será plena. Ela será incontestável. Ela será tudo.
Revelation 21:23 NVI
A cidade não precisa de sol nem de lua para brilharem sobre ela, pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua candeia.
Mas, enquanto esse dia não chega, Deus permite algo extraordinário acontecer através das nossas vidas. Quando alguém vê as boas obras que praticamos e glorifica o Pai, essa pessoa reconhece e experimenta um vislumbre do que será na eternidade. É como se, por um instante, o futuro invadisse o presente. É como se, por um instante, a eternidade abrisse uma fresta e Deus revelasse o que acontecerá quando estivermos plenamente com Ele.
Quando veem que somos pacificadores e glorificam a Deus, as pessoas experimentam um pequeno sinal do reino que virá. Novamente, glorificar a Deus não é acrescentar algo a Ele, mas é tornar visível aquilo que Ele é.
Hoje, no mundo, podemos experimentar apenas fragmentos dessa realidade, mas um dia experimentaremos a plenitude de tudo isso. Ser sal e ser luz, ser um discípulo de Cristo, não é apenas uma questão de obedecer regras, mas é uma questão de cooperar com aquilo que Deus está fazendo na história. Paulo diz em Romanos 08.19:
Romans 8:19 NVI
A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados.
Existe uma expectativa, uma espera, para ver homens e mulheres que refletem aquilo que Deus é. O nosso papel hoje é esse. Esse é o nosso chamado. Existe uma necessidade no mundo de manifestar quem nós somos, não apenas dizer que somos filhos de Deus, mas viver como filhos de Deus.
Não esconda essa luz. Não deixe que o sal perca o sabor. Vivamos de tal maneira que, através de nós, a Glória de Deus se torne visível. Um dia essa Glória encherá toda a terra, mas hoje, ela pode começar a ser vista em nós e através de nós.
Que Deus nos ajude e tenha misericórdia de nós. Amém.
Sermão exposto no dia: 01 de março de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (Mandaqui-Noite)
Por Alex Carvalho
  Soli Deo Gloria
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