Da vingança - Sermão do Monte

Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 5 views
Notes
Transcript
Poucas coisas revelam tanto o nosso coração quanto a maneira como reagimos quando somos ofendidos. Enquanto tudo está bem, podemos parecer pacientes, mansos e amorosos. Mas, quando alguém fere nossa honra, prejudica nossos interesses ou viola nossos direitos, surge imediatamente dentro de nós o desejo de revidar. Talvez não procuremos ferir fisicamente, mas queremos que o outro sinta a mesma dor que nos causou.
É exatamente nesse ponto que Jesus toca em Mateus 5.38–42.
“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso...” (Mateus 5.38–39)
A expressão “olho por olho e dente por dente” fazia parte da lei dada por Deus a Israel em Êxodo 21.24, Levítico 24.20 e Deuteronômio 19.21. Essa lei não foi estabelecida para incentivar a vingança, mas para limitá-la. Em vez de permitir que uma pequena ofensa provocasse uma reação desproporcional, Deus determinou que a punição fosse correspondente ao dano causado. Era uma norma destinada aos juízes e magistrados, não uma autorização para que cada pessoa executasse sua própria vingança.
O problema estava na maneira como essa lei passou a ser utilizada. Aquilo que Deus havia dado para controlar a vingança pública foi transformado em justificativa para a retaliação pessoal sem medida.
Jesus, porém, conduz seus discípulos muito além da mera justiça proporcional. Ele não está anulando a Lei — pois acabara de declarar que veio cumpri-la, não destruí-la (Mt 5.17). Também não está condenando a atuação da justiça pública, a proteção do inocente ou a defesa responsável da vida. O alvo de Cristo é o coração vingativo que se apropria da justiça para alimentar ressentimentos e defender obsessivamente a própria honra.
Portanto, o grande assunto deste texto não é simplesmente a não violência. É a renúncia à vingança pessoal. Jesus está formando um povo que não responde ao mal reproduzindo o mesmo mal. Como ensinou J. C. Ryle, o cristão não deve perguntar apenas: “Como essa pessoa me tratou?”, mas: “O que Cristo deseja que eu faça?”
Este é o quinto exemplo de Jesus de como a justiça que Deus exige supera a dos escribas e fariseus e tem a ver com a resposta do crente quando pessoalmente injustiçado. A “lei da retaliação” não foi criada para incentivar a retaliação, mas para limitá-la, visando à justiça. Os fariseus interpretaram erroneamente as Escrituras do Antigo Testamento e as usaram como incentivo à vingança, em vez de impedi-la!
A visão radical de Jesus é extremamente necessária em uma sociedade onde os "direitos individuais", a retaliação e a busca por vingança se tornaram a norma, em vez da exceção! Subjacente a muitas dessas atitudes e ações, frequentemente reside um espírito de raiva e vingança. Essas são as questões atemporais que nosso Senhor aborda nesta parte de seu sermão.
Vale também ressaltar que Sem dúvida, esta seção ( Mt 5:38-48 ) tem sido uma das mais mal interpretadas e, consequentemente, mal aplicadas de todo o Sermão. Por exemplo, alguns recorreram a essas passagens para justificar seu apelo para que os cristãos sejam verdadeiros "capachos".
Olho por olho - Esta é uma citação exata encontrada em três passagens do Antigo Testamento ( veja acima - Êxodo 21:24 ; Levítico 24:20 ; Deuteronômio 19:21 ) e reflete o princípio da lei de talião ( lex = lei + talionis = retaliação = literalmente a "lei da retaliação"), um dos códigos de leis mais antigos descobertos, inclusive no código secular de Hamurabi (um rei babilônico - veja o artigo sobre a lei babilônica ), composto por volta de 2000 a.C. Simplificando, essa lei exigia que a punição fosse proporcional ao crime e corresponde a expressões modernas como " olho por olho " e " quid pro quo " (latim para "algo por algo"). Nesse sentido, a lei de talião era misericordiosa, pois limitava a magnitude da vingança, refreando uma resposta irada.
Quando Jesus cita a expressão “olho por olho, dente por dente”, ele toca em uma das leis mais conhecidas e, ao mesmo tempo, mais mal compreendidas do Antigo Testamento. Para muitos, essa expressão parece revelar uma justiça severa e vingativa. Entretanto, quando examinamos seu contexto, descobrimos exatamente o contrário: essa lei foi estabelecida por Deus para impedir que a vingança humana ultrapassasse os limites da justiça.
