Dá-me dessa água
Em Espírito e em Verdade • Sermon • Submitted • Presented
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23 Mas está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. O Pai procura pessoas que o adorem desse modo.
O Encontro
A região se chamava Samaria e o vilarejo é conhecido como Sicar, perto das terras que Jacó dera a seu filho José.
O céu amanhecera sem nuvens e prometia um dia com muita luz, mas o coração daquela mulher era o mesmo da noite anterior, a mesma busca de ontem e anteontem, mais um dia procurando significado para a vida.
Envolveu-se com os afazeres de casa até que chegasse a hora de ir ao poço próximo da cidade e buscar água sem o desconforto de encontrar com outras pessoas e mais uma vez sentir-se desprezada pelos olhares e comentários sussurrados.
Próximo dali, na Judéia, ele decidiu virar as costas para a fama, literalmente fugir dela. Os comentários eram de que ele batizava mais discípulos que o seu primo João, reconhecido por todos como um grande profeta. Fugiu da fama com um grupo de amigos e foi em direção à Galiléia.
Sol a pino, cansado da viagem, parou em um poço próximo a Sicar. Foi quando ela chegou para pegar água. É sempre assim: o calor do meio dia afugenta a todos e assim ela pode pegar água sem ser incomodada; por isso ficou surpresa quando de longe viu que havia outra pessoa próxima ao poço. Quando chegou, surpresa maior: um judeu.
Ele pediu água.
Ela ficou quase indignada e lembrou que ele era judeu e ela samaritana; que ele era homem e ela era mulher. Enfim, aquela conversa não deveria estar acontecendo!
Ele insistiu! Falou que tinha um tipo de água que mata a sede para sempre.
Ela ficou confusa. Que água era aquela que mataria a sede para sempre? Como ele poderia tirar água do poço se não tinha nada nas mãos para isso?! Quem era esse homem que dizia ter algo melhor para oferecer?
Ele insistiu novamente! Falou que a água do poço mata a sede mas só por um momento; a água viva, que ele tem pra dar, mata a sede para sempre.
Ela não teve dúvidas! Imagine não ter que ir todos os dias, sol a pino, buscar água pra matar a sede! Imagine não correr o risco de ser desprezada com os olhares e humilhada com as palavras! Oh, Senhor dá-me dessa água!
Ele começou a se aproximar. Sugeriu que ela fosse chamar seu marido para os dois receberem dessa água.
Ela se entristeceu. Não tinha marido. Sua vida amorosa e familiar tinha sido um desastre. Trocara tantas vezes de companheiro e por motivos tão fúteis que não sabia mais o que era ser amada.
Ele chegou mais perto: Já tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu.
Ela ficou impressionada, mas sentiu-se ameaçada. Como aquele estranho sabia sobre a sua vida? Sua história havia ultrapassado as fronteiras ou aquele homem era um tipo de profeta? Quem sabe o messias prometido? Ninguém jamais havia falado de forma tão direta sobre o estado da sua vida, mas como permitir que aquele homem se aproximasse de seus sentimentos mais profundos da sua alma?
Ela lembrou que ele era judeu. Lembrou que havia uma linha divisória entre eles. Era assim que ela o afastaria! Nós adoramos aqui no monte, vocês adoram em Jerusalém. Vocês são judeus, nós samaritanos. Escondido no argumento, um pedido: por favor, não chegue mais perto do meu coração!
Ele contornou o obstáculo. O lugar não era importante. Vai chegar um tempo em que a adoração a Deus acontecerá fora de Jerusalém e longe desse monte. Aí não vai fazer diferença quem é judeu ou samaritano.
Ela ouvia curiosa.
Ele explicou melhor. Deus procura verdadeiros adoradores. Não é o lugar de adoração que torna um adorador verdadeiro, não é assim que Deus avalia. O que faz verdadeiro o adorador é qualidade da adoração.
Ela ouvia atenta.
