A PALAVRA QUE RASGA E A PALAVRA RASGADA
70 Anos IPC Bauru • Sermon • Submitted • Presented
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· 5 viewsSermão de ação de graças pelo aniversário da igreja.
Notes
Transcript
Josias tinha oito anos de idade quando começou a reinar e reinou trinta e um anos em Jerusalém. A mãe dele se chamava Jedida e era filha de Adaías, de Boscate. Josias fez o que era reto aos olhos do Senhor, andou em todo o caminho de Davi, seu pai, e não se desviou nem para a direita nem para a esquerda.
No décimo oitavo ano do seu reinado, o rei Josias mandou o escrivão Safã, filho de Azalias, filho de Mesulão, à Casa do Senhor, dizendo:
— Vá pedir ao sumo sacerdote Hilquias que conte o dinheiro que foi trazido à Casa do Senhor, o qual os guardas da porta ajuntaram do povo. Que esse dinheiro seja entregue aos que dirigem a obra e têm a seu encargo a Casa do Senhor, para que paguem àqueles que fazem a obra na Casa do Senhor, para repararem os estragos do templo: aos carpinteiros, aos construtores e aos pedreiros. E que comprem madeira e pedras lavradas, para repararem os estragos do templo. Mas não é necessário que prestem contas do dinheiro que lhes foi entregue, porque são honestos.
Então o sumo sacerdote Hilquias disse ao escrivão Safã:
— Achei o Livro da Lei na Casa do Senhor.
Hilquias entregou o livro a Safã, e este o leu. Então o escrivão Safã foi falar com o rei e lhe deu relatório, dizendo:
— Os seus servos contaram o dinheiro que estava na casa do Senhor e o entregaram nas mãos dos que dirigem a obra e têm a seu encargo a Casa do Senhor.
Depois o escrivão Safã anunciou ao rei:
— O sacerdote Hilquias me entregou um livro.
E Safã o leu diante do rei.
Quando ouviu as palavras do Livro da Lei, o rei rasgou as suas roupas. Então deu ordens a Hilquias, o sacerdote, a Aicão, filho de Safã, a Acbor, filho de Micaías, a Safã, o escrivão, e a Asaías, servo do rei, dizendo:
— Vão consultar o Senhor por mim, pelo povo e por todo o Judá, a respeito das palavras deste livro que foi encontrado. Porque é grande o furor do Senhor, que se acendeu contra nós, porque os nossos pais não deram ouvidos às palavras deste livro, para fazerem segundo tudo o que está escrito a nosso respeito.
Introdução: a memória e a misericórdia
Introdução: a memória e a misericórdia
Celebrar 70 anos de história é um privilégio grandioso.
Muita coisa aconteceu no mundo nesse espaço de tempo. Por exemplo:
A Chegada do Homem à Lua (1969); O Fim da Guerra Fria (1989–1991); Internet & Celular (1990-2000); 11 de Setembro (2001); Crise Financeira Global (2008); Pandemia COVID-19 (2020); Consolidação e Expansão da IA (presente).
No Brasil não foi diferente:
Construção e Inauguração de Brasília (1956–1960); O Período Militar (1964–1985); Diretas Já e Redemocratização (1984–1985); Promulgação da Constituição Cidadã (1988); Plano Real (1994); Urna Eleitoral Eletrônica (1996); Ascensão Econômica e Descoberta do Pré-Sal (Anos 2000).
E Bauru não ficou para trás:
Fundação e Expansão do Campus da USP em Bauru (1962); Criação do HRAC / “Centrinho” (1967/1976); Fundação do Jornal da Cidade (1967); Instalação e Expansão do Campus da UNESP (1988) (antiga FEB); Inauguração do Aeroporto Estadual Bauru-Arealva (2006); Inauguração do Calçadão da Rua Batista de Carvalho (década de 1990 / anos 2000); Abertura do Curso de Medicina da USP Bauru (2017).
Esse período não é apenas um marco cronológico; na tradição bíblica, ele representa um ciclo de plenitude e, por vezes, é o tempo em que Deus restaura o seu povo.
Mas por que esse texto?
2Reis 22 nos mostra que a continuidade de um povo (nação ou igreja) não depende da força de suas instituições ou da piedade de seus líderes, mas da sua relação com a Palavra de Deus.
CONTEXTO BREVE...
Josias assumiu o trono de Judá em um momento de profunda degradação. Ele era neto de Manassés e filho de Amom, homens que mergulharam Judá na mais densa escuridão espiritual e idólatra. Josias era apenas uma criança quando começou a reinar. Ele não teve um pai piedoso para instruí-lo, mas, como Matthew Henry observa, ele foi um triunfo da soberana graça de Deus.
Contudo, história de Josias sempre que a Palavra de Deus é redescoberta, corações se rasgam, e reformas acontecem.
A Palavra perdida
A Palavra perdida
O texto (v. 3) nos relata que, aos 26 anos (18º do Reino), Josias deu início a uma reforma estrutural — acertos fiscais e a reparação das rachaduras do templo.
Ele enviou Safã — um escrivão/contador — para organizar as finanças e pagar trabalhadores fiéis.
Até aqui, tudo parecia estar em ordem. O rei era piedoso. A instituição estava funcionando. O templo estava sendo reformado.
No entanto, no meio daquela “bagunça”, o sumo sacerdote Hilquias encontrou algo: “Achei o Livro da Lei na Casa do Senhor” (v. 8).
Pare um instante e pense na tragédia e no absurdo desta frase.
A Lei de Deus não estava perdida entre os pagãos ou esquecida nas recém formadas bibliotecas babilônicas — ela estava perdida dentro do Templo.
Timothy Keller frequentemente nos alertava sobre o perigo de uma "religião sem Evangelho".
