A Teologia do descarte
O Evangelho do Rei • Sermon • Submitted • Presented
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Texto base:
“Foi dito: ‘Aquele que se divorciar de sua mulher deverá dar-lhe certidão de divórcio’. Mas eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério.
O antes do fim
O antes do fim
O que faz alguém desistir de um relacionamento? O que faz alguém abrir mão de algo que foi um dia tão importante? Afinal, ninguém acorda em uma bela manhã e decide romper tudo de um dia para o outro.
A verdade é que, antes de alguém chegar a essa conclusão, algo mudou no interior dessa pessoa. Talvez a forma de olhar já não seja mais a mesma. As prioridades mudaram. Ou, às vezes, simplesmente por puro capricho, não faz mais sentido tal relação.
Quando chegamos em Mateus 05.31-32, é exatamente isso que Jesus começa a expor. É claro que, à primeira vista, parece que Ele está falando apenas sobre divórcio, mas, na verdade, Jesus está revelando o que acontece antes mesmo de um divórcio acontecer. Aqui, Jesus está expondo o tipo de coração que transforma uma aliança em algo opcional.
Um adendo!
Um adendo!
Antes de seguirmos para o texto bíblico, eu preciso deixar algo claro. Este não é um sermão para responder tudo a respeito do divórcio. Nós vamos falar sobre isso? Vamos. Mas o objetivo hoje não é tratar de todas as exceções, nem tentar resolver todas as questões sobre esse assunto. Até porque o próprio Jesus aborda fala sobre divórcio de forma mais completa alguns capítulos à frente no Evangelho de Mateus.
O que eu pretendo hoje é que você entenda como essa fala de Jesus se relaciona com tudo aquilo que Ele já vem ensinando no Sermão do Monte.
A certidão de divórcio
A certidão de divórcio
Como vimos nos últimos domingos, nesse trecho específico Jesus está corrigindo a forma como a lei vinha sendo interpretada. Afinal, já sabemos que o problema não era a lei, mas sim o que estavam fazendo com ela. E, por isso, novamente vemos esse contraste entre aquilo que foi dito e aquilo que Jesus diz.
E o que era dito? Lemos o seguinte no v.31:
“Aquele que se divorciar de sua mulher deverá dar-lhe certidão de divórcio”.
Jesus não está trazendo algo novo aqui. Ele está citando algo que aquelas pessoas já conheciam. E essa ideia tinha como base o que encontramos em Deuteronômio 24. Basicamente, esse texto diz o seguinte: se um homem se casasse com uma mulher e, por algum motivo, encontrasse nela algo que considerasse indecente, ele poderia se divorciar dela, desde que lhe desse uma certidão de divórcio. Ou seja, um documento que reconhecia formalmente que aquele relacionamento havia sido encerrado e, então, essa mulher estaria liberada para iniciar um novo relacionamento.
Porém, o texto continua dizendo que, se essa mulher se casasse com outro homem e esse segundo homem também não quisesse mais aquela relação e lhe desse uma outra carta de divórcio, ou até mesmo morresse, o primeiro marido não poderia se casar com aquela mulher novamente.
Embora pareça confusa e, à primeira vista, sem sentido, essa lei possuía alguns propósitos e talvez o primeiro era proteger a mulher. Afinal, no contexto daquela época, uma mulher divorciada se encontrava em uma situação extremamente vulnerável. Naquela cultura, a mulher não tinha independência financeira e, muitas vezes, não tinha meios de se sustentar. Em grande parte, ela dependia do casamento para sobreviver. Nesse sentido, o casamento não era apenas uma questão de relacionamento, mas também uma questão de sobrevivência.
A certidão de divórcio aparece em Deuteronômio 24 como uma proteção mínima para a mulher, dando a ela o direito de se casar novamente, para que não ficasse desamparada e pudesse, ao menos, ter a possibilidade de reconstruir a sua vida.
