Heróis da Fé - Hb 11.1
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INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO
Há momentos na vida do crente em que tudo o que se pode ver contradiz tudo o que se creu. O médico anuncia o diagnóstico, a conta bancária não fecha, a promessa parece esquecida, o corpo envelhece sem que a bênção chegue. É precisamente nesse território — o território do invisível, do ainda-não, do parece-impossível — que o autor de Hebreus nos conduz ao capítulo 11, um dos textos mais amados e mais citados de toda a Escritura.
Há momentos na vida do crente em que tudo o que se pode ver contradiz tudo o que se creu. O médico anuncia o diagnóstico, a conta bancária não fecha, a promessa parece esquecida, o corpo envelhece sem que a bênção chegue. É precisamente nesse território — o território do invisível, do ainda-não, do parece-impossível — que o autor de Hebreus nos conduz ao capítulo 11, um dos textos mais amados e mais citados de toda a Escritura.
O contexto é decisivo. Os destinatários dessa carta eram cristãos hebreus cansados, tentados a recuar da fé cristã e retornar às sombras do antigo pacto diante da perseguição e do sofrimento (Hb 10:32-39). O autor não os repreende com teoria abstrata; ele os convoca a olhar para trás, para uma vasta galeria de homens e mulheres que, sem exceção, creram em promessas que não viram cumpridas em vida — e, ainda assim, perseveraram.
O contexto é decisivo. Os destinatários dessa carta eram cristãos hebreus cansados, tentados a recuar da fé cristã e retornar às sombras do antigo pacto diante da perseguição e do sofrimento (Hb 10:32-39). O autor não os repreende com teoria abstrata; ele os convoca a olhar para trás, para uma vasta galeria de homens e mulheres que, sem exceção, creram em promessas que não viram cumpridas em vida — e, ainda assim, perseveraram.
Hebreus 11 não é uma lista de super-heróis religiosos exibindo força espiritual extraordinária; é, antes, um testemunho de pecadores comuns que se apoiaram em um Deus extraordinário.
Hebreus 11 não é uma lista de super-heróis religiosos exibindo força espiritual extraordinária; é, antes, um testemunho de pecadores comuns que se apoiaram em um Deus extraordinário.
E aqui está o segredo que precisamos descobrir hoje: nenhum desses heróis é o herói final da história. Cada um deles — Abel, Enoque, Noé, Abraão, Sara, Moisés — aponta, com o dedo trêmulo da fé, para Alguém maior, que viria depois deles e cumpriria aquilo que eles apenas vislumbraram de longe. Hebreus 11 termina, propositalmente, em Hebreus 12:1-2, com os olhos fixos não nos heróis, mas em Jesus, "autor e consumador da fé". Vamos, então, examinar quatro grandes verdades sobre a fé que agrada a Deus, para que também nós corramos com perseverança a carreira que nos está proposta.
E aqui está o segredo que precisamos descobrir hoje: nenhum desses heróis é o herói final da história. Cada um deles — Abel, Enoque, Noé, Abraão, Sara, Moisés — aponta, com o dedo trêmulo da fé, para Alguém maior, que viria depois deles e cumpriria aquilo que eles apenas vislumbraram de longe. Hebreus 11 termina, propositalmente, em Hebreus 12:1-2, com os olhos fixos não nos heróis, mas em Jesus, "autor e consumador da fé". Vamos, então, examinar quatro grandes verdades sobre a fé que agrada a Deus, para que também nós corramos com perseverança a carreira que nos está proposta.
I. A FÉ DEFINIDA: A CERTEZA DO INVISÍVEL
I. A FÉ DEFINIDA: A CERTEZA DO INVISÍVEL
“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem. Porque por ela os antigos alcançaram bom testemunho.” (Hebreus 11:1-2)
“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem. Porque por ela os antigos alcançaram bom testemunho.” (Hebreus 11:1-2)
O autor de Hebreus não começa com um exemplo, mas com uma definição precisa. A palavra traduzida por "certeza" é hypóstasis — termo que designa aquilo que está por baixo, o fundamento, a substância real de uma coisa. A fé bíblica, portanto, não é um sentimento vago de otimismo, nem um salto irracional no escuro. Ela é a substância presente, hoje, daquilo que ainda não se vê plenamente realizado. A segunda palavra, elenchos, traduzida por "convicção", pertence ao vocabulário jurídico e forense: é a prova que convence, a evidência que sustenta um veredicto.