A história de Josias nos lembra de algo importante neste momento de ação de graças: uma rica história de fé é uma grande bênção, mas maior de todas as bençãos sempre será a Palavra de Deus.
Josias tinha uma tradição, mas compreendeu que precisava voltar à Palavra.
Da mesma forma, meus amados, depois de 70 anos de uma linda história, a maior preocupação da IPC de Bauru não deve ser apenas preservar belas e importantes tradições, mas continuar retornando à Palavra de Deus.
A melhor maneira de honrar uma história de fidelidade é permanecer fiel ao Deus que esteve presente em toda essa história.
Então, em primeiro lugar, a pergunta que temos de responder hoje não é se a Bíblia está em nossos púlpitos (pela graça e misericórdia de Deus ela está!), mas se ela está em nossos corações. Ela é nosso princípio de fé e prática real ou só um logotipo em nossa igreja?
A Palavra encontrada
A Palavra encontrada
O segundo ponto de destaque é a reação de Josias ao ouvir a leitura do Livro:
“Tendo o rei ouvido as palavras do Livro da Lei, rasgou as suas vestes” (v. 11).
Na tradição hebraica, o ato de rasgar as vestes era uma expressão visceral de luto, terror e arrependimento profundo.
Josias não reagiu com frieza acadêmica analisando uma descoberta arqueológica: "Ual! Um manuscrito antigo para estudar".
Ele reagiu como um réu que acaba de ler a sua sentença. Ele percebeu que o padrão de Deus era altíssimo e que a negligência de seus antepassados havia acendido o "furor" do Senhor.
Jonathan Edwards distinguia “conhecimento opinativo” de “conhecimento sensível” da Verdade (ex: mel)
Josias não apenas “soube” da Lei; ele sentiu o peso da santidade de Deus e a amargura pela quebra da Aliança por parte de seu povo.
Quando ele ouviu a leitura da Palavra o seu coração foi reordenado.
Hoje, o mundo à nossa volta nos diz para ignorarmos qualquer senso de culpa — “culpa é coisa de católico”.
Porém, o Evangelho nos mostra que apenas um coração rasgado pela Palavra pode ser verdadeiramente reformado.
Josias reconheceu que o furor de Deus estava aceso porque “nossos pais não deram ouvidos às palavras deste livro” (v. 13).
Ele assumiu a responsabilidade — não se escondeu atrás das glórias do passado de Judá.
O desafio permanente da IPC de Bauru é conservar um coração sensível — como diria Agostinho, quanto mais o nosso coração é “rasgado” pela Palavra mais nós amaremos ao Deus da Palavra.
A Palavra rasgada
A Palavra rasgada
Alguns comentaristas chamam Josias de o Novo Davi — “fez o que era reto; não se desviou” (v. 3).
Ele liderou a maior reforma de Judá.
Ele demoliu incontáveis altares pagãos, purificou o culto e celebrou a maior Páscoa desde os dias dos juízes.
(veremos isso amanhã de manhã, se Deus permitir)
O ponto é que se fosse possível salvar a nação pelo esforço moral e fidelidade — Josias teria feito.
Mas aqui aparece a maior tensão da nossa história: a reforma de Josias, embora grandiosa e piedosa, não pôde impedir o exílio.
Em 2Rs 23.26 somos informados que, apesar de tudo o que Josias fez, o furor de Deus ainda estava aceso devido aos pecados de Manassés — seu avô.
No fim, Josias morreu numa batalha em Megido (spoiler). A sua reforma foi bela, mas foi insuficiente.
Ele rasgou suas vestes, mas não pôde redimir o pecado de sua nação.
Josias é um “herói” que falha. Contudo, em sua falha, ele nos aponta para o Herói que triunfa.
Como assim?
Josias descobriu o Livro da Lei; Jesus é o Logos, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e verdade.
Josias rasgou suas roupas em terror diante do julgamento; Jesus, a Palavra de Deus, foi rasgado absorvendo o nosso julgamento na cruz.
Somos uma igreja de herança reformada, mas se tentarmos “continuar nos reformando” apenas pelo esforço moral e pela manutenção de alguns costumes, essa reforma será, na melhor das hipóteses, algo temporário e superficial.
Porém se fixarmos o nosso olhar naquele para quem Josias apontava, então seremos continuamente e verdadeiramente reformados pela Palavra.
Jesus é o verdadeiro Rei Reformador. Ele cumpriu perfeitamente a Lei redescoberta por Josias — não apenas reformando um templo; mas reformando nossos corações e fazendo de nós a sua habitação.
Conclusão: princípios para os próximos 70 anos
Conclusão: princípios para os próximos 70 anos
Quais lições levamos para os próximos 70 anos?
A primazia da Palavra sobre a instituição: Spurgeon dizia que a Palavra é como um Leão em uma jaula — basta apenas deixar a porta aberta para que ele saia e faça o que é próprio de sua natureza. Se mantermos o compromisso de manter essa jaula aberta, nossas tradições e instituições serão sempre reformadas pelo evangelho da graça.
A integridade nas pequenas obras: Os obreiros dos dias de Josias agiam com tanta fidelidade que a prestação de contas era desnecessária. Que cada ministério desta igreja — da zeladoria ao conselho — pela graça do Senhor Jesus, continue operando no mesmo nível de integridade que tem operado até hoje.
A humildade do arrependimento: Que o orgulho de nossa história nunca nos impeça de sermos humilhados e constantemente lembrados de nossa dependência de Cristo.
Rasguemos nossos corações todas as vezes que a Palavra nos for anunciada!
Igreja amada, parabéns pelos seus 70 anos!
Que Deus vos abençoe. Amém.
