Derrubado, Levantado e Enviado

Cristiano Gaspar
Igreja em Movimento  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Transcript

Introdução

Poucas canções expressam tão bem o ideal humano de uma vida bem-sucedida quanto My Way, do Frank Sinatra. Nela, um homem olha para trás, contempla suas escolhas, seus acertos e seus fracassos, e chega ao fim orgulhoso de poder dizer: “Eu fiz do meu jeito.”
Essa frase se tornou uma espécie de confissão de fé contemporânea. Minha vida pertence a mim. Eu escolho o caminho. Eu escrevo a história. Eu determino quem desejo ser e para onde quero chegar.
Talvez nunca tenhamos cantado essa música em voz alta, mas conhecemos sua melodia. Ela está presente em quem constrói a carreira segundo os próprios termos, planeja a família que deseja e busca segurança, reconhecimento e conforto.
Nada disso é necessariamente mau. Muitas dessas coisas são presentes de Deus e responsabilidades legítimas. O problema começa quando deixamos de recebê-las como presentes e passamos a tratá-las como o propósito final da existência.
É possível até incluir Jesus nesse projeto. Pedimos que ele proteja nossa família, faça nosso trabalho prosperar, preserve nossa saúde e nos ajude a realizar nossos sonhos. Jesus ocupa um lugar importante na história que estamos escrevendo, mas nós continuamos sendo os protagonistas.
Atos 26 nos apresenta um homem que vivia exatamente assim. Paulo não era alguém sem direção. Desde jovem, havia dedicado a vida à religião judaica e se tornado membro do grupo mais rigoroso de seu tempo. Convencido de que Jesus era um impostor e de que seus seguidores ameaçavam a fé de Israel, prendeu cristãos, aprovou condenações e tentou obrigá-los a negar o nome de Cristo. Foi com essa mesma missão que partiu para Damasco, autorizado pelos principais sacerdotes.
Quando Paulo conta essa história, estava preso cerca de dois anos. Já havia apresentado sua defesa diante de Félix e Festo e, por não confiar que receberia um julgamento justo em Jerusalém, apelou para César. Festo agora precisava enviá-lo a Roma, mas não sabia exatamente que acusação formular contra ele. Por isso, aproveitou a visita do rei Agripa, conhecedor das questões judaicas, para ouvir o caso.
Agripa entra acompanhado de Berenice, de Festo, dos comandantes militares e das pessoas mais importantes da cidade. Paulo entra acorrentado.
À primeira vista, ele parece ser o homem mais fraco daquela sala. Oficialmente, está ali para se defender. Mas, à medida que fala, percebemos que Paulo não está tentando apenas provar sua inocência ou negociar sua liberdade. Ele está anunciando o evangelho às pessoas que imaginavam estar o julgando.
O prisioneiro está chamando o rei a se render a outro Rei.
Cristo não entrou na história de Paulo para ajudá-lo a cumprir melhor seus planos. Ele o derrubou da missão que havia construído, o levantou com uma nova identidade e o incorporou à sua própria história.
A verdadeira conversão acontece quando Cristo deixa de ser personagem na história que escrevemos e compreendemos que fomos chamados a ocupar um lugar na história dele.
Atos dos Apóstolos 26.13–23 NAA
13 Ao meio-dia, ó rei, enquanto eu seguia pelo caminho, vi uma luz no céu, mais resplandecente que o sol, que brilhou ao redor de mim e dos que iam comigo. 14 E, caindo todos nós por terra, ouvi uma voz que me falava em língua hebraica: “Saulo, Saulo, por que você me persegue? É duro para você ficar dando coices contra os aguilhões!” 15 Então eu perguntei: “Quem é você, Senhor?” Ao que o Senhor respondeu: “Eu sou Jesus, a quem você persegue. 16 Mas levante-se e fique em pé. Eu apareci a você para constituí-lo ministro e testemunha, tanto das coisas em que você me viu como daquelas pelas quais ainda lhe aparecerei. 17 Vou livrar você do seu próprio povo e dos gentios, para os quais eu o envio, 18 para abrir os olhos deles e convertê-los das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus, a fim de que eles recebam remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim.” 19 — Assim, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial, 20 mas anunciei primeiramente aos de Damasco e em Jerusalém, por toda a região da Judeia, e também aos gentios, que se arrependessem e se convertessem a Deus, praticando obras dignas de arrependimento. 21 Por causa disto, alguns judeus me prenderam, quando eu estava no templo, e tentaram me matar. 22 Mas, com a ajuda de Deus, permaneço até o dia de hoje, dando testemunho, tanto a pequenos como a grandes, nada dizendo, a não ser o que os profetas e Moisés disseram que ia acontecer, 23 isto é, que o Cristo devia padecer e, sendo o primeiro da ressurreição dos mortos, anunciaria a luz ao seu próprio povo e aos gentios.