O autor de Hebreus não começa com um exemplo, mas com uma definição precisa. A palavra traduzida por "certeza" é hypóstasis — termo que designa aquilo que está por baixo, o fundamento, a substância real de uma coisa. A fé bíblica, portanto, não é um sentimento vago de otimismo, nem um salto irracional no escuro. Ela é a substância presente, hoje, daquilo que ainda não se vê plenamente realizado. A segunda palavra, elenchos, traduzida por "convicção", pertence ao vocabulário jurídico e forense: é a prova que convence, a evidência que sustenta um veredicto.
Isso significa que a fé cristã tem objeto e tem fundamento. Ela não crê no vazio nem em si mesma; ela crê na Palavra que Deus falou e no caráter de Deus que a garante. É por isso que o versículo 3 ancora imediatamente essa definição na criação:
Isso significa que a fé cristã tem objeto e tem fundamento. Ela não crê no vazio nem em si mesma; ela crê na Palavra que Deus falou e no caráter de Deus que a garante. É por isso que o versículo 3 ancora imediatamente essa definição na criação:
"pela fé entendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus; de modo que o que se vê não foi feito do que é visível."
"pela fé entendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus; de modo que o que se vê não foi feito do que é visível."
A fé começa reconhecendo que a realidade última não é a matéria visível, mas a Palavra de Deus que a trouxe à existência a partir do nada. Se cremos que o cosmos inteiro veio a existir pela simples ordem de Deus, então também podemos confiar nas promessas dessa mesma Palavra para a nossa vida.
A fé começa reconhecendo que a realidade última não é a matéria visível, mas a Palavra de Deus que a trouxe à existência a partir do nada. Se cremos que o cosmos inteiro veio a existir pela simples ordem de Deus, então também podemos confiar nas promessas dessa mesma Palavra para a nossa vida.
Fundamentação Teológica
Fundamentação Teológica
A fé é um firme e certo conhecimento da benevolência de Deus para conosco, fundado na verdade da promessa gratuita feita em Cristo, e tanto revelado ao nosso entendimento quanto selado em nosso coração pelo Espírito Santo.
A fé é um firme e certo conhecimento da benevolência de Deus para conosco, fundado na verdade da promessa gratuita feita em Cristo, e tanto revelado ao nosso entendimento quanto selado em nosso coração pelo Espírito Santo.
A fé bíblica envolve conhecimento (notitia), assentimento (assensus) e confiança pessoal (fiducia). Não basta saber sobre as promessas de Deus; é preciso repousar nelas com o coração. E note-se: essa fé não é produzida pela força de vontade humana, mas é dom de Deus, gerado pela Palavra e selado pelo Espírito — a mesma Palavra criadora que trouxe os mundos à existência é a que gera fé viva no coração morto do pecador (Rm 10:17; Ef 2:8-9).
A fé bíblica envolve conhecimento (notitia), assentimento (assensus) e confiança pessoal (fiducia). Não basta saber sobre as promessas de Deus; é preciso repousar nelas com o coração. E note-se: essa fé não é produzida pela força de vontade humana, mas é dom de Deus, gerado pela Palavra e selado pelo Espírito — a mesma Palavra criadora que trouxe os mundos à existência é a que gera fé viva no coração morto do pecador (Rm 10:17; Ef 2:8-9).