Um outro propósito do que encontramos em Deuteronômio 24 é que essa lei também funciona como um limite contra a banalização do casamento. Pois, ao estabelecer que o homem não poderia tomar de volta a mulher depois de ter se separado dela e ela ter se relacionado com outro, a lei colocava um peso sobre a decisão do divórcio. Ou seja, não era algo reversível. Não havia como simplesmente descartar a esposa, “testar a possibilidades da vida” e depois voltar atrás.
Havia, portanto, um chamado à responsabilidade. O homem precisava entender que, ao romper aquela aliança, ele estava tomando uma decisão definitiva. A lei, nesse sentido, não apenas protegia a mulher, mas também confrontava irresponsabilidade de um coração disposto a tratar o casamento como algo descartável.
Por certo, o que o texto da lei tratava — o que ele pretendia — não era incentivar o divórcio. Pelo contrário, reconhecendo que o divórcio acontecia por quaisquer motivos, a lei visava tanto para proteger a mulher, como para impedir a banalização do casamento.
No entanto, com o passar do tempo, aquilo que tinha como objetivo minimizar o dano causado pela maldade do coração humano acabou sendo pervertido. A lei, que foi dada como uma forma de proteção, passou a ser usada como justificativa. Não demorou muito para que começassem as discussões sobre o que, de fato, essa lei pretendia dizer.
E, no centro desses debates, os religiosos se apegaram a apenas uma parte do texto. E em meio a tantas discussões, eles se questionavam o que significava de “algo indecente” em Deuteronômio 24.
Alguns entendiam que a lei tratava de pecados sexuais, como o adultério. Outros passaram a interpretar de maneira muito mais ampla, o que levou muitos a se divorciarem por qualquer motivo — desde discussões e discordâncias até coisas banais, como queimar ou estragar uma refeição.
Se um homem não estivesse satisfeito, se aquela relação já não fosse mais conveniente, bastava encontrar uma justificativa qualquer, entregar a certidão de divórcio exigida pela lei e seguir a sua vida como se nada tivesse acontecido
No fim, a lei que havia sido dada para proteger a mulher, para evitar que ela fosse simplesmente descartada, acabou sendo usada como base para que agora ela fosse descartada, porém com o disfarce de que a lei de Deus estava sendo cumprida.
O problema do problema
O problema do problema
Diante de tudo isso, Jesus responde:
Mas eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério.
Novamente, Jesus não está contrariando nem trazendo algo novo à lei. Pelo contrário, Ele aponta para a mesma direção que a lei sempre apontou, que é: Quando um homem decide se divorciar de uma mulher sem que haja um motivo real e sério (como imoralidade sexual), ele não está apenas encerrando o relacionamento, ele está gerando consequências desastrosas e irreversíveis.
Lembremos que no caso de um divórcio, a mulher já se encontra em uma posição vulnerável. No entanto, aqui nesse texto, Jesus afirma que ela é colocada em uma situação ainda mais delicada, pois, se dentro daquela cultura, para sobreviver, era necessário a mulher se casar novamente, o que Jesus afirma, é que nesse caso, uma nova relação não resolveria o problema, porque, diante de Deus, a aliança anterior não foi rompida de forma legítima. Ou seja, aos olhos de Deus, aquela mulher ainda é casada.
O que Jesus está expondo é que, ao abandonar a sua esposa por qualquer motivo que não seja justo, o marido acaba colocando essa mulher em uma situação ainda mais grave. Porque, ao tentar reconstruir a sua vida por meio de um novo casamento, aquela mulher é tida como uma adúltera — não porque decidiu isso por si mesma, mas por causa da decisão que foi tomada contra ela sem levar em consideração as consequências que ela sofreria.
Em outras palavras, ser “liberada” para iniciar um novo matrimônio não seria uma solução, mas sim um agravamento do problema.
Com isso, Jesus chama a nossa atenção para o fato de que o rompimento de uma aliança nunca é algo isolado. Ele sempre gera consequências que vão além da decisão. E é exatamente aqui que nós precisamos entender como tudo isso se conecta com aquilo que Jesus vem ensinando desde o início do Sermão do Monte.
