Injustiça — Jesus e a verdade condenada
As aflições deste mundo • Sermon • Submitted • Presented
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Quando a verdade não muda o resultado
Quando a verdade não muda o resultado
Texto-base: Mateus 27.11–14
Mal-entendidos fazem parte da vida.
Às vezes, numa conversa, dá pra gente resolver as coisas. Alguém esclarece o que quis dizer, uma informação que faltava aparece, uma impressão precipitada é corrigida e seguimos em frente.
Mas há situações em que já não estamos diante de um simples mal-entendido. A gente se explica, apresenta os fatos e, ainda assim, é a história que segue em frente, levando mentiras e meias verdades.
É aí que entramos no terreno da injustiça.
E a injustiça se torna especialmente dolorosa quando aquilo que os outros decidem a nosso respeito traz consequências reais para a nossa vida.
Como você lida com isso?
O que fazer quando dizer a verdade já não é suficiente para evitar as consequências de uma injustiça?
É a essa aflição que chegamos hoje.
Jesus diante de Pilatos
Jesus diante de Pilatos
Nas últimas horas antes da crucificação, Jesus foi preso e levado diante das autoridades religiosas. Ao amanhecer, os principais sacerdotes e os líderes decidiram entregá-lo a Pôncio Pilatos.
Diante do governador romano, a acusação precisava assumir uma forma política. Assim, Jesus foi apresentado a Pilatos como uma ameaça à autoridade de Roma.
Lembre-se de que Jesus é colocado diante do homem que, humanamente falando, decidirá o que acontecerá com ele.
Mateus registra a cena em apenas quatro versículos:
11 Jesus foi posto diante do governador, e este lhe perguntou: “Você é o rei dos judeus?” Respondeu-lhe Jesus: “Tu o dizes”. 12 Acusado pelos chefes dos sacerdotes e pelos líderes religiosos, ele nada respondeu. 13 Então Pilatos lhe perguntou: “Você não ouve a acusação que eles estão fazendo contra você?” 14 Mas Jesus não lhe respondeu nenhuma palavra, de modo que o governador ficou muito impressionado.
Pilatos começa seu interrogatório com uma pergunta aparentemente simples, que Jesus responde logo em seguida.
“Você é o rei dos judeus?”
É exatamente aqui que vamos começar.
1. Jesus responde a Pilatos
1. Jesus responde a Pilatos
“Tu o dizes.”
Se ouvíssemos essa resposta hoje, ela poderia nos causar alguma estranheza.
Na nossa maneira de falar, isso poderia soar como uma evasiva. Alguém pergunta: “Então foi você quem fez isso?”, e a pessoa responde: “Você é quem está dizendo.” Quase sempre entenderíamos: “Não coloque essas palavras na minha boca.”
Mas não é assim que devemos ouvir a resposta de Jesus.
Ele não está negando que seja rei. Ao mesmo tempo, também não está simplesmente aceitando o significado que Pilatos poderia dar àquela palavra.
Pilatos era governador romano. Para ele, perguntar se Jesus era “o rei dos judeus” significava perguntar se aquele homem diante dele reivindicava um poder político que pudesse ameaçar Roma.
E havia uma ironia sutil naquela acusação.
Jesus era, de fato, Rei.
O problema estava no tipo de rei que seus acusadores estavam apresentando a Pilatos.
João registra uma conversa mais longa entre os dois. Quando Pilatos pergunta sobre sua realeza, recebe de Jesus a seguinte explicação:
36 Disse Jesus: “O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui”.
Jesus não recua de quem é, mas também não permite que sua identidade seja reduzida à acusação que fizeram contra ele.
Por isso, talvez pudéssemos ouvir “Tu o dizes” mais ou menos assim:
“Sim, é como você diz — mas não do modo que você imagina.”
Essa é uma paráfrase, naturalmente, mas ajuda a perceber o que está acontecendo.