Outro propósito da lei de " olho por olho " era coibir a criminalidade. Por exemplo, o efeito da invocação desse princípio pode ser visto em Deuteronômio 19, onde Moisés registra que…
( Deuteronômio 19:16-21 )
Você percebe o propósito da punição que correspondia ao crime ? Moisés diz: "Os demais ouvirão, terão medo e nunca mais farão tal maldade entre vocês" (v. 20 ) .
Como mencionado anteriormente, é crucial lembrar que cada passagem do Antigo Testamento que menciona o princípio da lei de talião ( Êxodo 21:22-27 ; Levítico 24:19 , 20 ; Deuteronômio 19:19 ) especifica, em contexto, que ela deve ser aplicada pelos juízes e autoridades civis de Israel. É verdade que a parte lesada poderia infligir a punição, mas mesmo nessas situações, cabia ao órgão civil julgar e sentenciar o culpado. É fácil entender como tal sistema impediria que um indivíduo lesado reagisse de forma exagerada e exigisse mais do que o devido. É interessante notar que até mesmo esse princípio misericordioso estabelecido por Deus tem sido frequentemente interpretado erroneamente como vingativo, mas não o é. A lei de talião não é uma licença para a crueldade, mas um limite a ela! Não é uma licença para a vingança, mas uma garantia de justiça!
Em Gênesis, lemos sobre um exemplo notório de vingança pessoal por um homem perverso chamado Lameque , que arrogantemente declarou…
Prestem atenção às minhas palavras, pois matei um homem por me ferir e um menino por me bater ; se Caim foi vingado sete vezes, Lameque o será setenta e sete vezes. ( Gênesis 4:23-24 )
Que contraste entre a vingança de Lameque e o perdão ensinado por Cristo, que exortou Pedro a perdoar seu irmão setenta vezes sete ( Mateus 18:22 ) . Em vez de reações exageradas e punição excessiva contra um inimigo, o desejo de Deus sempre foi…
Se o seu inimigo estiver com fome, dê-lhe de comer; se estiver com sede, dê-lhe de beber; pois você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele, e o Senhor o recompensará. ( Provérbios 25:21-22 )
Da mesma forma, em Provérbios 24:29 lemos (na NVI)...
Não diga: "Farei com ele o que ele fez comigo; retribuirei o mal que ele fez." ( NVI - SII )
John MacArthur explica que a tradição rabínica perverteu a lei de talião , "olho por olho", que no Antigo Testamento "não permitia que um indivíduo fizesse justiça com as próprias mãos e a aplicasse pessoalmente". No entanto, foi exatamente isso que a tradição rabínica fez. Cada homem foi autorizado, na prática, a se tornar seu próprio juiz, júri e executor. A lei de Deus foi transformada em licença individual (permissão para agir, liberdade para tomar uma determinada linha de ação), e a justiça civil foi pervertida em vingança pessoal. Em vez de reconhecerem adequadamente a lei de " olho por olho" e "dente por dente" como um limite para a punição, eles a usaram convenientemente como um mandato para a vingança — como muitas vezes foi erroneamente vista ao longo da história. O que Deus deu como uma restrição aos tribunais civis , a tradição judaica transformou em licença pessoal para a vingança . De outra forma, a "justiça" egocêntrica e autoafirmativa dos escribas e fariseus fez um caos da justiça.
A mesma Lei que regulamentava a justiça pública proibia a vingança privada. Os juízes deveriam aplicar a justiça; o indivíduo, porém, não poderia guardar rancor e executar sua própria vingança. Calvino explica que os magistrados receberam autoridade para proteger a sociedade, mas as pessoas haviam transformado essa norma judicial em pretexto para devolver pessoalmente o mal recebido.
O problema dos escribas e fariseus, portanto, era duplo: retiraram a lei do tribunal e a colocaram nas mãos do ofendido; depois, usaram a Palavra de Deus para justificar um coração cheio de ressentimento.
É possível defender uma causa aparentemente justa com motivações profundamente pecaminosas. Podemos dizer que queremos apenas justiça, quando, na verdade, queremos ver o outro sofrer. O coração vingativo gosta de chamar vingança de justiça porque isso lhe permite alimentar o ódio sem sentir culpa.
