Criados para servir

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Transcript
Quinta-feira à noite.
Uma sala emprestada, no segundo andar de uma casa em Jerusalém. Treze homens chegando para jantar.
Do lado de fora, a rua. E a rua de Jerusalém em abril não era asfalto. Era terra batida, com animal passando o dia inteiro no mesmo caminho. Todo mundo de sandália aberta. Vocês já entenderam o que grudava no pé.
Por isso toda casa que recebia visita tinha o mesmo arranjo perto da porta: uma jarra com água, uma bacia, uma toalha. E um servo. Sempre o de posição mais baixa da casa — a pessoa cuja tarefa era ficar ajoelhada ali, lavando pé de convidado, a noite inteira.
Naquela noite, naquela sala, tinha a jarra. Tinha a bacia. Tinha a toalha. Só não tinha servo.
Então me expliquem uma coisa. Por que ninguém pegou a toalha?

Por que ninguém se levantou?

Por quê? O que vocês acham?
[espere de verdade — conte até sete]
Lucas nos traz detalhes sobre algumas coisas que se passavam entre os discípulos. Em Lucas 22 ele conta que havia uma discussão entre eles: sobre qual dos doze era o maior.
Lucas não diz em que momento da noite isso aconteceu. Mas se aquilo já estava no ar quando eles entraram naquela sala, tudo faz sentido.
Não era timidez de pegar a bacia. Era um impasse. Doze homens discutindo quem era o mais importante, e enquanto isso ali estava a bacia, a toalha e a água. Quem pegasse aquela toalha primeiro seria o arregão. Ia perder toda a aura possível. Ia claramente dizer a todos que era o menos importante, e ia perder a discussão. Se levantar para fazer aquilo era admitir a todos que era o menor da sala.
Ninguém se levantou. Todos ficaram com o pé imundo na mesa. Era melhor, na cabeça deles, comer imundo do que se rebaixar diante dos outros homens.
Muitas vezes preferimos que a coisa seja feita de qualquer jeito, do que ter que ser a pessoa que vai realmente fazer.

Por que Ele se levantou?

João 13.1–5 (NVT)
Antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que havia chegado sua hora de deixar este mundo e voltar para o Pai. Ele tinha amado seus discípulos durante seu ministério na terra, e os amou até o fim. Estava na hora do jantar, e o diabo já havia instigado Judas, filho de Simão Iscariotes, a trair Jesus. Jesus sabia que o Pai lhe dera autoridade sobre todas as coisas e que viera de Deus e voltaria para Deus. Assim, levantou-se da mesa, tirou a capa e enrolou uma toalha na cintura. Depois, derramou água numa bacia e começou a lavar os pés de seus discípulos, enxugando-os com a toalha que estava em sua cintura.
Treze homens em uma sala. Doze tinham vários motivos para NÃO se levantar, e um único tinha UM motivo melhor que todos os outros. E foi justamente essa pessoa que se levantou.
João 13.3–4
Jesus sabia que o Pai lhe dera autoridade sobre todas as coisas e que viera de Deus e voltaria para Deus. Assim, levantou-se da mesa, tirou a capa e enrolou uma toalha na cintura.
Nessa parte o texto descreve o motivo pelo qual Jesus se levantou. No meio dos dois versículos não está escrito "apesar de saber quem era, ele se levantou". Está escrito: sabendo quem era — e por isso — ele se levantou.
Cristo tinha e era tudo. Currículo completo. Sabia quem era o Pai, sabia de onde veio, sabia para onde iria, sabia o que haveria de sofrer. Jesus tinha tudo, ele tinha o Pai ao lado dEle. Ele não tinha nada a perder, ele é o dono de todas as coisas.
E justamente por isso, por conta de toda essa certeza sobre Ele mesmo, é que ele desceu. Porque quem já tem tudo não perde nada descendo.
Os outros doze não se levantaram porque não tinham a certeza de quem eram. Eles disputavam lugar entre eles. Quem está num grupo disputando importância, posição e reconhecimento não pode perder tempo se ajoelhando — se fizer isso vai perder lugar para o outro.
Olha bem como João narra o que Jesus fez. João claramente poderia ter escrito que Jesus foi e lavou o pé da galera, mas olha como ele narra: levantou, tirou a roupa de cima, pegou a toalha, amarrou na cintura, pôs a água, começou a lavar, começou a enxugar. João está em câmera lenta nos explicando cada ação que Jesus fez.
E tem uma frase daquela mesma mesa que Lucas guardou e João não conta. Jesus disse: "Eu estou entre vós como quem serve."
Lucas anotou a frase. João não conta a frase — João conta a bacia. Um anotou o que ele disse, o outro anotou o que ele fez. E os dois batem.
Não se esqueçam que no meio de todos aqueles pés engordurados de coisas que a gente espera que fosse só barro, tinha um camarada não muito legal chamado Judas. Que já tinha combinado um preço por trair Cristo.
Jesus lavou esse pé também. Jesus lavou os pés do seu traidor — e nós não conseguimos olhar para alguém que julgamos, "não suporto fulaninho".

