O que Jesus fez com a Lei?

O Evangelho do Rei  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Matthew 5:17–20 NVI
“Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra. Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar estes mandamentos será chamado grande no Reino dos céus. Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus.

Diferentes mais iguais

Deus nos criou, cada um, com certas particularidades e características que não somente nos fazem ser únicos, mas que também podem demonstrar que pertencemos a um povo específico.
O exemplo disso é que o brasileiro é diferente do espanhol, que é diferente do norueguês, que é totalmente diferente do chinês. As diferenças que aparecem no jeito de falar, na aparência, na cultura e até nos costumes, denunciam de alguma forma de onde viemos.
No caso de Israel também era assim. Havia muitas coisas que distinguiam aquele povo: as suas festas, os seus ritos, sua forma de viver e até aquilo que eles comiam ou não podiam comer. No entanto, havia algo que estava acima de tudo isso: a lei de Deus.
Diferente do que muitos acreditam hoje, a lei não era um simples conjunto de mandamentos religiosos ou de ordenanças que o povo deveria cumprir com medo de ser punido por um Deus raivoso. Devemos lembrar que, ao sair do Egito, o povo de Israel foi conduzido por Deus no deserto e, nesse processo, Deus começou a formar aquele povo para que eles se tornassem uma nação. Deus os havia libertado da escravidão e agora precisava ensinar aquelas pessoas a viverem como o povo da aliança.
É nesse contexto que a lei de Deus é dada ao povo por intermédio de Moisés. Ao subir no monte Sinai e receber de Deus a lei, Moisés, que até aquele momento era visto apenas como o libertador de Israel, passa a ser também o mediador da lei que organizaria a vida da nação escolhida por Deus.
Se formos atentos quando lemos os cinco primeiros livros da Bíblia em nossa leitura anual, perceberemos que a lei tratava de todas as áreas da vida daquelas pessoas. A lei ensinava como o povo deveria adorar, como deveria tratar o próximo, como deveria lidar com a justiça, com a pureza, com a alimentação, com o descanso e até mesmo com a própria terra.
A lei moldava a vida do povo de Israel. A lei era algo que marcava a identidade do povo de Deus. E isso pode ser visto em todo o Antigo Testamento, pois embora a lei seja encontrada nos cinco primeiros livros da bíblia, todo o Antigo Testamento se constrói a partir dela.

O que Jesus está fazendo?

Ter essa informação em mente nos ajuda a compreender o que está acontecendo aqui no nosso texto. Como vimos alguns domingos atrás, existem diversas semelhanças que o Evangelista Mateus demonstra entre Jesus e Moisés.
É certo pensar que para algumas pessoas, essas semelhanças, despertavam tanto a curiosidade quanto dúvidas. Pois havia uma promessa feita por Deus a Moisés, que um dia o Senhor levaria do meio do povo um profeta como Moisés (Dt 18.18-19).
 Em meio a essa expectativa surge Jesus. Ele é aquele que sobe ao monte, que fala com autoridade, que atrai multidões, que realiza diversos milagres e que agora está ensinando e formando um povo.
 Porém, logo no início do seu ensino Jesus começa contrariando a crença religiosa da época. Afinal, os bem-aventurados não são aqueles que, por guardarem a lei, são prósperos. Não são aqueles que possuem um currículo religioso exemplar. Segundo o que Jesus afirma, bem-aventurados são os pobres em espírito, os que choram e os que são misericordiosos.
Jesus afirmar quem são aqueles que fazem parte do seu reino, e então — como já vimos — logo após Ele aponta para a influência desses seus súditos. São eles, e não a classe religiosa de sua época, que são chamados de o sal da terra e a luz do mundo.
Ouvir tudo isso, sabendo de tantas promessas e das semelhanças entre Jesus e Moisés faz com que uma pergunta surja na mente de algumas pessoas: “O que Jesus está fazendo? Será que ele está nos trazendo uma nova lei? Será essa uma nova revelação? Tudo que foi dito e que está escrito não vale mais? Será que ele está se colocando no lugar de Moisés e dos profetas e substituindo aquilo que foi ensinado ao povo por tanto tempo?”
Talvez para algumas pessoas hoje, essas perguntas podem soar um tanto vazias ou sem sentido. Porém, mesmo em nossos dias essas perguntas se mostram valiosíssimas. Afinal, muitos de nós temos dificuldade em compreender como aquilo que Jesus ensinou e o que nós vemos em todo o Novo Testamento se relaciona com tudo aquilo que encontramos no Antigo Testamento.
É por conta dessa dificuldade que hoje enxergamos dois extremos em muitas igrejas. De um lado estão aqueles que desprezam o Antigo Testamento como se ele não possui valor algum para os cristãos de hoje. E do outro lado existem aqueles que por supervalorizar o Antigo Testamento, acabam trazendo para a igreja de hoje características e costumes que faziam parte apenas daquele período e daquele povo.
Esse é o tipo de pensamento que gera as aberrações que nós vemos hoje em muitos lugares, como por exemplo: altares de igrejas cristãs com a arca da aliança, pastores com talit e kippah, pessoas que se autodenominam profetas e que tocam shofar em meio ao culto, dentre tantas outras coisas.
Uma das características de igrejas que pregam constantemente sobre prosperidade e triunfalismo é enfatizar o Antigo Testamento desassociado da pessoa de Jesus. Assim, os lobos fazem promessas aos seus fiéis que, muitas vezes, não são promessas para nós, mas foram promessas feitas diretamente ao povo de Israel ou a algum personagem bíblico em especial.
Evitar esses dois extremos é algo que nós precisamos fazer, e só poderemos fazer, se compreendermos como Jesus se relaciona com tudo que encontramos no Antigo Testamento.

