Os Estatutos do Reino — o povo que ouve o Rei
Timóteo Pires
Um Rei Um Povo Um Livro • Sermon • Submitted • Presented
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LUCAS 6.12-49
LUCAS 6.12-49
12 E aconteceu que, naqueles dias, subiu ao monte a orar e passou a noite em oração a Deus. 13 E, quando já era dia, chamou a si os seus discípulos, e escolheu doze deles, a quem também deu o nome de apóstolos: 14 Simão, ao qual também chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; 15 Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelote; 16 Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor.
17 E, descendo com eles, parou num lugar plano, e também um grande número de seus discípulos, e grande multidão do povo de toda a Judeia, e de Jerusalém, e da costa marítima de Tiro e de Sidom; 18 os quais tinham vindo para o ouvir e serem curados das suas enfermidades, como também os atormentados dos espíritos imundos. E eram curados. 19 E toda a multidão procurava tocar-lhe, porque saía dele virtude que curava todos.
20 E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia:
Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus.
21 Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos.
Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir.
22 Bem-aventurados sereis quando os homens vos aborrecerem, e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do Homem. 23 Folgai nesse dia, exultai, porque é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas.
24 Mas ai de vós, ricos! Porque já tendes a vossa consolação.
25 Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome!
Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis!
26 Ai de vós quando todos os homens falarem bem de vós, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas!
27 Mas a vós, que ouvis, digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos aborrecem, 28 bendizei os que vos maldizem e orai pelos que vos caluniam. 29 Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses. 30 E dá a qualquer que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir. 31 E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira fazei-lhes vós também.
32 E, se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. 33 E, se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo. 34 E, se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto. 35 Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei o bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus. 36 Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.
37 Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; soltai, e soltar-vos-ão. 38 Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando vos darão; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo.
39 E disse-lhes uma parábola: Pode, porventura, um cego guiar outro cego? Não cairão ambos na cova? 40 O discípulo não é superior a seu mestre, mas todo o que for perfeito será como o seu mestre. 41 E por que atentas tu no argueiro que está no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho? 42 Ou como podes dizer a teu irmão: Irmão, deixa-me tirar o argueiro que está no teu olho, não atentando tu mesmo na trave que está no teu olho? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás bem para tirar o argueiro que está no olho de teu irmão.
43 Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto. 44 Porque cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto; pois não se colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas dos abrolhos. 45 O homem bom, do bom tesouro do seu coração, tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração, tira o mal, porque da abundância do seu coração fala a boca.
46 E por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo? 47 Qualquer que vem a mim, e ouve as minhas palavras, e as observa, eu vos mostrarei a quem é semelhante. 48 É semelhante ao homem que edificou uma casa, e cavou, e abriu bem fundo, e pôs os alicerces sobre rocha; e, vindo a enchente, bateu com ímpeto a corrente naquela casa e não a pôde abalar, porque estava fundada sobre rocha. 49 Mas o que ouve e não pratica é semelhante ao homem que edificou uma casa sobre terra, sem alicerces, na qual bateu com ímpeto a corrente, e logo caiu; e foi grande a ruína daquela casa.
ORAR
Introdução
Introdução
Todos aprendemos desde cedo a perceber quem manda.
Ainda que alguns precisem casar para ter a perspectiva certa.
Em casa, na escola, no trabalho. E quando falamos de um rei isso é ainda mais evidente: um rei governa, tem autoridade e determina como funciona o seu reino.
E, como cristãos talvez seja relativamente fácil dizermos:
— “Jesus é Rei.”
É uma frase que a grande maioria de nós, aqui, provavelmente afirmamos sem dificuldade. Mas há algo um pouco mais desconfortável que precisamos entender:
O que significa, na prática, viver debaixo da autoridade, debaixo da pessoa que é esse Rei?
Gostamos da ideia de um Rei que salva, perdoa e nos recebe.
Mas o que acontece quando esse mesmo Rei começa a dizer-nos como devemos viver?
Quando começa a mexer no nosso dinheiro?
Na forma como olhamos para o sucesso?
Na maneira como tratamos uma pessoa que nos magoou?
Na forma como falamos dos outros?
Naquilo que guardamos no coração?
Aí a palavra Rei começa a tornar-se muito mais concreta.