Jesus está diante de um tribunal no qual uma verdade sobre ele foi torcida até se transformar numa acusação.
Ele é Rei, mas não está organizando uma revolta contra Roma. Não reuniu um exército, não convocou seus discípulos às armas, não está tentando tomar o lugar de César.
Ainda assim, é justamente sua realeza que aparece agora como motivo para condená-lo.
Talvez uma das formas mais dolorosas de injustiça seja exatamente essa: quando algo verdadeiro é retirado do contexto, recebe uma intenção que nunca teve e acaba servindo para contar outra história.
É quando uma palavra que realmente dissemos recebe um sentido que nunca teve. Ou quando uma decisão que tomamos é apresentada como prova de uma intenção que nunca existiu. E até um erro verdadeiro pode ser ampliado até se tornar uma descrição completa de quem somos.
Jesus conhece essa experiência.
E repare no que ele faz.
Ele responde.
Isso é importante porque, às vezes, ao ler essa passagem, lembramos apenas do silêncio de Jesus. Mas antes de silenciar, ele fala.
Há situações em que a verdade precisa ser dita.
Confiar em Deus não significa abrir mão da possibilidade de explicar, esclarecer, apresentar fatos ou corrigir uma acusação falsa. Dependendo da situação, pode significar também procurar ajuda, recorrer a quem tem responsabilidade, denunciar o que precisa ser denunciado e buscar justiça pelos meios legítimos que estão à nossa disposição.
Jesus responde a Pilatos sem abrir mão da verdade sobre si mesmo.
O governador fez sua pergunta e ouviu a resposta de Jesus. Agora ele tem o poder de avaliar, julgar e até tomar uma decisão com consequências reais. Mas sua decisão não transforma uma acusação distorcida em verdade.
As acusações contra Jesus não param.
Mas Jesus para de responder.
2. Jesus silencia diante das acusações
2. Jesus silencia diante das acusações
Mateus continua o seu relato:
“Acusado pelos chefes dos sacerdotes e pelos líderes religiosos, ele nada respondeu.”
Pilatos estranha aquela situação.
“Você não ouve a acusação que eles estão fazendo contra você?”
E então Mateus acrescenta:
“Mas Jesus não lhe respondeu nenhuma palavra, de modo que o governador ficou muito impressionado.”
É fácil entender o espanto de Pilatos.
As acusações se acumulam sobre Jesus. Sua vida está em jogo. Mas ele não responde.
No entanto, acabamos de vê-lo responder quando Pilatos perguntou sobre sua realeza. Portanto, seu silêncio nesse momento não pode ser explicado simplesmente como passividade, medo ou incapacidade de se defender.
Como explicar?
Precisamos lembrar que Isaías, em sua profecia sobre o Messias, havia descrito o Servo do Senhor assim:
7 Ele foi oprimido e afligido; e, contudo, não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado para o matadouro, e como uma ovelha que diante de seus tosquiadores fica calada, ele não abriu a sua boca.
E Mateus nos apresenta Jesus atravessando exatamente esse caminho.
Precisamos olhar bem de perto essa cena, porque discernir até quando é preciso responder talvez seja uma das coisas mais difíceis quando somos tratados injustamente.
No começo, queremos esclarecer o que aconteceu. E há razões legítimas para isso.
Mas pode chegar um momento em que percebemos que estamos repetindo as mesmas explicações para pessoas que já ouviram, respondendo novamente às mesmas acusações e esperando que uma nova tentativa produza aquilo que as anteriores não produziram.
A questão então deixa de ser apenas:
“Preciso dizer a verdade?”
Passa a ser também:
“Até quando minha vida ficará presa à necessidade de convencer quem decidiu não me ouvir?”
O silêncio de Jesus não faz com que a mentira se transforme em verdade nem torna justo aquele processo. Ele simplesmente se recusa a deixar que aquelas acusações determinem cada movimento seu.
