O deus que compete pelo seu coração

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Matthew 6:19–24 NVI
“Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração. “Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz. Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, que tremendas trevas são! “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro.

O Secular e o Espiritual

Um dos maiores erros que nós, cristãos, cometemos ainda hoje é acreditar que podemos viver uma vida dividida, como se existisse uma parte material, que muitos chamam de secular, e uma outra parte que fosse somente espiritual.
Na parte material da nossa vida, tratamos de assuntos como dinheiro, trabalho, escola das crianças, contas a pagar, IPVA e IPTU. Já na parte espiritual, tratamos de assuntos como oração, leitura da Bíblia, participação nos cultos de domingo, ceia do Senhor e o nosso devocional.
Na prática, acabamos vivendo como se Deus estivesse interessado apenas nessa segunda parte, a parte espiritual. Afinal, quando pensamos em alguém espiritual, normalmente pensamos em alguém que ora bastante, lê bastante a Bíblia, participa constantemente da vida da igreja, jejua e serve em algum ministério.
Porém, quando o assunto é trabalho, dinheiro, negócios ou a maneira como administramos aquilo que possuímos, muitas vezes agimos como se essas coisas fossem algo exclusivamente nosso. Como se essas coisas dependessem exclusivamente de nós.
É como se assumíssemos, através das nossas atitudes, que para orar precisamos de Deus, para ler a Bíblia precisamos do Espírito Santo e que até mesmo participar dos cultos só faz sentido se Deus nos incomodar e nos trazer, às vezes quase à força. Mas, para trabalhar, ganhar dinheiro e lidar com a vida no dia a dia, acreditamos que podemos resolver tudo sozinhos. E só nos lembramos de Deus quando alguma coisa dá muito errado.
Conta-se a história de um sapateiro que havia se convertido há pouco tempo e procurou o grande reformador protestante Martinho Lutero para fazer uma pergunta sincera. Ele perguntou:
“— Como posso servir melhor a Deus?”
Talvez aquele homem esperasse uma resposta bastante espiritual. Talvez algo como: ore mais, jejue mais, estude mais a Bíblia, envolva-se mais com a igreja. E, certamente, todas essas coisas são importantes. Mas Lutero respondeu:
“— Você é sapateiro? Então faça um bom sapato e venda ele por um preço justo.”
À primeira vista, a resposta de Lutero pode parecer um pouco sem sentido. Mas o que ele estava dizendo era que servir a Deus não é algo que acontece apenas quando estamos orando ou participando de um culto. Servir a Deus também envolve a maneira como trabalhamos, como tratamos as pessoas, como lidamos com o dinheiro e como vivemos a nossa vida comum.
Há alguns domingos, iniciamos o capítulo 6 de Mateus. Até o v.18, Jesus falou sobre coisas que normalmente associamos a espiritualidade. Ouvimos sobre misericórdia para com os necessitados, sobre oração e até mesmo sobre jejum. Aprendemos que todas essas práticas são meios pelos quais nos relacionamos com Deus. E Jesus nos ensinou que, se desejamos praticar essas coisas da maneira correta, devemos fazer elas em secreto, porque o nosso Pai, que vê em secreto, nos recompensará.
Porém, Jesus não divide a vida daqueles que fazem parte do seu reino entre “coisas do mundo” e “coisas de Deus”. Por isso, logo após corrigir a maneira como devemos viver no secreto, na nossa relação com Deus, Jesus também corrige a maneira como devemos viver diante dos homens.
Em outras palavras, Jesus passa a mostrar como aqueles que vivem na presença de Deus, no secreto, devem testemunhar publicamente essa vida com Deus diante dos homens.

