O pecado que você achou que nunca cometeu
O Evangelho do Rei • Sermon • Submitted • Presented
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Transcript
Texto base:
“Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não matarás’, e ‘quem matar estará sujeito a julgamento’. Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer que disser a seu irmão: ‘Racá’, será levado ao tribunal. E qualquer que disser: ‘Louco!’, corre o risco de ir para o fogo do inferno. “Portanto, se você estiver apresentando sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão; depois volte e apresente sua oferta. “Entre em acordo depressa com seu adversário que pretende levá-lo ao tribunal. Faça isso enquanto ainda estiver com ele a caminho, pois, caso contrário, ele poderá entregá-lo ao juiz, e o juiz ao guarda, e você poderá ser jogado na prisão. Eu lhe garanto que você não sairá de lá enquanto não pagar o último centavo.
Entre coisas e pessoas
Entre coisas e pessoas
Enquanto eu estudava esse texto, comecei a pensar em como nós lidamos de maneira diferente com as coisas e com as pessoas.
Quando eu era mais novo, lembro de ficar impressionado com a capacidade que algumas pessoas tinham de se localizar e de ajudar os outros nesse sentido. Eu lembro que o meu pai guardava no carro um guia com os mapas de toda a cidade. E sempre que alguém perguntava alguma coisa para ele, parecia que todas aquelas informações estavam na mente dele.
Já eu sou uma negação nesse assunto. Se eu preciso ir do ponto A ao ponto B, vou fazer o que muita gente faz hoje: abrir o Waze, colocar o destino e confiar cegamente na rota que o aplicativo me indicar. E eu sei que falo isso e muita gente se identifica. Afinal, nos nossos dias, a gente depende muito mais da tecnologia do que em qualquer outro tempo.
Mas o ponto que me chama a atenção é exatamente esse: como nós lidamos com as coisas e como nós lidamos com as pessoas. Porque, no caso do aplicativo, se eu coloco o destino e, por algum motivo, ele erra a rota ou, no meio do caminho, começa a recalcular, no máximo a gente se estressa ali por alguns segundos e continua seguindo na direção que aparece na nossa tela.
No outro dia, a gente usa o mesmo aplicativo. Na semana seguinte, continuamos confiando nas mesmas informações. E provavelmente continuaremos confiando nesse aplicativo enquanto não surgir outro melhor.
Agora, quando se trata de pessoas, a maneira como nós lidamos é completamente diferente. Afinal, quando alguém erra ou faz algo que nós não gostamos, muitas vezes o que fazemos é exatamente o contrário. Cortamos o vínculo, buscamos apagar essa pessoa da nossa vida e, em muitos casos, começamos a nutrir no nosso coração um sentimento que alimentamos por muito tempo e que certamente não faz bem a ninguém.
Porém, no meio de todo esse processo, aprendemos a lidar com tudo isso. Aprendemos a seguir a vida desse jeito, como se tudo estivesse bem (até que o nome daquela pessoa surge na conversa). E é aqui que nós precisamos voltar para o nosso texto.
Seria uma contradição?
Seria uma contradição?
À primeira vista, pode parecer que Jesus está fazendo exatamente o contrário daquilo que afirmou alguns versículos antes.
Algumas pessoas, por não prestarem a devida atenção — ou até mesmo por serem desonestas com o texto bíblico — acabam lendo esse trecho, juntamente com os blocos que o seguem, como uma oposição escancarada entre o ensino de Jesus e aquilo que a Lei afirmava.
No entanto, precisamos ter em mente duas coisas. A primeira é que o próprio Jesus afirma que a sua missão não é anular, nem substituir o que a Lei e os Profetas dizem. Em outras palavras, Ele é muito claro ao declarar que o seu ensino e o seu propósito não representam uma ruptura com tudo aquilo que encontramos no Antigo Testamento, mas sim o cumprimento (tanto das profecias quanto daquilo que a Lei exigia e apontava).
A segunda coisa à qual precisamos prestar atenção são as fórmulas que Jesus utiliza — e que se repetem até o final do capítulo 5:
“Vocês ouviram o que foi dito…” — v.27,31,33,38,43
“Eu, porém, lhes digo…” — v.22,28,32,34,39,44
Ao usar essas duas fórmulas, precisamos compreender que Jesus não estava se opondo ao que a lei dizia, mas sim àquilo que os religiosos da sua época interpretavam da lei.
