Feridas - Jesus e as marcas do passado
As aflições deste mundo • Sermon • Submitted • Presented
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Texto principal: João 20.24–29
Abertura
Abertura
Boa noite, meus irmãos.
Há muitas razões que trouxeram cada um de nós até aqui esta noite. Alguns vieram com a família, outros sozinhos; alguns depois de uma semana tranquila, outros depois de precisar reorganizar tudo só para conseguir chegar. Há quem entre celebrando e há quem entre carregando, em silêncio, uma pergunta que ninguém ao redor conhece.
E, ainda assim, a igreja reunida é sempre mais do que a soma dessas decisões individuais. Cremos que o Espírito de Deus continua fazendo algo que nenhuma organização humana consegue produzir por si mesma: reunir, num mesmo lugar e ao redor de Cristo, pessoas cujas histórias pouco se parecem entre si. É sob essa ação do Espírito que abrimos mais uma vez a Palavra de Deus.
João 20.24–29 (NVI)
24 Tomé, chamado Dídimo, um dos Doze, não estava com os discípulos quando Jesus apareceu. 25 Os outros discípulos lhe disseram: “Vimos o Senhor!” Mas ele lhes disse: “Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei”. 26 Uma semana mais tarde, os seus discípulos estavam outra vez ali, e Tomé com eles. Apesar de estarem trancadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “Paz seja com vocês!” 27 E Jesus disse a Tomé: “Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia”. 28 Disse-lhe Tomé: “Senhor meu e Deus meu!” 29 Então Jesus lhe disse: “Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram”.
Chegamos hoje à última mensagem da série As Aflições deste Mundo — Como Jesus as enfrentou e venceu.
Ao longo dessas semanas, procuramos olhar para Jesus não como alguém que apenas falou sobre a dor humana, mas como alguém que a experimentou. Nós o vimos sem as garantias que costumam dar segurança à vida, tentado no deserto pelos atalhos, cansado à beira de um poço, com a alma perturbada diante da cruz que se aproximava. Nós o vimos cercado de incompreensão, de rejeição e de lágrimas diante do túmulo de um amigo. Depois vieram a traição, a injustiça e, na última mensagem, o grito de abandono na cruz.
Semana após semana, uma pergunta nos acompanhou: como Jesus lidou com as aflições deste mundo?
Agora, depois da ressurreição, podemos finalmente fazer outra pergunta: o que restou depois de tudo que Jesus passou?
Os evangelhos respondem de um jeito surpreendente.
Jesus ressuscitou, a morte foi vencida e o túmulo ficou vazio — mas Jesus não voltou à vida sem marcas. O corpo do Filho Ressuscitado carregava os sinais do que acontecera na cruz: as marcas dos pregos nas mãos e a ferida no lado.
Talvez isso seja desconcertante para alguns, porque costumamos associar vitória a uma espécie de desfazimento da dor: quando estamos nos recuperando, queremos voltar à nossa condição antes de adoecer; quando um relacionamento é restaurado, esperamos que volte a ser o que era antes da ruptura; quando uma temporada difícil passa, esperamos que a vida recupere a aparência que tinha antes de tudo acontecer.
Só que experiências deixam marcas. Uma cirurgia pode ser bem-sucedida mas deixará no corpo a linha da incisão: o perigo passou, a pessoa se recuperou, voltou à vida normal — mas ali está o sinal da história vivida.
Há também marcas que não aparecem na pele: uma palavra que nos rasgou a alma, uma ausências, traições, perdas, injustiças — tudo traz consigo consequências que marcam o corpo e a alma.
Claro que na vida da gente há as coisas que continuam aberta — situações que ainda precisam de proteção, justiça, tratamento, reconciliação ou simplesmente de tempo. Não é preciso chamar de cicatriz aquilo que ainda está sangrando.
Mas há experiências que de fato ficaram para trás no calendário. E é justamente no final do Evangelho de João que encontramos uma imagem extraordinária para pensar nisso: o Cristo vivo aparece trazendo consigo as marcas da cruz.
“Se eu não vir…”
“Se eu não vir…”
Em seu texto, João nos leva ao domingo da ressurreição. Naquela noite, Jesus já havia aparecido aos discípulos. Eles estavam reunidos a portas trancadas, com medo. Jesus colocou-se no meio deles e disse:
“Paz seja com vocês!”
João conta que, em seguida, o Senhor lhes mostrou as mãos e o lado. Vale reparar nesse detalhe: antes mesmo de Tomé entrar na história, as marcas já faziam parte da história. Quando Tomé, então, reaparece, os discípulos têm uma notícia para lhe dar:
“Vimos o Senhor!”
Tomé não participou daquela primeira reunião, e sua resposta ficou famosa:
“Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei.”
Tomé costuma receber um tratamento um pouco injusto nessa história. Nós o transformamos rapidamente no discípulo da dúvida, como se os outros tivessem passado por tudo aquilo com uma fé inabalável. Não foi bem desse jeito que aconteceu: assim como Tomé, os outros precisaram encontrar o Ressuscitado, e Jesus também lhes mostrou as mãos e o lado. Tomé simplesmente chegou depois.
