O CHAMADO DE DEUS: Do indivíduo ao coletivo

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A Grande Comissão em Mateus 28:16-20 lida a partir de quatro eixos: a missão pertence a Deus e não à igreja, é tarefa coletiva do corpo de Cristo e não de um indivíduo isolado, acontece de forma contínua na vida cotidiana, e é urgente porque há quem nunca ouviu enquanto outros já ouviram e adiaram a decisão.

Notes
Transcript

Introdução

Leitura de Mateus 28:16-20
Se todo o cristianismo mundial se mobilizasse, cada crente alcançando uma pessoa nova por ano, 95% dos não cristãos ouviriam o evangelho em pouco mais de seis anos. Se a tarefa ficasse só com os adventistas, cada membro alcançando uma pessoa nova por mês, o mesmo resultado levaria cerca de oitenta e seis anos. Usando a frequência real de testemunho que os próprios adventistas declaram em pesquisa mundial, o prazo sobe para mais de quatro décadas no cenário otimista, e passa de um século no cenário realista. E isso sem contar que todo dia nascem mais pessoas do que qualquer estratégia consegue cobrir.
Esses números provam uma coisa só: por conta própria, a igreja nunca vai terminar essa tarefa. Se esperarmos que nossa pregação produza o resultado final, isso nunca vai acontecer, porque a população cresce mais rápido que nossa capacidade de alcançar. Mas não pregamos porque o cálculo fecha. Pregamos porque Deus ordenou, e cremos que Ele vai derramar o Espírito Santo e fazer uma obra sobrenatural nos últimos dias. A missão é Dele em primeiro lugar. Enquanto Ele não vem, vamos cumprindo Sua ordem.
Onze discípulos numa montanha da Galileia. Alguns ainda duvidando, o texto não esconde isso (v. 17). É sobre essa gente incerta que cai a ordem mais abrangente do Novo Testamento.

I. A missão é de Deus, não nossa

“Foi dada a mim toda a autoridade no céu e na terra” (Mt 28:18). O verbo está na voz passiva: o Pai concede, o Filho recebe. Antes de qualquer discípulo sair de qualquer lugar, a autoridade já está definida, e já não é humana. Fazemos parte da missão, mas o poder é Dele, o mandato é Dele.
João 20:21 mostra a mesma estrutura: “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio.” Ninguém aqui foi por conta própria. Fomos enviados. E Atos 1:8 diz de onde vem a capacidade para a tarefa: “Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas.” Poder ali é dynamis, força, capacidade, o radical de onde vem a palavra dinamite. A ordem para testemunhar vem junto com a fonte de energia para testemunhar. Deus não manda e se retira.
Por isso não é opção. Marcos 16:15 não abre exceção de destinatário: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” Isso vale para todo discípulo, não só para quem tem título ministerial.
Ellen White escreve: “Todo verdadeiro discípulo nasce no reino de Deus como um missionário. Assim que vem a conhecer o Salvador, deseja pôr os outros em contato com Ele” (Serviço Cristão, p. 9). E completa em outro lugar: “Se cada um de nós fosse um missionário vivo, a mensagem para este tempo seria rapidamente proclamada em todos os países, a todo povo, nação e língua” (Serviço Cristão, p. 9).

II. A missão é coletiva, é do corpo

Ela é da igreja, do corpo em conjunto. É de Paulo, de Apolo, de Tiago, de João, de Priscila e Áquila. É de todos: é do que batiza, é do que discipula, é do que prega.
Repare que na montanha estavam “os onze discípulos” (Mt 28:16), plural, grupo. Jesus não comissiona um herói solo. Comissiona um corpo. Paulo resume o princípio em 1 Coríntios 3:6: “Eu plantei, Apolo regou, mas o crescimento veio de Deus.” Um planta, outro rega, um terceiro colhe. Tiago lidera em Jerusalém, João pastoreia, Priscila e Áquila corrigem Apolo em particular e o ensinam com mais exatidão (At 18:26). Ninguém faz tudo, e ninguém precisa fazer tudo.
Hoje vivemos num tempo hiperindividualista, onde parece que só é importante quem faz tudo sozinho. A Bíblia desmonta isso. No corpo, cada um tem sua função, e todos têm um chamado. O pastor tem um chamado docente, um chamado de condução, funções que a igreja mesma designa. Por isso, na Igreja Adventista, não cremos que o ministério é do pastor. O ministério é de Deus, outorgado à igreja, e Deus o compartilha com Seu povo, cada um de acordo com os dons recebidos: uns pastores-mestres, outros evangelistas, outros em liderança (Ef 4:11-12). 1 Coríntios 12:19-20 fecha o argumento: “se todos fossem um membro, onde estaria o corpo? Agora, pois, há muitos membros, mas um só corpo.”
Ellen White descreve o que acontece quando cada parte do corpo cumpre sua função: “Aquele que bebe da água viva, faz-se fonte de vida” (O Desejado de Todas as Nações, p. 195). Quem bebe, jorra. Ninguém recebe para guardar.

