A batalha do coração
O Evangelho do Rei • Sermon • Submitted • Presented
0 ratings
· 5 viewsNotes
Transcript
Texto base:
“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’. Mas eu lhes digo: Qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. Se o seu olho direito o fizer pecar, arranque-o e lance-o fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ser todo ele lançado no inferno. E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno.
Os olhos do Senhor...
Os olhos do Senhor...
“—Vigia, pois os olhos do Senhor estão em todos os lugares!”
Seja quando eu morava na casa dos meus pais, ou quando eu comecei a namorar, ou até mesmo hoje, com dois filhos e sendo pastor de uma igreja, essa é uma frase que eu sempre ouvi — e continuo ouvindo — da minha mãe. Independente se eu estava indo para a escola, para o trabalho ou até mesmo para a igreja, ao me despedir, eu sempre ouvia: “Vigia, pois os olhos do Senhor estão em todos os lugares!”
Saber que Deus é onipresente — ou seja, que Ele está em todos os lugares — faz parte daquilo que nós cremos sobre quem Deus é.
Porém, por vezes, tratamos essa verdade como se fosse algo distante do nosso dia a dia. Acreditamos que Deus nos vê quando estamos em sua casa, reunidos com a sua igreja. Acreditamos que Deus nos vê quando oramos, quando dobramos os nossos joelhos. Até cremos que Deus nos vê quando estamos sofrendo.
Mas, no dia a dia, muitas vezes vivemos como se essa verdade tivesse limites. Porque, se ninguém está vendo, se a porta está fechada, se o histórico do navegador pode ser apagado, nós agimos como se Deus também não estivesse vendo. No final, cremos de uma forma, mas vivemos de outra.
Assim também as pessoas na época de Jesus faziam. No entanto, quando prestamos atenção naquilo que a Bíblia nos ensina, podemos perceber sim, que os olhos do Senhor estão em todos os lugares, e Ele não enxerga apenas as nossas ações externas, mas também enxerga aquilo que nenhum olho humano pode ver.
Jesus, o verdadeiro mestre da Lei
Jesus, o verdadeiro mestre da Lei
Nesse trecho do sermão do monte, Jesus investe o seu tempo em corrigir a maneira como era entendida a Lei de Deus pelas pessoas de sua época. É sempre bom reforçar que Jesus não está anulando nem contradizendo a Lei, mas sim, se opondo a interpretação superficial e tendenciosa que muitos faziam.
Nesse caso, Jesus coloca em xeque o falso entendimento do sétimo mandamento: “Não adulterarás” (Êx 20.14; Dt 05.18). Novamente, com o tempo, esse mandamento passou a ser reduzido a algo meramente externo. Algo visível. Algo comportamental. Ou seja, aquilo que podia ser percebido pelos outros.
Se uma pessoa não chegasse às vias de fato — se não se deitasse com alguém que não fosse seu cônjuge — então, na mente deles, estava tudo certo.
Adultério no coração
Adultério no coração
É exatamente esse tipo de mentalidade e compreensão que Jesus corrige quando diz:
...Qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração.
Assim como nos v.21 e 22, Jesus aprofunda o seu ensino e não olha apenas para o comportamento, mas vai direto à raiz do problema. É importante entender que Jesus não está falando de um olhar casual. Não é simplesmente perceber ou notar alguém. Não é sobre algo que acontece de forma rápida e que passa. O que Jesus está tratando aqui é de um olhar que se mantém, um olhar com intencionalidade, um desejo que é alimentado. Não é algo momentâneo, é algo que acontece dentro de nós e nos faz continuar.
É aqui que Jesus afirma que o pecado já aconteceu. Antes de qualquer atitude externa, antes de qualquer comportamento visível, Jesus afirma que o pecado não só já foi cometido, como fez morada em nosso coração.
Aquilo que Jesus corrige em seu ensinamento, muda completamente a maneira como era enxergado e como nós enxergamos esse mandamento hoje. Porque, até aqui, alguém poderia dizer: “Eu nunca fiz isso!”. No entanto, à luz do que Jesus está falando, podemos compreender que aquilo que é visível, só se tornou assim pois antes, foi cultivado internamente no coração do homem.
