Mãos abertas

A vida na presença de Deus  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Em “Mãos abertas”, o oitavo mandamento, “Não furtarás”, mostra que Deus deseja transformar corações egoístas em corações semelhantes ao de Cristo. O cristão substitui o furto pelo trabalho bom, o acúmulo pela generosidade e os desejos pessoais pela imitação de Deus. Cristo cumpriu perfeitamente esse mandamento, trabalhando para nosso benefício e dando sua vida por nós. O evangelho não apenas limpa nossas mãos; ele as abre para trabalhar, repartir e fazer o bem.

Notes
Transcript
Ex 20.15 - 14Não furte.
Ef 4.28 - 28Aquele que furtava não furte mais; pelo contrário, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o necessitado.

Introdução

Damos prosseguimento à nossa série de pregações “A vida na presença de Deus”, baseada nos 10 Mandamentos. Nela, temos visto que o Decálogo não é um conjunto de leis para nos ensinar como ser salvos. Ao contrário: são mandamentos dados a um povo que já havia sido liberto e acabara de entrar em aliança com o Senhor. Assim, os 10 Mandamentos ensinam como este povo deve amar a Deus e ao próximo, já que agora é o povo de Deus.
Chegamos ao oitavo mandamento, que trata de uma corrupção específica do coração humano, expressa no furto. A palavra traduzida como furtará (תִּֿגְנֹֽ֔ב tgenov / ganav) traz a ideia de fazer algo às escondidas, furtivamente; por isso, abrange toda forma de obtenção ilícita de ganhos — quer através do roubo, quer através da corrupção, quer através de métodos ardilosos.
E assim como vimos em outros mandamentos, veremos que a obediência ao 8º Mandamento é mais do que deixar de tomar o que pertence ao outro; é deixar de viver para nós mesmos e aprender com Deus a trabalhar e repartir.
E, para isto, vamos ler Efésios 4.28.
O contexto desse versículo cita diversas práticas que os crentes efésios tinham antes de serem salvos por Jesus Cristo. Assim como Jesus no Sermão do Monte, Paulo não usa a Lei de maneira limitada, acumulando proibições, mas ensina o espírito da lei ao mostrar que cada atitude ruim do passado deve ser substituída por uma atitude boa no presente.
O escritor Jay Adams percebeu bem essa dinâmica das Escrituras, assinalando passagens bíblicas onde fica evidente que aquele que não comete determinado pecado o faz porque assume outra postura no lugar,[2] como em 1Pe 3.9 (maldizer versus bendizer) e Hb 10.25 (deixar de congregar versus admoestar).
Então, veremos as três substituições que transformam corações egoístas em corações imitadores de Cristo.

Exposição

1ª Substituição: do furto ao trabalho bom

Ef 4.28 28Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado
[Desenho: Mãos trabalhando. Conceito visual: Duas mãos realizando um trabalho simples, como plantar ou construir. Significado: Deus chama aquele que furtava a trabalhar com as próprias mãos fazendo o que é bom.]
O apóstolo começa indicando que o furto deve ser substituído pelo trabalho. Parece-nos que isto está claro para todos nós, visto que ser trabalhador é uma virtude bastante valorizada no Brasil.
Durante o período em que trabalhei na Polícia Civil, ouvi diversas vezes a expressão “sou trabalhador” como forma de alguém provar que era honesto. O imaginário popular, nesse caso, aproxima-se do sentido bíblico de substituição: o pecado do furto deve ser substituído pelo trabalho.
Contudo, o que o apóstolo está dizendo aqui não se refere somente a trabalhar, mas a fazer com a próprias mãos o que é bom. Esse adjetivo bom é derivado da mesma palavra traduzida por amor (ἀγαθός). Sendo assim, alguém que não furta, é alguém que se esforça em trabalhos virtuosos e que trazem proveito às pessoas.
Por essa razão, entre outras, cristãos não deveriam apoiar causas como a legalização do tráfico de entorpecentes ou da prostituição. É verdade que são ocupações, mas ocupações que fazem mal àqueles que delas se utilizam, além de atentarem contra a moralidade cristã.
Também não devemos nos envolver com atividades que impliquem sonegação de impostos (contrabando) ou apropriação indevida do trabalho alheio (pirataria), que são também formas de furto.
Algumas pessoas, alegando não encontrar outras fontes de renda, submetem-se aos mais variados trabalhos ilícitos ou imorais. Outras, para não perder empregos lícitos, optam por práticas desonestas em seu serviço. Uma mentira aqui, um caixa dois ali, e transformamos a bênção do trabalho em maldição (cf. Pv 30.8-9).
Por isso, antes de continuarmos, vamos orar para que:
· Mais oportunidades de trabalho;
· Por nossos irmãos que estão desempregados.
Mas isso é apenas o que está na superfície. O objetivo de Deus não é somente que o Seu povo pare de fazer o mal; o objetivo d'Ele é nos tornar parecidos com Ele. Então, vamos mergulhar um pouco mais fundo no versículo...

