Tal Pai, tal filho

O Evangelho do Rei  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 3 views
Notes
Transcript
Texto base:
Matthew 5:43–48 NVI
“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa vocês receberão? Até os publicanos fazem isso!E se saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês.

Tal pai, tal filha

Toda vez que eu busco as crianças na escola, eu sempre pergunto como foi o dia delas. Só que eu comecei a perceber, um tempo atrás, que quando eu perguntava para a Rafa como foi o dia dela, muitas vezes ela simplesmente não queria falar. Fechava a cara, ficava emburrada e não respondia quase nada. E, mesmo assim, eu insistia.
Às vezes, passava o caminho inteiro tentando fazer ela conversar, até que aquilo começava a me irritar. Afinal, a gente é pai. A gente quer saber o que está acontecendo com os nossos filhos.
Até que um dia, depois de brigar com ela por causa disso, eu senti Deus trazendo algo muito claro ao meu coração.
Deus me fez lembrar que, muitas vezes, quando eu estou sozinho no carro, eu gosto de desligar tudo e ficar em silêncio. Não porque eu não goste de música, podcast ou pregação, mas porque existem dias e momentos da nossa vida em que a cabeça está tão cheia que a única coisa que a gente quer, e precisa, é silêncio.
Naquele momento, eu percebi uma coisa: eu estava exigindo dela, da Rafaela, algo que eu detestaria que alguém exigisse de mim.
É interessante como os nossos filhos se parecem conosco, até mesmo nas coisas que nunca paramos para ensiná-los diretamente. Talvez o simples fato da convivência, do relacionamento e da proximidade faça com que eles sejam expostos constantemente aos nossos exemplos, a ponto de que, sem perceber, aquilo que eles veem em nós comece, aos poucos, a fazer parte da vida deles também.
Afinal, não é estranho. Filhos se parecem com os seus pais, não apenas na aparência, mas muitas vezes no jeito de falar, nas reações, nos comportamentos, nas manias e até na forma como enxergam a vida.
Ao longo do Sermão do Monte, Jesus vem mostrando que aqueles que fazem parte do Reino de Deus devem viver segundo um padrão completamente diferente. Jesus chegou a dizer que a justiça dos seus discípulos deveria exceder em muito a dos fariseus e dos mestres da lei.
E é então que, no capítulo 5, vemos Jesus apresentar diversos exemplos em que o cidadão do Reino é chamado a viver além de uma aparência religiosa. Lembremos que, até aqui, Jesus já falou sobre ira, adultério, vingança, falsidade e tantas outras coisas que revelam não apenas as nossas atitudes, mas principalmente o nosso coração.
Porém, no texto dessa noite, chegamos talvez ao exemplo mais difícil de todos, porque aqui Jesus não está falando apenas sobre como nós devemos agir. Aqui Jesus está mostrando com quem devemos parecer.

Subtrações e adições

Matthew 5:43 NVI
“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’.
Assim como nos outros exemplos que vimos nas últimas semanas, Jesus novamente coloca diante de nós aquilo que era ensinado e compreendido pelos religiosos da sua época. Nesse texto, duas coisas nos chamam a atenção: uma subtração e uma adição.
Pode ser que, para algumas pessoas, o mandamento de “amar o próximo” pareça algo exclusivamente do Novo Testamento. No entanto, isso já fazia parte da lei dada por Deus ao seu povo na antiga aliança, como vemos emLevítico 19.18. E é exatamente nesse texto que percebemos a maneira como os religiosos dos dias de Jesus omitiam algo que a própria lei ordenava.
Porque a questão nunca foi apenas “ame o seu próximo”. Deus sempre deu ao seu povo um padrão de amor. E o padrão estabelecido em Levítico 19.18 era: “como a si mesmo”. Ou seja, isso não era um pequeno detalhe.
Amar alguém como a si mesmo significa tratar o outro com a mesma disposição, misericórdia, cuidado e paciência que normalmente temos conosco. Significa desejar ao outro aquilo que normalmente desejamos para nós mesmos.
Jesus, inclusive, em alguns momentos nos evangelhos, reforça exatamente esse mandamento como um dos maiores de toda a lei. O problema é que, quando esse padrão desaparece ou é omitido, como aconteceu nos dias de Jesus, o amor começa a perder profundidade. Nesse caso, o amor deixa de ser misericordioso e abrangente para se tornar algo superficial e limitado.
Porém, aquilo que era compreendido e ensinado nos dias de Jesus continha também um acréscimo à lei: “odeie o seu inimigo”.
Em nenhum momento das Escrituras encontramos uma ordem de Deus para que o seu povo odiasse os seus inimigos.
O que aconteceu foi que, quando o amor perde a profundidade que Deus estabeleceu, inevitavelmente começamos a criar limites para esse amor. E quando começamos a definir quem merece o nosso amor, automaticamente também começamos a definir também quem merece o nosso desprezo.
Quando o “como a ti mesmo” desaparece, o amor se torna cada vez mais restrito. Pouco a pouco, o amor deixa de alcançar qualquer pessoa diante de nós e passa a alcançar apenas aqueles que se parecem conosco, concordam conosco e nos fazem o bem.
Ou seja, aquelas pessoas haviam transformado o mandamento de Deus em algo extremamente pequeno e cômodo. O amor agora possuía fronteiras, categorias e exceções.