O tipo de desejo que Jesus está tratando aqui funciona como uma espécie de substituto. A pessoa pode não estar nos seus braços, mas já está na sua mente. Talvez seja alguém que nem te conheça, alguém que nem tenha contato contigo, que more em outro lugar do mundo e que fale outra língua. Mas, por causa dos seus pensamentos e do desejo do seu coração, algo já aconteceu — é o que Jesus está falando. Pode não ter acontecido externamente, mas já está sendo vivido internamente.
Ninguém escapa
Ninguém escapa
E é aqui, nesse ponto, que o ensino de Jesus alcança a todos nós. Porque, nesse nível, ninguém está completamente livre. Seja casado, noivo, namorado ou solteiro, Jesus está expondo um tipo de desejo que, por conta do pecado, alcança a todos nós. Não se trata de uma situação isolada, nem de um erro específico de algumas pessoas. Trata-se de algo que faz parte da nossa condição. E, se formos honestos, chegaremos à conclusão de que todos nós estamos suscetíveis ao pecado, pois existe em nós uma inclinação para isso.
O problema do ser humano não é apenas aquilo que ele faz, como se, ao ler alguns livros ou passar por uma reprogramação mental, tudo fosse resolvido. O problema do ser humano é quem ele é. Nós não pecamos apenas porque, em alguns momentos, escolhemos errar. Nós pecamos porque existe em nós uma inclinação para o pecado. É claro que isso não pode ser usado como desculpa, como se estivéssemos errando sem perceber ou sem termos consciência disso. Pelo contrário, até mesmo os mais cruéis, sanguinários e frios sabem aquilo que é errado.
Existe uma guerra acontecendo dentro de nós. E uma das coisas mais perigosas que podemos fazer é subestimar essa batalha. Vivemos hoje em uma sociedade extremamente erotizada. Tudo ao nosso redor parece cooperar com esse tipo de desejo que Jesus está denunciando nesse texto.
Você liga a televisão e dificilmente passa muito tempo sem se deparar com uma cena carregada de apelo sexual. Você abre o celular, rola a tela e, em poucas postagens, você se depara com vídeos e fotos terrivelmente escandalosos. O corpo de homens e mulheres passou a ser exposto de maneira cada vez mais natural.A nudez deixou de causar estranhamento. A vulgaridade passou a ser tratada como algo normal. E tudo isso vai moldando a nossa percepção do mundo.
Hoje em dia, em muitos ambientes, isso já é algo esperado. Se você vai a uma academia, por exemplo, não é apenas normal expor o corpo, como também parece existir uma pressão para que isso aconteça. As roupas estão cada vez mais curtas, cada vez mais justas, e tanto homens quanto mulheres procuram chamar a atenção o tempo todo.
Na junção academia/internet, isso se intensifica, porque as pessoas não apenas treinam, mas sentem a necessidade de registrar, filmar e postar.Muitas vezes, esses registros são feitos em ângulos e posições que, sob a desculpa de mostrar o progresso do treino, acabam contribuindo para essa cultura em que a sensualidade deixa de ser exceção e passa a ser o padrão.
Embora esse seja um problema dos nossos dias, a verdade é que o nosso maior inimigo não está fora. O nosso maior inimigo não é nem mesmo o diabo. O nosso maior inimigo é o pecado que habita em nós. É a inclinação que carregamos, é o desejo que muitas vezes se encontra no nosso próprio coração.
Por certo, o trabalho do nosso inimigo é fazer com que, ao observarmos tudo o que acontece ao nosso redor, passemos a tratar o pecado como algo comum. Olhamos para os programas na televisão, para as séries nos streamings, para as redes sociais e, aos poucos, baixamos a guarda. Daquilo que deveríamos fugir, nos aproximamos e tratamos como normal.
Passamos a pensar que “é só um pensamento”, pensar que “não tem problema nenhum imaginar”. E é exatamente assim que essa luta vai sendo perdida. Não porque, dessa vez, o pecado se apresentou de forma escancarada, mas porque ele foi sendo aceito de forma silenciosa.