O vilão da vez: o dinheiro

É justamente nesse ponto do nosso texto, que Jesus toca em um assunto que normalmente colocamos dentro daquilo que chamamos de “vida material/vida secular”. Afinal, depois de falar sobre misericórdia, oração e jejum, Jesus passa a falar sobre riquezas, sobre dinheiro, sobre aquilo que nós possuímos. E talvez não exista outro assunto mais presente na vida das pessoas do que esse.
Porque todos nós temos que trabalhar. Todos nós compramos coisas. Todos nós pagamos contas. Todos nós precisamos lidar, em algum nível, com o dinheiro. E por ser algo tão presente na vida do ser humano, Jesus sabe o potencial que as riquezas têm de capturar o nosso coração. Por ser algo tão constante no nosso dia a dia, Jesus entende como o dinheiro e as riquezas podem dominar os nossos desejos e as nossas ações.
No entanto, antes de entendermos aquilo que Jesus está dizendo sobre riquezas, é importante compreender aquilo que Jesus não está dizendo.

Aquilo que Jesus não disse

Em primeiro lugar, Jesus não está condenando as riquezas em si. Ao longo das Escrituras, encontramos homens e mulheres que possuíam muitos bens e, nem por isso, eram inimigos de Deus. Basta lembrarmos de Abraão, Jó e Davi. Logo, o problema não é simplesmente possuir bens materiais.
Em segundo lugar, Jesus não está condenando o trabalho. A Bíblia nunca apresenta o trabalho como algo ruim. Pelo contrário, o trabalho faz parte da própria criação de Deus. Trabalhar, crescer profissionalmente e sustentar a própria família não são coisas pecaminosas., mas sim coisas saudáveis, além de serem responsabilidades que Deus confiou a nós.
Em terceiro lugar, Jesus não está condenando o planejamento ou a boa administração. As Escrituras nos ensinam a agir com sabedoria e responsabilidade diante daquilo que Deus coloca nas nossas mãos. Não existe virtude alguma em viver uma vida irresponsável, sem pensar no amanhã e sem cuidar adequadamente daquilo que Deus nos dá.
Então, se Jesus não está condenando as riquezas, nem o trabalho, nem o planejamento, qual é o problema?
A grande questão de Jesus aqui não é possuir riquezas. A questão é quando as riquezas passam a possuir o nosso coração. O problema não é ter dinheiro. O problema é transformar o dinheiro em fonte de segurança e satisfação. Em outras palavras, o problema é quando aquilo que deveria ser apenas um recurso se transforma em um senhor em nossas vidas.
Agora, ninguém acorda de manhã pensando: “Vou transformar o dinheiro em senhor da minha vida”. Essas coisas, para falar a verdade, acontecem de forma muito sutil, aos poucos. Elas acontecem sem que a gente perceba.
Por isso que Jesus não nos entrega uma lista. Ele também não estabelece um valor máximo para alguém possuir. Em vez disso, Jesus nos ajuda a fazer um diagnóstico do nosso próprio coração.
O nosso texto está dividido em três partes muito claras. E a partir de cada uma delas surge uma pergunta que devemos fazer a nós mesmos para saber se o dinheiro e as riquezas têm ocupado o lugar de Deus nos nossos corações.

Onde você coloca o seu tesouro?

