Muitos começam. Poucos Terminam
Notes
Transcript
Texto base:
“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda. Vocês já estão limpos, pela palavra que lhes tenho falado. Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim. “Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma. Se alguém não permanecer em mim, será como o ramo que é jogado fora e seca. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados. Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido. Meu Pai é glorificado pelo fato de vocês darem muito fruto; e assim serão meus discípulos.
Mais do que o começo
Mais do que o começo
Há praticamente 20 anos, quando eu entrei para o Ministério de Louvor da igreja em que eu congregava, eu lembro que existiam duas bandas. Mesmo que ninguém assumisse isso abertamente, havia uma banda com os melhores músicos e cantores, que sempre estava escalada para o principal culto, e havia uma outra banda, um pessoal que não era tão boa assim. Todo mundo que entrava para o ministério sonhava em fazer parte da primeira banda, é claro.
E, na mesma época em que eu comecei, entrou junto comigo um outro rapaz, que claramente tinha mais noção musical do que eu tinha naquela época. Na hora de definirem quem iria para qual banda, obviamente esse rapaz foi escolhido para a banda principal, e eu para a banda dos que estavam eternamente aprendendo.
Só que, com o passar do tempo, algo começou a mudar. Aquele rapaz, que começou animado, engajado e cheio de vontade, começou a chegar atrasado nos cultos, a faltar nos ensaios e, pior, a não tirar as músicas. E, por mais que ele fosse melhor tecnicamente do que eu, em pouco tempo, todo aquele gás que ele tinha no início simplesmente acabou. As pessoas que contavam com ele começaram a se frustrar e, no meio de tudo isso, ele parou de ir para a igreja e infelizmente, eu nunca mais tive notícias dele. Eu falo disso com tristeza, não só porque ele saiu da banda, mas porque ele deixou de caminhar com Cristo.
Porém, sendo bem sincero, esse não é um caso isolado. Esse é o tipo de coisa que acontece muito mais do que gostaríamos de admitir.Pessoas que começam, que demonstram interesse, que se envolvem, que gastam a sua energia e colocam o seu coração, mas, em algum momento, simplesmente param.
E, durante todos esses anos de igreja, uma coisa ficou muito clara para mim: a grande questão não é começar ou como você começa. A grande questão é permanecer. Afinal, iniciar um trabalho ou um projeto muita gente consegue, mas permanecer é para poucos.
Quando nós olhamos o texto desta noite, no Evangelho de João, capítulo 15, nós vemos Jesus chamando a nossa atenção exatamente para isso: para a necessidade de permanecer.
A despedida
A despedida
O texto do capítulo 15 faz parte daquilo que nós entendemos como o discurso de despedida de Jesus. Esse discurso começa no capítulo 13 e vai até o capítulo 17 do Evangelho de João. Ou seja, nós estamos diante de um dos momentos mais importantes do ministério de Jesus. Aqui, Jesus não está falando com multidões, ele não está se dirigindo aos religiosos e nem está lidando com os seus opositores. Nesse trecho do Evangelho de João, Jesus está falando com os seus discípulos.
E essas são as últimas palavras de Jesus antes de ser traído e preso, e antes de ser pendurado em uma cruz. Ter essas informações em mente é importante para compreender a profundidade do que está acontecendo aqui.
Afinal, é esperado que as últimas palavras de alguém revele aquilo que é mais importante. Normalmente, as últimas palavras de alguém revelam aquilo que não pode ser esquecido. E, diante daquilo que estava por vir, sabendo Jesus do seu sofrimento e da sua morte, era necessário que os seus discípulos não dessem ouvidos ao medo ou às incertezas que poderiam assolar o coração deles, mas sim que eles permanecessem. E eu quero ressaltar aqui três verdades no nosso texto sobre permanecer.
Sem permanecer, não há vida
Sem permanecer, não há vida
Jesus, no início do capítulo 15, usa uma ilustração muito simples e se compara a uma videira. Durante o Antigo Testamento, Israel também é chamado de videira, porém Jesus se apresenta como a videira verdadeira. Embora não seja algo comum do nosso dia a dia, para aqueles homens, essa ilustração que Jesus utiliza fazia todo sentido.