Aplicação Pastoral
Aplicação Pastoral
Irmãos, quando a Bíblia fala de fé, ela não está descrevendo positividade ou pensamento mágico. Ela está descrevendo uma certeza racional e espiritual, ancorada no caráter imutável de Deus e nas Suas promessas reveladas nas Escrituras. Se você tem duvidado da sua fé porque ela "não sente" firme, lembre-se: a firmeza da fé não está na intensidade da sua emoção, mas na solidez do objeto em que ela repousa — a Palavra de Deus e a obra consumada de Cristo.
Irmãos, quando a Bíblia fala de fé, ela não está descrevendo positividade ou pensamento mágico. Ela está descrevendo uma certeza racional e espiritual, ancorada no caráter imutável de Deus e nas Suas promessas reveladas nas Escrituras. Se você tem duvidado da sua fé porque ela "não sente" firme, lembre-se: a firmeza da fé não está na intensidade da sua emoção, mas na solidez do objeto em que ela repousa — a Palavra de Deus e a obra consumada de Cristo.
II. A FÉ EXEMPLIFICADA: ABEL, ENOQUE E NOÉ
II. A FÉ EXEMPLIFICADA: ABEL, ENOQUE E NOÉ
“Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício que Caim [...] Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte [...] Pela fé, Noé, divinamente avisado das coisas que ainda não se viam, temendo, preparou a arca para a salvação da sua casa.” (Hebreus 11:4-7)
“Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício que Caim [...] Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte [...] Pela fé, Noé, divinamente avisado das coisas que ainda não se viam, temendo, preparou a arca para a salvação da sua casa.” (Hebreus 11:4-7)
O autor inicia sua galeria com três figuras do período pré-diluviano, e a ordem não é acidental: cada uma delas ilustra uma dimensão distinta da vida de fé.
a)Abel nos ensina a fé que adora corretamente. Seu sacrifício foi "mais excelente" não por mero esforço moral superior, mas porque, segundo o padrão que a Escritura já sugere em Gênesis 4, envolveu sangue derramado — um reconhecimento de que a aproximação de Deus exige substituição sacrificial. Abel creu que precisava de um mediador entre ele e um Deus santo; Caim confiou em sua própria obra.
O autor inicia sua galeria com três figuras do período pré-diluviano, e a ordem não é acidental: cada uma delas ilustra uma dimensão distinta da vida de fé.
a)Abel nos ensina a fé que adora corretamente. Seu sacrifício foi "mais excelente" não por mero esforço moral superior, mas porque, segundo o padrão que a Escritura já sugere em Gênesis 4, envolveu sangue derramado — um reconhecimento de que a aproximação de Deus exige substituição sacrificial. Abel creu que precisava de um mediador entre ele e um Deus santo; Caim confiou em sua própria obra.
b) Enoque - nos ensina a fé que anda em comunhão íntima com Deus. Gênesis 5:24 diz simplesmente que "andou com Deus"; Hebreus acrescenta que, antes de ser arrebatado, ele alcançou testemunho de que agradava a Deus. Fé genuína não é apenas doutrina correta; é comunhão viva, um caminhar diário e humilde diante da face de Deus.
b) Enoque - nos ensina a fé que anda em comunhão íntima com Deus. Gênesis 5:24 diz simplesmente que "andou com Deus"; Hebreus acrescenta que, antes de ser arrebatado, ele alcançou testemunho de que agradava a Deus. Fé genuína não é apenas doutrina correta; é comunhão viva, um caminhar diário e humilde diante da face de Deus.
c) Noé, por sua vez, ilustra a fé que obedece contra a corrente do mundo. Avisado de coisas que ainda não se viam — um dilúvio sem precedentes em um mundo que zombava da ideia —, ele temeu a Deus mais do que temeu o ridículo dos homens, e construiu a arca durante décadas de pregação incompreendida. O texto diz que, ao fazer isso, ele "condenou o mundo" e tornou-se "herdeiro da justiça que é segundo a fé" — a mesmíssima justiça que, mais tarde, Paulo dirá que é imputada a todo aquele que crê em Cristo (Rm 3:21-22).
c) Noé, por sua vez, ilustra a fé que obedece contra a corrente do mundo. Avisado de coisas que ainda não se viam — um dilúvio sem precedentes em um mundo que zombava da ideia —, ele temeu a Deus mais do que temeu o ridículo dos homens, e construiu a arca durante décadas de pregação incompreendida. O texto diz que, ao fazer isso, ele "condenou o mundo" e tornou-se "herdeiro da justiça que é segundo a fé" — a mesmíssima justiça que, mais tarde, Paulo dirá que é imputada a todo aquele que crê em Cristo (Rm 3:21-22).