Diante de tudo isso, Jesus não nos chama a aceitar essa realidade como algo normal. Ele não nos ensina a conviver como se o pecado fosse inevitável. Pelo contrário, Ele nos mostra que essa luta precisa ser levada a sério. E, nesse texto, Jesus nos aponta pelo menos três atitudes que precisam fazer parte das nossas vidas.
Tenha consciência!
Tenha consciência!
A primeira atitude é estar consciente daquilo que te leva ao pecado. Jesus diz: “Se o seu olho direito o fizer pecar... se a sua mão direita o fizer pecar...”. Sabemos que o nosso coração é inclinado ao pecado, isso é uma realidade. Mas, ainda assim, existem coisas que alimentam isso. Existem caminhos que facilitam o pecado. Existem ambientes que incentivam o pecado. Existem hábitos, nas nossas vidas, que fortalecem o pecado.
Nessa batalha, a primeira coisa que precisamos é sermos conscientes e honestos com aquilo que há em nossas vidas que nos leva a pecar. Muitas vezes nós sabemos onde está o problema, mas nós escolhemos ignorar.
O que tem alimentado esse desejo? O que tem feito esse tipo de pensamento crescer dentro de você? Enquanto não houver uma consciência verdadeira, não haverá mudança.
Aja de forma radical!
Aja de forma radical!
A segunda atitude é decidir agir de forma radical. Jesus usa palavras extremamente fortes: “Se é o seu olho direito que o faz pecar, arranque-o.Se é a sua mão direita que o faz pecar, corte-a”. É claro que Ele não está falando de forma literal. Jesus não está nos ensinando a mutilação física.
O que Ele está expondo é a seriedade do pecado e a forma como nós devemos lidar com ele. R. C. Sproul, comentando esse texto disse: “um problema radical exige uma solução radical.”
Se compreendemos que existe uma guerra no nosso interior, se sabemos que o pecado não é algo superficial ou que pode ser administrado com facilidade, precisamos entender que não podemos abrir espaço para negociação.Não podemos acreditar que será possível aprender a conviver ou equilibrar a nossa vida entre o pecado e a santidade. O que Jesus espera de nós é uma decisão radical. Se algo nos leva a pecar, então isso precisa ser tratado.
Se uma amizade te puxa para longe de Deus, corte o relacionamento.Se as redes sociais alimentam esse tipo de desejo, desinstale o aplicativo. Se são alguns influenciadores que moldam a sua mente, pare de seguir. Se são certos conteúdos que você consome, bloqueie-os. Se são conversas que você mantém, então pare de dar ouvidos.
O que você precisa entender é que essas coisas não são neutras. Elas estão formando você. Elas estão alimentando algo dentro de você. Se formos sinceros, sabemos o que nos leva a cair. Sabemos quais são os ambientes, os hábitos, os caminhos. O problema é que, muitas vezes, não queremos abrir mão. Queremos vencer o pecado sem abandonar aquilo que alimenta o pecado.
No entanto, seguir a Cristo envolve renúncia. E essa renúncia sempre nos levará a decisões difíceis. Será algo que vai nos custar. Será algo que vai doer. Será algo que vai nos colocar na contramão do mundo. Mas, ainda assim, é necessário.
Enquanto não houver disposição para cortar aquilo que precisa ser cortado, para deixar aquilo que precisa ser deixado, o pecado continuará encontrando espaço dentro de nós. Novamente, um problema radical exige uma solução radical.
Saiba para onde o pecado te levará!
Saiba para onde o pecado te levará!
E então chegamos à terceira atitude que é tenha em mente onde o pecado pode te levar.
Pelo fato de vivermos tão focados nesta vida, a gente acaba esquecendo que existe algo depois dela. Pensamos no agora, queremos viver o momento, realizar os nossos sonhos, cumprir as nossas vontades, mas dificilmente pensamos no fim de tudo isso. Porém, Jesus é muito claro nesse texto. O olho que nos leva a pecar, se não for arrancado e lançado fora, nos levará ao inferno.
