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Quem sou, aonde estou  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Introdução

Bom dia irmãos, pra quem não me conhece eu me chamo Guilherme e faço parte da Liderança aqui da Urbana.
Bom, chegamos na nossa última pregação da série que começamos lá em maio: “Quem sou, Aonde estou”.
E antes da gente ler esse texto e ir mais a fundo nele, eu gostaria que você pensasse e ficasse na memória uma cena:
Paulo era um homem já de idade avançada, com o corpo marcado por naufrágios, açoites, já havia passado por noites em prisões escuras, mas que no momento dessa carta ele está preso e sentado numa casa em Roma. Do seu lado, dia e noite, está um soldado romano em quem ele está 24 horas por dia acorrentado.
É nesse cenário que Paulo escreve algumas das palavras mais poderosas de toda a Bíblia sobre como vencer uma guerra.
E Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, olha para aquela armadura do soldado ao seu lado e usa cada uma das peças como imagem de algo que o crente precisa para se manter de pé nas batalhas diárias. E na medida em que ele vai detalhando cada parte da armadura, nós vamos percebendo de que estamos em guerra. Uma guerra que não se vê com os olhos, mas que é tão real quanto qualquer batalha travada com espadas e armas.
E quando eu fui preparar esse sermão, eu fiquei pensando: “Porque Paulo deixa pra falar de uma Batalha espiritual depois de falar dos papéis de dentro da família?”. Porque é justamente nesses lugares — na casa, no casamento, na relação com filhos, no trabalho e na igreja — que travamos muitas das nossas maiores batalhas.
É por isso que Paulo nos 3 prmeiros capítulos constroi o argumnto de “Quem você é”:
alguém que faz parte do plano eterno de Deus,
um filho que foi escolhido,
separado e selado com o Espirito Santo.
E Depois ele mostra “Aonde estamos”, em uma igreja, unidos apesar das nossas diferenças, refletindo a relação que temos com Cristo em nossos relacionamentos, na nossa família, em todos os contextos.
Paulo pega tudo isso que nós ouvimos e que temos vivido, e mostra que enquanto a nossa vida acontece, há uma batalha espiritual acontecendo.
É justamente a maneira que Paulo inicia o vs.10 que deixa isso evidente, quando ele diz: “Quanto ao mais/Finalmente”, não é simplesmente Paulo encerrando a carta, mas ele dizendo: tudo o que eu ensinei a vocês até agora:
a identidade em Cristo,
a unidade na igreja,
a sua conduta em casa e no trabalho
… TUDO ISSO, só se sustenta, se compreendemos que há uma batalha por trás de tudo isto. Nos poderíamos pregar uma teologia belíssima sobre quem você é em Cristo, e ainda assim sermos derrubados todos os dias na prática, por um inimigo que nós não vemos, mas que trabalha incansavelmente para nos fazer duvidar, nos fazer cair, e dividir uns dos outros.
E é exatamente por causa disso, que esse texto final de efésios é tão urgente para as nossas vidas, porque Quando falamos de guerra espiritual, geralmente caímos em um de dois extremos: ou desvalorizamos o assunto, como se fosse algo místico, fantasioso ou distante da vida real; ou demonizamos tudo, como se cada dificuldade fosse uma ação direta do diabo.
Mas Paulo deixa claro que a nossa posição nessa batalha não é de quem luta para ganhar, é de quem luta a partir de uma vitória que Cristo já conquistou na cruz. Nós não resistimos na esperança de vencer. Nós resistimos porque Cristo já venceu.
Hoje vamos ver quem é realmente o nosso inimigo. Vamos ver a armadura que Deus nos oferece para resistirmos com firmeza. E vamos ver por que a oração não é uma peça a mais, é o que sustenta tudo.
Então nessa manhã eu gostaria de ler com os irmãos o Capítulo 6 de Efésios a partir do versículo 10 até o 24 (NAA):
(6:10) Quanto ao mais, sejam fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.
(6:11) Vistam-se com toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra as ciladas do diabo.
(6:12) Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestiais.