Fundamentação Teológica
Fundamentação Teológica
Abel ofereceu pela fé o que tinha aprendido não ser suficiente sem o sangue; ele viu, ainda que de longe e em figura, Aquele que haveria de tirar o pecado do mundo— João Crisóstomo,
Abel ofereceu pela fé o que tinha aprendido não ser suficiente sem o sangue; ele viu, ainda que de longe e em figura, Aquele que haveria de tirar o pecado do mundo— João Crisóstomo,
Aqui já despontam os primeiros traços cristológicos do capítulo. O sacrifício de Abel aponta, em sombra, para o Cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo 1:29). A arca de Noé prefigura a salvação em Cristo: um só caminho de resgate, provido por Deus, através do juízo. Como escreveu Pedro, "o batismo, que é o antítipo, agora também nos salva" à semelhança da arca (1Pe 3:20-21) — e o antítipo final de toda arca é Cristo, único refúgio seguro no dia da ira.
Aqui já despontam os primeiros traços cristológicos do capítulo. O sacrifício de Abel aponta, em sombra, para o Cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo 1:29). A arca de Noé prefigura a salvação em Cristo: um só caminho de resgate, provido por Deus, através do juízo. Como escreveu Pedro, "o batismo, que é o antítipo, agora também nos salva" à semelhança da arca (1Pe 3:20-21) — e o antítipo final de toda arca é Cristo, único refúgio seguro no dia da ira.
Aplicação Pastoral
Aplicação Pastoral
Pergunte-se hoje: minha adoração se apoia no sacrifício de Cristo, como a de Abel, ou em minhas próprias obras, como a de Caim? Meu caminhar é de comunhão diária com Deus, como o de Enoque, ou apenas de visitas ocasionais? E, diante da zombaria do mundo por levar a Palavra de Deus a sério, tenho a coragem de Noé para obedecer, mesmo quando ninguém mais crê?
Pergunte-se hoje: minha adoração se apoia no sacrifício de Cristo, como a de Abel, ou em minhas próprias obras, como a de Caim? Meu caminhar é de comunhão diária com Deus, como o de Enoque, ou apenas de visitas ocasionais? E, diante da zombaria do mundo por levar a Palavra de Deus a sério, tenho a coragem de Noé para obedecer, mesmo quando ninguém mais crê?
III. A FÉ PEREGRINA: ABRAÃO E SARA, ESPERANDO A CIDADE CELESTIAL
III. A FÉ PEREGRINA: ABRAÃO E SARA, ESPERANDO A CIDADE CELESTIAL
“Pela fé, Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia [...] Pela fé, ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; [...] Considerando que Deus era poderoso para até dos mortos o ressuscitar; de onde também em figura o recobrou.” (Hebreus 11:8,17,19)
“Pela fé, Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia [...] Pela fé, ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; [...] Considerando que Deus era poderoso para até dos mortos o ressuscitar; de onde também em figura o recobrou.” (Hebreus 11:8,17,19)
Abraão recebe o maior espaço no capítulo, e por boa razão: ele é o pai de todos os que creem (Rm 4:11). Sua fé se manifesta em três movimentos.
1) A fé que obedece ao chamado sem mapa: ele saiu de Ur sem saber o destino, confiando apenas na Palavra que o convocava.
2) A fé que peregrina: habitou em tendas na terra prometida, "como em terra alheia", porque "esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o arquiteto e edificador é Deus" (v.10). Abraão entendeu que a terra de Canaã era apenas uma sombra de uma pátria melhor, celestial (v.13-16).