Hoje, o que muitos estudiosos afirmam é que, com o tempo, a maneira como a lei era ensinada acabou sendo distorcida.
Em alguns pontos, aqueles homens aumentavam as exigências, criavam novas regras, acrescentavam detalhes que nem estavam no texto. Já em outros, faziam exatamente o contrário: diminuíam o peso daquilo que era mais profundo, reduziam a lei a algo superficial, algo que podia ser medido apenas pelo comportamento externo.
Logo, aquilo que nós encontramos nesse texto, e que nos depararemos nos próximos blocos, não é uma oposição de Jesus à lei, mas uma correção à interpretação da época.
Aquilo que Jesus faz a partir do v.21é uma demonstração clara de que ele não apenas está comprometido com aquilo que foi anunciado aos profetas e dado a Moisés, como também está disposto a revelar a profundidade e a verdade que sempre estiveram na revelação de Deus.
E, dentro dos exemplos que Jesus nos dá, o primeiro é exatamente o sexto mandamento: “não matarás” (Êx 20.13).
“Alguma acontece no meu coração…”
“Alguma acontece no meu coração…”
“Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não matarás’, e ‘quem matar estará sujeito a julgamento’.
Podemos, de maneira segura, concluir que não havia nada de novo para quem estava ouvindo Jesus. Esse era um mandamento conhecido, algo que fazia parte da vida daquele povo, porém a sua compreensão era limitada apenas ao ato de tirar a vida de uma pessoa por meio de uma atitude violenta.
Em outras palavras, enquanto não houvesse um ato concreto — como tirar a vida de alguém com as próprias mãos — acreditava-se e era ensinado que esse mandamento não havia sido quebrado.
Porém, aquilo que Jesus faz logo em seguida é demonstrar que o problema não é simplesmente o ato cruel e violento de tirar a vida de alguém com as próprias mãos.
Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer que disser a seu irmão: ‘Racá’, será levado ao tribunal. E qualquer que disser: ‘Louco!’, corre o risco de ir para o fogo do inferno.
Perceba que, definitivamente, Jesus não está contrariando o que o mandamento diz, mas está demonstrando um nível muito mais elevado. Aqui, Jesus nos mostra que o “não matarás” nunca foi apenas sobre o que as nossas mãos podem fazer, mas sempre foi, antes de tudo, sobre aquilo que está no nosso coração.
Ao corrigir a interpretação comum daquela época, Jesus demonstra que esse mandamento não se trata apenas de algo externo, mas sim de algo interno.Jesus demonstra que, antes do assassinato ocorrer por meio das mãos de uma pessoa, existe um tipo de assassinato que acontece dentro de nós.
É por esse motivo que podemos observar uma progressão intencional de Jesus no nosso texto. Jesus inicia o seu aprofundamento do sexto mandamento apontando para um sentimento que muitas vezes cultivamos dentro do nosso coração: a ira.
A ira aqui não é apenas uma reação momentânea, não é apenas um incômodo passageiro, não é um simples sentimento de indignação. A ira acontece quando o coração começa a se posicionar contra alguém. É quando, dentro de nós, algo começa a mudar na forma como enxergamos determinada pessoa.
A ira é um sentimento que não aparece do nada. É algo que vai sendo construído, vai sendo alimentado, algo que vamos justificando através das nossas atitudes e que, aos poucos acaba tomando uma proporção enorme em nossas vidas.
Esse é o tipo de sentimento que muitas vezes nutrimos no nosso coração e que é responsável não apenas por levar alguém ao extremo de tirar a vida de outra pessoa com as próprias mãos, como também por fazer com que, dentro do nosso coração, venhamos cometer um homicídio.
Eu confesso que, embora não tenha a ver diretamente com esse assunto, para mim é impossível não lembrar da parábola do filho pródigo (Lc 15.11-32). Porque, mesmo com um pai ainda vivo, aquele jovem já havia, de certa forma, “matado” o pai dentro do seu coração. Pois, ao pedir a herança, ele estava dizendo, na prática: “para mim, você já não importa mais! Eu quero aquilo que você pode me dar, mas não você”. E, a partir daquele momento, aquele jovem passa a viver não apenas distante da casa do seu pai, mas como se o seu pai nem existisse mais.