(6:13) Por isso, peguem toda a armadura de Deus, para que vocês possam resistir no dia mau e, depois de terem vencido tudo, permanecer inabaláveis.
(6:14) Portanto, fiquem firmes, cingindo-se com a verdade e vestindo a couraça da justiça.
(6:15) Tenham os pés calçados com a preparação do evangelho da paz,
(6:16) segurando sempre o escudo da fé, com o qual poderão apagar todos os dardos inflamados do Maligno.
(6:17) Usem também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus.
(6:18) Orem em todo tempo no Espírito, com todo tipo de oração e súplica, e para isto vigiem com toda perseverança e súplica por todos os santos.
(6:19) E orem também por mim, para que, no abrir da minha boca, me seja dada a palavra, para com ousadia tornar conhecido o mistério do evangelho,
(6:20) pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazer.
(6:21) E, para que saibam como estou e o que estou fazendo, Tíquico, o irmão amado e fiel ministro do Senhor, lhes dará todas as informações.
(6:22) Eu o estou enviando a vocês com esta finalidade: para que conheçam a nossa situação e para que ele console o coração de vocês.
(6:23) Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo.
(6:24) A graça esteja com todos os que amam sinceramente o nosso Senhor Jesus Cristo.
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1. O inimigo real não é quem pensamos

Bom, irmãos, Paulo começa dizendo no versículo 10 de onde vem a nossa força para enfrentar essa batalhas.
E como eu disse, quando a gente ouve falar de guerra espiritual, nós já vamos com alguns pré conceitos, a nossa tendência é pensar logo no inimigo, nas ciladas, nas batalhas, nas tentações, nos ataques. Mas Paulo não começa pelo diabo, ele começa pelo Senhor. Ele diz:
“Quanto ao mais, sejam fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.”
Quanto ao mais/Finalmente = “Depois de tudo isso que eu falei pra vocês”:
“Agora, sejam fortalecidos no Senhor.”
O que Paulo quer dizer aqui, irmãos, é que a vida cristã que ele descreveu até aqui não pode ser vivida nas nossas próprias forças.
A identidade que recebemos em Cristo não se sustenta na nossa capacidade humana
A unidade da igreja não se preserva apenas com boa vontade.
O casamento não reflete Cristo apenas com esforço de duas pessoas.
Pais e filhos não refletem Cristo dentro de casa só porque resolveram “fazer melhor”.
O trabalho não se torna serviço ao Senhor apenas porque a pessoa é disciplinada.
Tudo isso exige uma força que não nasce em nós.
Quando nós lemos “sejam fortalecidos”, a ideia não é simplesmente “sejam fortes”. Paulo não ta dizendo (Frases Coach):
“crie força dentro de você”,
“aguente firme”,
“seja mais determinado”,
“tenha mais força de vontade”.
É uma força recebida, É uma força que vem de fora de nós, não de dentro.
É por isso que ele diz: “no Senhor e na força do seu poder”
E que tipo de poder é esse?
É o mesmo poder que Paulo já mencionou no capítulo 1, O poder que ressuscitou Cristo dentre os mortos e o colocou acima de todo principado, potestade, poder e domínio.
Então a força com que o crente resiste à batalha espiritual não é uma energia interior ou pensamento positivo, muito menos uma personalidade forte.
É o poder de ressurreição, a mesma força que levantou Jesus da morte é a força que sustenta você de pé no dia mau.
Isso tem que mudar a maneira com que nós vivemos nossa vida cristã, porque a gente vive tentando vencer as batalhas com a nossa força:
Tentamos vencer o pecado apenas pela vergonha que sentimos depois de cair. (No momento da vergonha, não queremos viver isso denovo)
Tentamos resistir à tentação fazendo promessas que dependem só da nossa força de vontade. (Agora eu vou deixar de fazer isso e não caio mais)
Tentamos lidar com a ansiedade controlando cada detalhe da vida. (A gente não consegue mais parar e ouvir a voz de Deus)
Ai a gente se frutra e tenta combater o desânimo de não dar conta ocupando a nossa agenda
Tentamos vencer a frieza espiritual pela culpa. (Quando a gnt deita na cama e percebe que não buscou)
Meu irmão, cuidado com essa ideia de: “Ah eu não tenho força pra buscar a Deus”, “Eu não consigo”
De fato, você não tem força em si mesmo. Esse é exatamente o ponto do texto.