Amar e orar por quem?!

É então que Jesus destrói completamente essa lógica.
Matthew 5:44 NVI
Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem,
Eu acredito que, para muitos de nós, seja difícil perceber o peso dessas palavras, porque, de alguma forma, já estamos acostumados a ouvi-las.Porém, principalmente para os dias de Jesus, isso era um absurdo.
Para um judeu daquela época, inimigos poderiam ser os romanos, que subjugaram a nação. Poderiam ser os gregos, que influenciavam a cultura. Poderiam ser os samaritanos, que acreditavam ser o verdadeiro povo de Deus. Ou até mesmo as facções dentro do próprio sistema religioso, como fariseus, saduceus e tantos outros.
A questão é que Jesus não está apenas mandando amar pessoas difíceis. Jesus manda amar os próprios inimigos. Pessoas que perseguem, pessoas que machucam, pessoas que desejam o nosso mal. E, como se isso não bastasse, Jesus eleva ainda mais o padrão: “Orem por aqueles que perseguem vocês.”
É interessante porque, entre todos os exemplos que Jesus apresentou até aqui no Sermão do Monte, essa é a única vez em que Ele manda orar. Nas outras situações, Jesus falou sobre atitudes, ações e comportamentos. Mas aqui Jesus leva tudo para um lugar muito mais profundo.
Porque, querendo ou não, a oração torna tudo mais pessoal. Normalmente levamos diante de Deus aquilo que amamos. Oramos pelos nossos filhos, pela nossa família, pelos nossos amigos, pelos nossos sonhos e pelas coisas que consideramos importantes.
Mas Jesus pega justamente as pessoas que queremos manter distante, querendo esquecer e até mesmo apagar das nossas vidas, e nos manda colocá-las diante de Deus. E nesse ponto, chegamos finalmente ao coração do texto.

Espelho quebrado

É interessante — e de se esperar — que aquilo que mais nos choca nessa passagem é exatamente a ordem de Jesus para amar os inimigos. Quando chegamos nesse trecho, imediatamente pensamos: “Como alguém pode fazer isso? Como amar quem me feriu? Como amar quem me machucou? Como amar quem deseja o meu mal?”
Sem perceber, começamos a acreditar que o foco principal do nosso texto é apenas a atitude que Jesus exige de nós. Como se a coisa mais importante aqui fosse simplesmente amar os inimigos, orar por quem nos persegue ou, em outras palavras, agir de maneira diferente.
No entanto, quando olhamos com atenção para as palavras de Jesus, percebemos que o coração desse texto vai além daquilo que nós fazemos. O ponto central aqui não é apenas uma questão de comportamento, mas uma questão de identidade.
Matthew 5:45 NVI
para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus...
Perceba que Jesus não está apenas estabelecendo novas regras de conduta para os seus discípulos. Jesus está mostrando com quem aqueles que pertencem ao seu Reino devem parecer.
Foi exatamente nesse ponto que eu comecei a pensar em como, muitas vezes, ficamos tão chocados com a ideia de amar os inimigos, acreditando que essa exigência de Jesus é absurda ou impossível, que já não nos entristecemos mais com o fato de não sermos parecidos com o nosso Pai. Nós nos impressionamos com a exigência do texto, mas já não sentimos o peso da distância entre o nosso coração e o caráter de Deus.
No fundo, muitas vezes estamos mais preocupados com aquilo que fazemos ou deixamos de fazer do que com aquilo que estamos nos tornando.
O ensino de Jesus nunca foi apenas sobre comportamento. Tudo aquilo que Jesus nos ensinou até aqui não pode se resumir apenas ao “faça”ou “não faça”. Jesus não veio para produzir pessoas religiosas que aprenderam a controlar as suas atitudes externas quando é necessário ou quando é conveniente. Jesus veio para, através do seu sacrifício, nos possibilitar sermos filhos parecidos com o Pai que está nos céus.
Talvez uma das estratégias de satanás mais eficazes no nosso tempo, seja a crise de identidade que estamos vivendo. Se prestarmos atenção ao nosso redor, perceberemos que as pessoas estão perdidas.
Afinal, o diabo nem sempre trabalha nos levar a fazer a coisa errada. Muitas vezes, ele se contenta em nos manter presos apenas à aparência daquilo que é certo. Porque existe uma grande diferença entre aprender a fazer e se tornar alguém transformado por Deus.
Os religiosos da época de Jesus, por exemplo, sabiam exatamente o que fazer. Eles conheciam a lei, conheciam os mandamentos, sabiam aquilo que era permitido e aquilo que era proibido, mas definitivamente não eram parecidos com o Pai.
Na vida cristã existem alguns perigos, e talvez um dos maiores seja quando nos tornamos especialistas em comportamento, mas permanecemos distantes quando se trata da nossa verdadeira identidade. Pois, a vontade de Deus nunca foi apenas produzir pessoas que sabem agir corretamente em determinados momentos.
Eu posso dizer por mim mesmo, com toda a certeza: eu não desejo que os meus filhos ajam com justiça vez ou outra. Não desejo que eles demonstrem amor apenas quando estão interessados. Não quero que pratiquem misericórdia apenas quando convém. Como pai, eu desejo que os meus filhos sejam pessoas justas. Desejo que eles sejam pessoas amorosas. Desejo que eles sejam pessoas misericordiosas.
Esse é o mesmo sentimento no Reino de Deus. Porque Deus não quer transformar apenas aquilo que fazemos. Deus quer transformar quem nós somos e nos tornar parecidos com Ele.
Em nosso texto, Jesus nos mostra um exemplo de como o Pai é. Ele é aquele que faz raiar o seu sol sobre maus e bons. É aquele que derrama a sua chuva sobre justos e injustos.
Jesus nos mostra que o Pai ama com um amor que não funciona segundo a lógica humana. O Pai continua sendo gracioso até mesmo com pessoas que não merecem. Porém, é o v.48que encerra esse bloco — que também merece a nossa atenção.

