(2Co 6:3-10)

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Nessa seção, Paulo apresenta uma lista dos sofrimentos que suportou por amor a Cristo.
Na verdade, as referências frequentes aos sofrimentos de Paulo ilustram as tribulações e adversidades que os pregadores do século 1o suportavam.
A passagem se divide nitidamente em três partes. A primeira seção (v. 4b–7a) tem uma lista na qual a preposição em ocorre 18 vezes para introduzir igual número de frases. O segundo segmento (v. 7b–8a) apresenta três pares de palavras ou expressões, cada um precedido pela preposição com ou por. E a terceira divisão (v. 8b–10) consiste de sete contrastes, todos precedidos pela palavra como. Cada grupo está subdividido e mostra paralelismo (ver o comentário sobre v. 4b–10).
2Coríntios 6.3 “não dando nós nenhum motivo de escândalo em coisa alguma, para que o ministério não seja censurado.”
Os vv. 3-4a formam a dobradiça entre o apelo teológico e o catálogo apostólico. Μηδεμίαν ἐν μηδενὶ διδόντες προσκοπήν exibe duplo negativo enfático (μηδεμίαν... μηδενὶ) — recurso natural em grego (diferente do português formal), que intensifica por acumulação a total ausência de motivo de escândalo. διδόντες, particípio circunstancial presente, é concessivo-consecutivo em relação ao ministério: a conduta apostólica é tal que não fornece προσκοπήν ("pedra de tropeço", termo raro, hapax legomenon paulino) a ninguém. A oração final ἵνα μὴ μωμηθῇ ἡ διακονία (subjuntivo aoristo passivo de μωμάομαι, "ser censurado/manchado") expressa o propósito: preservar a reputação do ministério, não a reputação pessoal de Paulo — deslocamento retórico importante, pois o que está em jogo é a credibilidade do evangelho, não o ego apostólico.
Os ministros do evangelho de Cristo precisam se esforçar para ser irrepreensíveis em sua conduta para que ninguém que os observa possa se sentir ofendido. Se proclamam a Palavra de Deus mas deixam de seguir seu ensino, negam a verdade, destroem a igreja e insultam seu Senhor e Mestre.
Por que Paulo está tão interessado em evitar ofender qualquer pessoa? Sua resposta é: “Para que nosso ministério não seja achado em falta”. Acima de tudo, Paulo quer salvaguardar o ministério do evangelho que recebeu do Senhor.
Calvino: Paulo algumas vezes enaltece o ministério do evangelho em geral e, em outras vezes, aponta para sua integridade pessoal. [...] Paulo trata aqui de três coisas: em primeiro lugar, ele mostra as excelências que deveriam merecer estima nos pregadores do evangelho; em segundo, mostra que ele mesmo possuía essas qualidades; finalmente, ele exorta os coríntios a que não reconheçam como servos de Cristo os que não se conduziam bem no caminho que ele, aqui, por seu próprio exemplo, estabelecia. Seu propósito é granjear autoridade para si e para aqueles que são como ele, em favor da glória de Deus e o bem da igreja; ou antes, para restaurar esta autoridade onde ela sucumbiu e também lembrar os coríntios de seu tolo comprometimento com os falsos apóstolos, os quais os impediam de progredir, no evangelho, à requerida dimensão. Os ministros estavam dando ocasião a escândalo, quando, por meio de suas próprias falhas, impediam o progresso do evangelho naqueles que o ouviam. Paulo declara que ele não pertencia a tal confraria e desafia seu zeloso colegiado a não manchar seu apostolado com alguma sombra de desonra. Pois esta é uma das armadilhas de Satanás – procurar falhas nos ministros que farão com que o evangelho caia em descrédito. Pois, se ele consegue conduzir o ministério à desonra, toda a esperança de progresso se esvai. Assim, o homem que deseja tornar-se útil ao serviço de Cristo deve devotar toda sua energia para manter a honra de seu ministério. Que ele tudo faça para assegurar-se de que é digno dessa honra, porquanto nada há mais absurdo do que alguém lutar para manter sua reputação diante dos outros, quando ele mesmo se desonra, vivendo uma vida pecaminosa. O único homem digno de honra é aquele que não permite em si mesmo algo que seja indigno do ministério de Cristo.