2ª Substituição: do acúmulo à doação

Ef 4.28 28Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado.
[Desenho: Mãos repartindo pão. Conceito visual: Duas mãos entregando pedaços de pão a outra pessoa. Significado: O objetivo do trabalho não é apenas acumular para si, mas ter condições de acudir o necessitado.]
A pessoa que não furta mais é alguém de outra mentalidade. Paulo sugere aqui que quem estava acostumado a roubar no passado e hoje não rouba é apenas um ladrão não praticante.
Se alguém deixou realmente de ser ladrão, deve trabalhar para ter com que acudir o necessitado. Esta é uma das frases mais revolucionárias já escritas. O brasileiro parece ansiar por uma revolução que traga mudanças na economia e nas políticas sociais.
Estamos muito polarizados entre a chamada esquerda e a direita. Alguns gritos dizem que somente uma revolução socialista resolve o Brasil. Outros clamam por reformas liberais. Uns esperam que o Governo acuda o pobre. Outros dizem que o pobre precisa de trabalho e esforço e mais nada.
A Bíblia diz: PARE DE TRABALHAR PENSANDO EM SI MESMO! Isso não é socialista nem liberal. Isso é poder de Deus.
Quem trabalha apenas para si mesmo em um Estado socialista será um ladrão socialista. Quem trabalha apenas para si mesmo em um Estado liberal será um ladrão liberal.
Não estou afirmando aqui que todos os sistemas econômicos sejam igualmente bons ou igualmente ruins. Há questões econômicas que precisam ser avaliadas à luz da justiça, da liberdade, da responsabilidade e da preocupação com o necessitado. Mas nenhum sistema político pode produzir, por decreto, o coração que Paulo descreve.
Um Estado socialista não torna automaticamente uma pessoa generosa. Um Estado liberal também não. Uma pessoa pode trabalhar para si mesma em qualquer sistema.
Todavia, quem trabalha para suprir suas necessidades básicas e para ajudar o próximo, esse deixou de ser ladrão, quer seja socialista, quer seja liberal.
O reformador João Calvino, ao tratar da propriedade, do trabalho e do comércio, dizia que os objetivos dessas bênçãos de Deus são:
· prover sustento ao homem e sua família;
· socorrer o próximo em suas necessidades; e
· prover-lhe de gozo com o qual glorifica a Deus.[3]
Será que ele estava certo? Vejamos alguns textos bíblicos:
1Tm 6.17-19 (sobre os ricos) 17​Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento; 18​que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; 19​que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida.
Pv 31.20 (sobre a mulher virtuosa x tortuosa) 20Abre a mão ao aflito; e ainda a estende ao necessitado.
Lc 3.11 (João Batista, para as multidões) 11Respondeu-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo.
Atos 20.35 (Paulo, despedindo-se dos efésios e alertando sobre os lobos) 35Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber.
Ficam, então, as perguntas:
Suas mãos são generosas?
Você está auxiliando financeiramente alguém hoje?
Seu orçamento é organizado por 1)NECESSIDADE, 2)GENEROSIDADE e 3)PRAZER, nessa ordem?
Se você respondeu sim às três perguntas, que o Senhor seja exaltado em sua vida. Que Ele lhe dê forças para superar a tentação de deixar a generosidade apenas para as sobras.
Não furtarás, diz o 8º mandamento… Se você respondeu não a alguma das perguntas, mesmo tendo as suas NECESSIDADES supridas, então, meu amigo, meu irmão, você é apenas um ladrão não praticante. Mas isso tem cura!
Se você é cristão, o Fruto do Espírito habita em você e lhe dá forças para abandonar o furto em definitivo. Ao chegar em casa, examine seu orçamento pessoal ou familiar e retire suas vontades do altar da idolatria. Para que você trabalha? Apenas para pagar contas e comprar coisas para si mesmo? Você precisa de muito menos do que imagina. Ore, peça perdão a Deus e abra espaço para a generosidade.
Se você ainda não é cristão, não tente agradar a Deus com uma obediência externa a este mandamento enquanto permanecer em rebeldia contra o Senhor. Reconheça que é pecador e merece a justa punição por seus pecados. Clame pelo perdão de Deus e receba o sacrifício de Cristo em seu favor. Entregue-se a Ele.
Somente após isto terá real sentido obedecer aos mandamentos. E somente após isto que mudanças em nós transformam não só o nosso comportamento como também nosso coração. E por falar em coração.

