Abandono — Jesus na solidão da cruz

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Mateus 27.45–46

Abertura

Boa noite, irmãos. É muito bom estarmos juntos mais uma vez.
Há sempre algo da graça de Deus quando a igreja se reúne. A gente vem de lugares diferentes, passou por semanas diferentes, traz alegrias, preocupações, perguntas e histórias que, muitas vezes, ninguém aqui conhece por inteiro. E, ainda assim, o Espírito de Deus nos trouxe para o mesmo lugar, neste mesmo momento, para adorarmos, ouvirmos a Palavra e caminharmos juntos diante de Cristo.
Há mais acontecendo aqui do que simplesmente mais um encontro de domingo. Deus continua formando o seu povo e nos reunindo como corpo de Cristo.
E é importante lembrar disso hoje, porque vamos falar sobre uma experiência que pode nos fazer sentir exatamente o contrário: o abandono.
Há fases da vida em que o problema nem é acreditar que Deus existe. A gente acredita. Continua crendo, continua orando e ainda se lembra de tudo aquilo que aprendeu a respeito dele.
O que dói é que, mesmo crendo, nem sempre conseguimos perceber o cuidado de Deus no meio do turbilhão da vida.
Pedimos alguma coisa durante meses e nada muda. Esperamos em oração por uma resposta importante que simplesmente não chega. As coisas parecem dar errado uma depois da outra: uma perda acontece, a tristeza nos alcança, uma injustiça continua, uma porta se fecha...
E, enquanto tentamos colocar lado a lado aquilo que estamos vivendo e aquilo que cremos, uma pergunta começa a rondar a nossa cabeça:
Onde Deus está nisso?
A maioria de nós já passou por isso. E talvez alguém esteja passando por isso agora.
Você não deixou de crer em Deus. Talvez nem seja o caso de dizer que sua fé está em crise. Você continua trabalhando, cuidando da casa, vindo à igreja, fazendo suas orações.
Mas a pergunta continua ali:
Onde Deus está nisso tudo?
Você sabe que ele está presente, mas não consegue perceber essa presença no que está vivendo.
E isso é uma grande aflição para a alma.
A Bíblia não esconde perguntas assim. Os salmos estão cheios delas.
Psalm 13:1 NVI
1 Até quando, Senhor? Para sempre te esquecerás de mim? Até quando esconderás de mim o teu rosto?
Psalm 42:9 NVI
9 Direi a Deus, minha Rocha: Por que te esqueceste de mim? Por que devo sair vagueando e pranteando, oprimido pelo inimigo?
E o Salmo 77 chega a perguntar:
Psalm 77:7 NVI
7 Irá o Senhor rejeitar-nos para sempre? Jamais tornará a mostrar-nos o seu favor?
São perguntas que nascem da fé, quando aquilo que sabemos sobre Deus parece difícil de conciliar com aquilo que estamos vivendo.
E, quando chegamos à cruz, encontramos, de maneira surpreendente, uma pergunta dessas — talvez a mais difícil de todas — nos lábios do próprio Jesus.
Ao longo desta série temos olhado para Jesus dentro das aflições deste mundo. Não apenas para aquilo que ele ensinou sobre nossas dores, mas para as dores que ele mesmo conheceu enquanto caminhava entre nós.
Vimos Jesus sem garantias, cansado, incompreendido, rejeitado, frustrado, diante do luto; e, nas últimas semanas, traído pelos seus e condenado injustamente.
Agora chegamos à cruz.
E talvez nenhuma cena nos leve tão longe na proposta desta série quanto esta: o próprio Jesus entra no território do abandono.
Mateus conta que os que passam por ali zombam dele. Os líderes religiosos também entram no escárnio. E uma das provocações vai direto à relação de Jesus com o Pai:
Matthew 27:43 NVI
43 Ele confiou em Deus. Que Deus o salve agora, se dele tem compaixão, pois disse: ‘Sou o Filho de Deus!’ ”
Eles estão zombando da confiança de Jesus.
É como se dissessem:
Se tudo o que você falou sobre o Pai é verdade, onde ele está agora?
Então Mateus conta que, do meio-dia até as três horas da tarde, houve trevas sobre toda a terra.
A Bíblia usa muitas vezes as trevas como linguagem de juízo, morte e desolação. Mateus não para para explicar detalhadamente aquele sinal. Ele simplesmente conta o que aconteceu.
E, por volta das três horas, Jesus grita:
Matthew 27:46 NVI
46 Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni?”, que significa “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”
Mateus nos deixa ouvir, da boca do próprio Jesus, aquilo que ele está vivendo.