Nas cartas de Paulo, a palavra ministério ou serviço ocorre 23 vezes, 12 das quais nessa epístola. A ênfase nessa palavra mostra a importância que Paulo dá ao ministério e como ele o trata com o maior respeito. “Seu ministério, não sua pessoa, é o que importa.”17
A conduta de um pastor nunca deve obstruir a obra do ministério do evangelho. Um pastor é sempre em primeiro lugar um ministro da Palavra e então um servo do Senhor a seu povo.
Quando um ministro do evangelho quebra a lei moral de Deus, a igreja não consegue mais testemunhar efetivamente ao mundo. A igreja se torna objeto de riso, pois a poluição do pecado mostra a contradição entre atos e palavras. O ato pecaminoso cancela a mensagem do evangelho. Para o ministro e para cada membro da igreja, todas as coisas de todos os modos devem servir à causa da boa-nova da salvação de Cristo.
2Coríntios 6.4 “Pelo contrário, em tudo recomendando-nos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias,”
O ἀλλ᾽ de v.4 introduz a antítese estrutural: em vez de dar motivo de escândalo, Paulo συνίσταντες ἑαυτοὺς ("recomendando-se a si mesmos" — mesmo verbo de 3:1, 5:12, agora empregado positivamente) ὡς θεοῦ διάκονοι — a autoidentificação ministerial que serve de rubrica para toda a lista seguinte. O catálogo que se abre em ἐν ὑπομονῇ πολλῇ funciona sintaticamente como uma cadeia de frases adverbiais instrumentais/circunstanciais dependentes desse particípio συνίσταντες: Paulo comprova (recomenda-se) por meio de ou em meio a cada uma dessas realidades.
A estrutura do catálogo (vv. 4b-10): os intérpretes reconhecem quatro movimentos organizados por mudança de preposição/construção — sinal deliberado de progressão retórica, não de lista caótica:
Divididos em três tríades: (i) ὑπομονῇ πολλῇ — termo-guarda-chuva; θλίψεσιν, ἀνάγκαις, στενοχωρίαις — tríade de aflições gerais (pressão externa, quase sinônimos escalonados: "tribulações", "necessidades/pressões", "angústias/apertos", do menos ao mais intenso); (ii) πληγαῖς, φυλακαῖς, ἀκαταστασίαις — tríade de sofrimentos concretos infligidos por perseguição (açoites, prisões, tumultos — cf. 2Co 11:23-25); (iii) κόποις, ἀγρυπνίαις, νηστείαις — tríade de privações no exercício do ministério (trabalhos árduos, vigílias, jejuns). A progressão vai do sofrimento geral, ao sofrimento imposto por outros, ao sofrimento auto-imposto por zelo ministerial — arco retórico cuidadosamente construído.ἐν + dativo (nove itens, vv. 4b-6)voluntariamente assumidas
Como servo de Deus, Paulo, com seus cooperadores, está se recomendando, não com respeito à sua pessoa, mas ao seu ministério. Sendo assim, não há discrepância aqui entre seus comentários anteriores sobre o recomendar-se (ver 3.1–3; 5.12), pois ele nunca põe a ênfase em si mas sempre em seu ministério. Paulo arriscou tudo para servir a seu Deus, e Deus o supriu em suas carências em todas as adversidades que ele encontrou.
A virtude da resistência é fundamental para os três conjuntos de experiências duras que Paulo tem de suportar passivamente por vezes e ativamente em outras ocasiões (v. 4b–5).
1. aflições, angústias, perigos
2. açoites, aprisionamentos, desordens civis
3. trabalho duro, impossibilidade de dormir, fome
O primeiro grupo de três ilustra provas árduas de natureza genérica; o segundo tem que ver com Paulo enfrentando sanções da lei e autoridades judiciais, e o terceiro é relativo a problemas físicos.
Calvino: Entre as coisas mencionadas por ele, há algumas que são sempre requeridas de todos os servos de Cristo, tais como trabalhos, sinceridade, conhecimento, vigílias, longanimidade, amor, a palavra da verdade, o Espírito Santo, o poder de Deus, as armas da justiça. Há outras, porém, que não são necessárias em caráter permanente. Para alguém ser servo de Cristo não é indispensável que se sofra açoites e prisões; mesmo os ministros mais completos e excelentes podem viver isentos destes. Não obstante, é dever de todos o cultivo da coragem de se oferecer, caso seja do agrado do Senhor, para enfrentar açoites e prisões como Paulo.