Cristo, o cumprimento de tudo que foi dito

No v.17, quando Jesus usa a expressão “a lei e os profetas”, ele está usando uma maneira comum entre os judeus para se referir à antiga aliança. Jesus está falando de toda a revelação que Deus já havia dado ao seu povo até aquele momento. E ao usar esse termo, Jesus faz uma afirmação clara e objetiva: A sua missão não é destruir e nem anular o que foi dito e ensinado. Pelo contrário, Jesus declara que Ele veio cumprir, tanto o que a lei, quanto o que os profetas disseram. Isso significa que tudo aquilo que nós observamos nas Escrituras encontra em Cristo o seu verdadeiro sentido e a sua plena realização.
Quando nós olhamos para o Antigo Testamento, precisamos perceber que ele não é apenas uma coleção de histórias antigas ou de leis de um povo. Precisamos perceber que o Antigo Testamento é uma história que aponta para alguém.
A lei moral apontava para um padrão de santidade que Deus exigia do povo. No entanto, se observarmos a história, veremos repetidamente que nenhum ser humano conseguiu obedecer perfeitamente a esse padrão. Todos falharam, todos pecaram. Mas quando olhamos para Jesus vemos que Ele viveu a vida que nenhum de nós conseguiria viver. Ele obedeceu perfeitamente à vontade do Pai. Onde todos nós tropeçamos, Ele permaneceu fiel. Aquilo que a lei exigia, Jesus cumpriu.
Vejamos também a própria estrutura da vida religiosa de Israel. Os sacerdotes do Antigo Testamento eram mediadores entre Deus e o povo. Hoje sabemos que Cristo é o verdadeiro Sumo-sacerdote e único mediador entre Deus e o povo.
Os sacrifícios que eram oferecidos no templo apontavam para a necessidade de perdão, para a necessidade de reconciliação com Deus. No entanto, todos aqueles sacrifícios eram repetidos continuamente, porque nunca podiam remover definitivamente o pecado.
Os sacrifícios no templo eram apenas uma sombra de algo muito maior e definitivo que viria. Jesus é o verdadeiro Cordeiro de Deus, aquele que foi oferecido de uma vez por todas pelos pecados de todo o seu povo.
Seja as festas, os rituais, o templo, toda a estrutura da antiga aliança preparavam o caminho para aquilo que Deus realizaria plenamente na pessoa de Cristo.
Olhemos também para as promessas e para os personagens do Antigo Testamento. Tudo isso apontava para Jesus. Reis, profetas e líderes que surgiram ao longo da história eram, de certa forma, sombras ou figuras que antecipavam a vinda do verdadeiro rei, do verdadeiro profeta, do verdadeiro libertador.
Ao dizer que veio cumprir, Jesus está afirmando que toda a história da redenção encontra o seu ponto culminante nele. Tudo aquilo que Deus havia prometido e anunciado ao longo de todas as Escrituras encontra a sua realização em Cristo Jesus.
É então que, nesse ponto, surge um problema, tanto para aqueles que ouviam Jesus, quanto para nós nos nossos dias. Afinal, se Jesus cumpriu tudo o que a lei exigia e se ele é a realização de todas as promessas do Antigo Testamento, então todas essas páginas entre Gênesis e Malaquias não servem para mais nada?
A verdade é que, certamente, o principal propósito de toda a revelação é nos conduzir a Cristo. No entanto, Deus também tem propósitos secundários nas Escrituras.

