Ser falso virou moda

O Evangelho do Rei  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Texto base:
Matthew 5:33–37 NVI
“Vocês também ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não jure falsamente, mas cumpra os juramentos que você fez diante do Senhor’. Mas eu lhes digo: Não jurem de forma alguma: nem pelos céus, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o estrado de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. E não jure pela sua cabeça, pois você não pode tornar branco ou preto nem um fio de cabelo. Seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’; o que passar disso vem do Maligno.

Socorro! Socorro!

Conta-se a história de um menino muito arteiro que morava numa cidade muito pequena e simples. Num determinado dia, ele decidiu pregar uma peça nos seus vizinhos. Quando tudo parecia tranquilo e calmo, como qualquer outro dia, ele saiu de sua casa gritando pelas ruas: “Socorro! Socorro! Minha casa está pegando fogo!”
Naquele instante, muitos vizinhos que conheciam a família saíram de suas casas para acudir. Outros ligaram para os bombeiros e, quando chegaram diante da casa do menino, para a surpresa de todos, isso não passava de uma brincadeira de mau gosto.
O menino, ao ver a expressão das pessoas, caía na gargalhada, se vangloriando de ter enganado todas elas.
Passando-se um tempo, novamente o menino saiu pelas ruas gritando: “Socorro! Socorro! Minha casa está pegando fogo!” Os vizinhos, preocupados, novamente saíram de suas casas e foram socorrer a criança. Porém, mais uma vez se depararam com a casa intacta.
Passando-se alguns dias, o menino brincava na garagem que dava acesso à sua casa. Sem querer, ele esbarrou na bancada de ferramentas do seu pai e derramou um galão de gasolina no chão. Quando algumas ferramentas caíram, acabaram gerando uma pequena faísca que iniciou um foco de incêndio.
O menino ficou assustado e tentou, de todas as maneiras, conter o fogo. No entanto, aquele pequeno incidente começou a tomar proporções cada vez maiores. Seus pais estavam dentro de casa e mal perceberam aquilo que estava acontecendo na garagem que dava acesso à residência.
O menino, assustado e sem muito o que fazer, saiu correndo pelas ruas, gritando: “Socorro! Socorro! A minha casa está pegando fogo!” Porém, naquele dia, nenhum dos vizinhos saiu para a rua. Ninguém ligou para os bombeiros. Pelo contrário, ouvindo os gritos da criança, eles fechavam suas janelas e fingiam que nada estava acontecendo.
Poucas horas depois, o fogo tomou toda a casa do menino. Naquele dia, o menino entendeu uma coisa: quando ninguém mais acredita nas nossas palavras, até a verdade passa a parecer mentira.
Um pastor amigo meu me ensinou que credibilidade é algo que dificilmente conquistamos e facilmente nós a perdemos. Nesse texto, onde novamente Jesus corrige a compreensão que as pessoas da sua época tinham da Lei, vemos nas palavras do nosso Senhor um ensinamento precioso sobre verdade, integridade e credibilidade.