1. Por que me abandonaste?

Precisamos deixar essas palavras pesarem como de fato pesam.
Jesus já sabia o que era ser abandonado por pessoas.
Quando foi preso, os discípulos fugiram (Mateus 26.56). Pedro, que havia prometido permanecer com ele, acabou negando que o conhecia (Mateus 26.69–75). Os líderes o rejeitaram, e Pilatos o entregou para ser crucificado (Mateus 27.26).
Mas agora o clamor chega a uma profundidade diferente:
“Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”
Não dá para tratar esse grito apenas como reação à dor física.
Tem algo mais acontecendo naquela cruz.
E isso está ligado a outra oração que Jesus fez poucas horas antes.
No Getsêmani, ele havia orado:
Matthew 26:42 NVI
42 E retirou-se outra vez para orar: “Meu Pai, se não for possível afastar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade”.
Agora, na cruz, ele pergunta:
“Por que me abandonaste?”
À primeira vista, parecem duas orações muito diferentes.
Mas as duas pertencem ao mesmo caminho de confiança.
No jardim, Jesus aceita beber o cálice. Na cruz, ele experimenta até onde essa obediência o leva.
O “por quê?” da cruz não apaga o “faça-se a tua vontade” do jardim.
A pergunta de Jesus é o clamor de quem continua no caminho que assumiu diante do Pai, mesmo quando esse caminho chega ao seu ponto mais doloroso.
Mateus não explica tudo o que acontece entre o Pai e o Filho naquele instante. Ele nos deixa diante do grito sem transformar o mistério da cruz numa explicação fácil.
Mas, mesmo que haja coisas ali que continuem sendo mistério para nós, o próprio Evangelho já havia mostrado que Jesus sabia por que estava caminhando para a morte.
Ao falar da sua missão, ele disse:
Matthew 20:28 NVI
28 como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”.
E, na noite em que foi preso, tomou o cálice e disse:
Matthew 26:28 NVI
28 Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para perdão de pecados.
Antes da cruz, Jesus já tinha falado sobre o sentido da sua morte.
Sua vida seria entregue. Seu sangue seria derramado. Sua morte estaria ligada ao resgate, à aliança e ao perdão.
Por isso, precisamos ouvir o grito da cruz dentro dessa missão.
Jesus não está apenas sofrendo uma dor parecida com aquelas que nós conhecemos.
Na cruz, ele está fazendo em nosso favor aquilo que jamais poderíamos fazer por nós mesmos.
Nós sabemos o que é solidão. Sabemos o que é abandono. Conhecemos orações que parecem ficar sem resposta e momentos em que Deus parece distante.
Jesus também conhece essas dores.
Mas a cruz vai além disso.
Ali, sua vida está sendo entregue em nosso favor.
O Cristo que conhece a nossa dor é também o Cristo que sofre em nosso favor para nos salvar.
E é aqui que o Salmo 22 nos ajuda a ouvir melhor o que está acontecendo.
Psalm 22:1 NVI
1 Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? Por que estás tão longe de salvar-me, tão longe dos meus gritos de angústia?
“Por que me abandonaste?” não é apenas uma frase que combina com a dor daquele momento.
Ao usar essas palavras, Jesus coloca seu sofrimento dentro da linguagem bíblica do justo que sofre, é ridicularizado por confiar em Deus e, mesmo assim, continua voltado para Deus.
E isso já estava acontecendo ali, bem ao redor da cruz.
No verso 7, o salmo fala de pessoas que zombam do sofredor e meneiam a cabeça. No verso 8, aparece a provocação dirigida a quem confiou no Senhor:
Psalm 22:8 NVI
8 “Recorra ao Senhor! Que o Senhor o liberte! Que ele o livre, já que lhe quer bem!”
E Mateus acabou de mostrar os líderes dizendo quase a mesma coisa a Jesus:
Matthew 27:43 NVI
43 Ele confiou em Deus. Que Deus o salve agora, se dele tem compaixão, pois disse: ‘Sou o Filho de Deus!’ ”
O salmo também fala da repartição das roupas (Salmo 22.18), e Mateus registra essa mesma cena junto à cruz (Mateus 27.35).
O Salmo 22, então, nos ajuda a perceber que o grito de Jesus não é o colapso de alguém que deixou de confiar em Deus.
O que ouvimos na cruz é o lamento do justo sofredor, que leva a Deus a própria experiência de abandono.
Jesus não finge que a distância não existe.
Não chama trevas de luz.
Não tenta fazer uma oração bonita para esconder a dor.
Ele leva sua dor para Deus.
Até aqui, nossa atenção ficou muito concentrada nestas palavras:
“Por que me abandonaste?”
E nós entendemos por quê. Elas encontram eco em muitos dos nossos próprios tempos de aflição.
Mas, se ouvirmos apenas a pergunta, vamos deixar de perceber algo muito importante naquele grito.
Antes de dizer “Por que me abandonaste?”
Jesus disse:
“Meu Deus, Meu Deus.”