Descartáveis
Descartáveis
Afinal, esse texto não está isolado. Ele faz parte de uma sequência — e de uma sequência muito bem construída. Depois das bem-aventuranças, depois de Jesus falar sobre o sal da terra e a luz do mundo, e depois de afirmar que Ele não veio abolir a lei, mas cumpri-la, Ele passa a nos dar exemplos disso. E, nesses primeiros exemplos, Jesus aponta sempre para o mesmo problema: que não é a lei, nem o seu ensino, mas o nosso coração.
No primeiro exemplo, ao falar sobre o “não matarás” e como isso era entendido, Jesus aponta para um coração que se enche de ira e que, sem puxar o gatilho de nenhuma arma, aprende a eliminar o outro dentro de si. No segundo exemplo, ao falar sobre o “não adulterarás” e o que se entendia, Jesus aponta para um coração que se enche de desejo e de cobiça e que, mesmo sem ir para a cama, aprende a substituir o outro na mente e no coração.
E agora, ao falar sobre o divórcio, Jesus aponta para um coração que já não vê mais valor nos relacionamentos e que, por motivos muitas vezes banais, aprende a descartar o outro independente das consequências.
Nesse ponto, o texto deixa de ser apenas uma explicação e passa a ser um espelho dos nossos dias. Pois vivemos em uma geração acostumada a simplesmente descartar as coisas. Uma geração que rapidamente se desfaz de tudo e de todos. Estamos cercados por uma lógica em que tudo pode ser substituído. Se algo quebra, trocamos. Se não nos agrada mais, jogamos no lixo. Se algo perde a utilidade, descartamos.
A questão é que, sem perceber, passamos a olhar para as pessoas da mesma forma. Até queremos ser tratados como prioridade pelos outros. Queremos ser valorizados. Queremos ser reconhecidos. Mas, se alguém fala algo que não gostamos, se alguém já não é mais útil como era, ou se alguém nos decepciona, estamos prontos para fechar a porta do nosso coração e nos afastar de uma vez por todas dessa pessoa.
Basta uma conversa atravessada entre amigos, uma discussão no grupo do whatsapp da família ou até mesmo, na igreja, basta que as coisas não aconteçam como queremos, que já estamos prontos para abandonar tudo e procurar algo ou alguém que possa substituir o que deixamos para trás.
Sabe por que Jesus usa o divórcio como exemplo? Porque aqui Ele não está falando de qualquer relação, mas sim do casamento — uma instituição criada pelo próprio Deus, e que o próprio Deus ama e valoriza. E, ainda assim, mesmo sendo algo tão sério, o coração humano consegue chegar ao ponto de desvalorizar, de ir embora e de desistir.
O divórcio é usado como exemplo nesse texto para um padrão que se manifesta em diversas áreas das nossas vidas, como: amizades, família, trabalho e até mesmo igreja.
Jesus expõe a maneira como o coração humano desvaloriza o relacionamento com o próximo, não só a ponto de abandonar, mas também de não levar em consideração as consequências desse ato.
E isso fica claro quando olhamos para as duas ocasiões em que Jesus trata sobre o assunto do divórcio: aqui em Mateus 05 e, mais à frente, em Mateus 19. Nos dois momentos, Jesus usa o mesmo argumento, mas a ênfase é diferente.
Em Mateus 19, a ênfase está no homem que decide se divorciar por qualquer motivo e, ao se casar novamente, ele é tido como adúltero. Mas, aqui em Mateus 05, o foco não está apenas na decisão do homem em romper o relacionamento, mas nas consequências dessa decisão. Pois, ao fazer isso, o homem torna a sua mulher uma adúltera e, se ela se casa novamente, o outro com quem ela se casa, também é considerado um adúltero.
Ou seja, em Mateus 05, a questão não é somente abandonar, mas também o que o abandono causa no outro. Aqui não estamos falando apenas de romper um relacionamento, mas de como isso pode ferir e dificultar a vida do próximo.