A história que se repete

Quando lemos esse texto rapidamente, podemos ter a impressão de que Jesus está simplesmente proibindo qualquer tipo de juramento. Porém, esse não era o caso.
No Antigo Testamento, em determinados contextos e situações, jurar em nome de Deus era algo não só permitido como até mesmo encorajado (Dt 06.13), pois era uma forma de garantir que aquilo que estava sendo dito era verdade.
Precisamos lembrar que naquela época não existia um sistema jurídico estruturado como hoje. Naquela época não existia um cartório onde você pudesse reconhecer firma ou algo assim. Muitas vezes, o juramento era a maneira mais forte de alguém afirmar: “o que eu estou dizendo é verdade”. Porém, com o passar do tempo, algumas coisas mudaram.
Tanto na antiguidade, como nos nossos dias, os judeus desenvolveram um grande cuidado em relação ao nome de Deus. Por conta do mandamento, eles evitavam pronunciar o nome do Senhor de qualquer maneira.
É então que mesmo havendo a permissão na Lei para que se jurasse em nome de Deus, eles começaram a substituir o nome de Deus por coisas que estavam ligadas a Deus. Por exemplo, se usar o nome de Deus por qualquer motivo é quebrar a Lei, então, se for necessário jurar por algo que aparentemente não é tão sério, é melhor jurar pelos céus, que é o lugar onde Deus está. Ou até mesmo, ao invés de usar o nome de Deus, é preferível jurar por Jerusalém, a cidade de Deus.
No entanto, com o passar do tempo, aquilo que parecia ser algo respeitoso, por conta do coração humano, acabou sendo distorcido.
Assim como nos nossos dias, as pessoas passaram a encontrar algum tipo de brecha nesse pensamento e começaram a agir da seguinte maneira: “Se eu não jurei pelo nome de Deus, pois não era algo tão sério assim, logo, se eu não cumprir o que falei, não terei tantos problemas”.
Em outras palavras, se jurar em nome de Deus é algo extremamente importante e, pelo fato de carregar o nome de Deus, traz um peso quase sagrado àquilo que está sendo afirmado, então, se a pessoa não usasse o nome de Deus, ela pode tratar isso de maneira mais leve e até mesmo como algo sem importância.
É exatamente por esse motivo que Jesus diz:
Matthew 5:34–35 NVI
...Não jurem de forma alguma: nem pelos céus [...] nem pela terra [...] nem por Jerusalém...
O ponto nesse texto é que Jesus afirma que não existe nenhuma dimensão das nossas vidas que esteja fora da presença de Deus. É como se ele dissesse: “Vocês podem até não usar o nome de Deus e acreditarem que, por conta disso, não precisam cumprir aquilo que estão jurando. Porém, os céus, a terra e Jerusalém pelos quais vocês estão usando como garantia em seus juramentos pertencem a Deus”. Logo, toda palavra que sai da nossa boca é dita diante daquele que pode ouvir todas as coisas.
O problema que Jesus trata nesse texto não é o juramento em si, mas sim o fato de que as pessoas haviam se tornado incapazes de sustentar a própria palavra.
Por esse motivo, ao olhar para nós que fazemos parte do seu reino, o que Jesus espera e requer é uma integridade tão verdadeira que não seja necessário nenhum tipo de garantia para comprovar que aquilo que afirmamos é verdade.
O cidadão do reino deve viver de tal maneira que o seu “sim”carregue o peso de um verdadeiro sim e o seu “não” carregue o peso de um verdadeiro não. O discípulo de Cristo é aquele que vive de tal forma que a sua palavra não precisa de nenhum reforço para ser confiável.

Ser falso virou moda

Vivemos dias em que confiar nas pessoas está cada vez mais difícil.Muitos prometem e não cumprem. Falam, mas não conseguem sustentar aquilo que disseram. Muitos assumem compromissos sem nem mesmo ter a intenção real de honrá-los.
Por vermos tantas pessoas agindo assim, o mais assustador é que nós já nos acostumamos. Nos acostumamos com o atraso, nos acostumamos com as desculpas, nos acostumamos com as promessas vazias.
Dizemos que isso faz parte de como as pessoas são. Aprendemos a lidar e a aceitar esse tipo de conduta como se fosse uma característica normal do ser humano. Aos poucos, nos tornamos uma geração em que as palavras já não conseguem mais produzir confiança.
A questão é que essa falta de compromisso com aquilo que falamos nunca afeta apenas e somente o campo das palavras, mas também é capaz de destruir muitos relacionamentos.
Por exemplo, hoje muitos casamentos acabam não porque falta amor, mas porque falta confiança. Existem muitos casos em que o casal já enfrentou muitas turbulências na vida, passaram por diversos problemas e permaneceram juntos. Porém, por não poder confiar na palavra um do outro, o relacionamento adoece e, aos poucos, morre. O marido fala, a esposa ouve, mas já não consegue mais acreditar. A mulher promete, o marido finge que acreditou, mas lá no fundo sabe que nada vai mudar.
Existem pais e filhos que também estão longe de viverem um relacionamento saudável. Afinal, o pai depois de ouvir tantas desculpas e por conhecer o seu filho, já não consegue mais acreditar que as coisas podem ser diferentes. Ou até mesmo, o filho, depois de ouvir tantas promessas do pai, passa a confiar mais em desconhecidos do que naquele que é da sua própria família.
Na vida profissional acontece o mesmo. Existem muitas pessoas que permanecem estagnadas não por falta de capacidade, não por falta de talento e, em muitos casos, nem mesmo por falta de estudo. O problema é que ninguém consegue mais confiar nessas pessoas. É gente que vive se atrasando, pessoas que não cumprem prazos, gente que não assume responsabilidade e que não consegue sustentar aquilo que promete.
Logo, quando o chefe, o diretor ou o gerente procura alguém para assumir uma vaga ou um cargo de confiança na empresa, essa pessoa é automaticamente eliminada da oportunidade. Afinal, capacidade pode até abrir portas, mas a falta de credibilidade é o que fecha muitas delas.