III. A missão nos salva, e acontece o tempo todo

Ela não deve ser feita num momento, num lugar. Acontece o tempo todo. O verbo em Mateus 28:19 é “indo”, um particípio, não um evento isolado. Enquanto estamos indo, estamos falando, estamos testemunhando. Nosso modo de falar, nossas roupas, nossos relacionamentos, nosso casamento, uma fala oportuna, um estudo bíblico, um convite à igreja: tudo prega.
Provérbios 15:23 resume: “quão boa é a palavra a seu tempo!” Mateus 5:16 estende isso à conduta visível: “assim brilhe a vossa luz diante dos homens.” E há uma promessa que Paulo faz a Timóteo que se encaixa direto aqui: “fazendo isto, te salvarás a ti mesmo e aos que te ouvem” (1 Tm 4:16). A missão nos salva. Guardar o evangelho sem repassá-lo não conserva ninguém, atrofia.

IV. A missão é urgente

Ninguém deveria ouvir duas vezes o apelo de Deus enquanto há bilhões que nunca ouviram sequer uma vez. Romanos 10:14 pergunta o que sustenta essa urgência: “como ouvirão, se não há quem pregue?”
Isso cobra de dois grupos. Primeiro, de quem deveria pregar e não pregou. Tiago 4:17 é direto: “aquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado.” Ezequiel 3:18 vai mais fundo: o atalaia que vê o perigo chegar e não avisa responde pelo sangue de quem morreu sem aviso.
Abram La Rue. Pastor de ovelhas e lenhador californiano, sem ordenação pastoral, leigo. Em 1883, com pouco mais de sessenta anos, escreveu à liderança da igreja pedindo para ser enviado como missionário à China. A resposta foi não: idade avançada, sem verba disponível. Ele foi assim mesmo. Negociou trabalho a bordo de um navio para pagar a passagem e chegou a Hong Kong em 1888, sozinho, sustentando-se como colportor.
Passou treze anos ali. Imprimiu a primeira literatura adventista em chinês, distribuiu por conta própria, manteve casa aberta para marinheiros ocidentais que passavam pelo porto. Morreu em 1903 sem ver um só convertido chinês batizado, sem ver igreja organizada, sem ver a obra que ele começou. Catorze anos depois de ele chegar a Hong Kong, chegou o primeiro missionário oficial enviado pela igreja. O trabalho de La Rue tinha preparado o terreno. Hoje a obra adventista na China descende, em parte documentada, daquele leigo que a liderança havia dispensado por ser velho demais.
Fonte: Enciclopédia Adventista (Encyclopedia of Seventh-day Adventists), verbete "La Rue, Abram (1822-1903
Segundo, de quem já ouviu e adiou. Se você está aqui sendo discipulado, sendo evangelizado, e ainda não foi batizado, ainda não está engajado na igreja de Deus, na comissão de Deus: o que te falta? Jesus vai cobrar de quem deveria pregar e não pregou. E vai cobrar de quem ouviu e adiou, se demorou, não se entregou. Lucas 12:48 estabelece o padrão: “a quem muito foi dado, muito se lhe exigirá.”
Conclusão e Apelo
A última frase da Grande Comissão não é mais uma exigência. É a garantia por trás de tudo o que veio antes: “E eis que estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos” (Mt 28:20).
Não fazemos conta de quantos anos faltam para decidir se vale a pena continuar. A missão é Dele, o poder é Dele, o Espírito é Dele. A nós cabe ir, sendo corpo, sendo contínuos, sendo urgentes. Enquanto Ele não vem, vamos cumprindo Sua ordem.
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