1. Cristo nos derruba da missão que construímos para nós mesmos

Paulo conta que, ao meio-dia, enquanto seguia para Damasco, uma luz do céu, mais resplandecente do que o sol, brilhou ao redor dele e dos homens que o acompanhavam. Todos caíram por terra e ele ouviu: “Saulo, Saulo, por que você me persegue? É duro para você ficar dando coices contra os aguilhões!”
Veja a ironia. Paulo saiu de Jerusalém acreditando que enxergava tudo com clareza. Tinha convicções firmes, autorização oficial e um destino definido. Sabia quem eram os inimigos e estava convencido de que Deus aprovava sua missão.
Mas, quando a verdadeira luz apareceu, o homem que imaginava enxergar caiu por terra e descobriu que era profundamente cego.
Paulo não estava procurando Jesus. Foi Jesus quem apareceu a Paulo. A conversão não começa com um homem finalmente encontrando o caminho de Deus, mas com o Cristo ressurreto interrompendo o caminho que aquele homem escolheu para si.
Aqui o texto nos ensina algo essencial sobre a graça soberana de Deus. Paulo não estava espiritualmente neutro, avaliando calmamente se deveria aceitar Jesus. Ele era inimigo de Cristo e avançava deliberadamente contra sua Igreja. A iniciativa pertence inteiramente ao Senhor. Cristo aparece, confronta, derruba e chama.
Isso não significa que Paulo seja convertido contra a sua vontade, como se Deus simplesmente o arrastasse enquanto ele continuava desejando permanecer o mesmo. Significa que a graça de Cristo é poderosa o suficiente para abrir seus olhos, vencer sua resistência e transformar aquilo que ele ama. O homem que saiu desejando destruir a Igreja chegará a Damasco desejando anunciar o seu Senhor.
Observe a pergunta: “Por que você me persegue?” Paulo perseguia cristãos, prendia homens e mulheres e tentava obrigá-los a blasfemar. No entanto, Cristo não pergunta: “Por que você persegue os meus seguidores?” Ele diz: “Por que você me persegue?” Jesus se identifica tão profundamente com sua Igreja que tocar em seu povo é tocar nele. A dor da Igreja não passa despercebida pelo seu Senhor.
Então Jesus acrescenta: “É duro para você ficar dando coices contra os aguilhões.” O aguilhão era uma haste pontiaguda usada para conduzir animais. Quando o boi resistia e dava coices, não mudava a direção do condutor. Apenas feria a si mesmo.
Paulo acreditava que avançava com força. Na verdade, machucava a si próprio ao resistir ao governo de Cristo.
Essa imagem revela nossa condição com uma precisão desconfortável. Gostamos de imaginar que somos livres porque fazemos tudo do nosso jeito. Criamos um projeto, escolhemos o destino e depois pedimos que Jesus abençoe a viagem. Quando algo sai do roteiro, reagimos mal porque, no fundo, queremos controlar a história.
Talvez sua missão seja construir uma carreira sólida, alcançar segurança financeira, proporcionar aos filhos tudo o que você não teve ou conquistar uma posição que confirme seu valor. O problema não está necessariamente nessas coisas. Está em quem ocupa o centro e define o significado delas.
Quando Cristo aparece, não se oferece apenas para tornar nossos projetos mais eficientes. Ele confronta nossa pretensão de sermos reis da própria história.
A graça pode parecer severa antes de parecer consoladora. Cristo desmonta as certezas de Paulo e revela que o homem que pensava servir a Deus estava lutando contra Deus. Mas Jesus não o derruba para destruí-lo. Ele o derruba porque, enquanto Paulo permanecesse de pé sobre aquela falsa missão, jamais poderia ser levantado para a verdadeira.
Às vezes, uma das maiores misericórdias de Deus é expor a fragilidade daquilo sobre o que construímos nossa identidade. Não porque carreira, família, reputação ou patrimônio não tenham valor, mas porque são pequenos demais para sustentar o peso da nossa alma.
Paulo precisou cair para descobrir que não era o senhor do seu destino. A luz mais forte que o sol havia revelado o verdadeiro Rei.