2Coríntios 6.5 “nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns,”
Em açoites.” Lucas descreve como Paulo e Silas foram açoitados com varas diante dos magistrados em Filipos (At 16.22). E Paulo revela que os judeus o açoitaram cinco vezes ao todo e os romanos, com varas, três vezes (11.24–25).
“Em aprisionamentos.” Lucas dá detalhes do aprisionamento de Paulo e Silas em Filipos (At 16.23–40). Não temos mais informações sobre quaisquer outros aprisionamentos, mas Paulo escreve que foi encarcerado frequentemente (11.23).
Calvino: Não é uma questão de simplesmente ficar impassível em meio aos tumultos – isso pode dizer-se de todos os amotinadores –, e sim de que ele não entrava em pânico em meio aos tumultos provocados por outrem. Ambas as coisas são requeridas dos ministros do evangelho: que se esforcem ao máximo para manter a serenidade como homens de paz, assim como devem manter-se impávidos em meio às comoções, sem desviarem-se do curso definido e certo, ainda que os céus desabem.
Essas desordens limitavam a eficácia de Paulo como missionário (ver At 19.29). O pior caso de agitação civil ocorreu em Jerusalém na corte dos gentios. Ali o povo amotinado procurou matar Paulo, mas um comandante romano com 200 soldados evitou que o assassinato ocorresse (At 21.30–32).
Se nos lembramos da intenção de Paulo de ser financeiramente independente trabalhando com a confecção de tendas além de ser missionário, sabemos que trabalhou arduamente (At 18.3; 20.34–35). Em Éfeso, trabalhou para custear suas despesas e ajudar os pobres, lecionou diariamente no salão de Tirano e foi de casa em casa para exortar judeus e gentios a se arrependerem e crerem (Atos 19.9–10; 20.20–21). Trabalhos mentais são muito mais difíceis de suportar do que trabalhos físicos. Portanto, Paulo escreve que ele nunca parou de admoestar os efésios noite e dia com lágrimas (At 20.31). E pelo seu próprio testemunho, sabemos que trabalhou mais do que todos os outros apóstolos (1Co 15.10).
“Em horas de não poder dormir.” Tempo passado em oração muitas vezes foi tirado das horas do muito necessário descanso noturno. Paulo seguiu o exemplo de Jesus (ver Mc 1.35; Lc 6.12) passando muitas horas da noite e da madrugada em oração. Paulo provou ser um guerreiro da oração que buscou o Senhor nas horas silentes da noite.
“Em fome.” Paulo escreve que muitas vezes lhe faltava o básico para ter o que comer e o que beber (11.27). Em outro lugar revela que conhecia o que era ter fome numa ocasião e ter fartura em outra (Fp 4.12; 1Co 4.11). Também observava períodos de jejum (11.27).
2Coríntios 6.6–7 “na pureza, no saber, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no poder de Deus...”
ἐν + dativo, lista de virtudes (v.6): ἁγνότητι, γνώσει, μακροθυμίᾳ, χρηστότητι, πνεύματι ἁγίῳ, ἀγάπῃ ἀνυποκρίτῳ — seis qualidades morais e espirituais, culminando em ἀγάπῃ ἀνυποκρίτῳ ("amor não fingido/sem hipocrisia"), o alfa privativo de ἀνυπόκριτος negando explicitamente a υπόκρισις teatral — Paulo nega qualquer encenação em seu ministério.
— a dupla que une palavra e poder, mensagem e manifestação, como par inseparável do ministério apostólico legítimo (cf. 1Co 2:4; 1Ts 1:5).ἐν λόγῳ ἀληθείας, ἐν δυνάμει θεοῦ (v.7a)
— mudança de preposição (ἐν → διά) sinaliza nova subseção: a metáfora militar das "armas da justiça, à direita e à esquerda" — provavelmente referência à espada (ofensiva, direita) e ao escudo (defensiva, esquerda), simbolizando prontidão total, ofensiva e defensiva, fundamentada na δικαιοσύνη que é tanto a justiça de Deus imputada quanto a integridade prática do ministro (ambiguidade proposital do genitivo).διὰ τῶν ὅπλων τῆς δικαιοσύνης τῶν δεξιῶν καὶ ἀριστερῶν (v.7b)
Os versículos antecedentes transmitiram nove tribulações na vida de Paulo: três conjuntos de três (v. 4b–5). Paulo continua com uma lista de oito dons de Deus, uma lista que pode ser subdividida em quatro pares de duas qualidades cada:
pureza, conhecimento
Espírito Santo, amor genuíno
Os quatro primeiros dons complementam um ao outro; também os quatro próximos. Os primeiros quatro dons vêm implicitamente de Deus, mas os quatro seguintes são explicitamente ligados ao Espírito Santo. Depois desses, os quatro primeiros dons são descritos por palavras únicas, mas os quatro próximos dons vêm em quatro nomes duplos no grego. E finalmente, a segunda categoria destaca o Espírito Santo como o primeiro dom dado aos servos de Deus.