Mas a resposta bíblica pra sua fraqueza não é permanecer caído, parado esperando algum sinal, a resposta diante da sua fraqueza é correr para os braços do Senhor, porque é nele que você é fortalecido.
E não espere acordar amanhã, você abrir o olho e ficar esperando um sinal ou força sobrenatural… Levanta e vai orar a Deus pedindo que te ajude.
Então irmãos, se a força vier de nós, em algum momento nós vamos cair e não vai demorar muito, mas se a força vem do Senhor, então nós podemos permanecer de pé.
Só depois de compreendermos isso é que Paulo diz no vs.11:
“Vistam-se com toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra as ciladas do diabo.”
Reparem que a armadura também não é nossa.
A força é do Senhor.
O poder é do Senhor.
A armadura é de Deus.
Isso nos livra de um erro comum na vida cristão:
É o orgulho espiritual: achamos que nós ficamos de pé porque somos mais fortes, mais maduros, mais bíblicos, mais disciplinados do que os outros. Não, se você está de pé, é somente pela graça.
E meus irmãos, não substimem as ciladas do diabo...
A palavra que Paulo usa no v.11 — ciladas — é methodeia no original, literalmente: métodos.
É a raiz da nossa palavra "método", o diabo não improvisa e ele tem estratégia, ele tem esquemas. Ele estuda você, conhece suas fraquezas, e trabalha de forma calculada e paciente para te fazer cair.
Crisóstomo, um dos primeiros grandes pregadores da igreja, dizia algo muito interessante sobre isto:
“O diabo nunca propõe o pecado nas suas verdadeiras cores, ele disfarça:
Ele não vai te dizer claramente 'destrói o teu casamento' ou 'se afasta de Deus', ele vem sussurrar coisas mais subtis, como:
'você merece mais/ser feliz',
'ninguém repara se você faltar um domingo',
'essa mentirinha não faz mal a ninguém'.”
O inimigo vai trabalhando com
o engano,
a mentira,
a distorção,
pequenas concessões
Com pensamentos que parecem inofensivos num primeiro momento, mas que vão nos afastando de Deus.
E meus irmãos, precisamos de ter cuidado, porque Paulo não está dizendo pra você andar obcecado vendo demónios por todo o lado, a atribuir cada dor de cabeça ou cada discussão familiar a uma ação demoníaca direta, como se estivéssemos permanentemente numa espécie de filme de terror espiritual. Isso seria um exagero tão perigoso quanto ignorar a realidade de que existe uma luta. Mas o que Paulo sim pede, é discernimento diante das situações: Ele quer que você reconheça que existe um inimigo real, mas que você mantenha os pés aqui na vida real, resistindo com firmeza e fidelidade — em todas as áreas — com uma obediência simples e diária a Deus.
E há ainda algo profundamente encorajador neste versículo, que facilmente podemos deixar passar: Paulo diz que esta luta acontece 'nas regiões celestiais'. E esse é exatamente o mesmo lugar onde, segundo Efésios 2:6, nós já estamos sentados com Cristo! Isto significa que não lutamos para conquistar um território que ainda não é nosso, lutamos a partir de uma posição que já nos pertence, garantida pela vitória de Cristo na cruz e na ressurreição. Colossenses 2:15 nos diz que Cristo, na cruz, 'despojou os principados e potestades e os exibiu publicamente, triunfando sobre eles'. A batalha decisiva já foi travada lá na cruz e ela já foi ganha. Nós não lutamos para vencer, lutamos para permanecer de pé no terreno que Cristo já conquistou para nós.