“Eu, porém, vos digo”
Spurgeon comenta que: A regra do tribunal não se aplica à vida comum; mas a regra da cruz e do Sofredor que tudo suporta aplica-se a todos nós. No entanto, quantos consideram tudo isso fanático, utópico e até covarde! O Senhor, nosso Rei, quer que suportemos e toleremos, e que vençamos com grande paciência. Podemos fazer isso? Como podemos ser servos de Cristo se não temos o seu espírito?
O contraste é entre a verdadeira intenção da Lei e sua interpretação distorcida. Jesus retira a Lei das mãos dos intérpretes que a usavam para justificar seus pecados e revela novamente seu verdadeiro propósito.
“Não resistais ao perverso”
A palavra traduzida por “resistir” é o verbo grego anthístēmi, que possui o sentido de colocar-se contra, opor-se ou assumir posição de confronto. Isoladamente, a expressão poderia parecer uma proibição absoluta de qualquer resistência ao mal. Porém, seu significado precisa ser determinado pelo contexto.
Jesus não está dizendo:
· Não confronte o pecado.
· Não denuncie uma injustiça.
· Não proteja uma pessoa que está sendo agredida.
· Não procure ajuda diante de violência ou abuso.
· Não permita que as autoridades punam criminosos.
· Não defenda sua família ou alguém que esteja correndo perigo.
A própria Bíblia manda resistir ao diabo (Tg 4.7; 1Pe 5.9), confrontar o pecado (Mt 18.15–17) e reconhece a autoridade do Estado para punir quem pratica o mal (Rm 13.1–4). Jesus também confrontou os que profanavam o templo, e Paulo utilizou seus direitos legais quando foi tratado injustamente (At 22.25; 25.11).
Portanto, o mandamento não significa que o cristão deve se tornar passivo diante de toda manifestação do mal. O contexto é o da retaliação pessoal. Uma boa paráfrase do pensamento seria:
“Não respondam ao ofensor assumindo contra ele uma postura vingativa. Não combatam o mal pessoalmente recebido reproduzindo o mesmo mal.”
Jesus não está proibindo a justiça; está proibindo a vingança. Não está condenando a proteção do inocente; está condenando a defesa orgulhosa do ego.
A distinção pode ser resumida assim:
A justiça procura corrigir o mal; a vingança procura fazer o ofensor sofrer.
Às vezes, buscar a intervenção das autoridades pode ser necessário para proteger outras pessoas e impedir que o agressor continue pecando. Contudo, mesmo quando busca justiça, o cristão não deve ser governado pelo ódio. Ele pode desejar que a lei seja cumprida e, ao mesmo tempo, orar pelo arrependimento e pela salvação do culpado.
“mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra;”
Jesus apresenta uma situação concreta. Ele não fala inicialmente de uma tentativa de homicídio, de um assalto armado ou de uma agressão contra uma criança. Ele menciona uma bofetada na face direita.
Considerando que a maioria das pessoas golpearia com a mão direita, atingir a face direita provavelmente exigiria um tapa com as costas da mão. No mundo antigo, esse gesto não era apenas agressivo; era profundamente humilhante. Seu objetivo principal era desonrar, desprezar e tratar a pessoa como inferior.
Portanto, Jesus está tratando especialmente de uma agressão contra a honra. É como se alguém dissesse:
“Você não vale nada.”
“Você é desprezível.”
“Eu posso humilhá-lo publicamente.”
O instinto humano responde: “Ninguém me trata dessa maneira. Ele vai descobrir com quem está mexendo”. Jesus, porém, ordena: “Volta-lhe também a outra”.
O que significa voltar a outra face? Quando você oferece a outra face, você se recusa a vingar a ofensa grave. Você se recusa a retaliar. Se você vivesse segundo a letra da Lei, como ensinavam os fariseus, o que você deveria fazer? Eles diriam que você deveria se vingar e dar um tapa na outra face, oferecendo a eles a sua face! Jesus contesta esse ensinamento falso e diz: "Não, não. Você, amado(a) de Meu Pai, ofereça a sua outra face."
Isso não é covardia. É domínio próprio produzido pela graça. O covarde não reage porque está paralisado pelo medo; o discípulo não revida porque seu coração está submetido a Cristo. Ele possui força para retaliar, mas escolhe não usar essa força para satisfazer o orgulho.
