Saudades daquilo que não vivemos
A vida na presença de Deus • Sermon • Submitted • Presented
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· 1 viewEm “Saudades daquilo que não vivemos”, Êxodo 20.17 mostra que a cobiça revela um coração insatisfeito, inimigo do amor ao próximo e inclinado a transformar desejos em ídolos. Ela promete satisfação, mas nunca consegue preencher o coração. O evangelho apresenta em Cristo aquilo que realmente buscamos: amor, reconhecimento, segurança e vida. O verdadeiro contentamento não significa ter tudo o que desejamos, mas saber que temos Aquele de quem realmente precisamos.
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Êxodo 20.17 “— Não cobice a casa do seu próximo. Não cobice a mulher do seu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo.”
Deuteronômio 5.21 “— Não cobice a mulher do seu próximo. Não deseje a casa do seu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo.”
Introdução
Introdução
Chegamos ao último dos 10 mandamentos, mas não ao fim da série “A vida na presença de Deus”. Ainda teremos mais um para desfecho da série, mas antes de chegar lá temos que olhar este mandamento que, a meu ver, é o mais subestimado dos 10.
É verdade que, olhando somente para o ato de cobiçar, podemos ter a impressão que “não tenha outros deuses diante de mim”, “não mate” e “não adultere” são mandamentos muito mais urgentes e que a desobediência a eles é muito mais danosa às pessoas e à sociedade.
Mas, à essa altura nesta série de pregações, você já deve ter percebido que avaliar o mandamento pela primeira impressão é um péssimo negócio, pois o restante da Bíblia sempre aprofunda o significado deles, de maneira que possamos entender o que esse mandamento revela sobre Deus e que tipo de povo o Senhor está formando ao nos dar este mandamento.
Aqui não é diferente, pois o décimo mandamento termina o Decálogo onde o primeiro mandamento começou: no coração. Veremos que este mandamento não pergunta o que você fez, mas o que você quer e que o objetivo de Deus para seu povo é que este tenha o coração satisfeito.
Exposição
Exposição
1- A cobiça revela o coração
1- A cobiça revela o coração
Êxodo 20.17 “— Não cobice a casa do seu próximo. Não cobice a mulher do seu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo.”
[Desenho: Coração querendo o que é do outro. Conceito visual: Um coração olhando para uma casa, brinquedo ou objeto que pertence a outra pessoa. Significado: A cobiça é um desejo desordenado que transforma aquilo que pertence ao próximo em algo que queremos possuir.]
Alguns grupos, como os católicos romanos, desde Agostinho de Hipona dividem esse mandamento em dois, com “não cobice a mulher de seu próximo” sendo o nono e “não deseje a casa do seu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo” sendo o décimo, seguindo o texto de Deuteronômio.
Mas essa divisão não tem bom fundamento, mesmo porque em Êxodo a proibição de cobiçar a casa vem primeiro e depois a de cobiçar a mulher e demais coisas.
Um bom observador notará que o décimo mandamento não está preocupado apenas com aquilo que você deseja; ele revela um problema muito mais profundo: o coração que transforma aquilo que pertence ao outro em algo que precisa ser seu.
Perceba que o mandamento não está condenando o desejo em si. Há desejos que são naturalmente bons, como desejar que mais pessoas se convertam a Cristo. Contudo, existem desejos pecaminosos, que aqui são chamados de cobiça.
E a cobiça é sempre um desejo desordenado, um desvio do coração que muda nossa percepção do mundo à nossa volta, fazendo parecer que a realização desses desejos é um caminho melhor que aquele proposto por Deus. Assim, a cobiça é um mal invisível, que atua nas sombras da nossa alma, controlando nossos sentimentos, nossas ações e nossas reações.
Como desejo invisível e desordenado, a cobiça vira a motivação por trás de muitos dos pecados que cometemos, sem “levar a culpa” por isso. Então podemos condenar o adultério, mas a cobiça que motivou o desejo por alguém que não é seu cônjuge não é lembrada. Podemos condenar a desonra aos pais, mas a cobiça que faz o filho desejar algo ao ponto de desrespeitá-los, permanece sem tratamento.
Porque a maioria dos pecados que condenamos está na superfície, mas a cobiça está nas profundezas e ela, como uma fotografia do nosso coração, fala muito mais sobre quem somos de verdade que nossos atos visíveis.
Mas o problema da cobiça não acaba no desejo desordenado, porque...
