Qual a medida do nosso julgamento?
Ewerton Luis
Sermão do Monte • Sermon • Submitted • Presented
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ABERTURA
ABERTURA
Estamos entrando na porção final do Sermão do Monte (Mateus 5–7). Após estabelecer as marcas de caráter do Reino (as Bem-aventuranças, 5:3-12), a relação cumpridora de Jesus com a Lei (5:17-48), a verdadeira espiritualidade (6:1-18) e o alerta sobre onde está nosso tesouro (6:19-34), Jesus passa a tratar das relações interpessoais no seio da comunidade da aliança e do discernimento ético. Hoje veremos o início do cap. 7.
TEXTO BÍBLICO (Mateus 7:1-5) NVT
TEXTO BÍBLICO (Mateus 7:1-5) NVT
7 “Não julguem para não serem julgados, 2 pois vocês serão julgados pelo modo como julgam os outros. O padrão de medida que adotarem será usado para medi-los.
3 “Por que você se preocupa com o cisco no olho de seu amigo enquanto há um tronco em seu próprio olho? 4 Como pode dizer a seu amigo: ‘Deixe-me ajudá-lo a tirar o cisco de seu olho’, se não consegue ver o tronco em seu próprio olho? 5 Hipócrita! Primeiro, livre-se do tronco em seu olho; então você verá o suficiente para tirar o cisco do olho de seu amigo.
1. O Conflito Inicial
1. O Conflito Inicial
A internet pega fogo
E o celular vira martelo de juiz
Agora todo mundo sabe sobre tudo
E quem não fala
(Ah, mas esse aí não se posiciona)
Midian Nascimento
Já reparou como é viciante ver alguém ser desmascarado na internet? Como é satisfatório dizer: Ah, eu avisei!” Há uma descarga quase imperceptível de dopamina quando assistimos ao tribunal público digital. Por alguns minutos, ao apontarmos o erro de um influenciador, de um político ou de um líder, nós nos sentimos pessoas melhores. Quem nunca guardou uma briga para lá na frente poder se gabar por estar certo na discussão?
Vivemos na geração mais crítica, inquisitorial e censora de toda a história humana. E o problema de vivermos nessa sociedade que aponta dedos é que cada um de nós trouxe para este culto um tribunal particular montado no peito. O cancelamento do outro funciona como um atestado instantâneo da nossa própria virtude.
Mas, ironicamente, quando nós somos os julgados, decoramos apenas o início desse texto como um mandamento bíblico: Mateus 7:1 — 'Não julgueis!'. Ele está na bio das redes sociais, nas letras de música e nas conversas. “Ao ouvirmos 'Não julgueis', a nossa primeira reação é o alívio: 'Que bom, ninguém pode me cobrar nada!' Mas logo em seguida lemos, no versículo 6, Jesus nos diz para 'não dar aos cães o que é santo nem lançar pérolas aos porcos'. Como discernir o que é santo ou quem são os porcos sem exercer juízo?”
Será que Jesus estava realmente proibindo todo e qualquer discernimento moral ou Ele estava desarmando a bomba-relógio da nossa justiça própria?
2. Aprofundando a hipocrisia
2. Aprofundando a hipocrisia
No judaísmo do Segundo Templo e nas correntes rabínicas emergentes, debates sobre conduta ética, disciplina comunitária e correção fraterna eram recorrentes. No ambiente farisaico, criavam-se cercas em torno da Lei (halakhah) que frequentemente desembocavam em um olhar censor em relação aos que não atingiam os mesmos padrões de pureza cerimonial.
Então julgar aqui tem uma conotação muito maior que apenas “avaliar, criticar”. O julgamento já era a condenação do ato falho que o outro tinha cometido. Não haveria espaço para ponderação, sequer para defesa. Apenas o cancelamento.
Jesus está alertando os seus discípulos que, no Reino de Deus, só existe um juiz capaz de condenar ou absolver alguém. Os súditos do reino não condenam, mas obedecem aos decretos do Rei. E isso fica ainda mais latente no v. 2 ( pois vocês serão julgados pelo modo como julgam os outros. O padrão de medida que adotarem será usado para medi-los ) Quando assumimos a postura de promotores implacáveis contra as falhas alheias, estamos assinando o padrão pelo qual Deus avaliará a nossa própria vida. Se exigimos retidão cirúrgica, justiça sem atenuantes e exposição pública do outro, abrimos mão de requerer misericórdia quando estivermos diante do tribunal divino.
O problema de exigirmos a nossa métrica de condenação, de julgamento… É que ela é absurdamente falha. v. 3 e 4: 3 “Por que você se preocupa com o cisco no olho de seu amigo enquanto há um tronco em seu próprio olho? 4 Como pode dizer a seu amigo: ‘Deixe-me ajudá-lo a tirar o cisco de seu olho’, se não consegue ver o tronco em seu próprio olho? Hipócrita!