Agora as coisas começam a mudar!

Por esse motivo, Jesus continua o seu ensino e assim também corrige, esse pensamento. No v.18, por exemplo, Jesus afirma que o fato dEle cumprir toda a lei não significa o seu desaparecimento. Pelo contrário, aquilo que Deus revelou é precioso e possui importância enquanto céus e terra existirem.
Devemos ter em mente que a lei não só apontava para Cristo, mas também revelava o caráter e o padrão que Deus esperava que o homem vivesse.
O fato de Cristo ter cumprido aquilo que nós não conseguiríamos cumprir não significa que a revelação de Deus perdeu o seu valor ou que nós podemos viver de qualquer maneira. Pelo contrário, aquilo que Jesus nos ensina aqui nesse texto mostra que a relação do seu discípulo com a revelação de Deus se torna ainda mais séria. Aquilo que Jesus espera dos seus discípulos é algo mais profundo.
Note que, no v.19, Jesus fala negativamente sobre dois tipos de pessoas: aqueles que escolhem quais ordenanças de Deus devem obedecer, aqueles que filtram aquilo que lhes parece mais propício. E aqueles que acreditam que basta apenas conhecer a Palavra de Deus e a sua vontade.
O que Jesus espera dos seus discípulos é que eles não apenas conheçam a vontade de Deus, mas também pratiquem a vontade de Deus. Ser discípulo de Jesus significa levar a sério aquilo que Deus revelou sobre si e sobre a sua vontade e permitir que essa verdade molde as nossas vidas.

Ele cumpre ou nós cumprimos?

E, como se não bastasse mostrar a seriedade do chamado ao discipulado, Jesus torna essa realidade ainda mais intensa. Em Mateus 05.20, Ele diz:
Matthew 5:20 NVI
Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus.
Essa afirmação certamente causou um verdadeiro choque nas pessoas que estavam ouvindo Jesus naquele momento. Afinal, para aquele povo, os fariseus eram conhecidos como homens extremamente dedicados às Escrituras. Talvez nós, hoje, consideremos os fariseus como um tipo de gente má, hipócrita e que se opôs a Jesus. Porém, para aquele povo, os fariseus eram pessoas extremamente disciplinadas, zelosas e respeitadas pela sua religiosidade.
Eles estudavam a lei, ensinavam o povo e buscavam obedecer cuidadosamente aos mandamentos de Deus. Então Jesus afirma que a justiça desses homens não é suficiente. Em outras palavras, Jesus está dizendo que fazer parte do reino de Deus exige algo ainda mais profundo do que ser religioso como aqueles homens eram.
Talvez alguém possa chegar nesse ponto e pensar: “Ora, nós ouvimos que Jesus cumpriu aquilo que a lei exigia. No entanto, agora parece que nós estamos sendo chamados a cumprir isso também. Afinal, o que Jesus espera de nós? Não precisamos cumprir porque Jesus já fez isso ou devemos cumprir?”
A resposta para essa pergunta está no próprio evangelho.

De onde nasce a obediência?

Jesus cumpriu aquilo que nós jamais conseguiríamos cumprir. Ele viveu a vida perfeita que nenhum de nós seria capaz de viver. Ele obedeceu perfeitamente à vontade do Pai e realizou exatamente aquilo que a lei exigia.
Mas Cristo não apenas viveu uma vida perfeita. Ele também tomou sobre si a condenação que a lei declarava sobre o pecado. Ou seja, mesmo sendo o único a cumprir perfeitamente aquilo que Deus exigia, por escolha, Jesus recebeu a punição como se fosse o maior dos pecadores, mesmo sem ter pecado.
A punição que a lei reservava para o pecador recaiu sobre Jesus na cruz. Aquele que nunca pecou assumiu o nosso pecado e sofreu a penalidade que nós merecíamos.
A questão aqui não é “uma coisa ou outra”, mas sim, “uma coisa e outra”. Afinal, Jesus cumpre a vontade de Deus, e mesmo assim nos ordena obedecer. Por certo, não estamos falando das leis civis que organizavam o povo naqueles tempos e muito menos das leis cerimoniais que regiam o culto de Israel. Existem muitas coisas tanto na Lei moral (por exemplo nos 10 mandamentos), como em todos os livros do Antigo Testamentos, que são princípios atemporais e que por vezes o próprio Novo Testamento aponta certa continuidade (e.g. Honrar pai e mãe, não roubar, não matar).
O que muda, não é apenas a questão de que certas leis não fazem sentido para nós nos nossos dias, o que muda é como nós obedecemos a aquilo que Deus determina e revela como sua vontade.
É por isso que a obediência que o discípulo de Cristo deve exercer não nasce do medo da condenação ou do medo da punição, pois essa condenação já foi lançada sobre Jesus na cruz. O discípulo de Cristo também não obedece porque acredita que, com as suas próprias forças, conseguirá viver perfeitamente diante de Deus. Afinal, já aprendemos no início das bem-aventuranças que o cidadão do reino é aquele que reconhece que é pobre em espírito e que não possui força em si mesmo. O Discípulo sabe que depende da graça de Deus e, por esse motivo, o desejo em obedecer nasce de outro lugar. Nasce da transformação que Deus realiza nos nossos corações.