A primeira pergunta é: onde você coloca o seu tesouro? Na primeira parte desse texto, Jesus faz um contraste entre dois tipos de tesouros: um tesouro terreno e um tesouro celestial.
Nesse exemplo, o tesouro terreno é vulnerável. A traça destrói, a ferrugem corrói e os ladrões roubam. Ou seja, aquilo que parece tão real e sólido é algo que pode desaparecer a qualquer momento.
Nas palavras de Jesus, não existe nada nessa vida que seja capaz de nos oferecer uma segurança definitiva. Não existe patrimônio que não possa ser perdido. Não existe bem material que seja eterno.
No entanto, Jesus começa falando sobre tesouros, mas termina essa primeira parte falando sobre o coração. Porque, ainda nas palavras de Jesus, a questão não está naquilo que temos, mas sim naquilo que consideramos indispensável. Aquilo que nós valorizamos acima de todas as coisas é exatamente o que molda o nosso coração. O nosso tesouro sempre arrasta o nosso coração para perto dele.
Diante disso, faça uma pergunta a si mesmo nesta noite:
O que mais ocupa os seus pensamentos?
O que mais tem consumido a sua energia?
O que hoje te assusta se você perder?
Talvez as respostas para essas perguntas revelem mais sobre a nossa vida espiritual do que nós imaginamos. Porque é simples dizer que o nosso tesouro é Jesus, enquanto as nossas agendas, as nossas prioridades e as nossas decisões diárias revelam outra coisa. Talvez você nunca tenha colocado a sua confiança abertamente no dinheiro, mas o seu coração já revelou silenciosamente onde ele está ancorado.
Muitas vezes dizemos que Deus é aquilo que mais importa para nós, mas são outras coisas que ocupam os nossos pensamentos durante a semana, que direcionam as nossas decisões e que despertam em nós as nossas maiores preocupações.
Infelizmente, aquilo que dizemos valorizar e aquilo que realmente valorizamos nem sempre são a mesma coisa.

Como você enxerga a vida?

A segunda pergunta que Jesus nos faz é: como você enxerga a vida? Às vezes, ao lermos esse texto de maneira rápida, podemos até pensar que Jesus faz uma mudança brusca de assunto. Afinal, ele estava falando sobre tesouros e, de repente, passa a falar sobre olhos.
No entanto, a verdade é que Jesus continua falando da mesma coisa, porque aquilo que valorizamos não afeta apenas o nosso coração, mas também afeta a maneira como nós enxergamos a vida.
Na cultura judaica daquela época, falar de "olho bom" e "olho mau" era uma forma comum de falar sobre generosidade e mesquinhez. Ter um "olho bom" era ser generoso, simples, de coração aberto. Ter um "olho mau" era ser invejoso, calculista, mesquinho. Ou seja, Jesus não trocou de assunto — ele só trocou a imagem. Antes Jesus falou do tesouro que captura o coração. Agora ele fala do olhar que esse mesmo coração produz.
Muitas pessoas cujas riquezas possuem o coração passam a enxergar toda a vida através da lente do dinheiro. Tudo precisa ser calculado, medido e avaliado.
Por exemplo, uma amizade deixa de ser apenas uma amizade. A pessoa começa a pensar: “O que eu ganho com isso?” (o famoso networking). Um relacionamento deixa de ser apenas um relacionamento e tudo passa a funcionar como uma troca. Até mesmo a igreja passa a ser vista dessa maneira. “O que eu posso receber aqui?” “O que eu ganho participando disso?”
A pessoa passa a enxergar tudo pela lógica do lucro, da vantagem e da recompensa. O dinheiro toma a vida da pessoa de tal maneira que ela não consegue mais enxergar as coisas de outra forma.
Faça uma pergunta a si mesmo nesta noite:
Como você enxerga as pessoas ao seu redor?
Você consegue enxergar valor nelas ou apenas aquilo que elas podem oferecer?
Você consegue ser generoso sem esperar algo em troca?
Você consegue celebrar quando Deus abençoa outra pessoa?
Quem nunca conheceu alguém que, depois de ganhar um pouco mais de dinheiro do que tinha, começou a agir de maneira diferente? Começou a desconfiar de todo mundo. Começou a acreditar que todos eram interesseiros.
Quem nunca conheceu alguém que passou a medir as pessoas pela roupa que vestem, pelo carro que dirigem ou pela condição financeira que possuem? Aos poucos, sem perceber, o dinheiro passou a mudar a forma como essa pessoa enxerga o mundo. E é exatamente esse o alerta de Jesus.

A quem você serve?