Quando foi esbofeteado durante seu julgamento, Jesus perguntou: “Se falei mal, dá testemunho do mal; mas, se falei bem, por que me feres?” (Jo 18.23). Cristo identificou e confrontou a injustiça, mas não retaliou. Posteriormente, permitiu que continuassem a humilhá-lo, cuspir nele, feri-lo e crucificá-lo.
Como alguém pode fazer isso naturalmente ? Não é uma resposta natural! É uma resposta sobrenatural que representa a obra do Espírito de Deus no novo coração de um cidadão do Reino dos Céus, controlado por um espírito manso e humilde que escolhe não responder. Embora o Espírito nos dê o desejo e o poder, não somos robôs e ainda precisamos fazer uma escolha consciente e voluntária de não revidar da mesma forma!
A questão central é nossa honra
A bofetada na face direita atinge exatamente aquilo que mais procuramos preservar: nossa reputação, dignidade e importância.
Muitas de nossas reações não nascem do amor pela justiça, mas do orgulho ferido:
· “Como ele teve coragem de falar assim comigo?”
· “Ele precisa aprender a me respeitar.”
· “Não posso deixar isso barato.”
· “Se eu não responder, pensarão que sou fraco.”
Jesus não ensina que honra e dignidade não possuem valor. O ser humano é imagem de Deus. Porém, o discípulo não depende da aprovação das pessoas para saber quem é. Sua identidade está segura em Cristo. Por isso, ele não precisa vencer toda discussão, responder a todo insulto ou destruir quem atacou sua reputação.
Quem sabe que foi aceito por Deus consegue suportar ser rejeitado pelos homens. Quem recebeu uma nova identidade em Cristo não precisa construir sua identidade sobre a opinião do ofensor.
Verso 40 a 42
O discípulo responde à injustiça com generosidade sacrificial
Mateus 5.40–42
Depois de ensinar que o discípulo não deve revidar uma ofensa pessoal, Jesus apresenta outras três situações: alguém tenta tomar seus bens por meio de um processo; uma autoridade o obriga a prestar determinado serviço; e uma pessoa necessitada lhe pede alguma coisa.
Esses exemplos alcançam áreas que procuramos proteger cuidadosamente:
· O verso 40 toca em nossos bens e nossa segurança.
· O verso 41 toca em nossa liberdade, tempo e disposição para servir.
· O verso 42 toca em nosso dinheiro e recursos.
Em todos eles, o princípio é o mesmo: o discípulo não vive dominado pela necessidade de preservar seus direitos a qualquer custo. Ele está disposto a sofrer perdas pessoais e fazer mais do que lhe é exigido, quando isso pode demonstrar o caráter de Cristo.
Jesus agora nos conduz a uma situação judicial. A expressão “demandar contigo” significa levar alguém ao tribunal ou mover uma ação contra essa pessoa.
A túnica, em grego chitōn, era uma peça usada junto ao corpo, semelhante a uma camisa longa. A capa, himation, era uma veste exterior, mais pesada e valiosa.     
A capa possuía uma proteção especial na Lei:
“Se do teu próximo tomares em penhor a sua veste, lha restituirás antes do pôr do sol; porque é com ela que se cobre, é a veste do seu corpo; em que se deitaria?” (Êxodo 22.26–27)
Mesmo que a capa fosse entregue como garantia de uma dívida, o credor deveria devolvê-la antes da noite. Deus protegia o pobre de ser privado de uma necessidade básica.
Portanto, aquele que queria tomar a túnica por meio de um processo não poderia normalmente ficar de maneira permanente com a capa. Jesus, porém, diz: “Deixa-lhe também a capa”. A imagem é intencionalmente forte: em vez de lutar amargamente até o fim por tudo o que a lei lhe permite conservar, o discípulo deve estar disposto a sofrer uma perda maior para não ser dominado pelo ressentimento.
Portanto, o que Jesus está dizendo aos cidadãos do Reino dos Céus é que devemos estar dispostos a entregar até mesmo nossa valiosa vestimenta exterior, nosso casaco , mesmo que o devedor não possa legalmente tomá-lo. Devemos fazer isso, se necessário, para quitar a dívida, em vez de ofender nosso adversário.
Jesus está proibindo toda defesa judicial?
O texto não significa que um cristão jamais poderá defender-se num tribunal. Paulo utilizou seus direitos como cidadão romano e apelou para César quando foi acusado injustamente (At 22.25; 25.11). Além disso, buscar a justiça pode ser necessário para proteger outras pessoas e impedir que um agressor continue praticando o mal.