2. Cristo nos levanta com uma nova identidade

Cristo não deixa Paulo caído. Depois de interromper seu caminho, Jesus lhe diz: “Levante-se e fique em pé. Eu apareci a você para constituí-lo ministro e testemunha.”
Essa ordem está encharcada pela graça. O mesmo Cristo que derruba Paulo agora o coloca de pé. Jesus não apenas revela que sua vida seguia na direção errada. Ele lhe concede uma nova identidade e um novo propósito.
Até aquele momento, Paulo havia construído sua identidade sobre sua origem, sua formação religiosa, seu rigor como fariseu e a aprovação dos líderes de Jerusalém. Agora, diante do Cristo ressurreto, esses títulos deixam de ocupar o centro. Jesus redefine quem Paulo é: ministro e testemunha.
Observe as palavras de Cristo: “Eu apareci a você para constituí-lo.”
Jesus não aparece para ocupar um lugar na história de Paulo. É Paulo que, pela iniciativa de Jesus, é incorporado à história de Cristo.
Isso muda nossa compreensão da conversão. Jesus não entra em nossa vida apenas para melhorar o roteiro que já escrevemos. Ele não se apresenta como um recurso espiritual para nos ajudar a atingir nossos objetivos. Ele nos retira de uma história centrada em nós mesmos e nos dá um lugar em sua missão.
Por isso, a conversão é muito mais do que abandonar alguns comportamentos errados. Ela reorganiza o centro gravitacional da existência. Cristo não se torna apenas uma parte importante da vida. Ele se torna aquele a partir de quem toda a vida passa a ser compreendida.
Vivemos tentando construir uma identidade que possa ser reconhecida e admirada. Precisamos provar que somos competentes, bons pais e pessoas bem-sucedidas. As redes sociais ampliam essa pressão ao nos permitirem publicar uma versão editada de nós mesmos. Aos poucos, deixamos de perguntar quem Deus nos chamou para ser e começamos a perguntar como desejamos ser percebidos.
Mas uma identidade construída sobre a percepção das pessoas nunca encontra descanso (é como uma roda de Hamster). Um elogio nos eleva. Uma crítica nos desestrutura. Uma promoção parece confirmar nosso valor. Um fracasso nos faz sentir que deixamos de ser alguém.
O evangelho oferece algo diferente. Nossa identidade não é algo que precisamos fabricar e apresentar ao mundo. É algo que recebemos de Cristo.
C. S. Lewis observou que muitos temem entregar-se a Deus porque imaginam perder a personalidade e a liberdade. Mas acontece o contrário. Quanto mais pertencemos a Cristo, mais nos tornamos quem fomos criados para ser.
Cristo não destrói Paulo. Ele o redime. Sua coragem permanece, mas agora serve à verdade. Seu zelo permanece, mas agora serve ao amor. Sua inteligência permanece, mas agora serve ao evangelho. O pecado havia deformado seus dons. A graça reorganiza tudo ao redor do verdadeiro Rei.
Então Jesus descreve a obra da qual Paulo participará. Ele será enviado para abrir os olhos das pessoas, convertê-las das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus, para que recebam remissão dos pecados e herança entre os santificados pela fé em Cristo.
Essa é uma das descrições mais completas da salvação em Atos. Sem Cristo, não estamos apenas desinformados, estamos cegos. Não estamos apenas confusos, estamos em trevas. Estamos sob um domínio do qual não conseguimos nos libertar.
Mas o evangelho abre os olhos. A luz substitui as trevas. O poder de Satanás é quebrado. A culpa é removida. Estrangeiros recebem uma herança e são acolhidos na família de Deus. E tudo isso acontece, como Jesus afirma, “pela fé em mim”.
Paulo não produzirá nenhuma dessas coisas por sua força. Ele será ministro e testemunha. Somente Cristo abre os olhos, liberta das trevas, perdoa pecados e concede herança. O instrumento será Paulo, mas o protagonista continuará sendo Jesus.
Cristo nos salva de uma história autocentrada, e nos dá uma nova identidade e permite que participemos do que está fazendo no mundo.
Ser coadjuvante na missão de Deus é infinitamente melhor do que ser protagonista da própria história.