É a quarta passagem em que Jesus usa o termo “hipócrita” no Sermão. Ele realmente estava preocupado que seus seguidores não apenas declarassem as palavras certas, mas que vivessem de acordo com aquilo que pregavam. Viver diferente do que se afirma crer é tão absurdo que Jesus traz uma parábola tão absurda para equivaler. A hipérbole é intencionalmente cômica e absurda: um indivíduo com um tronco cravado no olho tentando realizar uma microcirurgia oftálmica no olho de outra pessoa! A parábola é tão “avacalhada” que parece surreal imaginar esse nível de hipocrisia, mas no próprio texto bíblico encontramos personagens com suas traves e ciscos.
Em Gênesis 38 conhecemos a história de Tamar, uma mulher que casa com Er, o filho mais velho de Judá (aquele mesmo das músicas). Com a morte precoce do marido, a lei do levirato determinava que, se um homem morresse sem deixar filhos, seu irmão tinha a obrigação de se casar com a viúva. Mas o irmão, Onã, também teve sua morte precoce e deixou Tamar novamente viúva.
Temendo que seu terceiro filho tivesse o mesmo destino trágico, Judá enviou Tamar de volta à casa de seu pai, prometendo que ela se casaria com o filho mais novo assim que ele chegasse à idade adulta. O tempo passou, o rapaz cresceu e Tamar compreendeu a verdade: o sogro havia quebrado o acordo de propósito.
Anos à frente, Judá estava em viagem e relaciona-se com uma mulher com trajes de prostituta. Por não ter como pagá-la naquele momento, a mulher exigiu como garantia os objetos mais pessoais dele: o anel de selar, o cordão e o cajado.
Uns três meses depois, disseram a Judá: “Sua nora, Tamar, se comportou como prostituta e, por isso, está grávida”. Judá ordenou: “TRAGAM-NA PARA FORA E QUEIMEM-NA”. Quando a estavam tirando de casa para matá-la, ela enviou a seguinte mensagem a seu sogro: “Estou grávida do homem que é dono destes objetos. Olhe com atenção. De quem são este selo, este cordão e este cajado?”. Judá os reconheceu de imediato e disse: “Ela é mais justa que eu”
Nós adoramos operar o "cisco" do outro porque isso nos dá a falsa ilusão de que somos moralmente sadios, enquanto carregamos um tronco maciço no nosso próprio olho. Estamos cegos, machucando aqueles a quem deveríamos curar. Quantas vezes você assumimos essa postura do tribunal de Judá dentro de casa, no casamento, com os filhos, nas reuniões da igreja ou no trabalho? Quando nos irritamos desproporcionalmente com a fraqueza de alguém, quase sempre é porque aquela atitude reflete a viga que tentamos varrer para debaixo do tapete do nosso próprio coração”
Como adverte Tim Keller em Igreja Centrada, o impulso natural do coração humano caído é tentar sair dessa condenação por meio da religião moralista — redobrando o esforço, policiando a conduta externa e apontando o erro alheio para anestesiar a própria culpa. No entanto, a lei exige perfeição e só faz ressaltar a nossa falência moral. Então, o que faremos? Ou melhor, quem será capaz de fazer alguma coisa?
3. O Rei que retira a trave dos meus olhos
3. O Rei que retira a trave dos meus olhos
Lembremos: esse texto está dentro do Sermão do Monte, o manifesto que declara como é o Reino de Deus e como os pertencentes a esse Reino se comportam. Se apenas o Rei é capaz de julgar, precisamos aprender como é o julgamento dEle. E Jesus, em Mateus 18, descreve em parábola como é a Justiça desse Reino:
23 “Portanto, o reino dos céus pode ser comparado a um senhor que decidiu pôr em dia as contas com os servos que lhe deviam. 24 No decorrer do processo, trouxeram diante dele um servo que lhe devia sessenta milhões de moedas. 25 Uma vez que o homem não tinha como pagar, o senhor ordenou que ele, sua esposa, seus filhos e todos os seus bens fossem vendidos para quitar a dívida. 26 “O homem se curvou diante do senhor e suplicou: ‘Por favor, tenha paciência comigo, e eu pagarei tudo’. 27 O senhor teve compaixão dele, soltou-o e perdoou-lhe a dívida.
Por que o Rei perdoou os dez mil talentos? Por que Deus tiraria o tronco que está no meu olho?
O texto diz que o Senhor, movido de compaixão, cancelou a dívida. O Deus Santo não fingiu que a nossa trave moral não existia e nem varreu o débito para debaixo do tapete cósmico. No Calvário, o próprio Rei encarnado absorveu o prejuízo absoluto da nossa condenação. Por isso quem compreende a profundidade do perdão que recebeu perde a capacidade de ser um promotor acusador.