Também não significa que devemos entregar irresponsavelmente aquilo que nos foi confiado. Um pai não pode abandonar os recursos necessários para sustentar sua família. Um gestor não pode ignorar fraude ou permitir que recursos da empresa sejam desviados, pois esses bens não pertencem exclusivamente a ele: foram colocados sob sua responsabilidade.
Jesus trata de direitos que são propriamente nossos e de situações em que abrir mão deles não causa injustiça a terceiros. O discípulo pode renunciar a um direito pessoal, mas não deve abandonar uma responsabilidade dada por Deus.
O próprio Calvino advertiu que Cristo não ordena uma entrega indiscriminada que incentive roubo e extorsão. O alvo do mandamento é impedir que a defesa da propriedade seja movida por vingança, ódio e avareza.
Paulo aplica esse princípio às disputas entre cristãos:
“O só existir entre vós demandas já é completa derrota para vós outros. Por que não sofreis, antes, a injustiça? Por que não sofreis, antes, o dano?” (1Coríntios 6.7)
Jesus nos ensina que existem ocasiões em que é melhor sofrer um prejuízo pessoal do que alimentar uma guerra.
A pergunta, portanto, não é somente: “Tenho o direito de ficar com isso?”. A pergunta cristã é:
“O que glorificará mais a Deus nesta situação: exigir meu direito ou abrir mão dele?”
“Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas.”         
A palavra traduzida por “obrigar”, angareuō, era utilizada para o serviço compulsório. Sua origem está relacionada ao sistema de mensageiros persas e, posteriormente, passou a descrever a requisição de pessoas, animais ou bens para o serviço das autoridades.
A mesma palavra aparece em Mateus 27.32:
“Encontraram um cireneu, chamado Simão, a quem obrigaram a carregar-lhe a cruz.”
Simão não se ofereceu voluntariamente. Ele foi colocado à força no serviço e obrigado a carregar a cruz de Jesus.
A lei romana dava ao soldado romano o direito de recrutar civis para carregarem seus fardos por uma milha (e apenas por uma milha), o equivalente a uma milha romana, ligeiramente menor que a milha moderna. O objetivo dessa lei era aliviar o soldado, mas era extremamente inconveniente para o cidadão obrigado a servir. Para piorar a situação, aqueles que carregavam os equipamentos ou armas dos soldados eram justamente os oprimidos pelos romanos! Não surpreende, portanto, que os judeus nutrissem um ódio particular por essa lei e pelos soldados que os obrigavam a carregar seus fardos!
É importante ressaltar que essa lei podia ser invocada por qualquer soldado romano contra qualquer cidadão em qualquer lugar do Império Romano, independentemente de quem fosse o cidadão ou de suas circunstâncias. Sem dúvida, a maioria dos ouvintes de Jesus havia sido forçada a "andar uma milha", e agora Ele dizia para andarem duas!
Qual é a mensagem de Jesus ? Ele escolhe algo particularmente desprezível e afirma que os cidadãos do Reino dos Céus devem ir além, de bom grado e com uma atitude correta de coração, ações e pensamentos que só podem surgir sobrenaturalmente de um novo coração controlado pelo Espírito de Deus.
A atitude voluntária transforma uma imposição humilhante em uma oportunidade de revelar o caráter de Cristo.
REFLEXÃO - Caro cidadão do Reino, como você reage quando alguém lhe rouba a preciosa liberdade de fazer o que deseja e lhe pede para carregar o fardo dessa pessoa ("mesmo que seja só o primeiro quilômetro!")? Você entrega seus direitos com gratidão e "faz o esforço extra" ou cede apenas ao "primeiro quilômetro", e mesmo assim com relutância?
(Se eu ligar para você precisando de você, como você vai reagir tendo que entregar eu tempo, seu esforço em pró de uma causa que não é diretamente sua?)
 O que Jesus estava ensinando aqui era a alegria genuína por qualquer um de seus seguidores que viesse a sofrer essa forma de perseguição. Há duas maneiras de realizar qualquer tarefa. Você pode cortar a grama com uma expressão cabisbaixa, como se estivesse cortando o deserto. Ou pode cortá-la e dizer: " Há pássaros no céu, há nuvens acima, não está chovendo – este é um ótimo dia! ". Ao lavar a louça, você pode regá-la com suas lágrimas ou pode cantar hinos. Jesus nos chama a uma resposta revolucionária em uma situação difícil: alegria . O tipo de alegria que faria um soldado endurecido dizer: " O que há com ele? Essa pessoa tem algo que eu não entendo ".