Uma vida de verdadeira obediência

Durante muito tempo, muitas pessoas enxergaram a relação com Deus apenas através das lentes da punição. A lei era vista apenas como uma ameaça constante: “Se você errar, você vai ser condenado.” Mas o evangelho muda completamente essa relação. Não porque ele relativiza o pecado ou diminui a sua gravidade, mas porque agora ele coloca as coisas sob uma ótica correta: a ótica do reino.
Isso significa que o pecado continua sendo algo sério. A graça de Deus não transforma o pecado em algo irrelevante, algo pequeno. A vida cristã não é uma licença para se viver de qualquer maneira.
O pecado hoje continua trazendo as suas consequências. Mentiras ainda destroem relacionamentos, a injustiça ainda produz dor no mundo, escolhas erradas ainda nos trazem colheitas amargas.
A diferença é que o discípulo de Cristo não vive tentando fugir da condenação eterna, porque ele sabe que a punição que nos foi prometida pelos nossos erros foi lançada sobre Jesus. A diferença é que o discípulo de Cristo vive desejando honrar aquele que o salvou, aquele que levou sobre si a sua punição.
É exatamente por isso que Jesus diz que a nossa justiça precisa ser maior do que a dos fariseus, porque a justiça dos fariseus era uma obediência por obrigação religiosa. Eles estavam preocupados com a aparência. Eles conheciam a lei, sabiam o que Deus havia revelado, mas o coração deles permanecia distante de Deus, pois achavam que o relacionamento com Deus era um comércio, uma barganha.
O discípulo de Cristo vive de outra maneira. O discípulo de Cristo leva a sério aquilo que Deus revelou. Ele deseja a vontade de Deus. Ele quer viver de verdade com Deus, não por medo, não por aparência, mas porque o seu coração foi transformado.
Não quer dizer que hoje se torna mais fácil obedecer porque assumimos que a nossa força vem de Cristo. Ainda assim, dizer não para o pecado é algo que nos dói e que muitas vezes nos custa. Mas quando nos rendemos a Cristo e estamos sob o seu governo, até mesmo essas coisas que nos são difíceis de abandonar, ou algumas que são complicadas de começarmos a fazer, são coisas que começamos a desejar e passamos a desejar pelo motivo certo.
Hoje existem coisas que eu faço que tenho certeza de que, se dependesse apenas de mim, eu não faria. Mas eu faço, e não faço por obrigação. Faço porque Deus mudou o meu coração.
Deus muda o nosso desejo a ponto de começarmos a desejar aquilo que antes não desejávamos. E agora que desejamos, parece que desejamos porque queremos, e não porque estamos sendo obrigados a desejar.
É isso que o evangelho faz! Ele não apenas muda aquilo que nós fazemos, ele muda aquilo que nós amamos e como amamos. É para essa vida que Jesus nos chama: uma vida que não é moldada pelos valores do mundo, mas também uma vida que não vive de aparência. Uma vida que leva a sério a vontade de Deus. Uma vida de verdadeira obediência. Uma vida de submissão simplesmente pelo fato de que nós amamos a Deus.
Jesus nos chama a viver uma vida de justiça muito superior à dos fariseus, pois essa é a verdade vida que Ele tem para nós. Uma vida de conhecer a vontade de Deus, desejar a vontade de Deus e praticar a vontade de Deus. Não será fácil, mas sempre será o melhor caminho.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém.
Sermão exposto no dia: 15 de março de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (Mandaqui-Noite)
Por Alex Carvalho
  Soli Deo Gloria
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