Ele continuou explicando. Adorar não é apenas cumprir os rituais da lei. A lei mata; o espírito vivifica. O próprio Deus é espírito e se alegra quando encontra adoradores que o adoram em espírito; não para cumprir formalidade, não pela obrigação do medo, não para obter favores. Ele se alegra quando encontra adoradores que o adoram em verdade; adoração sem fingimento do que se é, adoração sem farsa do que se vive, adoração sem falsidade no falar.
Ela foi tocada pelas palavras daquele homem. Adorar a Deus de espírito livre e sem esconder quem era! Essa era a sua esperança com a vinda do messias.
Poder abrir o coração diante de alguém que conheça os detalhes da sua vida e ainda assim lhe receba; chorar suas dores e angústias para alguém que saiba o que elas significam; lamentar pos seus erros e clamar por consolo! Ela não tinha dúvidas: isso sim, poderia saciar a sede da sua alma!
Mas apenas o Cristo de Deus, o messias prometido, o salvador esperado poderia ser a água para matar essa sede. Ela baixo a cabeça.
Ele olhou para ela e disse: Eu o sou, eu que falo contigo.
Cântico: Aclame ao Senhor
Não é só cantar, nem apenas liturgia
Não é só cantar, nem apenas liturgia
Neste e nos próximos três domingos, o tema principal das nossas reflexões será adoração.
É triste perceber que o entendimento que um grande número de cristãos demonstra sobre o que é adoração não tem qualquer relação com o ensino da palavra de Deus. Muitos confundem adoração com música ou ritual religioso. É compreensível, mas também é muito limitado. Uma música pode ser uma expressão de adoração, mas a adoração é muito mais que isso.
Há muitos séculos o profeta Isaías alertava contra palavras e rituais vazios:
13 O Senhor diz: “Esse povo se aproxima de mim com a boca e me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. A adoração que me prestam é feita só de regras ensinadas por homens.
Historicamente, vemos que, durante séculos, a igreja associou erroneamente adoração apenas às cerimônias litúrgicas. Durante a Idade Média, por exemplo, os cristãos comuns eram quase espectadores passivos da adoração conduzida por sacerdotes, enquanto o coração permanecia distante e indiferente.
Hoje, para muita gente adoração é sinônimo de cantar. E talvez um dos grandes responsáveis por essa confusão sejam os departamentos de marketing das gravadoras cristãs, que se utilizam massivamente dessa conexão entre adoração e música para vender seus produtos. Uma música pode ser uma expressão de adoração, mas adorar é muito mais que cantar.
Pra outras pessoas adoração é sinônimo de culto, de cerimônia, de liturgia. Esse foi o resultado de um caminho tortuoso trilhado pela igreja, que durou muitos século e que vamos tentar compreender mais à frente. A cerimônia ou a liturgia podem ser adoração. Mas adorar não pode estar restrito aos momentos formais de culto.
Hoje, corremos risco semelhante. Pense nisso:
Quantas vezes você cantou no culto, mas sua mente estava em outro lugar?
E as vezes em que você ficou mais preocupadas com o ritmo ou com a qualidade técnica das músicas do que com a sinceridade e entrega pessoal?
Precisamos urgentemente recuperar a essência da adoração. Ela é muito mais do que canções ou liturgias bem-feitas. É a expressão sincera do nosso relacionamento com Deus.
Adoração como serviço integral
Adoração como serviço integral
Originalmente, nas Escrituras, adorar tinha a ver com serviço integral e rendição total a Deus. No Antigo Testamento, a palavra hebraica frequentemente traduzida como adoração é "avodah", que significa tanto adorar quanto servir ou trabalhar. Era a mesma palavra usada para descrever o trabalho que os escravos prestavam a seus senhores (Êxodo 23:25; Josué 24:15).
O servo ou escravo era alguém cuja vida inteira e todas as horas do dia estavam à disposição do seu Senhor. Era uma situação bem diferente do trabalho assalariado dos nossos dias porque o servo pertencia ao seu senhor e viva para servi-lo. Portanto a ideia original de adoração implica que toda nossa vida seja um serviço contínuo a Deus. O apóstolo Paulo reforça isso em Romanos 12:1:
1 Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês.