Embora tenhamos tantos avisos sobre esse sentimento nas Escrituras, normalmente — como os religiosos da época de Jesus — buscamos amenizar os efeitos e as consequências da ira. Defendemos que ela faz parte do nosso gênio, ou fez parte da nossa criação, ou que é a única solução para vivermos em uma sociedade como a nossa.
Porém, esquecemos do poder que a ira pode ter no nosso coração. Afinal, ela não é capaz apenas de levar uma pessoa a tirar a vida da outra fisicamente, mas também é capaz de fazer com que, dentro do nosso coração, essa pessoa já não exista mais. A ira redefine a forma como nós enxergamos, como nós tratamos e como nós nos relacionamos com os outros.
E aqui Jesus avança mais um passo, porque a ira não é apenas algo que nós cultivamos ou que só pode ser externalizado através dos nossos atos, mas também algo que é externalizado pelas nossas falas.
Jesus menciona duas palavras que são direcionadas ao próximo e que, de certa forma, soam como um ataque. A primeira palavra é “Raca” (“tolo”). Embora algumas traduções tentem trazer esse termo para o português, dificilmente conseguimos encontrar uma expressão que faça jus ao seu significado.
“Ráca” era uma forma de tratar alguém como vazio, sem valor, alguém que não merece nem mesmo consideração. Já “louco” (insensato), por sua vez, é um ataque direto à pessoa, ao caráter da pessoa e à sua dignidade.
Resumidamente, Jesus mostra que é possível “matar” alguém sem nunca sequer tocar nessa pessoa. É possível cometer um homicídio através das palavras. É possível matar alguém com o nosso desprezo. É possível eliminar uma pessoa quando decidimos, dentro de nós, que ela já não tem valor algum.
Isso não é apenas teoria!
Isso não é apenas teoria!
A gravidade de tudo isso que Jesus está dizendo se torna ainda mais real quando observamos os dois exemplos que ele nos dá.
No primeiro exemplo, dos v.23 e 24, Jesus aponta para algo tão importante quanto o próprio culto. Não são as nossas canções, não são as nossas ofertas e nem muito menos a nossa oração, mas sim algo mal resolvido nos nossos relacionamentos.
O ponto que Jesus nos faz observar, é que não faz sentido para nós, como cristãos, nos apresentarmos diante de Deus enquanto, no nosso coração, temos “assassinado” o nosso próximo. Nos reunimos como igreja, cantamos, oramos, participamos do culto, mas carregamos dentro do nosso coração morte.
Por vezes reclamamos de como as coisas são conduzidas. Acreditamos que a culpa é da equipe do louvor, que deveria ensaiar mais, ou dos voluntários, que deveriam receber melhor as pessoas. Por vezes pensamos que o culto foi frio por causa da pregação do pastor ou porque a igreja não deu liberdade ao Espírito.
Quando, na verdade, o motivo do nosso culto ser morto é a quantidade de pessoas que “matamos” através das nossas palavras e por causa dos nossos sentimentos no decorrer da semana. Não existe um culto vivo, enquanto o nosso coração está cheio de morte. Deus não recebe a adoração dos nossos lábios e das nossas mãos, enquanto o nosso coração está em guerra com os outros.
Porém, Jesus não se restringe apenas ao ambiente religioso. Ele aplica essa verdade à vida comum. Nos v.25 e 26, ele usa uma situação que era própria da época.
Se, por acaso, alguém lhe devesse alguma coisa e você desejasse levar essa pessoa a juízo, em muitas ocasiões você poderia, até por força bruta, obrigar essa pessoa a comparecer diante do juiz para resolver a causa. Por esse motivo, Jesus usa a expressão: “faça isso enquanto ainda está com ele a caminho”(v.25).
Em outras palavras, o convite para a reconciliação é exatamente para enquanto ainda existe tempo, enquanto a situação ainda pode ser resolvida, pois, quando chegarmos ao julgamento, já não dependerá mais de nós. O ponto que Jesus enfatiza nesse momento é que existe uma urgência em tratar aquilo que está mal resolvido.
Temos a tendência de adiar a resolução. Procuramos evitar o confronto. Fazemos de tudo para deixar para depois. Preferimos fugir. “Se o culto pode ser atrapalhado por causa de uma situação com o meu próximo, então é melhor eu deixar de ir ao culto”. “Se a pessoa que está em atrito comigo pode me levar a julgamento, é melhor me esconder dela e evitar encontrá-la.”