3. Cristo nos envia para participar da sua missão

Depois de relatar como Cristo apareceu e lhe deu uma nova identidade, Paulo diz: “Assim, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial.”
Essa frase resume o restante de sua vida. Paulo saiu de Jerusalém com uma missão recebida dos principais sacerdotes. Agora vivia a partir de uma missão recebida do próprio Cristo. Toda a sua existência passou a girar ao redor do chamado do verdadeiro Rei.
Perceba também o que Paulo não faz. Ele não usa aquela oportunidade para reclamar dos anos de prisão, atacar seus acusadores ou tentar negociar um acordo com Agripa. Mesmo acorrentado, sua principal preocupação não é escapar do sofrimento, mas tornar Cristo conhecido. Paulo está se defendendo, mas sua defesa rapidamente se transforma em proclamação.
Paulo pregou em Damasco, Jerusalém, por toda a Judeia e entre os gentios. Sua mensagem era que as pessoas deveriam arrepender-se, converter-se a Deus e praticar obras dignas de arrependimento.
Isso não significa que somos salvos pelas obras. Jesus já afirmou, no versículo 18, que o perdão e a herança são recebidos pela fé nele. As obras não são a raiz da salvação. São seus frutos. A graça que perdoa também começa a transformar.
Quando Cristo reorganiza o centro do coração, isso aparece na vida. Duas pessoas podem exercer a mesma profissão e ter agendas semelhantes. Uma trabalha para provar que é importante. A outra recebe o trabalho como vocação, um lugar para servir, buscar excelência e contribuir para o bem da cidade.
Duas famílias podem amar profundamente os filhos. Em uma delas, os filhos carregam a obrigação de confirmar o sucesso dos pais. Na outra, são recebidos como presentes de Deus, pessoas que devem ser amadas e conduzidas a Cristo, não troféus que sustentam a identidade da família.
Essa advertência também alcança a igreja. É possível construir uma plataforma religiosa e transformar o ministério em extensão do próprio ego. Há líderes talentosos cuja identidade depende da influência. Por isso, não devemos avaliá-los apenas pela audiência, mas pelo caráter, pela doutrina e pela submissão ao Cristo que anunciam.
Mas seria fácil apontar para líderes conhecidos e deixar o texto longe de nós. Também podemos servir, ensinar, cantar, liderar e contribuir para nos sentirmos necessários ou superiores. Até a missão de Deus pode ser usada para alimentar nosso desejo de protagonismo.
Paulo sabia que não era o herói da história. No versículo 22, afirma: “Mas, com a ajuda de Deus, permaneço até o dia de hoje.” Sua fidelidade não era fruto de uma personalidade extraordinária. A mesma graça que o derrubou e o levantou continuava o sustentando.
E sua mensagem não havia sido inventada por ele. Paulo dizia apenas aquilo que Moisés e os profetas anunciaram: que o Cristo deveria padecer, ressuscitar dentre os mortos e anunciar luz a judeus e gentios.
Aqui está o fundamento de toda transformação cristã. Jesus não apenas ordena que abandonemos nosso pequeno reino. O verdadeiro Rei entrou em nossa história, recebeu na cruz o juízo que nossa rebelião merecia e ressuscitou para nos dar uma nova vida.
Não entregamos o centro da existência a Cristo para que ele nos aceite. Nós nos rendemos porque, pela fé, fomos perdoados, libertos das trevas e recebidos em sua família.
Paulo estava diante de reis porque Cristo o havia enviado. Permanecia fiel porque Deus o ajudava. E anunciava luz porque o Cristo crucificado e ressurreto continuava sendo o protagonista da história.
Jesus não veio apenas para abençoar a vida que você decidiu viver. Ele veio para incorporá-lo à vida e à missão dele.

Conclusão

No início, lembramos a canção que celebra uma vida vivida “do meu jeito”. Paulo partiu para Damasco seguindo essa melodia. Tinha convicções, autoridade, planos e um destino definido. Acreditava que Deus aprovava o roteiro que havia escrito.
Então surgiu uma luz mais forte que o sol.
Cristo o derrubou da missão que havia construído, o levantou com uma nova identidade e o enviou para participar da missão do verdadeiro Rei.
É isso que a conversão faz. Ela não acrescenta Jesus como personagem religioso a uma vida que continua girando ao redor de nós. Ela muda o centro da história.
A boa notícia é que Cristo não nos chama para uma vida menor. O Rei que nos chama é aquele que padeceu em nosso lugar, ressuscitou dentre os mortos e veio nos retirar das trevas, perdoar nossos pecados e nos dar uma herança eterna.
Ele não destruiu Paulo. Tornou-o aquilo para o que havia sido criado. Redimiu sua coragem, seu zelo, sua inteligência e sua história. E pode fazer o mesmo conosco.
Quando Cristo ocupa o centro, o trabalho se torna vocação, a família volta a ser presente, o dinheiro se torna instrumento e a vida comum da segunda-feira se transforma em campo de missão.
A verdadeira liberdade não é chegar ao fim dizendo: “Eu fiz do meu jeito.” É chegar ao fim, como Paulo, e poder dizer: “Com a ajuda de Deus, permaneço até o dia de hoje.”
Cristo derruba, levanta e envia.
Você continuará tentando escrever a própria história ou se renderá ao privilégio de participar da história do verdadeiro Rei?
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