Paulo fala de "culto racional", isto é, a adoração como uma decisão consciente e diária de viver para Deus. Isso significa que o seu trabalho, o cuidado com sua família, seus estudos, tudo isso é uma expressão de adoração quando feito para a glória de Deus.
O grande reformador Martinho Lutero dizia que:
"Uma camponesa varrendo o chão pode estar prestando uma adoração tão verdadeira quanto um sacerdote ministrando no altar, se o coração dela estiver rendido a Deus."
Deus é adorado quando reconhecemos que ele é amor e transborda amor;
Deus é adorado quando notamos sua bondade sem fim e damos espaço para ela em nós;
Deus é adorado quando reconhecemos que Ele é justo, e procuramos também ser justos;
Deus adorado quando reconheço a misericórdia de Deus pra comigo, e a distribuo para outros;
Deus é adorado quando falo a todos que a fidelidade de Deus faz parte sua própria natureza.
Por exemplo
Um profissional da saúde pode adorar a Deus tratando seus pacientes com respeito, empatia e justiça.
Um estudante pode adorar estudando com dedicação e integridade.
Um pai ou mãe adoram ao criarem seus filhos com amor, paciência e exemplo cristão.
Adorar é reconhecer e refletir o caráter de Deus
Adorar é reconhecer e refletir o caráter de Deus
Sim, a adoração bíblica nos convoca a reconhecer e refletir o caráter de Deus em todos os aspectos da nossa vida. Portanto, ela não se limita ao templo ou aos domingos. Ela invade nossa rotina e transforma nosso comportamento cotidiano. Reconhecer o caráter de Deus – Seu amor, justiça, misericórdia e fidelidade – e viver em conformidade com esses atributos é o coração da adoração verdadeira.
Jesus ensinou claramente:
14 “Vocês são a luz do mundo. É impossível esconder uma cidade construída no alto de um monte.
15 Não faz sentido acender uma lâmpada e depois colocá-la sob um cesto. Pelo contrário, ela é colocada num pedestal, de onde ilumina todos que estão na casa.
16 Da mesma forma, suas boas obras devem brilhar, para que todos as vejam e louvem seu Pai, que está no céu.”
Quando vivemos assim, cada ação se torna uma oportunidade de adoração:
Ao escolher falar a verdade, mesmo quando custa caro.
Ao perdoar quem nos ofendeu, porque Deus é perdoador.
Ao ajudar alguém necessitado, porque Deus é compassivo.
Cada gesto, palavra e decisão revela ao mundo um pouco do caráter de Deus que adoramos.
Exemplo histórico: O missionário escocês Eric Liddell, que competiu nas Olimpíadas de 1924, afirmou:
"Deus me fez rápido, e quando corro, sinto Seu prazer."
Sua vida mostrava que adorar a Deus envolvia usar plenamente seus talentos para glorificar ao Senhor, refletindo claramente Sua presença e Seu caráter em tudo o que fazia.
Conclusão
Conclusão
Voltemos ao encontro junto ao poço em Samaria..
Ele olhou para ela e disse: Eu o sou, eu que falo contigo.
Ela o ouviu dizer que era o messias. O seu coração palpitou forte. Ela jamais se acharia digna de vê-lo face a face, mas era verdade. Ele estava ali. Ela largou o cântaro e correu para a cidade.
Ela não podia guardar a notícia, contou para outras pessoas. Ela não podia adorá-lo sozinha, chamou outros para confirmarem com ela: ali estava o messias. A água viva que mata a sede da alma.
Ele viu a alegria em sua face e também se alegrou.
A mulher de Samaria descobriu naquele dia que adorar não era questão de lugar nem ritual. Era questão do coração transformado pelo encontro com Cristo que transborda em direção a outras pessoas.
Desafie-se essa semana a refletir:
Sua adoração é mais parecida com um ritual ou com uma verdadeira entrega de vida?
Você tem reconhecido e refletido o caráter de Deus na maneira como você vive?
A verdadeira adoração, em espírito e em verdade, começa agora e é contínua, e é exatamente isso que Deus busca em nós. Que nosso viver seja uma constante adoração ao Pai.