Abraão recebe o maior espaço no capítulo, e por boa razão: ele é o pai de todos os que creem (Rm 4:11). Sua fé se manifesta em três movimentos.
1) A fé que obedece ao chamado sem mapa: ele saiu de Ur sem saber o destino, confiando apenas na Palavra que o convocava.
2) A fé que peregrina: habitou em tendas na terra prometida, "como em terra alheia", porque "esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o arquiteto e edificador é Deus" (v.10). Abraão entendeu que a terra de Canaã era apenas uma sombra de uma pátria melhor, celestial (v.13-16).
3)Junto com Sara, a fé que crê contra a evidência biológica: ela, estéril e avançada em idade, recebeu força para conceber, "porque considerou fiel aquele que fizera a promessa" (v.11).
3)Junto com Sara, a fé que crê contra a evidência biológica: ela, estéril e avançada em idade, recebeu força para conceber, "porque considerou fiel aquele que fizera a promessa" (v.11).
Mas o clímax da fé de Abraão está no monte Moriá. Deus ordena que ele ofereça o próprio Isaque — o filho da promessa, através de quem viria toda a bênção prometida. E, no entanto, Abraão obedece, raciocinando, diz o texto, que Deus era "poderoso para até dos mortos o ressuscitar". Ele já cria na ressurreição, séculos antes da ressurreição de Cristo ser revelada com clareza! E, no momento supremo, Deus provê um substituto: um cordeiro é achado preso pelos chifres no matagal, e morre em lugar de Isaque.
Mas o clímax da fé de Abraão está no monte Moriá. Deus ordena que ele ofereça o próprio Isaque — o filho da promessa, através de quem viria toda a bênção prometida. E, no entanto, Abraão obedece, raciocinando, diz o texto, que Deus era "poderoso para até dos mortos o ressuscitar". Ele já cria na ressurreição, séculos antes da ressurreição de Cristo ser revelada com clareza! E, no momento supremo, Deus provê um substituto: um cordeiro é achado preso pelos chifres no matagal, e morre em lugar de Isaque.
Fundamentação Teológica
Fundamentação Teológica
O que aconteceu com Isaque era uma figura da futura verdade. O que era isso? Que o Filho de Deus haveria de ser morto. Isaque não foi morto, mas era apenas figura; Cristo foi de fato morto, para cumprir a figura.— Agostinho
O que aconteceu com Isaque era uma figura da futura verdade. O que era isso? Que o Filho de Deus haveria de ser morto. Isaque não foi morto, mas era apenas figura; Cristo foi de fato morto, para cumprir a figura.— Agostinho
Este é, talvez, o ponto cristológico mais luminoso de todo o capítulo. No monte Moriá — o mesmo monte onde, séculos depois, o templo seria edificado e onde, próximo dali, o Calvário se ergueria — um pai é chamado a entregar seu único filho amado. Isaque carrega a lenha do próprio sacrifício, como Cristo carregaria a Sua cruz. Mas há uma diferença abismal: para Isaque, Deus proveu um substituto; para o pecador, o próprio Deus tornou-se o substituto e o Cordeiro, entregando não uma figura, mas o Seu Filho unigênito e amado, sem poupá-lo (Rm 8:32). Abraão recebeu Isaque de volta "em figura" da ressurreição; nós recebemos a ressurreição real e histórica de Jesus Cristo, primícias de todos os que dormem (1Co 15:20).
Este é, talvez, o ponto cristológico mais luminoso de todo o capítulo. No monte Moriá — o mesmo monte onde, séculos depois, o templo seria edificado e onde, próximo dali, o Calvário se ergueria — um pai é chamado a entregar seu único filho amado. Isaque carrega a lenha do próprio sacrifício, como Cristo carregaria a Sua cruz. Mas há uma diferença abismal: para Isaque, Deus proveu um substituto; para o pecador, o próprio Deus tornou-se o substituto e o Cordeiro, entregando não uma figura, mas o Seu Filho unigênito e amado, sem poupá-lo (Rm 8:32). Abraão recebeu Isaque de volta "em figura" da ressurreição; nós recebemos a ressurreição real e histórica de Jesus Cristo, primícias de todos os que dormem (1Co 15:20).