“Em pureza.” A palavra pureza ocorre somente aqui no Novo Testamento, e em algumas traduções em 11.3. Mas o conceito não é desconhecido, porque o adjetivo hagnos (puro, sincero) aparece oito vezes no Novo Testamento. O substantivo se refere à pureza com respeito a relações sexuais e morais e também com respeito à consciência do indivíduo.
Uma pessoa que é pura apresenta inocência e integridade (ver 7.11; 11.2; Fp 4.8).
“Em conhecimento.” Aqui não é o conhecimento intelectual “que ensoberbece” (1Co 8.1). Ao contrário, Paulo está pensando em conhecimento a respeito de Deus e salvação por meio de Jesus Cristo.
Calvino: Espírito significa, por metonímia, os dons espirituais.
“Em paciência.” O dom da paciência pode ser mais bem descrito como sendo “autodomínio que não revida o mal apressadamente”.
“Em bondade.” A palavra grega chrēstotēs (bondade) inclui as qualidades de tranquilidade, amenidade e excelência. Corresponde a algo que se ajusta bem, é fácil de usar e agrada. Para ilustrar, Jesus nos convida a tomar seu jugo, porque cai bem sobre nós, é suave sobre os ombros e é agradável (Mt 11.30). Em nossa vida diária, exercitamos o dom da bondade para que as pessoas fiquem à vontade conosco de imediato e sejam atraídas pela nossa agradável disposição de ânimo.
“No Espírito Santo.” É verdade que o Espírito Santo não parece se adequar à categoria de dons que Paulo enumera nos versículos 6 e 7a. Por isso duas traduções tentam aliviar o problema expandindo o texto “por dons do Espírito Santo” (NEB, REB). Isso não chega a ser necessário. Lucas escreve um paralelo de Mateus 7.11 que corresponde quase palavra por palavra, mas ele substitui as palavras boas dádivas por “o Espírito Santo” (Lc 11.13).
“Em amor genuíno.” Paulo classifica o amor como o fruto espiritual proeminente que o Espírito Santo dá aos crentes (Gl 5.22).
“Na palavra da verdade.” Paulo às vezes emprega o conceito verdade nessa epístola a fim de salientar o contraste com as distorções expostas por seus oponentes. Portanto, ele fala a verdade em todo o tempo (4.2; 7.14; 12.6; 13.8).
Sem dúvida Paulo chama a atenção para o termo verdade, mas é provável que ele use a expressão a palavra da verdade para significar a proclamação do evangelho.
“No poder de Deus.” A expressão no poder de Deus se posiciona no fim da lista dos quatro dons e a expressão o Espírito Santo em seu início. Na realidade, essas duas expressões formam um par e se complementam. O poder do Espírito Santo está especialmente evidente na pregação do evangelho e suas consequências, à medida que opera expandindo a igreja e o reino de Cristo (Rm 15.13). Usando um homem que não impressiona pela aparência, que não é um orador fluente e que é fisicamente fraco, Deus está manifestando seu poder no ministério de Paulo (1Co 2.3–5; 2Co 4.7; 10.10; 11.6; 12.9–10).
2Coríntios 6.7–8 “... pelas armas da justiça, quer ofensivas, quer defensivas; por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama, como enganadores e sendo verdadeiros;”
(v.8a) — dois pares antitéticos ainda com διά, articulando extremos de reputação (glória/desonra; má fama/boa fama) que o apóstolo atravessa indiferentemente.