Jesus não está utilizando uma linguagem exagerada ou meramente ilustrativa. Em nossos dias, muitas vezes, o inferno é visto de forma distorcida. Alguns o utilizam apenas como recurso para provocar medo, outros tratam como algo distante e simbólico. Mas, à luz do ensino de Jesus, não há espaço para nenhuma dessas posturas.
O inferno é um lugar onde não há esperança, não há alívio e não há retorno. É um lugar que está eternamente debaixo do justo juízo de Deus. Um lugar de condenação eterna. O inferno é um destino real, mesmo para aqueles que tratam a gravidade do pecado como mentira.
Ainda assim, não é tudo
Ainda assim, não é tudo
Porém, será que essas três atitudes seriam suficientes? A verdade é que todo aquele que já tentou resolver o problema do pecado em sua vida com as próprias forças certamente chegou à conclusão de que não. Se formos sinceros — e a Bíblia não esconde isso de nós —, por mais que seja necessário tratar o pecado com seriedade, isso, por si só, não resolve o problema.
Existe, sim, uma responsabilidade que é toda nossa. Somos chamados a lutar contra o pecado e, como aprendemos nas palavras de Jesus, devemos agir com radicalidade. Porém, como compreendemos no início desse sermão, o problema do pecado não está apenas no que fazemos. O problema está na nossa própria natureza.
E é nesse ponto que o evangelho entra. Porque, da mesma forma que somos chamados a tratar o pecado com seriedade, quando olhamos para a história da salvação, vemos que Deus também tratou o pecado com seriedade.Cortar e arrancar das nossas vidas aquilo que nos leva a pecar ainda não resolve o problema do nosso coração pecaminoso. É por esse motivo que Deus lançou, sobre a cruz de Cristo, a sua santa Ira. A condenação que nós merecíamos, Cristo assumiu.
Por mais que esse texto foque naquilo que nós devemos fazer, toda a história do evangelho nos leva a compreender que existe uma quarta e última atitude que devemos ter: leve o seu pecado à cruz de Cristo.
Existem coisas que exigem a nossa ação. Existem momentos na nossa vida em que devemos guerrear e precisamos dizer não. Porém, a todo instante, precisamos estar conscientes de que devemos lançar os nossos pecados na cruz.
Sem a cruz, toda tentativa de mudança se torna apenas esforço humano. Sem a cruz, podemos mudar alguns hábitos, mas não o nosso coração. Sem a cruz, podemos até controlar alguns comportamentos, mas não podemos transformar os nossos desejos. Sem a cruz, podemos cortar aquilo que nos faz pecar, mas o pecado ainda continua vivo dentro de nós.
Na cruz, Deus tratou o pecado de forma definitiva. Aquilo que nós não conseguimos vencer, Cristo venceu. A culpa que era nossa foi colocada sobre Ele. O santo e justo juízo de Deus foi satisfeito no sacrifício do seu Filho.
A nossa esperança não está no que podemos fazer contra o pecado — afinal, essa é uma obrigação de quem entende a seriedade e a gravidade d que fazemos. A nossa esperança está no que Cristo fez por nós.
A questão não é apenas arrancar o olho direito ou cortar fora a mão direita. Nós necessitamos de uma cirurgia espiritual. E é exatamente isso que Tiago escreve:
Portanto, submetam-se a Deus. Resistam ao Diabo, e ele fugirá de vocês. Aproximem-se de Deus, e ele se aproximará de vocês! Pecadores, limpem as mãos, e vocês, que têm a mente dividida, purifiquem o coração. Entristeçam-se, lamentem-se e chorem. Troquem o riso por lamento e a alegria por tristeza. Humilhem-se diante do Senhor, e ele os exaltará.
O Deus que tratou o pecado com seriedade nos chama a agir da mesma forma. Certamente a força que precisamos para vencer vem dEle, assim como também a nossa vitória.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 26 de abril de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (São Paulo-Noite)
Por Alex Amaral
Soli Deo Gloria