Perfeito como Ele é

Matthew 5:48 NVI
Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês.
Lidar com esses últimos versículos de Mateus 5 parece, muitas vezes, algo irreal e até assustador. Porque, depois de mandar amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem, Jesus parece ir além daquilo que conseguiríamos imaginar. Afinal, como alguém poderia ser perfeito como Deus é perfeito?
Talvez, em primeiro lugar, precisamos ter a certeza de que Jesus não está delirando e nem sendo injusto, exigindo que nos tornemos pessoas impecáveis, que nunca erram ou falham. Ao dizer para sermos perfeitos como o Pai é perfeito, Jesus usa um termo grego — τελειος —muito mais ligado à ideia de maturidade e integridade do que à perfeição inalcançável de Deus.
Esse texto é um chamado para que os filhos cresçam e amadureçam a ponto de se parecerem com o Pai.
Jesus inicia esse bloco do Sermão do Monte dizendo que a nossa justiça precisa exceder em muito a dos fariseus. Porém, Ele termina essa sessão nos mostrando que o objetivo não é nos tornarmos uma versão atualizada dos mestres da lei e dos religiosos daquela época.
Eu acredito que todo pastor ou pregador erra quando, tendo a oportunidade de se dirigir à igreja, passa o tempo inteiro apenas recitando regras, coisas que devemos ou não devemos fazer. E a verdade é que, muitas vezes, nós até gostamos desse tipo de pregação. Afinal, de certa forma, parece que o controle ainda está nas nossas mãos. Assim, parece que tudo depende daquilo que eu faço ou deixo de fazer.
Jesus poderia ter apenas demonstrado como a nossa justiça deveria exceder em muito a dos religiosos da sua época. E, com isso, ter ficado somente nos exemplos sobre homicídio, adultério, divórcio, juramentos, vingança e sobre amar os inimigos. Mas Jesus vai além, porque o problema nunca foi apenas aquilo que fazemos externamente. O problema sempre foi aquilo que existe dentro de nós.
Os fariseus e os religiosos da época de Jesus sabiam, de certa forma, controlar grande parte do seu comportamento. Sabiam preservar as aparências e construir um certo tipo de reputação religiosa.
Porém, todo o ensino de Jesus aponta para a realidade de que Deus nunca esteve interessado apenas em pessoas externamente ajustadas. O ensino de Jesus sempre aponta para filhos que refletem o caráter do Pai.
Esse é o grande chamado desse texto para as nossas vidas! Não simplesmente aprender a agir melhor em alguns momentos. Não apenas desenvolver um comportamento moralmente aceitável. O chamado de Jesus é para que venhamos amadurecer ao ponto de refletirmos o caráter do Pai.
Eu acredito que existe um lugar em Deus onde agir como Ele se torna algo natural em nossas vidas. Esse é um lugar de maturidade. Um lugar de crescimento, intimidade e proximidade com o Pai.
É um lugar onde aquilo que ouvimos ao longo das últimas semanas e que, por muitas vezes, pareceu impossível, absurdo e até inalcançável, começa, pouco a pouco, a fazer parte de quem nós somos.
Porque, afinal, estamos caminhando tão próximos de Deus, conhecemos tão profundamente o coração do nosso Pai e amadurecemos tanto na nossa vida com Ele, que até mesmo sem perceber começamos a refletir o seu caráter.
O Evangelho nunca teve a intenção de formar pessoas que, domingo após domingo, apenas aprendem regras sobre religião. O Evangelho sempre foi sobre o Pai formando filhos parecidos com Ele. Que sejamos esses filhos!
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 24 de maio de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (São Paulo-Noite)
Por Alex Amaral
Soli Deo Gloria
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.