Meus irmãos, isso tem que ser claro na nossa mente, porque muda a maneira como nós enfrentamos a tentação, o desânimo e o pecado que assedia a nossa carne: nós não lutamos mais com medo de perder, nós lutamos confiantes, porque já sabemos o resultado final dessa batalha. Então quando cairmos numa tentação, quando sentirmos que uma discussão em casa ou uma frustração no trabalho nos consome, você tem que se lembrar de que também existe uma batalha espiritual acontecendo e que o inimigo quer pegar situações reais do nosso dia e transformar isso em divisão, amargura, orgulho, isolamento e queda. Por isso, tenha essa pergunta sempre em mente: “Como eu posso permanecer firme em Cristo nessa situação?”, porque não podemos ser ingênuos e pensar que apenas pedir para Deus nos dar essa força, nós nunca mais seremos tentados ou cairemos, e é por isso que Paulo vai descrever nos versículos seguintes sobre como resistir nessas situações.

2. A armadura de Deus

Paulo fala sobre resistir com uma imagem que os seus leitores conheciam bem: a armadura de um soldado romano.
Quando Paulo fala no vs.13 “peguem toda a armadura de Deus” o que ele quer mostrar é que vestir essa armadura e vestir o próprio Cristo. E é importante a gente entender isso porque senão a gente corre o risco de ler esse texto e acreditar que existe um conjunto de sete regras ou técnicas espirituais que aplicamos e assim seremos vitoriosos.
Cada peça aponta para Cristo e pro evangelho, então não é uma lista de deveres morais que a gente cumpre por esforço próprio, é Cristo dia após dia, nos revestindo.
Mas a gente não pode deixar passar que esse "Peguem" é imperativo — não é uma escolha. Para que a gente possa resistir no dia mau — e todo crente tem os seus dias maus — não tem outro caminho a não ser se revestir de toda a armadura. Paulo não fala pra escolhermos uma parte da lista. Porque o objetivo é chegar ao final da batalha e poder dizer: "depois de ter vencido tudo, permaneci inabalável."
Exatamente nessa parte final do versiculo, no original traz a ideia de: “tendo feito todas as coisas” / “tendo esgotado todas as possibilidades”.
Ou seja, quando você esgotou os recursos. Quando orou, quando buscou os irmãos, quando leu a Palavra, quando fez o que sabia que devia fazer, e mesmo assim a batalha continuou entenda que Paulo não promete que a armadura vai te tirar do combate, mas ele deixa claro que, fazendo tudo, você vai continuar de pé no final.
E então a partir do vs. 14 Paulo começa a descrever essa armadura (Pedi para colocar algumas imagens, pra compreender):
(6:14) Portanto, fiquem firmes, cingindo-se com a verdade e vestindo a couraça da justiça.
E pela terceira vez Paulo diz: Fiquem firmes, mas agora ele já no diz como:
a) “cingindo-se com a verdade”
Em algumas versões vai dizer: “com o cinto/cinturão da verdade”
No exército romano, o cinturão era a peça que sustentava todo o resto, sem essa peça, a túnica atrapalharia os movimentos e as outras peças da armadura ficariam soltas.
A verdade é exatamente isso na nossa vida espiritual: a base que sustenta tudo. Quando nós vivemos com integridade e cremos na verdade de Deus revelada nas Escrituras, temos uma base firme.
Sem essa verdade nós ficamos vulneráveis às meias-verdades, às mentiras confortáveis que nós preferimos acreditar. Crisóstomo, que eu já citei antes, dizia que sem esse cinto a alma "rasteja pela terra", emaranhada nos seus próprios raciocínios distorcidos. E isso é tão real porque nós vemos hoje: pessoas que se afastam da fé, não porque encontraram argumentos irrefutáveis, mas porque deixaram de estar revestidas da verdade que está na Palavra, e então começaram a acreditar naquilo que era mais confortável para elas.
b) e na sequencia Paulo fala “vestindo a couraça da justiça”
A couraça protegia as partes mais vitais do soldado: o coração, os pulmões.
Então que justiça é essa que Paulo tá falando aqui? É a justiça de Cristo, que nos é dada gratuitamente pela fé. Não é algo que nós produzimos, simplesmente recebemos.