Em meio a tudo isso, aquilo que começou com um sentimento pequeno, talvez até compreensível aos olhos humanos, no decorrer de todo esse processo acaba ganhando espaço. E, com o tempo, se torna parte de quem somos, até que, quando percebemos, já não é mais uma situação. É algo definitivo.
Vá, procure, resolva!
Vá, procure, resolva!
Esse ensino de Jesus nos coloca diante de uma decisão. Porque, depois de tudo isso, a questão não é mais apenas sobre entender o texto, mas sobre o que nós vamos fazer com ele.
Jesus aqui não está apenas revelando o problema. Ele não está apenas dizendo que o “não matarás” tem como raiz algo que acontece no coração. Jesus está nos chamando para agir. Existe um chamado para a reconciliação, e em nenhum momento Jesus condiciona isso a um momento em que nos sentimos à vontade.
Não somos convocados a esperar pela atitude do outro e nem muito menos a esperar que o tempo resolva. O que ouvimos da boca do próprio Cristo é: “vá, procure, resolva”. Porque, afinal, no reino de Deus, reconciliação não é uma opção, é uma responsabilidade.
Como diria o apóstolo Paulo em 2Coríntios 05.18, esse é o ministério que Deus nos deu quando nos reconciliou consigo mesmo. Ou seja, a reconciliação é parte da nossa vocação como cristãos.
Esse é um dia de decisão
Esse é um dia de decisão
Durante todo esse período, enquanto você esteve aqui ouvindo tudo isso, eu creio que o Espírito Santo trouxe nomes à nossa mente: pessoas que evitamos, pessoas com quem não falamos, pessoas que, para nós, já “morreram”. E a pergunta que fica é: o que você vai fazer a respeito disso?
Podemos nos esconder atrás de desculpas como “não foi só culpa minha”, ou “mas a outra pessoa também errou”, ou até mesmo dizer que “não foi tão simples assim” (e tudo isso pode até ser verdade!). Mas, de acordo com aquilo que Jesus nos ensina, a questão não é sobre quem está certo, mas sobre quem está disposto a obedecer.
Mostramos ao mundo que somos discípulos de Cristo e provamos que já não somos mais como crianças na fé quando entendemos que o reino de Deus não é uma corrida para provar que estamos certos.
Fazer parte desse reino, se orgulhar de levar o nome de Cristo, é saber que devemos dar o primeiro passo. É saber que devemos buscar reconciliação, mesmo quando o mundo nos dá razão, mesmo quando isso nos custa, mesmo quando isso machuca o nosso ego, mesmo quando isso quebra o nosso orgulho.
Todos nós, em algum momento, já tratamos alguém como se não tivesse valor. Todos nós, em algum momento, já “matamos” alguém no nosso coração. E essa verdade nos leva a compreender que aqui não existe ninguém livre da necessidade de ser reconciliado com Deus por conta da nossa dureza de coração com o nosso próximo.
Talvez, se fôssemos tratados da mesma forma como tratamos os outros, nenhum de nós permaneceria de pé. Se Deus decidisse nos tratar com a mesma medida com que muitas vezes tratamos as pessoas, nós já teríamos sido descartados há muito tempo.
Mesmo quando nós o ignoramos, quando nós o desprezamos, mesmo quando, com as nossas vidas, seguimos caminhos longe do Senhor, não importa, Deus não nos deixou. Ele não esperou o tempo agir para que víssemos que estávamos errados. Ele não esperou que déssemos o primeiro passo, nem muito menos esperou o nosso pedido de perdão.
Precisamos ter isso em mente que a reconciliação não é algo simples e muito menos barato. Para Deus, custou a vida do seu próprio Filho. Para Cristo, custou o seu sangue. E, se nós fomos alcançados por esse tipo de graça, não podemos continuar vivendo como se a reconciliação fosse algo opcional.
Desfrutamos dos benefícios do evangelho e das consequências da salvação não apenas quando oramos e, em algum momento, Deus nos concede o que pedimos, mas também quando, mesmo sem o nosso desejo, Deus trabalha no nosso coração para nos transformar e nos tornar mais parecidos com o seu Filho, Jesus.
Talvez hoje não seja uma noite de milagres, nem de grande manifestação do poder de Deus no fluir de muitos dons, mas talvez seja uma noite de decisão.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém.
Sermão exposto no dia: 29 de março de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (Mandaqui-Noite)
Por Alex Carvalho
Soli Deo Gloria