Aplicação Pastoral
Aplicação Pastoral
A vida cristã é, essencialmente, uma peregrinação: vivemos como estrangeiros e forasteiros aqui (1Pe 2:11), com os olhos fixos numa cidade que ainda não vemos plenamente. E a fé que agrada a Deus é aquela disposta a entregar-Lhe o que temos de mais precioso, confiando que Aquele que promete também é poderoso para cumprir — mesmo que isso pareça exigir um milagre de ressurreição em nossas circunstâncias mais desesperadoras.
A vida cristã é, essencialmente, uma peregrinação: vivemos como estrangeiros e forasteiros aqui (1Pe 2:11), com os olhos fixos numa cidade que ainda não vemos plenamente. E a fé que agrada a Deus é aquela disposta a entregar-Lhe o que temos de mais precioso, confiando que Aquele que promete também é poderoso para cumprir — mesmo que isso pareça exigir um milagre de ressurreição em nossas circunstâncias mais desesperadoras.
IV. A FÉ PERSEVERANTE: MOISÉS E A GRANDE NUVEM DE TESTEMUNHAS
IV. A FÉ PERSEVERANTE: MOISÉS E A GRANDE NUVEM DE TESTEMUNHAS
“Tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa [...] Portanto, também nós, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, [...] corramos com paciência a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da fé.” (Hebreus 11:26; 12:1-2)
“Tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa [...] Portanto, também nós, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, [...] corramos com paciência a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da fé.” (Hebreus 11:26; 12:1-2)
Moisés recusou ser chamado filho da filha de Faraó, escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus a gozar dos deleites do pecado por algum tempo. E o autor revela algo surpreendente sobre o que sustentava essa escolha: Moisés considerava "o vitupério de Cristo" — o opróbrio, a reprovação que um dia o próprio Messias sofreria — como riqueza maior que todos os tesouros do Egito. Isso significa que Moisés, guiado pelo Espírito, já enxergava, de alguma forma, o padrão messiânico do sofrimento redentor antes da glória, e escolheu identificar-se com esse padrão em vez de com o poder e o prestígio egípcios.
Moisés recusou ser chamado filho da filha de Faraó, escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus a gozar dos deleites do pecado por algum tempo. E o autor revela algo surpreendente sobre o que sustentava essa escolha: Moisés considerava "o vitupério de Cristo" — o opróbrio, a reprovação que um dia o próprio Messias sofreria — como riqueza maior que todos os tesouros do Egito. Isso significa que Moisés, guiado pelo Espírito, já enxergava, de alguma forma, o padrão messiânico do sofrimento redentor antes da glória, e escolheu identificar-se com esse padrão em vez de com o poder e o prestígio egípcios.
A partir do versículo 32, o autor acelera o ritmo, mencionando Gideão, Baraque, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os profetas — homens e mulheres que "pela fé" venceram reinos, fecharam bocas de leões, e outros que foram torturados, apedrejados, serrados ao meio, mortos ao fio da espada, andando errantes, destituídos, aflitos e maltratados. E então vem a declaração mais surpreendente de todo o capítulo:
A partir do versículo 32, o autor acelera o ritmo, mencionando Gideão, Baraque, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os profetas — homens e mulheres que "pela fé" venceram reinos, fecharam bocas de leões, e outros que foram torturados, apedrejados, serrados ao meio, mortos ao fio da espada, andando errantes, destituídos, aflitos e maltratados. E então vem a declaração mais surpreendente de todo o capítulo:
"E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa; provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que sem nós não fossem eles aperfeiçoados" (v.39-40).
Nenhum deles recebeu, em vida, o cumprimento pleno da promessa messiânica. Eles morreram na fé, olhando de longe (v.13). Somente com a vinda de Cristo — e a nossa participação Nele — a fé deles alcança seu aperfeiçoamento.