Então quando o inimigo nos acusa, dizendo:
"você não vale nada”,
“olha pro que você fez, como você pode se chamar de cristão?",
É a justiça de Cristo, e não os nossos próprios méritos, que nos protege desse tipo de acusação.
Logo, essa couraça é tão firme que "ninguém atravessa, nem mesmo o próprio diabo consegue", porque a acusação bate na justiça de Cristo e não na nossa fragilidade.
É a partir dessa justiça, que podemos viver uma vida de reta na prática, coerente com quem já somos em Cristo.
Meus irmãos, nós não vivemos com justiça para merecer a aprovação de Deus, mas porque já a recebemos, então queremos viver de acordo com aquilo que já somos.
depois no vs. 15 Paulo fala:
c) “Tenham os pés calçados com a preparação do evangelho da paz”
O soldado romano usava sandálias com cravos de ferro. Essas sandálias davam uma estabilidade firme no combate corpo a corpo, até mesmo em terreno com lama ou irregular.
Da mesma forma, estarmos preparados para viver e anunciar o evangelho, nos dá uma estabilidade que nada mais consegue dar. Nós sabemos para onde vamos, sabemos no que cremos, e isso permite que a gente avance com firmeza, mesmo em um terreno difícil, mesmo quando a vida nos empurra para situações incertas ou até mesmo hostis.
E isso é tão verdade que quando estamos de fato preparados para pregar o evangelho, a nossa vida condiz com o que falamos e é justamente essa coerência que nos mantém firmes.
d) (v.16) "Segurando sempre o escudo da fé, com o qual poderão apagar todos os dardos inflamados do Maligno."
Paulo diz "sempre", ou seja, você não usa apenas nos momentos de crise ou apenas quando você sente que precisa.
É Sempre. O escudo não fica guardado esperando o dia que você achar que vai precisar dele. Ele está na mão. O tempo todo.
E o escudo que Paulo está descrevendo não é pequeno. É o scutum — o grande escudo retangular do legionário romano. Alto o suficiente para cobrir o corpo inteiro, feito de várias camadas de, com um revestimento de couro por fora, e também com uma parte metálica no centro para desviar o impacto. Era robusto, pesado, construído para aguentar.
E tem dois aspectos da fé que esse texto no mostra:
O primeiro é que quando os soldados encostavam os escudos uns nos outros, formavam uma parede de proteção. Nenhum dardo passava. Isso nos diz claramente que a fé não se vive isolada. Ela se vive em comunhão com os irmãos. A sua fé protege quem está ao seu lado. E a fé do seu irmão protege você.
E o segundo aspecto é que o escudo era capaz de apagar completamente os dardos incendiários antes que atingissem o corpo.
E isso nos mostra que Paulo não fala de qualquer tipo de fé. É uma fé firme, firmada na Palavra de Deus, com estrutura e resistência para não ceder.
Porque a medida que os dardos chegam, as dúvidas que surgem do nada, as tentações inesperadas, as acusações que aparecem precisamente quando estamos mais cansados e fragilizados, a fé não pode ser um sentimento vago. A fé tem que ser uma confiança concreta nas promessas de Deus, que apaga esses ataques antes que atinjam o coração.
E no vs.17, Paulo vai falar das últimas duas armaduras necessárias:
e) Ele diz primeiro “Usem também o capacete da salvação...”
O capacete obviamente protegia a cabeça, mas não era apenas uma proteção física.
O capacete era o que mantinha o soldado lúcido no meio do caos da batalha. Com o capacete ainda que algo batesse, ele conseguia pensar, tomar decisões e não entrar em pânico. Sem ele, um único golpe acabava tudo.
E essa era uma das peças mais importantes da armadura, porque perder a cabeça no combate significava perder o combate.
Então o capacete da salvação protege a mente e o pensamento.
E meus irmãos, quantas batalhas se travam primeiro na nossa cabeça, antes de chegarem a qualquer outro lugar?