Isso é diferente de desistir da justiça.
A verdade é que o silêncio de Jesus diante de Pilatos não deve ser transformado numa regra para toda situação de injustiça.
Por outro lado, existe uma prisão que podemos construir para nós mesmos se tentarmos responder indefinidamente a tudo o que dizem a nosso respeito.
A injustiça nos fere e somos tentados a entregar a ela nossos pensamentos, nossas conversas, nosso tempo e, às vezes, anos da nossa vida.
Relembramos o que deveríamos ter dito, imaginamos a resposta que finalmente encerraria a questão e esperamos pela retratação, pelo reconhecimento de que aquilo foi injusto.
Talvez, um dia, isso aconteça.
Talvez nunca aconteça.
Com seu silêncio, Jesus mostra que existe uma liberdade que não depende de termos a última palavra quando estamos sendo injustiçados.
Aquilo deixou Pilatos impressionado.
Diante dele estava um homem sob acusações gravíssimas, cuja vida estava em jogo, mas que não parecia dominado pela necessidade de responder a tudo o que diziam a seu respeito.
E diante disso surge uma pergunta:
De onde vem essa liberdade?
Como Jesus consegue falar sem ser dominado pela necessidade de convencer e silenciar sem se tornar indiferente à verdade?
Para entender isso, precisamos voltar algumas horas naquela noite.
Porque Jesus chegou diante de Pilatos depois de já ter colocado seu caminho nas mãos do Pai.
3. Jesus confia sua causa ao Pai
3. Jesus confia sua causa ao Pai
Poucas horas antes de estar diante de Pilatos, Jesus estava no Getsêmani.
Ali, sabendo o que se aproximava, ele orou:
39 Indo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres”.
Mais tarde, quando chegaram para prendê-lo e um dos discípulos tentou reagir com a espada, Jesus disse:
53 Você acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos?
Jesus não estava sendo levado porque lhe faltasse poder para resistir.
Antes que os soldados o levassem, ele já havia colocado seu caminho nas mãos do Pai.
Isso ajuda a entender tanto sua resposta quanto seu silêncio diante de Pilatos. Jesus pode falar sem desespero e pode silenciar sem medo porque sua vida não depende em última instância daquele tribunal.
Pedro, anos depois, descreve assim a maneira como Jesus atravessou essa aflição:
23 Quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça.
Talvez essa seja a expressão que melhor nos permita compreender o que estamos vendo:
Jesus entregava-se àquele que julga com justiça.
Isso não significa que ele considerasse justo o que estavam fazendo. Pilatos continuava responsável por suas decisões, e os acusadores, pelas acusações que apresentavam.
Entregar nossa causa a Deus não significa desistir da justiça. Significa reconhecer que a justiça não depende apenas da nossa capacidade de produzi-la.
Podemos buscar esclarecimento, proteção e reparação. Podemos usar os caminhos legítimos que estão à nossa disposição. Mas não conseguimos obrigar todas as pessoas a reconhecer a verdade nem garantir que toda decisão seja justa.
E, se nossa paz depender disso, continuaremos nas mãos daqueles que nos feriram.
João registra um momento em que Pilatos parece querer lembrar Jesus de quem possuía o poder naquela sala:
10 “Você se nega a falar comigo?”, disse Pilatos. “Não sabe que eu tenho autoridade para libertá-lo e para crucificá-lo?” 11 Jesus respondeu: “Não terias nenhuma autoridade sobre mim, se esta não te fosse dada de cima. Por isso, aquele que me entregou a ti é culpado de um pecado maior”.
Perceba que Jesus não nega a autoridade de Pilatos. O governador de fato pode tomar uma decisão com consequências terríveis, mas aquela autoridade tem limites.
Pilatos pode emitir uma sentença sobre Jesus; não possui a palavra final sobre o Filho de Deus.