Imagine o seguinte: no quintal da sua casa, no seu jardim, há uma videira plantada. É comum que, se o seu intuito for que essa árvore produza mais frutos, você selecione alguns galhos, alguns ramos novos e promissores. E, ao invés de deixá-los nas beiradas da videira, você os insere no tronco da videira, ou, como é chamado, na cepa. Ali, esse ramo passa a receber mais nutrientes, mais sais minerais e água que as raízes daquele tronco retiram do próprio solo.
O ramo, deixado por si só, não possui vida em si mesmo. Mas, ao ser enxertado, ao ser conectado à videira, ele passa a participar da vida dela. Ele começa a receber a seiva, os nutrientes e, por essa conexão, esse ramo pode então gerar frutos.
A primeira verdade sobre permanecer é que Jesus não está aconselhando os seus discípulos a algo, mas sim revelando uma realidade. Lemos no v.04:
Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim.
O ramo não tem vida em si mesmo. Ele não se sustenta. Ele não produz nada por conta própria. Ele só vive enquanto está conectado.
Falar sobre morte não é um assunto legal. Afinal, ninguém pensa em morrer se tudo está aparentemente bem em sua vida. Pessoas que já enfrentaram situações em que pensamentos de morte invadiram a sua mente sabem que essas coisas acontecem quando existe algo de errado conosco.
No entanto, a primeira verdade que Jesus deixa clara aqui é que não existe verdadeira vida se nós não estamos conectados à videira verdadeira.
Vivemos dias em que queremos vida, mas não desejamos permanecer. Queremos o sustento, queremos desfrutar daquilo que a videira pode nos entregar, mas não queremos dependência. Queremos os frutos, mas não queremos conexão.
Hoje existem muitos ramos que negociam com a videira. Existem ramos que acreditam que podem sobreviver por causa do seu talento, por causa dos seus contatos, por causa dos seus achismos. No entanto, o ramo não se sustenta por esforço. Ou ele está ligado à videira, ou ele está morrendo. Não existe um meio-termo.
Existem pessoas que esperam viver verdadeira e plenamente, como a Palavra de Deus nos promete, sem estarem conectadas à videira. Pessoas que esperam desfrutar do cuidado e da provisão de Deus sem estarem conectadas a Deus. Pessoas que desejam desfrutar daquilo que a igreja pode oferecer sem estarem conectadas à igreja.
Sim, nem tudo em permanecer é confortável. Nem sempre permanecer é algo leve. Nem sempre permanecer faz sentido. Existem dias em que permanecer exige de nós uma decisão. Dias em que permanecer é lutar contra a vontade de desistir.
No entanto, permanecer é o único lugar onde existe vida. Não há outra alternativa, não existe um plano B. Se desejamos viver de verdade, precisamos estar conectados, enxertados, enraizados na videira, que é Jesus.
Talvez hoje esse seja o seu problema: a falta de conexão. Talvez esse seja o diagnóstico de muita gente aqui. Gente cansada, gente tentando sustentar uma vida espiritual desconectada da fonte, pessoas frustradas, pessoas que chegaram àquele sentimento em que desistir parece a única opção. Porém, tudo isso são apenas consequências, queira você ou não, de uma vida que não está completamente conectada à videira.
Permanecer não é apenas estar presente, não é estar próximo. É estar verdadeiramente ligado a Jesus. Um ramo desconectado não entra apenas em crise, ele seca. Tudo aquilo que não está ligado à fonte da vida caminha para a morte. Por esse motivo, a primeira verdade aqui é que permanecer gera vida em nós.
Permanecer envolve ser tratado
Permanecer envolve ser tratado
Já a segunda verdade que Jesus revela no seu discurso é que estar conectado à videira e até mesmo dar frutos não nos impede de sermos tratados.
Jesus fala sobre dois tipos de cortes aqui. O primeiro corte é aquele que é dado ao ramo que não produz fruto. Na jardinagem, existe um tipo de ramo chamado de ramo ladrão. Ele cresce, floresce e, de alguma forma, pode até se destacar dos outros ramos, mas não produz fruto algum. Pelo contrário, ele drena energia e rouba os nutrientes que poderiam estar sendo direcionados para ramos que, de fato, produziriam frutos. Esse tipo de ramo é cortado e lançado fora.