A terceira e última pergunta é: a quem você serve?Jesus não diz que será difícil servir a dois senhores. Jesus não diz que será complicado. Jesus afirma, categoricamente, que é impossível servir a dois senhores. A linguagem aqui é de submissão — de um servo sob o governo de um único senhor.
Nesse caso, Jesus não diz que os dois senhores rivais são Deus e o diabo. Mas sim: “vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro.” (v.24).
O dinheiro é um concorrente perigoso, porque promete exatamente aquilo que somente Deus pode oferecer. O dinheiro promete segurança. Promete estabilidade. Promete futuro. E é exatamente essa promessa que explica, hoje, por exemplo, o crescimento das casas de apostas (bets). Ninguém aposta pensando: "Quero perder todo o meu dinheiro". Pelo contrário. Muita gente aposta porque acredita, ainda sem perceber, que o próximo clique pode finalmente trazer a segurança, o futuro e a provisão de que tanto precisa. Mas essas são promessas que somente Deus pode cumprir.
Como alguém já bem disse: “o dinheiro é um bom servo, mas um péssimo senhor.” Quando ele se torna senhor, começa a exigir o nosso tempo, a nossa paz, os nossos relacionamentos — e até a nossa devoção.
Quantas pessoas hoje sacrificam a família, os amigos, a saúde e até mesmo o relacionamento com Deus porque acreditam que, se conseguirem um pouco mais de dinheiro, finalmente estarão seguras?
Não há nada de errado em trabalhar, crescer profissionalmente ou buscar melhores condições de vida. A questão é: em que momento isso deixou de ser uma responsabilidade e passou a ser a razão da sua vida? Existe uma diferença enorme entre trabalhar para viver e viver para trabalhar; entre possuir dinheiro e ser possuído por ele.

O que realmente precisamos

Perceba que, em tudo isso, o grande problema do dinheiro não é ele em si, mas a promessa de algo que ele nunca vai conseguir entregar. O dinheiro promete segurança absoluta, promete satisfação completa, promete um certo descanso para a alma.
Porém, todo aquele que tem o coração no lugar errado e vive a sua vida correndo atrás do dinheiro nunca se sente seguro por completo e nunca está satisfeito o suficiente.
Davi foi um homem que conheceu o poder, a fama, as riquezas e as conquistas que muitos sonham em ter. E, mesmo depois de adquirir tudo isso, é ele quem escreve:
Psalm 16:2 NVI
Ao Senhor declaro: “Tu és o meu Senhor; não tenho bem nenhum além de ti”.
Davi entendeu algo que muitos de nós demoramos para perceber. O coração humano sempre será pequeno demais para Deus e grande demais para qualquer outra coisa. Nenhuma riqueza consegue preencher aquilo para o que fomos criados. Nada nesta terra pode oferecer aquilo que o nosso coração tanto anseia e nos satisfazer de verdade.
O convite de Jesus nesse texto não é apenas para revermos a nossa relação com o dinheiro. O convite de Jesus é para olharmos com sinceridade para aquilo que tem ocupado os nossos pensamentos, para aquilo que tem dirigido as nossas decisões e para aquilo que tem alimentado as nossas esperanças.
O que muitos cristãos não entenderam é que Deus não deseja ser apenas mais uma parte da nossa vida. Deus não deseja ser apenas o Deus do domingo. Deus não é apenas o Deus do culto, o Deus da sala de oração ou o Deus do nosso devocional.
Se Deus e o seu Reino não ocuparem o lugar central das nossas vidas, tudo ao nosso redor, cedo ou tarde, acaba desmoronando.
Ser discípulo de Jesus é saber responder não somente “em quem você crê?”, mas também, “em quem você confia quando tudo o mais falha?” Porque é exatamente na hora da perda, da incerteza, da falta, que descobrimos, sem nenhuma dúvida, qual tesouro realmente governa o nosso coração.
Jesus não está aqui para tirar de você aquilo que você tem. Ele está aqui para te oferecer aquilo que você sempre precisou e nunca encontrou em nenhum outro lugar.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 21 de junho de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (São Paulo-Noite)
Por Alex Carvalho
Soli Deo Gloria
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