"E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa; provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que sem nós não fossem eles aperfeiçoados" (v.39-40).
Nenhum deles recebeu, em vida, o cumprimento pleno da promessa messiânica. Eles morreram na fé, olhando de longe (v.13). Somente com a vinda de Cristo — e a nossa participação Nele — a fé deles alcança seu aperfeiçoamento.
Fundamentação Teológica
Fundamentação Teológica
Os santos do Antigo Testamento não olhavam para uma sombra vazia, mas para a substância que a sombra prenunciava; sua fé, ainda que menos esclarecida que a nossa, tinha o mesmo Cristo por objeto, pois não há outro Mediador debaixo do céu, em nenhuma era, senão Jesus Cristo.— Geerhardus Vos
Os santos do Antigo Testamento não olhavam para uma sombra vazia, mas para a substância que a sombra prenunciava; sua fé, ainda que menos esclarecida que a nossa, tinha o mesmo Cristo por objeto, pois não há outro Mediador debaixo do céu, em nenhuma era, senão Jesus Cristo.— Geerhardus Vos
Este princípio da unidade orgânica da fé em todas as eras — o mesmo Cristo sendo o objeto substancial da fé de Abel, Noé, Abraão e Moisés — está no coração da teologia redentivo-histórica. Toda a nuvem de testemunhas do capítulo 11 aponta, com dedos convergentes, para um único ponto no horizonte: Hebreus 12:1-2 revela que Aquele que sustentou a fé deles é o mesmo que deve sustentar a nossa. Jesus é chamado archēgós — autor, príncipe, pioneiro — e teleiōtēs — consumador, aperfeiçoador da fé. Ele não é apenas mais um nome a acrescentar à lista dos heróis; Ele é o herói supremo e definitivo, aquele que, "pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus".
Este princípio da unidade orgânica da fé em todas as eras — o mesmo Cristo sendo o objeto substancial da fé de Abel, Noé, Abraão e Moisés — está no coração da teologia redentivo-histórica. Toda a nuvem de testemunhas do capítulo 11 aponta, com dedos convergentes, para um único ponto no horizonte: Hebreus 12:1-2 revela que Aquele que sustentou a fé deles é o mesmo que deve sustentar a nossa. Jesus é chamado archēgós — autor, príncipe, pioneiro — e teleiōtēs — consumador, aperfeiçoador da fé. Ele não é apenas mais um nome a acrescentar à lista dos heróis; Ele é o herói supremo e definitivo, aquele que, "pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus".
Aplicação Pastoral
Aplicação Pastoral
Você talvez esteja carregando, hoje, um fardo que não verá resolvido nesta vida. A promessa parece atrasada, o sofrimento parece longo demais. Mas a fé bíblica não depende de ver o cumprimento imediato; ela depende de olhar, constantemente, para Jesus — não para os heróis da fé, não para as circunstâncias, mas para o próprio Autor e Consumador da nossa fé, que já correu essa carreira até o fim e já está sentado, vitorioso, à destra de Deus.
Você talvez esteja carregando, hoje, um fardo que não verá resolvido nesta vida. A promessa parece atrasada, o sofrimento parece longo demais. Mas a fé bíblica não depende de ver o cumprimento imediato; ela depende de olhar, constantemente, para Jesus — não para os heróis da fé, não para as circunstâncias, mas para o próprio Autor e Consumador da nossa fé, que já correu essa carreira até o fim e já está sentado, vitorioso, à destra de Deus.
CONCLUSÃO
CONCLUSÃO
Percorremos hoje uma galeria magnífica: Abel adorando com sangue, Enoque caminhando com Deus, Noé obedecendo contra o mundo inteiro, Abraão peregrinando rumo à cidade celestial, Sara crendo contra a natureza, Moisés escolhendo o vitupério de Cristo, e uma multidão de homens e mulheres que sofreram, resistiram e morreram sem ver o cumprimento final da promessa. Mas se pararmos apenas em admirar esses heróis, teremos perdido o propósito de todo o capítulo.