Porém, o segundo tipo de corte que Jesus revela em seu discurso é para um tipo de ramo que tem dado os seus frutos. Um ramo que está conectado e que, aparentemente, tudo vai bem, mas, mesmo assim, esse ramo recebe um tipo de tratamento do agricultor: a poda.
A poda ou a limpeza, é um corte que não é uma punição. Pelo contrário, é algo que o agricultor faz, com a intenção de ver o crescimento e a produção de mais frutos nesse ramo.
A poda é o cuidado, é o trabalho intencional do agricultor que não está satisfeito apenas com o fruto que já existe. É o trabalho do agricultor que enxerga o fruto que ainda pode vir.
É verdade que Deus nos trata quando erramos. É verdade que Ele nos confronta quando estamos longe. Porém, o que fica claro nesse texto é que, às vezes, Deus nos trata justamente quando estamos dando fruto. Às vezes, Deus intervém em nossas vidas justamente quando parece que está tudo bem.
E é nesse momento que muitos de nós entramos em crise. Afinal, que cristão nunca pensou: “Estou fazendo tudo certo e mesmo assim tal coisa aconteceu?” Ou: “Por que isso está acontecendo, se eu estou firme, se eu estou permanecendo?” Ou até mesmo: “Por que Deus tem permitido certas coisas, se eu tenho dado fruto?”
A questão é que, sem entendermos, começamos a interpretar o cuidado de Deus como se punição pelos nossos erros.Mas nem todo corte é correção. Alguns cortes que acontecem em nossas vidas é preparação.
Deus não está comprometido apenas com o que você já se tornou. Ele está comprometido com aquilo que você ainda pode ser.
A poda quase sempre não faz sentido no momento, porque você olha e pensa: “Isso estava funcionando… isso aqui estava dando resultado.” E esse é exatamente o ponto! Deus não está preso nem condicionado ao seu resultado atual. Deus, que não é refém do tempo, olha para o potencial futuro do ramo.
Algumas pessoas podem até mesmo estar contentes com o que tem acontecido em suas vidas. Olhamos para quem éramos e vemos quem somos hoje, e conseguimos perceber a mão de Deus, o trabalho de Deus em cada detalhe do nosso ser. Vivemos experiências com o Senhor, mas então nos acomodamos.
No entanto, o que para muitos já é suficiente, para Deus é um limite que precisa ser ultrapassado. Pois o ramo que dá fruto pode dar ainda mais frutos. Por isso Ele corta, por isso Ele ajusta, por isso Ele limpa.
Eu sei que é difícil, mas precisamos entender que Deus não quer nos fazer sofrer. Afinal, ninguém gosta de poda, porque a poda dói, a poda expõe, a poda tira, a poda mexe em coisas que, muitas vezes, nós gostaríamos de preservar.
Nessa última semana, eu lembro de assistir a um vídeo no Instagram de uma pregadora que dizia algo mais ou menos assim: toda vez que Deus deseja te levar a um nível a mais, você precisa estar disposto a perder pessoas em sua vida. E então ela deu alguns exemplos, como Abraão, que teve que, primeiramente, sair da sua terra e da sua parentela, e que depois teve que se separar do seu sobrinho Ló. Ela lembrou de Isaías, que somente após a morte do Rei Uzias, teve a visão que resultou no seu chamado. Ela falou do capitão do barco que teve de lançar Jonas ao mar, dentre outros exemplos. Tudo isso, podemos considerar poda.
A poda nunca é sobre perda, é sobre preparação. Nunca é sobre diminuição, sobre subtração, é sobre frutificação. A poda nunca é o fim, mas sim o início de algo muito maior.
Permanecer gera muitos frutos
Permanecer gera muitos frutos
Com isso chegamos a terceira verdade do nosso texto, que é: permanecer gera muitos frutos.
Existem algumas coisas que são importantes aqui. A primeira é que o fruto não é uma possibilidade na vida de quem permanece. O fruto é algo inevitável. Jesus não está falando de algo que pode, talvez, um dia acontecer. Ele fala de algo que vai acontecer. Todo ramo que permanece frutifica. Logo, se não há fruto, o problema não são as folhas do ramo, nem o seu caule, mas sim a conexão.
A segunda coisa importante aqui é que Jesus não fala apenas de fruto, mas sim de muito fruto.Ou seja, não é uma questão de algo superficial ou de algo ocasional, mas sim de algo abundante, de algo visível. Jesus fala de verdadeiro crescimento. Jesus fala de crescimento perceptível por todos.