2- A cobiça é inimiga do amor ao próximo
2- A cobiça é inimiga do amor ao próximo
Êxodo 20.17 “— Não cobice a casa do seu próximo. Não cobice a mulher do seu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo.”
[Desenho: Pessoa usada como trampolim. Conceito visual: Uma pessoa tentando subir até um objeto usando outra pessoa como degrau. Significado: O cobiçoso pode transformar o próximo em instrumento para alcançar seus próprios objetivos.]
Vimos que a cobiça é um desvio do coração que muda nossa percepção do mundo à nossa volta. E uma segunda percepção que ela distorce diz respeito ao nosso próximo. Se é verdade que os mandamentos de 5 a 10 nos ensinam a amar o próximo como a nós mesmos, a cobiça nos ensina a amar a nós mesmos acima de qualquer coisa.
E isso traz consequências para como nos relacionamos com as pessoas, mas como? Primeiro...
a) A cobiça nos afasta das pessoas
a) A cobiça nos afasta das pessoas
Por exemplo, por causa da cobiça, o meu próximo pode virar um obstáculo ou um trampolim para os meus objetivos. Veja o que diz o profeta
Mq 2.2 Se cobiçam campos, os arrebatam; se casas, as tomam; assim, fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança.
O cobiçoso não se aproxima realmente de alguém, mas do seu objetivo, pois o cobiçoso usa e descarta as pessoas para alcançar aquilo que quer. No fim, a cobiça necessariamente nos afastará das pessoas, ainda que estejamos cercados delas.
Além disso,
b) A cobiça nos põe contra as pessoas
b) A cobiça nos põe contra as pessoas
Tg 4.1-4 1De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne? 2Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; 3pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres. 4Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.
Os capítulos 3 e 4 de Tiago expõem que haviam certos problemas nas igrejas na Dispersão que foram motivados por cobiça. Disputas por poder, maledicência, brigas, facções. A lista é grande e feia.
De fato, o cobiçoso não se interessa genuinamente pelas pessoas, mas por aquilo que poderá obter de benefício através delas. Daí, ao invés de ser alvo de nosso amor, o próximo passa a ser “um problema a ser resolvido”, o que motiva discussões, brigas, divisões e até pecados mais graves, como agressões e mortes. É o que Tiago chamou de “guerras e contendas”, mas que Salomão chamou de inveja:
Ec 4.4 Então, vi que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do homem contra o seu próximo. Também isto é vaidade e correr atrás do vento.
No fim, enquanto o amor ao próximo diz “eu quero o seu bem", a cobiça diz “eu quero os seus bens.” Essa é a mente do ladrão, do adúltero, do assassino, do desobediente aos pais, do mentiroso, mas ainda a cobiça não se contenta em destruir nossa relação com o próximo, porque
3- A cobiça nos afasta de Deus
3- A cobiça nos afasta de Deus
[Desenho: Desejo como pequeno ídolo. Conceito visual: Um coração colocando uma pequena estátua ou objeto sobre um pedestal. Significado: A cobiça transforma desejos em ídolos, ocupando no coração um lugar que pertence a Deus.]
Sim, além de revelar coisas ruins do nosso coração e de nos impedir de amar nosso próximo, nossos desejos desordenados nos afastam de Deus. E isso acontece porque esses desejos são como “pequenos deuses” que temos dentro de nós.
a) Porque ela transforma desejos em ídolos
a) Porque ela transforma desejos em ídolos
Cl 3.5 Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza[4], que é idolatria;
No começo da pregação eu fiz uma ligação entre o 1º e o 10ºMandamentos. E agora entendemos o por quê, pois se no primeiro mandamento aprendemos que Deus não quer que coloquemos outros deuses em nossa vida, no 10º aprendemos de onde esses deuses vem.
O texto de Colossenses que acabamos de ler deixa isto mais claro, ao falar da avareza. A avareza é um desejo insaciável ou sem controle de possuir (Lc 12.15, Ef 4.19) e é chamada de idolatria. Perceba que o desejo desordenado não é um problema somente porque é uma “desobediência”, mas porque a cobiça é um substituto de Deus.
Para ficar mais claro, esses desejos são desordenados justamente porque a cobiça nos faz achar que Deus não é suficiente, ou seja, dizemos para nós mesmos "Deus é tudo para mim”, ao mesmo tempo, estamos dispostos a deixar Deus de lado para realizar nossos desejos.