Depois de escrever 18 expressões que começam com a preposição grega en (em), Paulo agora escreve três cláusulas, uma longa e uma curta, com a preposição dia, que significa passando através de alguma coisa. Traduzimos a preposição primeiro como “com” para expressar meio e depois como “por meio de” para descrever circunstâncias. A primeira cláusula representa equilíbrio: um soldado equipado com armas na mão direita e na esquerda. As próximas duas cláusulas retratam contraste: glória e desonra, má informação e boa informação, em ordem inversa. Como um soldado fica de pé entre armas à direita e à esquerda, assim Paulo e seus cooperadores estão entre a glória e a desonra, entre os maus e os bons relatórios.
“Com as armas da justiça.” Empenhado em guerra espiritual, o soldado do exército de Cristo está equipado com armas espirituais para batalhar contra as forças do maligno. Paulo não especifica os tipos de armas usadas, mas não há dúvida que a espada ou lança é para a mão direita e o escudo para a esquerda. Um soldado está totalmente equipado para lutar tanto ofensiva como defensivamente.
Calvino: Aqui, justiça deve ser considerada no sentido de retidão de consciência e santidade de vida. Ele usa a metáfora da armadura [armas] porque todo aquele que serve a Deus tem de lutar, visto que o diabo está sempre em alerta, a fim de nos vencer. Portanto, o cristão tem de estar armado de todos os lados, pois, se o diabo não obtiver sucesso num assalto, decididamente lançará mão de outro e atacará às vezes de frente, às vezes pela retaguarda e, às vezes, pelos flancos.
“Por meio de glória e desonra, por meio de maus informes e boas informações.” Assim como Paulo se movimenta em meio a batalhas espirituais com armas na mão esquerda e na direita, assim ele passa por circunstâncias nas quais recebe honra e boas notícias de um lado e difamação do outro. O apóstolo continua firmemente dedicado ao ministério da Palavra.
Calvino: Da história podemos divisar que houve poucos homens de espírito heróico que não desmoronassem, ao se verem atingidos por insultos. Portanto, este é um sinal de um espírito bem estabelecido na virtude – não desviar-se de seus propósitos, sempre que incorra em desventura vexatória. Esta é uma excelência raríssima, e sem ela um homem não pode provar a si mesmo ser servo de Deus. Indubitavelmente, devemos ter em estima nosso próprio bom nome, mas só até ao ponto em que tal coisa seja consistente com a edificação de nosso irmão, e não com a extensão da influência causada pelos rumores que, porventura, circulem contra nós, pois devemos antes conservar o mesmo curso imperturbavelmente, quer quando honrados, quer quando desonrados.
Quando a diligência e a fidelidade são reconhecidas e apreciadas, resultam honra e boas notícias a respeito. Mas desonra e difamação imerecida vêm de pessoas maldosas e desinformadas. “A desgraça ou infâmia de um homem está na proporção de sua glória ou informações positivas a respeito.” Embora Paulo e seu ministério obtivessem o reconhecimento de muitos coríntios (1Co 16.15–18), outros o desonravam e falavam dele pelas costas (1Co 4.10–13, 19; 2Co 10.10; 11.7).
2Coríntios 6.8–10 “... como enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos e, entretanto, bem conhecidos; como se estivéssemos morrendo e, contudo, eis que vivemos; como castigados, porém não mortos; entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo.”
(sete paradoxos, vv. 8b-10) — mudança final de construção, de preposições para partículas comparativas ὡς ("como"), introduzindo antíteses de percepção versus realidade: ὡς πλάνοι καὶ ἀληθεῖς ("como enganadores, e [somos] verdadeiros"); ὡς ἀγνοούμενοι καὶ ἐπιγινωσκόμενοι (particípios presentes passivos, "como desconhecidos, e plenamente conhecidos" — o prefixo ἐπι- em ἐπιγινωσκόμενοι intensifica γινώσκω, sugerindo conhecimento pleno/aprovado, não mero reconhecimento superficial); ὡς ἀποθνῄσκοντες καὶ ἰδοὺ ζῶμεν (particípio presente + indicativo presente, com ἰδού interrompendo a simetria para marcar espanto retórico: "como morrendo, e eis que vivemos!"); ὡς παιδευόμενοι καὶ μὴ θανατούμενοι ("como disciplinados, mas não entregues à morte" — παιδεύω aqui no sentido de disciplina divina, cf. Sl 118:18 LXX); ὡς λυπούμενοι ἀεὶ δὲ χαίροντες ("como entristecidos, mas sempre alegres" — o ἀεί intensifica o paradoxo: a alegria não é ocasional, é constante, apesar da tristeza constante); ὡς πτωχοὶ πολλοὺς δὲ πλουτίζοντες ("como pobres, mas enriquecendo a muitos" — eco quase certo de 8:9, onde o mesmo padrão cristológico de pobreza que enriquece é aplicado a Cristo); e o clímax final, ὡς μηδὲν ἔχοντες καὶ πάντα κατέχοντες ("como nada tendo, e possuindo tudo" — κατέχω, prefixo κατα- perfectivo/intensivo sobre ἔχω, "reter com firmeza", contrastando com o simples ἔχοντες da primeira metade — jogo de palavras deliberado que fecha o catálogo com o maior contraste possível: nada / tudo).