O desespero,
a dúvida sobre se Deus realmente nos ama,
o medo do futuro,
o pensamento constante de que já fomos longe demais para sermos perdoados
tudo isso é combatido pela certeza firme da nossa salvação, garantida em Cristo Jesus.
O inimigo sabe que se conseguir atingir a nossa mente — se conseguir fazer você duvidar de quem você é e a quem você pertence — isso vai fazer com que você ceda e caia. Por isso o capacete vem antes da espada, porque você precisa ter a cabeça protegida antes de entrar em combate.
e por último, Paulo fala da:
f) “espada do Espírito, que é a palavra de Deus”
A espada que Paulo descreve é a machaira, uma espada curta do legionário romano, com cerca de 50 centímetros.
Não era aquela espada que vemos nos filmes daquela época, era arma de combate corpo a corpo: precisa, rápida, usada para acertar nas frestas/espaços da armadura do inimigo.
Tudo com um movimento calculado, no lugar certo, na hora certa.
E eu não sei se você reparou, mas a única peça de ataque de toda essa armadura que Paulo descreve é a espada. Todas as outras peças são de defesa.
A nossa postura como filhos de Deus, não é de ataque, mas de resistência, de permanecer de pé no território que Cristo já conquistou. Meu irmão, nessa batalha nós já temos a vitória, nós já começamos em vantagem.
Mas ainda assim, quando é preciso nós avançarmos, quando é preciso responder à tentação, a única arma ofensiva que nós temos é a Palavra de Deus.
Se olharmos pro texto da tentação de Jesus no deserto, o diabo tentou Jesus com a palavra, ainda que de maneira distorcida, para enganar, e a resposta de Jesus, foi exatamente a palavra em seu contexto correto.
E é exatamente isso que o termo que Paulo usa aqui para "palavra"— rhema — não é a Bíblia em geral e de forma abstrata. É a palavra concreta, específica, trazida à memória e aplicada no momento exato da tentação. A espada certa, para o ataque certo, na hora certa.
Por isso que é tão importante nós conhecermos a Palavra de Deus de cor, porque não sabemos em que momento, em que dia mau, precisaremos dela pronta na ponta da língua, como uma espada pronta pra combate.

3. Vestidos e a respirar oração

E meus irmãos, depois de Paulo descrever a armadura que deve nos revestir pra enfrentarmos as tentações e desafios do nosso dia, a gente pode cair no erro de pensar que: “Ah, se essa armadura vem de Deus, então vou esperar ele me equipar”.
Mas é justamente por isso que nos próximos versículos ele faz questão de falar sobre a oração.
Ainda que a oração não seja propriamente uma peça de armadura, Paulo coloca logo a seguir, como se fosse o ar que se respira durante toda a batalha.
Reparem na forma como o versículo 18 está construído:
Paulo usa quatro vezes a palavra "todo" ou "toda": "Orem em todo tempo no Espírito, com todo tipo de oração e súplica, e para isto vigiem com toda perseverança e súplica por todos os santos.".
Isso não ficou pro fim porque é um detalhe insignificante... É a atmosfera que envolve toda a batalha.
Um soldado pode ter a melhor armadura do mundo, mas se ele deixa de respirar, ele morre. E a oração é exataente essa respiração espiritual constante, sem isso a armadura, por melhor que seja, E É, é inútil.
Paulo não deixa espaço pra gente cair no erro de pensar que a oração é algo que a gente só faz de vez em quando, ou quando você tiver passando por alguma crise.
É tão claro que ele escreve palavras de totalidade:
todo tempo
todo tipo de oração
toda perseverança
todos os santos
para que a gente perceba que isso não é uma prática ocasional, é o modo de vida de um crente.
E há ainda um outro detalhe que facilmente nos passa despercebido: Porque Paulo distingue "oração" de "súplica":
A oração é o termo mais geral, a comunhão contínua com Deus, dia a dia;
A súplica é o pedido concreto, insistente, feito diante de uma necessidade específica.
Ambas devem acontecer "no Espírito", não como um exercício mecânico de repetição de palavras, mas como algo sustentado pelo próprio Espírito Santo que habita em nós, que "intercede por nós com gemidos inexprimíveis", como Paulo fala em Romanos 8:26.