Pessoas da Palavra, sem palavra

Certamente, uma das coisas mais tristes nessa realidade que vivemos hoje é perceber que isso também já alcançou muitos cristãos. Nós falamos sobre verdade, pregamos sobre compromisso, cantamos sobre fidelidade, mas muitas vezes as nossas próprias palavras já não possuem peso algum.
O discípulo de Cristo deveria ser alguém confiável. Alguém cuja vida, sem muito esforço, possa transmitir segurança aos outros. Alguém cuja fala não gere dúvida. Alguém que não precise viver tentando convencer os outros de que está sendo sincero.
Convenhamos que ser crente, há algumas décadas, era sinônimo de seriedade. As pessoas tinham até um certo receio do que falar e de como agir perto desses irmãos, por saberem que o cristão é alguém que não negocia valores, alguém que cumpre a sua palavra.
No entanto na mente de muitos, para ser cristão hoje, basta postarmos uma foto no nosso Instagram, tomarmos um banho na igreja e afirmar que somos de Deus — mesmo que vivendo a mesma vida do passado e que as nossas atitudes não digam isso.
O discípulo de Cristo deveria ser aquele que é reconhecido pela sua integridade. Deveria ser alguém cuja palavra possui valor. Alguém que, quando diz “sim”, as pessoas sabem que verdadeiramente ele disse “sim!”. E, quando diz “não”, também entendem que isso é honesto e verdadeiro.
Porém, nós aprendemos a viver de outra maneira. Aprendemos a dizer “sim” para não decepcionar pessoas. Aprendemos a assumir compromissos que sabemos que provavelmente não iremos cumprir. E, aos poucos, a nossa palavra vai perdendo valor.
Talvez o que muitos cristãos não perceberam é que a falta de verdade naquilo que falamos nunca afeta apenas a nossa imagem. Isso também afeta a maneira como as pessoas enxergam o Evangelho.
Gostemos ou não, a nossa vida interfere na maneira como os outros ouvirão aquilo que falamos sobre Deus. Uma das coisas mais tristes de constatar é que existem pessoas com dificuldade de ouvir sobre Cristo porque primeiro perderam a confiança em quem falava sobre Ele.

A Verdade que ama gente de verdade

Talvez, enquanto você ouviu tudo o que eu disse até agora, facilmente tenha se lembrado daquela pessoa que sempre promete algo e não consegue cumprir. Ou talvez você tenha lembrado de um amigo que nunca consegue honrar os seus horários. Ou até mesmo de alguém que firmou um compromisso com você e falhou não uma, não duas, mas muitas vezes. No entanto, precisamos ser conscientes de que todos nós somos assim, em certa medida.
Tratando-se de um texto dentro do Sermão do Monte, precisamos sempre trazer a memória que Jesus está constantemente apontando para um problema que acontece no nosso interior. Essa realidade, sobre falhar em nossas palavras, é muito mais uma questão sobre o nosso coração do que sobre a nossa boca. A falta de integridade ao falar e a nossa falta de compromisso é algo que revela o quão dispostos estamos a negociar a verdade, o quanto somos capazes de relativizar os compromissos, o quanto somos capazes de tentar parecer íntegros sem sermos verdadeiramente.
É por esse motivo que todos nós temos uma necessidade que só poderá ser suprida em Cristo. Pois Jesus não veio apenas para nos salvar ou nos ensinar a falar a verdade. Jesus veio também para nos transformar em pessoas verdadeiras. Pessoas cuja vida seja marcada pela integridade. Pessoas cuja fala seja sustentada pelo caráter. Pessoas que não dizem algo com os lábios, mas desmentem isso no coração.
Aquele que nos chama à verdade é o mesmo que se apresenta como o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.06). A verdade não é um conceito, mas sim uma pessoa e essa pessoa é Jesus.
Enquanto nós quebramos as nossas promessas muitas e muitas vezes, enquanto falhamos com os nossos compromissos, enquanto fracassamos em nossas responsabilidades e decepcionamos pessoas, Jesus é aquele que permanece perfeitamente fiel. Jesus é aquele que cumpre o que promete, que sustenta o que fala e que permanece verdadeiro, mesmo quando nós falhamos.
Matthew 5:37 NVI
Seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’; o que passar disso vem do Maligno.
O chamado de Jesus para nós hoje não é apenas para que falemos menos “eu juro!”, mas para que possamos voltar a ser pessoas confiáveis. Pois uma das maiores evidências de que o Evangelho está transformando alguém é exatamente essa: a pessoa passa a se tornar mais íntegra, mais verdadeira.
No final das contas, a questão não é apenas sobre aquilo que estamos falando. A questão é sobre quem estamos nos tornando. O evangelho de Jesus transforma a maneira como tratamos as pessoas, transforma a maneira como assumimos compromissos e transforma a maneira como lidamos com a verdade.
Uma das perguntas importantes desta noite talvez seja: que tipo de evangelho as pessoas têm conhecido através das nossas palavras?
Aquele que foi alcançado por Cristo começa, aos poucos, a se tornar alguém mais verdadeiro. Mais íntegro. Mais confiável. Mais parecido com aquele que é a Verdade.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 10 de maio de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (São Paulo-Noite)
Por Alex Amaral
Soli Deo Gloria
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