Por que Pedro disse não?

João 13.6–9 (NVT)
Quando Jesus chegou a Simão Pedro, este lhe disse: "O Senhor vai lavar os meus pés?".
Jesus respondeu: "Você não entende agora o que estou fazendo, mas algum dia entenderá".
"Lavar os meus pés? De jeito nenhum!", protestou Pedro.
Jesus respondeu: "Se eu não os lavar, você não terá comunhão comigo".
Simão Pedro exclamou: "Senhor, então lave também minhas mãos e minha cabeça, e não somente os pés!".
"Lavar os meus pés? De jeito nenhum." Isso é humildade ou isso é orgulho?
[espere — deixe responderem]
Pedro até tinha uma intenção boa, ele tinha reverência. Ele olhava para o seu Mestre e pensava que aquilo não era coisa para Cristo fazer, que Cristo era maior que ele.
O problema não é a intenção. É o que Pedro faz com ela. Ele pega essa reverência e dá ordens a Jesus como se ele fosse alguém. Ele diz: "NUNCA". E assim a reverência que ele tinha já virou qualquer outra coisa.
Lembre-se: dá para estar errado se sentindo santo.
Veja o que Jesus fala antes de Pedro negar.
João 13.7"Você não entende agora o que estou fazendo, mas algum dia entenderá."
Pedro provavelmente não entendeu naquele momento por que Jesus tinha que lavar os pés dele. Mas isso não muda o fato de que lavou igual. Você não precisa entender tudo hoje para ser lavado por Jesus hoje.
Agora veja o que Jesus responde depois que Pedro nega.
João 13.8"Se eu não os lavar, você não terá comunhão comigo."
O problema de Pedro não é que ele não queria servir. É que ele não queria ser servido.
[pausa]
E olha uma coisa que a gente faz sem perceber. Alguém te dá um presente que você não esperava. Qual é a primeira frase que sai da sua boca?
"Ah, não precisava."
Sai automático. E por quê? Porque receber sem ter como devolver deixa a gente devendo. E ninguém gosta de dever.
Era isso que o Pedro estava fazendo ali. "Não precisava. Não comigo. Não assim."
E a resposta de Jesus é a coisa mais dura desse capítulo inteiro: "se eu não os lavar, você não terá comunhão comigo."
Quer dizer: ou você aceita, ou você fica de fora. Não tem outra porta.
[pausa]
Então sim: você vai ficar devendo. E você nunca vai ter como pagar.
Isso não é um problema do cristianismo. Isso é o cristianismo.
E é aqui que tudo o que a gente viu hoje se junta. Ninguém consegue dar o que nunca aceitou receber. Se você nunca deixou Jesus te servir, o seu serviço vai ser sempre encenação — porque você vai estar tentando pagar uma conta, em vez de responder a um presente.
João 13.9"Senhor, então lave também minhas mãos e minha cabeça, e não somente os pés!"
O cara foi do "nunca lave meus pés" para "me lava todo de uma vez". Pedro sempre mostrando ser 8 ou 80. Pedro não tem meio termo. Ou recusa tudo, ou quer tudo. E das duas vezes ele está tentando dizer a Jesus como a coisa deve ser feita.
João 13.10–11 (NVT)
Jesus respondeu: "A pessoa que tomou banho completo só precisa lavar os pés para ficar totalmente limpa. E vocês estão limpos, mas nem todos". Pois Jesus sabia quem o trairia. Foi a isso que se referiu quando disse: "Nem todos vocês estão limpos".
A resposta de Jesus usa duas palavras diferentes, e é fácil passar batido por elas. Em grego, uma delas é o banho do corpo inteiro e a outra é lavar só uma parte. E João usa o verbo do banho uma única vez no capítulo inteiro — bem aqui.
Quem já tomou banho não precisa tomar banho de novo. Só precisa lavar o pé.
O banho é uma vez só. É quando você é de Cristo, e isso não se repete. Você é regenerado uma única vez.
A lavagem do pé é todo dia. É a sujeira que a gente junta andando pelo caminho, e que não tira de você o direito de estar na sala — mas precisa ser lavada.
E agora repara onde João coloca isso.
O versículo seguinte é a frase mais pesada da noite.
[devagar]
E aí o mistério da noite muda. Não é mais "quem vai pegar a bacia". Agora é outro.
"Vocês estão limpos, mas nem todos."
[silêncio]
Judas estava na sala. Judas tomou o jantar. Judas teve o pé lavado pelas mãos de Jesus.
E não estava limpo.
Dá para estar na sala e não estar limpo. Dá para estar aqui toda sexta-feira e nunca ter deixado Ele te lavar.

E agora, por que você não se levanta?