Percorremos hoje uma galeria magnífica: Abel adorando com sangue, Enoque caminhando com Deus, Noé obedecendo contra o mundo inteiro, Abraão peregrinando rumo à cidade celestial, Sara crendo contra a natureza, Moisés escolhendo o vitupério de Cristo, e uma multidão de homens e mulheres que sofreram, resistiram e morreram sem ver o cumprimento final da promessa. Mas se pararmos apenas em admirar esses heróis, teremos perdido o propósito de todo o capítulo.
Hebreus 11 não existe para nos dar heróis a imitar em nossas próprias forças; ele existe para nos apontar, através deles, para o único Herói cuja fé — e cuja fidelidade — jamais vacilou. Todos esses santos creram de longe; nós temos o privilégio de olhar para trás, para a cruz já erguida e o túmulo já vazio. Eles esperavam a substância; nós já a possuímos em Cristo. Eles morreram sem ver a promessa cumprida; nós vivemos do lado de cá da promessa cumprida, e ainda esperamos a sua consumação final quando Cristo voltar.
Hebreus 11 não existe para nos dar heróis a imitar em nossas próprias forças; ele existe para nos apontar, através deles, para o único Herói cuja fé — e cuja fidelidade — jamais vacilou. Todos esses santos creram de longe; nós temos o privilégio de olhar para trás, para a cruz já erguida e o túmulo já vazio. Eles esperavam a substância; nós já a possuímos em Cristo. Eles morreram sem ver a promessa cumprida; nós vivemos do lado de cá da promessa cumprida, e ainda esperamos a sua consumação final quando Cristo voltar.
A pergunta que Hebreus 11 nos deixa não é "quem são os meus heróis da fé?", mas "para onde estão fixos os meus olhos?". Se estiverem fixos em Jesus — autor que iniciou nossa fé e consumador que a levará à perfeição —, então, como toda aquela nuvem de testemunhas, também nós poderemos correr com paciência a carreira que nos está proposta, sejam quais forem as tendas provisórias, os altares de sacrifício, ou os montes Moriá que ainda precisamos atravessar.
A pergunta que Hebreus 11 nos deixa não é "quem são os meus heróis da fé?", mas "para onde estão fixos os meus olhos?". Se estiverem fixos em Jesus — autor que iniciou nossa fé e consumador que a levará à perfeição —, então, como toda aquela nuvem de testemunhas, também nós poderemos correr com paciência a carreira que nos está proposta, sejam quais forem as tendas provisórias, os altares de sacrifício, ou os montes Moriá que ainda precisamos atravessar.
APLICAÇÃO PASTORAL
APLICAÇÃO PASTORAL
1. Examine o fundamento da sua fé: ela repousa na Palavra e no caráter de Deus, ou em sentimentos passageiros e circunstâncias favoráveis?
1. Examine o fundamento da sua fé: ela repousa na Palavra e no caráter de Deus, ou em sentimentos passageiros e circunstâncias favoráveis?
2. Avalie sua adoração: você se aproxima de Deus confiando exclusivamente no sacrifício de Cristo, ou ainda tenta oferecer o fruto das suas próprias obras?
2. Avalie sua adoração: você se aproxima de Deus confiando exclusivamente no sacrifício de Cristo, ou ainda tenta oferecer o fruto das suas próprias obras?
3. Reconheça-se peregrino: viva com desapego das seguranças temporais desta terra, com os olhos postos na cidade que há de vir.
3. Reconheça-se peregrino: viva com desapego das seguranças temporais desta terra, com os olhos postos na cidade que há de vir.
4. Persevere olhando para Jesus: quando a promessa demorar, quando o sofrimento parecer longo, fixe os olhos não nas circunstâncias, mas no Autor e Consumador da sua fé, que já venceu.
4. Persevere olhando para Jesus: quando a promessa demorar, quando o sofrimento parecer longo, fixe os olhos não nas circunstâncias, mas no Autor e Consumador da sua fé, que já venceu.