Há algo, porém, na exigência de Tomé que merece atenção: ele não pede genericamente para ver Jesus. Quer ver, nas mãos, os sinais dos pregos; quer sentir, no lado, a ferida feita pela lança romana. Ele quer ter certeza de que foi Jesus mesmo que eles viram.
As marcas são muito importantes: elas ligam o domingo à sexta-feira. Dizem que o Ressuscitado e o Crucificado são a mesma pessoa — que aquele que está vivo é aquele que passou pela cruz.
A ressurreição, portanto, não cria outro Jesus nem apaga a história da cruz. Pelo contrário! As mãos e o lado continuam contando sua história. O sofrimento foi real, a violência foi real, a morte foi real — mas agora, surpreendentemente, essas marcas estão no corpo de alguém que está vivo.
E isso mexe com uma expectativa muito comum: imaginamos que restauração significa não carregar mais nenhum sinal do que atravessamos, como se perdoar fosse nunca mais lembrar; como se ser consolado fosse nunca mais sentir tristeza; como se Deus nos restaurasse apagando a nossa história.
Mas João nos coloca diante do Cristo ressuscitado e vitorioso, ainda marcado por tudo que atravessou.
Vitória não é a mesma coisa que ausência de marcas.
As marcas permanecem. Na sexta-feira, elas pareciam anunciar a vitória de quem o prendeu e matou. Mas, no domingo, estão no corpo daquele que venceu a morte.
Tomé ainda está do lado de fora dessa experiência. Por ora, ele apenas diz:
“Eu preciso ver.”
De certa forma, João afirma que as marcas no corpo de Jesus mostram que ele foi realmente ferido. Então precisamos perguntar o que essas marcas revelam sobre a maneira como Jesus lidou com as aflições deste mundo?
E para responder, devemos olhar com mais atenção para as mãos que Tomé queria ver.
“Veja as minhas mãos”
“Veja as minhas mãos”
Oito dias depois, os discípulos estão reunidos outra vez, e agora Tomé está com eles. Jesus se coloca no meio do grupo, deseja-lhes paz e se dirige diretamente a ele:
“Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia.”
Jesus oferece a Tomé exatamente aquilo que ele havia pedido.
Mas aquelas mãos feridas têm uma história que começou muito antes dos pregos — uma exemplo é a dica que João nos dá, alguns capítulos antes, sobre o caminho que Jesus decidiu seguir:
27 “Agora meu coração está perturbado, e o que direi? Pai, salva-me desta hora? Não; eu vim exatamente para isto, para esta hora. 28 Pai, glorifica o teu nome!” Então veio uma voz dos céus: “Eu já o glorifiquei e o glorificarei novamente”.
Já vimos que a perturbação de Jesus não o afastou do Pai. Ele sabia o que estava por vir e ainda assim manteve sua vida nas mãos do Pai.
Pedro resumirá assim a maneira como Jesus atravessou esse caminho: “[ele] entregava-se àquele que julga com justiça” (1Pedro 2.23).
E Lucas nos deixa ouvir essa entrega nas palavras de Jesus no momento de sua morte:
46 Jesus bradou em alta voz: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Tendo dito isso, expirou.
Agora, olhando para as mãos marcadas do Cristo Ressuscitado, percebemos uma coisa que atravessou toda a sua história: Jesus confiou no Pai.
A confiança no Pai sustentou Jesus quando obedecer se tornou doloroso e esse caminho de fidelidade o levou até a cruz.
Às vezes imaginamos que confiar em Deus deveria nos proteger da perda, da injustiça e das portas que se fecham. Mas, quando olhamos para a história de Jesus, fica difícil continuar pensando assim.
Foi confiando no Pai que Jesus seguiu a vontade de Deus, e sua obediência o levou à morte.
Mas essa entrega não terminou na sepultura. O Pai o ressuscitou dos mortos, completando o plano para salvar .
No mesmo capítulo em que fala de sua alma perturbada, Jesus diz ainda:
31 Chegou a hora de ser julgado este mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo. 32 Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim”.
Aos olhos de quem estava ali, a cruz parecia derrota. Mas Jesus já havia dito que aquela hora seria também juízo sobre este mundo e derrota de seu príncipe.
Para quem olhasse de fora, a cruz parecia a vitória dos poderes deste mundo. Jesus estava preso, condenado, exposto publicamente e morto. Mas Paulo diz que, justamente na cruz, Deus desarmou os poderes e as autoridades espirituais e os expôs publicamente (Colossenses 2.15).
Sim! Jesus foi ferido e morto. Mas Deus o ressuscitou dos mortos, porque a morte não tinha nenhum direito sobre o Filho sem pecado. E ele fez isso sem apagar as marcas da confiança obediente.
Sim! As marcas permanecem no corpo daquele que venceu.
Claro que não podemos comparar nossas feridas com as feridas redentoras de Jesus. Mas podemos olhar para ele e perguntar:
A quem confiaremos as marcas da nossa história? Em quem cofiaremos para nos ajudar com nossas cicatrizes?