João 13.12–17 (NVT)
Depois de lavar os pés deles, Jesus vestiu a capa novamente, retornou a seu lugar e perguntou: "Vocês entendem o que fiz? Vocês me chamam 'Mestre' e 'Senhor', e têm razão, porque eu sou. E uma vez que eu, seu Senhor e Mestre, lavei seus pés, vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei um exemplo a ser seguido. Façam como eu fiz a vocês. Eu lhes digo a verdade: o escravo não é maior que o seu senhor, nem o mensageiro é mais importante que aquele que o envia. Agora que vocês sabem estas coisas, serão felizes se as praticarem."
Repara no que ele faz. Ele diz: vocês me chamam de Mestre e Senhor, e têm razão, porque eu sou. Ele pega os dois títulos que eles mesmos deram a ele — e usa os dois contra eles. Se o Mestre lavou pé, e se o Senhor lavou pé, então não sobra ninguém aqui embaixo com desculpa.
E aí ele fecha a única saída que ainda existia. Porque a saída é essa, e todo mundo aqui já pensou nela: "tá, mas ele é Jesus. Ele podia. Eu não sou ele." Ou a versão de vocês: "não é minha função". "Tem gente melhor pra isso." "Eu sou só o mais novo."
E o versículo 16 diz: o escravo não é maior que o seu senhor, nem o mensageiro é mais importante que aquele que o envia.
[pausa]
Olha a direção do argumento. Não é de baixo para cima. Não é "se o servo fez, quanto mais o senhor". É o contrário: o Senhor fez. Então o servo não tem de onde recusar.
A única forma de você escapar dessa é alegando que você é maior do que ele.
E tem uma coisa aí que eu quero que vocês ouçam com cuidado. A palavra traduzida por "mensageiro" nesse versículo é a palavra apóstolo — e é a única vez que ela aparece no evangelho de João inteiro.
Ele está falando exatamente com os onze homens que vão fundar a igreja. Antes de eles fundarem qualquer coisa, ele avisa: vocês nunca vão poder ser maiores do que aquele que se ajoelhou aqui hoje.
Porque a gente trata serviço como fase. Servir agora, e quando chegar na banda, quando entrar na liderança, quando subir no palco — aí para. Não existe essa formatura. O cara que está no topo está segurando uma toalha.
Beleza. Até aqui a gente estava falando de uma sala em Jerusalém e treze homens.
Hoje a gente está aqui, numa sexta-feira, no GABS. E tem alguns homens e algumas mulheres.
Aquela sala tinha uma bacia no chão que ninguém queria pegar. E nessa sala tem também.
Juntar o lixo do andar. Arrumar as cadeiras quando termina. Arrumar os cabos do som. Servir no café no domingo. Servir na igreja. Servir no GABS.
Não é que vocês não saibam o que fazer. Vocês sabem. Todo mundo aqui já identificou a sua bacia enquanto eu estava falando.
E a questão é a mesma daquela quinta-feira: pegar a toalha vai custar alguma coisa. Vai parecer que você é o menor da sala.
E olha o que ele diz no fim. Ele não disse "felizes os que entendem isso". Ele disse: serão felizes se as praticarem.
Dá para sair daqui hoje tendo achado tudo isso muito bonito e não mudar absolutamente nada. Aliás, é o mais provável que aconteça.

O momento

Agora, para a gente terminar: silêncio absoluto. Reflexão. Sem mexer em celular, sem nada. Ninguém filma e ninguém fotografa. Só prestando atenção.
Eu vou terminar hoje não só falando.
Dudu, vem cá.
[tire a peça de cima. Amarre a toalha. Ajoelhe — de joelhos, não agachado. Ponha a água. Lave um pé de cada vez. Seque. Não olhe para a sala nenhuma vez.]
[silêncio total. Vai incomodar por volta dos noventa segundos. É aí que começa a funcionar. Aguente.]
[depois: sem abraço, sem discurso, sem pergunta. Um obrigado baixo. Espere ele sentar. Vista a roupa de novo. Sente. E só então fale.]
Vocês entendem o que fiz?
[pausa]

Fechamento

Doze homens não pegaram a toalha porque não sabiam quem eram.
Um pegou porque sabia.
[pausa]
Quem sabe quem é, desce.
Quem sabe quem é, desce.
Você não precisa esperar ficar mais maduro, mais santo, ou mais preparado. Ele lavou o pé de quem ia negar. E lavou o pé de quem ia vender. Ele começa com você exatamente como você está. E ele começa hoje.
Vamos ter uma tarefa para a semana.
Uma pessoa. Uma coisa concreta. Esta semana.
E ninguém pode ficar sabendo.
E antes que alguém pergunte: não é que tem que ser invisível. Se você lavar a louça, sua mãe vai ver. Tudo bem.
"Ninguém pode ficar sabendo" quer dizer outra coisa: você não conta. Não posta. Não fala no grupo. E não usa depois numa discussão para provar que você é boa pessoa.
A pessoa que você servir pode saber. O resto do mundo, não.
[pausa]
Porque é exatamente isso que responde a pergunta de hoje.
Se ninguém vê e você faz mesmo assim, é porque você não estava precisando que vissem.
[ore curto e encerre. Não peça para levantar a mão. Não chame ninguém à frente. Não pergunte a ninguém como se sentiu.]
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