2. Meu Deus

As duas coisas estão na mesma oração:
“Meu Deus! Meu Deus!”
e:
“Por que me abandonaste?”
Jesus não está tentando descobrir o que está acontecendo.
Ele sabe por que chegou àquela cruz. Sabe que sua vida está sendo entregue. Sabe que está bebendo o cálice que aceitou no Getsêmani.
Mas saber tudo isso não torna menos doloroso aquilo que ele está vivendo.
O abandono chega com toda a sua força — e, no meio dele, Jesus continua falando com Deus.
Talvez uma das dificuldades que a gente tenha com a oração seja imaginar que precisa primeiro organizar tudo o que está vivendo, para depois orar.
A gente gostaria de chegar diante de Deus com as emoções mais arrumadas, as perguntas mais bem formuladas e, se possível, alguma compreensão do que ele está fazendo.
Porque algumas coisas nós sabemos.
Sabemos que Deus é bom.
Sabemos que ele é fiel.
Sabemos que continua presente.
Mas há momentos em que aquilo que estamos vivendo parece muito difícil de colocar ao lado daquilo que sabemos.
Jesus não espera essa tensão desaparecer para orar.
Na mesma oração cabem aquilo que ele sabe sobre Deus e aquilo que está experimentando naquele momento:
“Meu Deus!” e “Por que me abandonaste?”
E o próprio Salmo 22 carrega essa mesma tensão.
O salmista conhece Deus. Ele olha para a história do seu povo e lembra que seus antepassados confiaram no Senhor e foram socorridos:
Psalm 22:4 NVI
4 Em ti os nossos antepassados puseram a sua confiança; confiaram, e os livraste.
Ele sabe quem Deus é.
Sabe o que Deus já fez.
O problema é o que está acontecendo agora:
Psalm 22:1 NVI
1 Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? Por que estás tão longe de salvar-me, tão longe dos meus gritos de angústia?
Aquilo que ele sabe sobre Deus e aquilo que está vivendo parecem difíceis de serem experimentados ao mesmo tempo.
E essa tensão entra na oração.
Talvez seja uma das razões pelas quais os salmos acompanham o povo de Deus há tantos séculos. Eles nos dão palavras para a gratidão e para o louvor, mas também nos ensinam a falar quando a perplexidade toma conta da alma.
Eles nos mostram que podemos levar tudo a Deus.
Mesmo um grito ainda é uma oração.
Uma oração não deixa de ser oração porque carrega uma pergunta para a qual ainda não temos resposta.
“Meu Deus... por quê?”
Essa oração também está na Bíblia.
Talvez a gente tenha aprendido a corrigir depressa demais as próprias perguntas antes de levá-las a Deus.
Mas olhe para Jesus.
Ele não esconde do Pai aquilo que está vivendo.
Sua dor chega às palavras.
E suas palavras chegam a Deus.
Jesus pergunta:
“Por que me abandonaste?”
E é interessante perceber que Mateus não registra uma explicação vinda do céu.
Não ouvimos de novo a voz do batismo dizendo:
“Este é o meu Filho amado.” Mateus 3.17
Também não se repete a voz do monte da transfiguração (Mateus 17.5).
Naquele momento, há apens o brado de Jesus.
Isso deveria nos deixar mais cuidadosos também diante da dor de outras pessoas.