Jesus, aquele que confiou até a morte, faz um chamado simples. Chegue mais perto, Tomé. Se aproxime de mim
27 E Jesus disse a Tomé: “Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia”.
“Meu Senhor e meu Deus!”
“Meu Senhor e meu Deus!”
Tomé olha para Jesus e responde:
“Meu Senhor e meu Deus!”
João não diz que Tomé chegou a colocar o dedo nas mãos de Jesus ou a tocar seu lado. Jesus lhe ofereceu aquilo que havia pedido, mas a narrativa passa diretamente do convite para a confissão.
Tomé queria saber se aquele que estava vivo era realmente o Crucificado. Mas, quando finalmente está diante de Jesus, sua resposta vai além de reconhecer a ressurreição. As marcas cumpriram sua função: conduziram Tomé a Cristo.
Tomé já não está apenas tentando entender o que aconteceu. Agora ele precisa responder quem é aquele que está diante dele. E sua conclusão é:
“Meu Senhor. Meu Deus.”
Tomé, agora, não está simplesmente concordando com o testemunho dos outro. Ele mesmo experimentou a presença do Cristo ressuscitado.
Jesus então lhe diz:
“Porque me viu, você creu; felizes os que não viram e creram.”
A fala de Jesus pode parecer apenas uma reprimenda. Mas é mais do que isso. Ela abre uma perspectiva de fé para além daquela sala. Tomé viu; mas e nós, que não vimos?
João escreve logo depois assim:
30 Jesus realizou na presença dos seus discípulos muitos outros sinais miraculosos, que não estão registrados neste livro. 31 Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome.
A história não foi contada apenas para que soubéssemos o que aconteceu com Tomé. João a contou para que também nós, que não vimos, creiamos. Tomé viu o Ressuscitado; nós recebemos o testemunho daqueles que viram.
Nós não vimos o Ressuscitado como Tomé viu. Mesmo assim, João nos chama a crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e a encontrar vida em seu nome.
Talvez haja aflições, dores e cicatrizes da sua história que você ainda não sabe onde colocar. E pode ser que você não encontre uma explicação para cada uma delas.
Mas você pode se fazer uma pergunta importante:
A quem pertence a minha vida?
Tomé responde essa pergunta olhando para Jesus:
“Meu Senhor e meu Deus!”
Essa pode ser também a nossa confissão. Confiando no Cristo vivo, podemos entregar a ele nossa história, que não pode mais ser desacontecida, e receber vida, em seu nome.
Conclusão — “Eu venci o mundo”
Conclusão — “Eu venci o mundo”
Eu venci o mundo. Foi com estas palavras de Jesus que começamos esta série:
João 16.33 (NVI)
33 “Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo”.
Depois de tudo o que vimos, talvez essas palavras soem diferentes agora.
Quando Jesus falou sobre as aflições deste mundo, não descrevia uma realidade que observaria à distância. O caminho que tinha diante de si passaria pelo cansaço, pelas lágrimas, pela perturbação da alma, pela rejeição e, finalmente, pela cruz.
Ele sabia do que estava falando.
E quando disse “Eu venci o mundo”, sua vitória também não significaria atravessar esse mundo sem ser atingido por ele.
Cristo venceu! Ele está vivo! Suas mãos e seu lado têm as marcas da confiança obediente.
Jesus venceu atravessando as aflições em comunhão com o Pai. Ele cumpriu sua missão e amou até o fim. Aquele a quem o Pai chamou de Filho amado permaneceu confiando nele por todo o caminho.
Então o Pai o ressuscitou.
Por isso, quando Jesus diz “Tenham ânimo”, ele não nos chama a produzir uma força que não temos dentro de nós. Ele nos chama a olhar para ele.
O ânimo cristão nasce da certeza de que nenhuma aflição possui autoridade maior do que Cristo. Porque nem mesmo a morte teve a palavra final sobre o Filho de Deus.
O evangelho não exige que você compreenda toda sua história e encontre um significado bonito para tudo que lhe aconteceu. Ele anuncia algo mais importante: sua vida pode pertencer a alguém maior do que tudo aquilo que lhe aconteceu.
Foi isso que aconteceu com Tomé: ele queria tocar as marcas e terminou entregando-se ao Filho de Deus, marcado pela vida. As marcas são importantes. Mas o Cristo vivo é o que realmente importa.
Foi assim que começamos esta caminhada: ouvindo Jesus dizer que neste mundo teríamos aflições. E é assim que a terminamos: diante de Jesus, ferido pelas aflições deste mundo, mas vivo.
Aquele que disse “Eu venci o mundo” é o mesmo que mostra as mãos e chama pessoas marcadas pela vida a confiar nele.
Tomé respondeu:
“Meu Senhor e meu Deus!”
Que essa seja também a nossa confissão.
E que, confiando naquele que venceu o mundo, encontremos nele aquilo para o qual João escreveu seu Evangelho:
vida em seu nome.