3ª Substituição: Dos desejos do coração à Imitação de Deus

[Desenho: Filho imitando o pai. Conceito visual: Uma criança realizando uma tarefa semelhante à de seu pai. Significado: “Sejam imitadores de Deus, como filhos amados”; o cristão aprende a viver segundo o padrão de Deus.]
“Mas Pedro, como assim ‘imitação de Deus’? O texto de Efésios 4.28 não fala de imitação de Deus. De onde você tirou isso?” - você poderia dizer.
Na verdade, Paulo usa toda uma seção de Efésios para descrever atitudes ruins que devem ser substituídas por atitudes boas. Ele trata de falar a verdade, dominar a ira, ser generoso, proferir palavras edificantes, entre outras coisas. Mas, ao concluir essa seção, ele declara:
Efésios 5.1 “Portanto, sejam imitadores de Deus, como filhos amados.”
Notem esse “portanto” (οὖν). Para o apóstolo, buscar estas características boas é imitar a Deus.
Assim, trocamos o furto pelo trabalho porque trabalhar e produzir é imitar a Deus:
João 5.17 “Mas Jesus lhes disse: — Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também.”
Realizamos trabalhos bons e benéficos porque tudo o que Deus faz é bom:
Gênesis 1.31 Deus viu tudo o que havia feito, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto dia.
E trabalhamos dispostos a abençoar o próximo com generosidade porque as obras de Deus visam ao nosso benefício (Sl 145.15-16; At 14.17). E Jesus Cristo é o exemplo supremo:
Mateus 20.28 tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
No fim, o que o 8º mandamento está construindo no povo de Deus é mais que não furtar, mas dizendo que Deus é o padrão para a nossa mente e ações:
Deus é o padrão para como ocupamos o nosso tempo - trabalho.
Deus é o padrão para o que chamamos de bom trabalho - algo bom e proveitoso para o próximo.
Deus é o padrão para o motivo do trabalho - nosso sustento e o socorro ao próximo.
E Jesus é o modelo para seguirmos esse padrão.
Perceba o que aconteceu aqui. O padrão não sou eu. Não são minhas necessidades. Não são meus desejos. Não é aquilo que a cultura chama de sucesso. O padrão é Deus.

Conclusão

Mais que limpar as mãos sujas pelo ganho ilícito, o oitavo mandamento nos chama a substituir uma vida centrada em tomar para si por uma vida que trabalha, reparte e imita o Deus que faz o bem.
É verdade que muitas vezes falhamos neste mandamento, mesmo se não tivermos furtado nada de ninguém. Pensamos em ganhar mais dinheiro apenas para suprir NOSSAS necessidades, realizar NOSSOS desejos e NOSSOS sonhos.
Dificilmente sonhamos em ter um bom salário para poder doar mais, ajudar mais ou abençoar mais.
Mas Cristo cumpriu este mandamento com perfeição, de modo que Sua vida, morte e ressurreição foram um trabalho em nosso benefício.
Ele não trabalhou para acumular para si. Ele trabalhou para dar. Ele não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
E é isso que o evangelho faz conosco. O evangelho não apenas limpa nossas mãos. Ele as abre.
Ele nos ensina a trabalhar, a repartir e a viver para o bem do outro, pois fomos criados para imitar o Deus que trabalha, faz o bem e dá.
O ladrão pergunta: “O que posso tomar para mim?” O cristão pergunta: “O que Deus colocou em minhas mãos para que eu possa fazer o bem?”
Isso é muito mais que não furtar. É viver como filho amado, imitando o próprio Deus.
[1] ADAMS, Jay. Manual do conselheiro cristão. São Paulo: Fiel, 1982. Páginas 168-171.
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