Essa é a terceira e última parte da lista de tribulações de Paulo, e inclui sete conjuntos de contrastes; ele os apresenta de forma semelhante àqueles de 4.8–9. Com esses contrastes, ele se retrata como alguém que pode ser derrubado, mas que não deixa de se levantar de novo.
“Como impostores contudo verdadeiros.” Os difamadores chamam o apóstolo e seus companheiros de enganadores, assim como os principais sacerdotes e fariseus rotularam Jesus de enganador (Mt 27.63; ver também 1Tm 4.1).
Calvino: Paulo, aqui, não está falando meramente do que os ímpios do lado de fora pensavam dele [1Co 5.12], senão que está se reportando a acusações insinuadas contra ele no seio da igreja. Que ato cruel é desprezar a pobreza de alguém que nos supre de sua própria abundância! Naturalmente, ele está falando de riquezas espirituais, as quais precisam ser consideradas como sendo muito mais preciosas do que as riquezas terrenas.
“Como desconhecidos contudo bem conhecidos.” Os oponentes consideravam Paulo um joão-ninguém a quem faltava autoridade apostólica, e a quem podiam denegrir à vontade.
Contudo Paulo era um personagem bem conhecido. Ele é um líder renomado e reconhecido durante suas viagens missionárias, um orador informado que usa da palavra em várias reuniões e um mestre erudito da Palavra de Deus. Paulo era bem conhecido primeiramente por Deus (1Co 13.12), mas depois pela igreja em Corinto e pelas outras igrejas que Paulo fundou.
“Como morrendo, e veja, vivemos.” A vida de Paulo parece ser uma longa série de atos nos quais ele fica um passo à frente da morte: em Listra quase morto por apedrejamento (At 14.19), em Filipos açoitado com varas e colocado no tronco (At 16.22–24), em Jerusalém sendo atacado por uma turba (At 21.31). Foi açoitado oito vezes; uma surra provavelmente o levou a ponto de desesperar da própria vida (1.8). Paulo foi repetidamente abatido mas não moído, exposto à morte mas recebendo vida, em constante perigo, mas sempre recebendo uma saída (4.9; 11.23, 26). Sua associação com a morte e ressurreição de Jesus foi tão íntima que a vida de Jesus constantemente o animava e fortalecia (4.10–12). O poder divino que ressuscitou Jesus dos mortos impediu que Paulo sofresse uma morte prematura.
“Como castigados e contudo não estamos mortos.” Uma vez mais Paulo se refere às palavras do salmista: “O Senhor me castigou severamente, mas não me entregou à morte” (Sl 118.18). A palavra castigou realmente significa “disciplinou”, ficando subentendido que Deus é o agente que administra a disciplina. Deus não castiga seu próprio povo por quem Cristo morreu, pois nossa punição pelo pecado foi colocada sobre Cristo. Seu Filho sofreu em nosso lugar para que nós pudéssemos ser absolvidos. Portanto, é incorreto dizer que os crentes sofrem a ira de Deus e fazem isso somado ao sofrimento de Cristo por nossa causa. Nossas próprias fraquezas e defeitos de caráter muitas vezes nos causam dificuldades e problemas, mas nenhum crente pode jamais dizer que essas adversidades são castigos. Antes, são medidas corretivas de Deus que têm o objetivo de nos levar para mais perto dele.