Assim como falamos que a fé não vive isolada, Paulo também mostra que a oração não é individual.
Paulo pede oração "por todos os santos" porque essa guerra espiritual não é uma luta solitária, cada um por si, isolados cada um no seu combate.
Imagina se na guerra os soldados avançassem sem formação, sem nenhuma organização, certamente daria tudo errado na batalha.
Mas nós somos um exército:
somos chamados a lutar em conjunto,
a interceder uns pelos outros,
a nos sustentar mutuamente pela oração.
Quando um irmão está passando por uma tentação forte ou uma provação dolorosa, a nossa oração por ele não é um gesto simpático e opcional, é fazer parte da batalha, é ser igreja.
Uma igreja onde ninguém ora pelos outros é como aqueles soldados que avançam sem organização, vira presa fácil para o inimigo, por mais bem armado que cada esteja.
Não é atoa que nos versículos seguintes Paulo pede oração por ele.
(6:19) E orem também por mim, para que, no abrir da minha boca, me seja dada a palavra, para com ousadia tornar conhecido o mistério do evangelho,
(6:20) pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazer.
É incrivel como Paulo é um exemplo a ser seguido, porque depois de descrever com tanta inteligencia a analogia da armadura com o mundo espiritual, ele não termina com um grande apelo triunfalista, cheio de força em si mesmo… Ele simplesmente pede oração por ele mesmo.
Paulo era um homem que dominava as escrituras, que compreendia perfeitamente o que era uma batalha espiritual e não só isso, ele sabia o que deveria fazer para resistir e sabia da importância das orações dos seus irmãos.
E é ainda mais impressionante que Paulo falar ser o “Embaixador de cadeias/acorrentado”, um embaixador tanto naquela tempo, como nos nossos dias, é alguém com imunidade, que é protegido, respeitado por onde passa. Mas Paulo é um embaixador de Cristo, não tem glamour, um embaixador do Reino sempre sabe que sua posição pode custar tudo, sua liberdade e até mesmo a sua vida.
Meu irmão, se um dia você escutou um evangelho de caminho facil, que vai te dar Glória, Dinheiro e Poder, deixa eu te desapontar porque esse não é o verdadeiro evangelho.
Porque Paulo, se nomeando embaixador, não pede para ser liberto, ele pede ousadia para continuar a pregar o evangelho, mesmo acorrentado. Isto é exatamente o testemunho vivo de tudo o que ele acabou de ensinar...
O próprio Apóstolo Paulo,
na linha da frente do combate espiritual,
depende da mesma armadura,
da mesma oração,
do mesmo Espírito que exorta os Efésios e nos exorta hoje também.
Ele não fala de cima, ele fala como um soldado ferido, no meio da batalha, pedindo reforços de oração aos seus companheiros.
Meu irmão, pedir oração não são sinal de fraqueza ou motivo de vergonha, mas é um reconhecimento honesto de que ninguém, nem mesmo o maior apóstolo da história da igreja, luta essa guerra sozinho.
Se Paulo, precisava da oração dos seus irmãos para ter coragem de abrir a boca, quanto mais nós precisamos uns dos outros.
Não sei se os irmãos já repararam, mas sempre após o último louvor, nós fazemos uma oração. Essa oração se chama oração comunitária, o próprio nome já diz, que privilégio seria colocarmos os pedidos uns dos outros nesse momento do culto.

Conclusão

E meus irmãos chegamos ao fim dessa carta e ao fim dessa série 'Quem Sou, Onde Estou'.
Paulo inicia a carta, falando de graça e paz, e agora termina, exatamente com as mesmas palavras:
(6:23) Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo.
(6:24) A graça esteja com todos os que amam sinceramente o nosso Senhor Jesus Cristo.
Tudo começou na graça de Deus, e tudo termina na graça de Deus.
Entre esses dois pontos, Paulo nos mostrou que:
Somos eleitos antes da fundação do mundo,
resgatados pelo sangue de Cristo,
selados com o Espírito Santo,
ressuscitados e sentados nos lugares celestiais.