A terceira coisa é que esse fruto, do início ao fim, não é algo que vem de nós.O fruto não é resultado da força do ramo. Assim também, o fruto não é resultado da nossa capacidade ou da nossa disciplina. O ramo não tem vida em si próprio, assim o fruto não é produzido por causa do ramo, mas sim pelo fato de o ramo permanecer na videira. O fruto é produzido pela vida que flui da videira. É Deus agindo, é Deus gerando, é Deus produzindo em nós aquilo que nós não conseguiríamos produzir sozinhos.
A quarta coisa é que o fruto que é gerado em nós, por estarmos na videira, não serve a nós mesmos, mas sim a quem está próximo de nós. É comum, quando ouvimos que devemos gerar muitos frutos, pensarmos nos negócios que fecharemos, nos contratos que assinaremos, no dinheiro que teremos. No entanto, toda árvore frutífera não frutifica para si mesma. O ramo não se alimenta do próprio fruto.O fruto é sempre para o outro. O fruto serve, o fruto alimenta, o fruto alcança. O fruto que deve ser gerado em nossas vidas não serve a nós, mas serve ao outro.
E, por fim, a última coisa: é que o fruto glorifica a Deus. O fruto que é gerado em nós por permanecermos na videira, que é Cristo, glorifica ao Pai.O fruto revela quem Deus é. Ao olharem para as nossas vidas e perceberem aquilo que Deus tem gerado em nós, as pessoas precisam chegar à conclusão de que aquilo que demonstramos e oferecemos ao mundo vem de Deus e pertence a Ele.
O Chamado para permanecer
O Chamado para permanecer
Sabe, vivemos hoje uma geração em que permanecer tem se tornado algo cada vez mais difícil. Afinal, aprendemos que quase tudo nesta vida é descartável. Casamentos são desfeitos com uma facilidade absurda. Projetos são abandonados no meio do caminho. Relacionamentos são deixados de lado quando deixam de ser convenientes.
As pessoas hoje em dia desistem rápido demais. Desistem fácil demais. Desistem quando já não sentem alguma coisa, quando não entendem mais.Vivemos dias em que as pessoas estão desistindo de tudo! Desistem da família, desistem do trabalho, desistem da igreja, da comunhão com os santos, desistem de caminhar junto. Quando não, desistem até mesmo da sua caminhada com Jesus.
A verdade é que o mais assustador não é o fato de que isso acontece, mas o fato de que isso tem se tornado cada vez mais normal.
Neste último dia de conferência, antes de qualquer coisa, antes de te levar para um próximo nível, antes de te levar a um ambiente de maior profundidade, Jesus está nos chamando para algo essencial: permanecer.
Não existe profundidade sem permanência. Não existe crescimento sem permanência. Não existe vida sem permanecer. O que sustenta uma vida com Deus não são os momentos que vivemos vez ou outra, mas sim as raízes. E a raiz não é algo que surge do dia para a noite. Raízes surgem quando permanecemos.
O chamado de Jesus para nós não é viver esse momento. Não é para sairmos desta conferência emocionados. Não é para sairmos daqui motivados por mais alguns dias e, então, voltarmos a mesma vida derrotada.
O chamado de Jesus é para algo muito mais profundo. O chamado de Jesus é para uma vida inteira. É para uma decisão da qual nós não voltaremos atrás.
Momentos como esses passam. Emoções passam, mas aqueles que desejam frutificar, e muito, permanecem. Permanecem quando as coisas são fáceis, permanecem quando tudo é difícil, permanecem quando faz sentido, permanecem quando nada faz sentido, permanecem quando ouvem um “sim”, permanecer quando ouvem um “não”. Permanecem quando sentem que Deus está perto, permanecem quando Ele está em silêncio.
A verdade é que vivemos muito por aquilo que sentimos e achamos. Porém, permanecer não é sobre o que sentimos ou sobre os nossos achismos, mas sim sobre ter certeza. Permanecer é sobre a convicção que nós temos de que essas são palavras de Jesus são verdadeiras:
“Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 19 de abril de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (São Paulo-Noite)
Por Alex Amaral
Soli Deo Gloria