Ele teve de fugir da cidade de Damasco, onde foi descido num cesto por cima do muro no meio da noite (11.32–33; At 9.23–25). Teve de ser levado de Jerusalém para Cesareia, onde foi colocado a bordo de um navio que partia para Tarso (At 9.30). Ficou ali em Tarso, sua cidade natal, por muitos anos antes de Barnabé convidá-lo para ensinar na igreja de Antioquia (At 11.25–26). Ao disciplinar Paulo, Deus mostrou amor divino a Paulo como um Pai corrigindo seu filho (comparar Hb 12.4–11).
Severamente corrigido, Paulo sempre experimentou o poder protetor de Deus de forma a ser conservado a salvo. Então Paulo escreve “contudo não estamos mortos”. Esse trocadilho está ligado à frase anterior: “como morrendo… contudo não estamos mortos”.
Como contristados contudo sempre nos alegrando.” Os adversários e alguns membros da igreja de Corinto causaram-lhe dor e tristeza indizível. Como resultado, ele teve de suportar perseguição; e também, noite e dia, com lágrimas ele avisava os crentes para estar alertas contra aqueles que distorciam a verdade (At 20.23, 29–31). Contudo, Paulo podia tirar consolo e encorajamento das palavras de Jesus:
“Bem-aventurados são vocês quando as pessoas os insultarem, perseguirem e falsamente disserem todo tipo de mal contra vocês por causa de mim. Regozijem-se, alegrem-se, pois grande é sua recompensa no céu, pois do mesmo modo perseguiram os profetas que foram antes de vocês” (Mt 5.11–12).
A ênfase de Paulo no regozijo e na felicidade nessa epístola é digna de nota. É semelhante à sua carta de alegria aos filipenses, no grande número de vezes em que ele enfatiza o regozijo e a alegria. Essa ênfase em 2Coríntios é contrabalançada pelo maior número de vezes em que escreve sobre se entristecer e a tristeza.36 No entanto Paulo não está vencido pela tristeza; ele está cheio de alegria e escreve feliz: “sempre nos alegrando”.
“Como pobres contudo enriquecendo a muitos.” A dificuldade que encontramos nessa cláusula é a questão de saber se Paulo tinha em mente riquezas espirituais ou materiais. A bem-aventurança em Mateus 5.3 diz: “Bem-aventurados são os pobres no espírito”, mas em Lucas 6.20, “Bem-aventurados são vocês que são pobres”. Sabemos que Paulo fazia trabalho manual para suprir suas necessidades materiais (At 18.3; 20.34–35; 1Ts 2.9) e fazia parte dos pobres, então não podemos concluir que ele tornou muitas pessoas financeiramente ricas. Paulo está falando sobre fazer as pessoas ricas espiritualmente, ao mesmo tempo que se coloca como pobre no sentido material. Ele explica esse ponto em outra parte dessa epístola quando descreve a pobreza e as riquezas de Jesus Cristo: “Embora rico, se fez pobre por amor de vocês, para que, pela sua pobreza, vocês se tornassem ricos” (8.9).
“Como nada tendo mas possuindo tudo.” Esse é um paralelo ao conjunto de contrastes que acabamos de ver. A pobreza terrena é comparada a riquezas celestiais; a carência material é diferente de riqueza espiritual, e ganhos temporais são diferentes de tesouros eternos. Os crentes, que em si mesmos nada têm, pertencem de corpo e alma a Jesus Cristo (Rm 14.7–8; 1Co 6.19b).
Paulo não ensina que os cristãos precisam viver em pobreza material para ganhar riquezas espirituais abundantes. Seu ensino está em harmonia com o de Jesus, que disse: “Ninguém que deixou casa ou irmãos ou irmãs ou mãe ou pai ou filhos ou campos por mim e pelo evangelho deixará de receber 100 vezes mais nesta era presente (casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos – e com eles perseguições) e na era futura, vida eterna” (Mc 10.29–31).
Esse catálogo, portanto, não é uma simples enumeração de sofrimentos, mas um argumento visual e cumulativo: a legitimidade apostólica de Paulo (συνίσταντες ἑαυτοὺς ὡς θεοῦ διάκονοι) é demonstrada não apesar do sofrimento, mas através dele, porque o sofrimento coexiste paradoxalmente com poder, alegria e riqueza espiritual — a mesma lógica cruciforme de 4:7-12 e 12:9-10, onde a fraqueza é o instrumento revelador do poder de Deus.
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