Estamos preocupados demais com os nossos sentimentos. Estamos presos nos nossos achismos e não levamos em consideração a forma como excluímos os outros e como isso afeta as pessoas. A gente se acostumou a olhar tudo a partir de nós mesmos: do que sentimos, do que pensamos, do que queremos. E, quando as pessoas deixam de se encaixar nisso, então a gente se afasta.
Para piorar,transformamos a lógica do descarte em uma espécie de teologia do descarte. Porque, dentro das nossas igrejas, muitas vezes fazemos a mesma coisa. Se alguém já não serve no nosso ministério como antes, a gente afasta. Se alguém fala algo que não nos agrada, a gente fecha o coração. Se alguém pensa diferente, a gente bloqueia. E, sem perceber, vamos cooperando para a divisão no corpo de Cristo, onde só permanece quem concorda, quem nos agrada e quem não nos confronta.
Pastor bom é aquele que passa a mão na cabeça. Igreja boa é aquela que não fala tanto sobre o pecado. Quando menos se espera, agimos como os religiosos da época de Jesus. Usamos a Bíblia para justificar esse nosso espírito de rebelião e divisão. Memorizamos versículos e os tiramos de seus contextos, repetimos frases de grandes teólogos, mas, no fundo, não é zelo pela verdade. É apenas um coração que não quer ser confrontado, um coração que não quer lidar com o outro, um coração que prefere se afastar a permanecer.
A questão não é apenas romper relações. A questão é que rompemos como se não houvesse consequências. O ponto que Jesus nos traz não é apenas uma atitude errada, mas um coração que deixou de considerar o outro. Um coração que já não ama o suficiente para permanecer.
Um Deus que não desiste
Um Deus que não desiste
Agora, e se Deus nos tratasse da mesma forma que nós tratamos as pessoas? E se, diante das nossas falhas, das nossas incoerências, das nossas quedas, Ele simplesmente decidisse se afastar? E se, por algum motivo que, aos nossos olhos, parece pequeno, Deus resolvesse virar as costas? E se Deus resolvesse nos abandonar?
Se existe alguém que teria motivos para agir assim, esse alguém seria Deus. Porque fomos nós que quebramos a aliança, fomos nós que fomos infiéis, fomos nós que nos afastamos. Fomos nós que vivemos como se Deus não fosse prioridade, como se Ele não tivesse importância. Fomos nós que o deixamos de lado.
E, ainda assim, Deus não fez isso. Ele não virou as costas, Ele não se afastou. Deus não nos descartou. Ele fez exatamente o oposto.Enquanto nós nos afastávamos, Ele decidiu se aproximar. Enquanto nós rompíamos a aliança, Ele decidiu restaurar todas as coisas.
No exemplo que Jesus dá, nos v.31 e 32, o homem rompe a aliança e deixa a outra parte com as consequências. Porém, Deus conosco, faz exatamente o contrário. Ele não é quem rompe, mas quem decide permanecer. E, ao invés de nos deixar com o peso daquilo que nós causamos, é Ele quem assume as consequências.
Se nós somos alcançados por esse Deus que não desistiu de nós, como podemos continuar tratando as pessoas como descartáveis? Se Deus não virou as costas quando nós falhamos, se Ele não se afastou quando nós nos afastamos, por que fazemos isso com tanta facilidade?
A obra de Jesus na cruz não apenas nos reconcilia com Deus, como também transforma a maneira como nós nos relacionamos com os outros. Paulo escreve em 2 Coríntios 05.18:
Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação,
Não fomos apenas reconciliados com Deus, fomos também chamados a viver a reconciliação. Precisamos viver de uma forma diferente. Precisamos não desistir com tanta facilidade. Precisamos parar de descartar as pessoas tão facilmente. Aquele que foi alcançado por um Deus que não desiste precisa aprender a não desistir também.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 03 de maio de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (São Paulo-Noite)
Por Alex Amaral
Soli Deo Gloria