O que faz você se sentir sem contentamento? O que você sempre busca, mas nunca está satisfeito? Talvez seja dinheiro. Talvez seja reconhecimento. Talvez seja a aprovação de alguém. Talvez seja uma determinada posição, uma casa, um carro, uma aparência, um relacionamento. Talvez seja simplesmente a vida que outra pessoa tem.
E aqui está o problema: a cobiça sempre promete o que nunca consegue entregar. Ela diz: “Quando você tiver isso, ficará satisfeito.” Mas, quando conseguimos, descobrimos que precisamos de outra coisa. E depois de outra. E depois de outra. Por que?
b) Porque ela promete satisfação, mas produz insatisfação.
b) Porque ela promete satisfação, mas produz insatisfação.
Hb 13.5 Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei.
Quando fala de avareza, o autor aos Hebreus não diz que é errado desejar coisas ou melhoras na sua vida, mas que é errado não estar contente.
É necessário aprender o contentamento. Contentamento não significa achar que tudo o que temos é perfeito. Significa saber que aquilo que ainda nos falta não é necessário para termos Deus.
Mas o que nos mantém contente, não é o que temos, mas quem está conosco.
Nesse momento, talvez alguém esteja pensando: “Tudo bem. Eu entendi. Preciso me contentar. Preciso parar de procurar nas coisas aquilo que somente Deus pode me dar.” Mas será que é tão simples assim?
Se o problema está no coração, não basta dizer ao coração para parar de desejar. Mesmo porque, na maioria da vezes, a cobiça usa desejos legítimos para nos enganar. É necessário que o coração aprenda a encontrar satisfação em Deus.
E é aqui que o evangelho entra.
c) Porque Cristo entrega o que ela só promete.
c) Porque Cristo entrega o que ela só promete.
Perceba: a cobiça não apenas deseja coisas. Muitas vezes, ela tenta resolver necessidades profundas do coração. O problema é que procura resolver essas necessidades longe de Deus. Mas o evangelho nos mostra que, em Cristo, Deus já nos deu aquilo que a cobiça promete, mas nunca consegue entregar.
A cobiça diz: “Busque amor.”
Cristo diz: “Ninguém tem maior amor do que este: dar alguém a própria vida pelos seus amigos.” (Jo 15.13)
A cobiça diz: “Busque reconhecimento.”
Cristo diz: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus.” (1Jo 3.1)
A cobiça diz: “Busque segurança acumulando mais.”
Cristo diz: “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei.” (Hb 13.5)
A cobiça diz: “Eu não quero ser como fui feito.”
O evangelho diz: “Tu me formaste de modo maravilhoso.” (Sl 139.14)
A cobiça diz: “Preciso de outra vida para finalmente ser feliz.”
Cristo diz: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (Jo 10.10)
A cobiça quer receber.
Cristo se entrega.
Conclusão
Conclusão
Todos nós temos desejos legítimos por uma vida melhor.
Queremos amar e ser amados, segurança e descanso. Por isso somos inquietos.
Deus não nos criou para viver assim. Fomos feitos para uma vida perfeita diante de Deus, mas essa vida foi perdida no Éden. Desde então, carregamos saudade daquilo que perdemos.
O problema é que tentamos recuperar essa vida pelas coisas erradas.
Pensamos que um homem ou uma mulher possa preencher o que falta. Uma nova compra, um salário melhor, reconhecimento ou uma vida diferente.
Nenhuma delas pode devolver o Éden. Elas podem ser boas dádivas, mas nenhuma foi criada para ocupar o lugar de Deus.
Por isso, a cobiça nunca termina. Ela promete que a próxima coisa será suficiente, mas continuamos com fome.
Se você ainda não pertence a Cristo, não procure nas coisas aquilo que somente Deus pode lhe dar. Você não precisa de uma vida diferente; precisa de Deus. Cristo veio para nos reconciliar com ele.
E se você pertence a Cristo, não viva como se ainda estivesse procurando aquilo que já recebeu. Deseje coisas boas, trabalhe e sonhe, mas não coloque nelas a esperança de ser completo. Em Cristo, você já recebeu aquilo que nenhuma coisa deste mundo poderia lhe dar: Deus.
A cobiça diz que ainda falta alguma coisa.
O evangelho diz que, em Cristo, Deus já veio até nós.
Talvez contentamento seja isto:
não ter tudo o que você deseja, mas saber que tem Aquele de quem realmente precisa.