Paulo também mostrou onde estamos:
inseridos num corpo, onde cada um tem a sua importância e o seu papel,
em casamentos que refletem a relação de Cristo e a igreja,
em famílias onde pais e filhos se honram mutuamente,
em trabalhos onde servimos como se servíssemos ao próprio Senhor.
E agora, no final, mostra-nos a moldura invisível que envolve tudo isto: uma batalha espiritual real, que não podemos ficar de braços cruzados.
Mas, essa batalha não se trava com medo de perder. Repito o que já dissemos: Cristo já vestiu essa mesma armadura antes de nós.
As palavras que Paulo usa para descrever o cinturão da verdade e a couraça da justiça são retiradas de Isaías 59, onde é o próprio Deus quem se veste dessa armadura para ir à guerra e salvar o seu povo.
'vestir a armadura de Deus' é o mesmo que dizer 'vistam-se do Senhor Jesus Cristo'.
A nossa armadura, é o próprio Cristo.
Nós nos vestimos dEle:
da sua verdade,
da sua justiça,
da sua paz,
da sua salvação,
da sua palavra.
E é exatamente por isso que hoje podemos permanecer firmes...
mesmo no dia mau,
mesmo quando a tentação aperta,
mesmo quando o desânimo bate à porta e
mesmo quando a acusação do inimigo parece esmagadora.
Nós não lutamos pra conquistar uma vitória incerta, Lutamos a partir de uma vitória já garantida, já assegurada na cruz e na ressurreição de Jesus Cristo.
Muitos que ganharam essa batalha caíram depois, e é por isso que Paulo insiste tanto em 'permanecer firmes', em 'ficar de pé' depois de tudo cumprido...
Não basta uma vitória, é preciso perseverança diária, vestindo, todos os dias, essa mesma armadura, respirando, todos os dias, essa mesma oração.

Aplicação

E eu quero te desafiar no final dessa série...
O primeiro desafio é que você se comprometa a orar essa semana, não somente sua devocional, mas também por pelo menos dois ou três outras pessoas da igreja.
Não aquele tipo de oração genérica, mas uma oração concreta, sabendo que essa pessoa também está em uma batalha espiritual, com as suas fraquezas e tentações.
E, assim como Paulo, que pediu oração para si mesmo, tenham a humildade de pedir a alguém que ore por você essa semana: talvez pela sua família, pelo seu trabalho ou por uma fraqueza específica.
E o segundo desafio eu gostaria que você abaixasse sua cabeça e fechasse os olhos agora, e na medida que eu for falando, que você examine a sua vida com sinceridade, e veja quais dessas peças da armadura estão mais fracas hoje. E que você peça perdão por ter deixado algumas dessas peças de lado e, principalmente, também peça ajuda de Deus.
Talvez você esteja falhando.
Talvez seja o cinturão da verdade: vivendo com pequenas mentiras que se tornaram verdade, possivelmente porque você se distanciou da Palavra de Deus. E quando isso acontece, você começa a perder a capacidade de distinguir o que é verdade e o que é engano.
Talvez seja a couraça da justiça: um pecado escondido, que tem corroido o seu coração, mas que você tem vergonha de confessar porque isso te deixaria exposto.
Talvez seja o capacete da salvação: Aquela insegurança do amor de Deus, sempre duvidando se de fato você foi realmente salvo, sempre lutando contra o desespero em vez de descansar na certeza que Cristo já te deu.
Ou Talvez seja o escudo da fé: toda vez que vem uma simples dificuldade você fica completamente abalado, porque a confiança em Deus está fraca, e por isso tem vivido ansioso em vez de caminhar firme.
Identifiquem nessa semana e tratem isso com seriedade: leia a Palavra, busque a Deus, converse com um irmão maduro sobre o que tem passado e lembrem-se sempre que nenhuma dessas peças é fabricada pelo seu esforço, é "armadura de Deus", a nossa parte é vestir e viver isso todos os dias.
Oração
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