Quem está atravessando uma longa noite nem sempre precisa que alguém apareça depressa com uma explicação.
Às vezes, nossa primeira tarefa como irmãos é ficar perto o bastante para ouvir.
Talvez a gente tenha desaprendido um pouco disso, mas a fé cristã também sabe dar espaço ao lamento.
E há uma coisa importante que não podemos perder de vista.
Esse grito não transforma Jesus apenas num exemplo de como sofrer e orar.
Como já vimos, ele está naquela cruz por nós.
Por isso, nossa esperança não depende de conseguirmos enfrentar o sofrimento exatamente como Jesus enfrentou.
Nossa esperança depende de Jesus e do que ele fez na cruz.
É por causa dele que, quando Deus nos parece distante e nossa oração está cansada, ainda podemos falar com Deus.
Às vezes teremos muitas palavras.
Em outros momentos, talvez apenas uma pergunta.
E o Salmo 22 ainda nos deixa enxergar outra coisa.
Ele começa com um homem perguntando por que Deus está tão longe. Mais adiante, esse mesmo homem diz:
Psalm 22:24 NVI
24 Pois não menosprezou nem repudiou o sofrimento do aflito; não escondeu dele o rosto, mas ouviu o seu grito de socorro.
O homem que começou perguntando por que Deus estava tão distante chega a reconhecer que seu grito foi ouvido.
É algo que ele consegue perceber depois de atravessar aquela aflição.
Nós também conhecemos o restante da história de Jesus.

Conclusão

Talvez a pergunta com que começamos esta mensagem continue conosco quando terminarmos:
Onde Deus está nisso?
Eu não sei qual é o “nisso” de cada pessoa aqui.
Pode ser uma perda.
Pode ser uma oração antiga.
Pode ser uma situação que ainda o atormenta.
Pode ser alguma coisa para a qual você já ouviu muitas explicações, mas nenhuma delas conseguiu alcançar de verdade aquilo que você está vivendo.
A cruz não me dá o direito de explicar sua história em nome de Deus.
Ela me permite apenas apontar para Jesus.
Naquela tarde, as trevas cobriram a terra e ele clamou:
“Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?” Mateus 27.46
Há dias em que nossa oração não consegue ir muito além disso.
Você pode dizer a Deus a verdade sobre sua tristeza, sua perplexidade, sua espera e aquilo que você não entende.
Não precisa esconder a pergunta para continuar falando com ele.
E sua esperança não depende da força com que você consegue dizer “meu Deus”.
Ela está em Cristo.
Jesus entrou por nós no abandono da cruz. Deu sua vida em resgate pelas nossas vidas, derramou seu sangue para perdão do nossos pecados, morreu e ressuscitou para que recebêssemos vida eterna.
É por isso que Paulo pode dizer que nem morte nem vida, nem o presente nem o futuro, nem qualquer outra coisa na criação poderá nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Romanos 8.38–39).
E, se em algum momento sua oração for apenas:
“Meu Deus... por quê?”
fale com ele.
Seu grito ainda é uma oração.
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