Verso 42
“Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.”
O último exemplo trata de uma pessoa que não vem para ofender, processar ou obrigar, mas para pedir.
Jesus confronta a tendência humana de fechar o coração diante da necessidade alheia. O Antigo Testamento já ensinava:
“Não endurecerás o teu coração, nem fecharás as mãos a teu irmão pobre; antes, lhe abrirás de todo a mão e lhe emprestarás o que lhe falta.” (Deuteronômio 15.7–8)
Jesus acaba de desmantelar o uso indevido de "olho por olho e dente por dente" ao ensinar seus seguidores a renunciar à retaliação pessoal e a responder com graça radical. O versículo 42 flui desse espírito de amor sacrificial e não defensivo. Jesus não está estabelecendo uma regra legalista, mas descrevendo um princípio moral que caracteriza seus discípulos. E essa atitude de "dar generosamente" só é possível para uma pessoa controlada pelo Espírito.
Em apoio a essa premissa, observe que Jesus diz " dar" no imperativo presente , que exige que o doador dependa do Espírito Santo para obedecer . Jesus está ordenando a seus discípulos que continuem sendo generosos! Faça da generosidade seu estilo de vida, sua prática habitual. Ele está nos chamando para uma generosidade radical (capacitada sobrenaturalmente), compaixão e amor altruísta.
Jesus não está dizendo que devemos entregar qualquer coisa a qualquer pessoa, independentemente das consequências.
A Bíblia também ensina:
· Quem não quer trabalhar não deve ser sustentado em sua preguiça (2Ts 3.10–12).
· Temos responsabilidade prioritária pelo cuidado de nossa família (1Tm 5.8).
· Não devemos participar dos pecados de outras pessoas (1Tm 5.22).
· A generosidade deve ser acompanhada de justiça e bom senso (Sl 112.5).
Dar dinheiro para sustentar um vício não é amor. Financiar uma prática criminosa não é misericórdia. Incentivar a irresponsabilidade de alguém pode aprofundar sua destruição.
Por isso, o mandamento exige generosidade, mas também sabedoria. Como Calvino resume, Cristo quer tornar seus discípulos generosos, não irresponsáveis.
Esses preceitos nos são apresentados a nós como nossa regra geral. Cada regra, porém, é equilibrada por outros mandamentos bíblicos, e há o ensinamento do bom senso filantrópico para nos guiar. Nosso espírito deve ser de prontidão para ajudar os necessitados por meio de doações ou empréstimos.
Conclusão
Em Mateus 5.38–42, Jesus confronta o desejo humano de revidar quando somos ofendidos, prejudicados ou privados de nossos direitos. A expressão “olho por olho e dente por dente” não foi dada por Deus para autorizar a vingança pessoal, mas para orientar os juízes, limitar as punições e impedir reações desproporcionais. Contudo, essa norma judicial havia sido transformada em justificativa para devolver pessoalmente o mal recebido.
Ao dizer “não resistais ao perverso”, Jesus não proíbe a justiça pública, a legítima defesa ou a proteção do inocente. Seu alvo é a retaliação pessoal. Voltar a outra face significa estar disposto a suportar outra ofensa antes de responder com ódio. O discípulo pode confrontar a injustiça, mas não deve ser governado pelo orgulho ferido nem pelo desejo de vingança.
Nos versos 40–42, Jesus aplica esse princípio a três áreas:
· Diante de uma disputa por bens, o discípulo pode abrir mão de um direito pessoal para preservar a paz.
· Quando obrigado a prestar um serviço, não serve com ressentimento, mas está disposto a caminhar a segunda milha.
· Diante de alguém necessitado, não fecha o coração, mas oferece ajuda com generosidade e sabedoria.
Essas ordens não ensinam passividade diante do mal, submissão a abusos ou generosidade irresponsável. Jesus ensina que o cristão não deve ser dominado pela defesa dos próprios direitos, bens, tempo e conforto. Em vez de simplesmente deixar de revidar, ele deve vencer o mal praticando o bem.
Cristo é o modelo perfeito desse ensino. Quando insultado, não revidou; quando sofreu, não ameaçou, mas entregou-se ao Pai, que julga retamente. Ele não entregou apenas a capa, mas a própria vida por pecadores.
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.