Da mesma forma, uma decisão injusta também pode nos atingir de verdade. Pode fechar uma porta, prejudicar uma relação, comprometer uma oportunidade ou deixar marcas que não desaparecem rapidamente, mas a injustiça também não tem a última palavra sobre nossas vidas.
Jesus vai sair daquele processo, marcado por meias verdades e acusações levianas, condenado.
Sua confiança no Pai não impede a injustiça de alcançá-lo; mas impede que a injustiça se torne o senhor de sua vida.
Isso é importante, porque corrige também uma maneira muito comum de falar sobre entrega.
Às vezes dizemos: “Entreguei nas mãos de Deus”, mas continuamos esperando que Deus prove rapidamente que está conosco, fazendo todos reconhecerem que nós tínhamos razão.
Jesus nos mostra um tipo de confiança mais profunda. Ele permanece entregue ao Pai mesmo quando o processo continua injusto, a verdade não é reconhecida e a sentença é de condenação.
Há, porém, uma diferença importante que devemos considerar antes de transferirmos para nossas vidas tudo o que aconteceu com Jesus nessa cena.
Jesus é o inocente.
Nós nem sempre somos.
Podemos ter sido tratados injustamente e, ainda assim, ter coisas a reconhecer. Uma acusação pode ser exagerada e conter alguma verdade que precisamos ouvir.
Por isso, entregar nossa causa ao Pai também significa permitir que ele julgue também a nós com justiça.
Talvez uma oração honesta diante de uma injustiça sofrida precise incluir algo como:
“Pai, tu sabes o que aconteceu. Mostra-me o que é falso no que disseram sobre mim, mas mostra também o que eu preciso reconhecer. Faz justiça — e começa julgando com verdade o meu próprio coração.”
Diante de Pilatos, Jesus fala.
Diante das acusações, Jesus silencia.
Sua causa está inteiramente nas mãos do Pai.
Mas a história ainda não acabou. Pilatos vai pronunciar sua sentença, e a cruz no Calvário ainda está adiante.
Conclusão — O tribunal não era a última instância
Conclusão — O tribunal não era a última instância
No começo da mensagem fizemos uma pergunta:
Como atravessar uma injustiça quando a verdade não é suficiente para impedir que soframos consequências?
A resposta que encontramos em Jesus não é simples.
Ele fala quando precisa falar. Silencia quando continuar respondendo já não serviria à verdade. E atravessa tudo isso sustentado pela confiança no Pai.
Mas essa confiança não muda imediatamente o resultado: Pilatos vai condená-lo, e a confiança no Pai não evitará a cruz.
A história de Jesus não nos permite prometer que toda injustiça será corrigida rapidamente. Há decisões que não são revistas, versões que continuam circulando e perdas que não desaparecem apenas porque estamos certos.
Pilatos podia condenar Jesus, e o fez. Mas não podia decidir o que Deus faria com sua vida.
Os homens o entregaram à cruz. Mas nos planos do Pai havia a ressurreição. A decisão daquele tribunal, por mais injusta e dolorosa, acabaria servindo à realização daquela vontade à qual Jesus havia se submetido no Getsêmani.
Talvez ainda haja algo que você precise dizer ou algum caminho legítimo de justiça que precise buscar. Ou pode ser que você já tenha dito tudo o que era possível e precise parar de entregar sua vida à tentativa de convencer quem não quer ouvir.
Em qualquer dos casos, somos chamados a nos colocar nas mãos do Pai, a confiar nele e orar com coragem:
“Pai, dá-me a determinação para fazer o que é justo e liberdade para não viver governado pelo julgamento dos outros. Mostra-me também onde eu preciso ser corrigido. Eu coloco esta causa nas tuas mãos.”
Jesus continuou confiando no Pai mesmo diante de um tribunal injusto e nos chama a seguir seus passos.
Às vezes não conseguimos deter a injustiça, mas o Pai, que nos ama, sempre tem a última palavra.