Se o Deus Soberano do Universo olhou para o abismo da minha culpa, perdoou uma dívida impagável e removeu por pura graça o tronco que cegava os meus olhos, com que autoridade moral eu posso me colocar de pé para condenar meu irmão por causa de um “cisco”?
O servo da parábola infelizmente não compreende isso e vai, como um hipócrita, atrás do cisco de outro devedor.
28 “No entanto, quando o servo saiu da presença do senhor, foi procurar outro servo que trabalhava com ele e que lhe devia cem moedas de prata. Agarrou-o pelo pescoço e exigiu que ele pagasse de imediato. 29 “O servo se curvou diante dele e suplicou: ‘Tenha paciência comigo, e eu pagarei tudo’. 30 O credor, porém, não estava disposto a esperar. Mandou que o homem fosse lançado na prisão até que tivesse pago toda a dívida.
Que história triste! Mesmo quando recebemos a Graça, ainda podemos ser egoístas, mesquinhos, condenadores, hipócritas. A Graça e a Misericórdia precisa ser derramada constantemente em minha vida!
Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las.
Madre Teresa de Calcutá
Quando você olhar para o cônjuge, para o colega de trabalho, para o irmão do seu pequeno grupo ou para aquele vizinho difícil, lembre-se: qual o tamanho do cisco dele comparado com aquilo que Deus perdoou de mim mesmo?
4. Tirando os ciscos uns dos outros
4. Tirando os ciscos uns dos outros
5 Hipócrita! Primeiro, livre-se do tronco em seu olho; então você verá o suficiente para tirar o cisco do olho de seu amigo.
Uma vez que o nosso coração foi derretido por esse perdão monumental e os nossos olhos foram limpos da viga pela graça de Jesus, nós não nos tornamos indiferentes aos pecados e dores dos nossos irmãos. Pelo contrário: agora nós estamos habilitados a ajudá-los a tirar o cisco.
Jesus não ordena que ignoremos o cisco (kárphos) no olho do irmão; Contudo, Ele ensina que apenas quem passou pela experiência da graça tem condições espirituais de ajudar a removê-lo. O olho é o órgão mais sensível e delicado do corpo humano. Ninguém aceita que um cirurgião se aproxime dos seus olhos empunhando uma marreta ou tomado de fúria. A intervenção espiritual exige extrema delicadeza, sensibilidade e mãos purificadas pelo arrependimento.
Gálatas 6:1-3 NVT
6 Irmãos, se alguém for vencido por algum pecado, vocês que são guiados pelo Espírito devem, com mansidão, ajudá-lo a voltar ao caminho certo. E cada um cuide para não ser tentado. 2 Ajudem a levar os fardos uns dos outros e obedeçam, desse modo, à lei de Cristo. 3 Se vocês se consideram importantes demais para ajudar os outros, estão apenas enganando a si mesmos.
Em nosso Grupo de Relacionamento tivemos um encontro tão profundo nessa última semana. A máscara da espiritualidade perfeita é um desafio para “tirarmos ciscos” Ainda mais quando estamos falando de nosso próprio casamento. Se vivemos numa sociedade que cada coração é um tribunal, como ser vulnerável e abrir suas dificuldades diante dos outros?
Um relacionamento moralista, baseado em perfomance e desempenho, teme olhar para as próprias faltas porque sua identidade depende de parecer justo diante dos outros e de si mesmo. Quando obrigado a reconhecer o erro, ele entra em desespero, cinismo ou adota mecanismos defensivos, como condenar o erro dos outros antecipadamente.
Ajudar alguém a retirar seu cisco é um ato sagrado, uma atividade santa. Portanto, somente quem primeiro tira a trave do próprio olho tem consciência do quebrantamento e da humildade que dão a outros condições de se reabilitarem em suas fraquezas.
Carlinhos Queiroz
Relacionamentos à luz da justificação pela fé sabem que já são plenamente aceitos em Cristo, sem méritos próprios, o que dá liberdade e coragem para confessar e tratar suas vigas sem medo de rejeição. Relacionamentos transformados sabem da trave que foi retirada, e por isso zelam com muito cuidado daquilo que foi confessado e que deseja ser tratado.
CONCLUSÃO - Música
CONCLUSÃO - Música
Qual a medida do nosso julgamento? Qual o tamanho da trave que Cristo removeu dos nossos olhos? O cisco do meu irmão deve ser motivo de condenação ou objeto de restauração?
Minha oração é que os martelos de tribunal em nossas mãos se tornem bisturis de cirurgia; que nosso desejo de julgamento e condenação seja trocado pela vontade de cuidar, acolher e restaurar nossos irmãos.
SONDA-ME USA-ME