E é exatamente aí que chegamos hoje na nossa série: Um Rei, Um Povo, Um Livro.
Chegamos ao momento em que o povo do Rei ouve e é chamado a atentar para os estatutos que o Rei determina e ensina.
Contexto
Contexto
Nós começámos esta caminhada a ver o Rei chegar, com o nascimento de Jesus. O Rei prometido entrou na história.
Depois de Rei ser apresentado, no seu batismo, Jesus é identificado publicamente como o Filho amado de Deus.
Logo a seguir e antes de começar o seu ministério público, Jesus é confrontado.
Na tentação, Satanás coloca diante de Jesus a possibilidade de seguir outro caminho: procurar poder, reconhecimento e satisfação fora da vontade do Pai.
Mas Jesus permanece fiel. Onde outros falharam, ele permanece obediente.
O Rei que estamos a conhecer não é apenas alguém que reivindica autoridade sobre outros. Ele próprio vive em perfeita submissão ao Pai.
E assim começa o Seu ministério.
Nas aldeias, nas ruas, nas sinagogas, Jesus anuncia o Reino de Deus. e chama pessoas para O seguirem. Ele ensina, cura, liberta e perdoa pecados.
E, ao mesmo tempo, começa a surgir oposição, já anunciada.
As pessoas percebem que Jesus não veio simplesmente acrescentar mais alguma coisa à religião que já existia.
Lucas diz explicitamente que escreve a Teófilo para que este tenha certeza acerca das coisas que lhe foram ensinadas. Portanto, Lucas não está apenas a preservar episódios sobre Jesus; está a mostrar quem Jesus é e o que significa segui-lo.
Ele fala e age com autoridade e isso obriga a uma resposta.
É nesse momento da história que chegamos a Lucas 6.
Até aqui, poderíamos perguntar:
— Quem é este Rei?
Agora começa a surgir outra pergunta:
— Que povo pertence a este Rei e como vive?
Vamos ver o nosso texto em três movimento diferentes:
O Rei Jesus forma o Seu povo
O Rei Jesus mostra como o Seu povo vive
O Rei exige uma resposta
Vamos começar por olhar para o versículo 12.
1. O Rei forma o seu povo
1. O Rei forma o seu povo
Lucas 6.12–19
Reparem como esta secção começa.
Antes de Jesus ensinar.
Antes das bem-aventuranças.
Antes de falar sobre amar os inimigos.
Antes de falar sobre julgar, perdoar, sobre árvores e o frutos…
12 E aconteceu que, naqueles dias, subiu ao monte a orar e passou a noite em oração a Deus.
Jesus sobe ao monte para orar… toda a noite!
E, quando amanhece, chama os seus discípulos e escolhe doze de entre eles. Lc 6.13
Escolha dos doze
Escolha dos doze
Jesus está a fazer muito mais do que organizar uma equipa. Para qualquer pessoa familiarizada com a história de Israel, aqueles doze remetem imediatamente para as doze tribos. Jesus escolhe doze e chama-lhes apóstolos. Lucas está a mostrar-nos: o Rei está a reunir o Seu povo.
E esta ordem é importante. Jesus não começa por entregar um conjunto de regras e perguntar: ‘Quem quer seguir isto?’
Primeiro chama pessoas para Si. Forma o Seu povo. E depois ensina esse povo a viver. Portanto, aquilo que vamos ouvir não é um manual de autoajuda. Jesus está a dizer: ‘Vocês pertencem-me. É assim que o meu povo vive.’”
Mas já lá iremos…
A Multidão
A Multidão
No versículo 17, a cena abre.
Jesus desce com os doze.
Quando Jesus desce, a cena abre-se. E Lucas diz-nos que há discípulos e uma enorme multidão vinda da Judeia, Jerusalém, Tiro e Sidom. Vieram ouvi-Lo e ser curados, e Lucas diz que todos procuravam tocar-Lhe, porque dEle saía poder.
Aplicação
Aplicação
Vamos parem um pouco e reparar naquilo que Lucas está a fazer.
Antes de Jesus nos ensinar como viver, Lucas lembra-nos Quem está a falar. Este não é apenas mais um mestre religioso. É Aquele que tem autoridade, que cura e liberta. Aquele para Quem as pessoas correm, porque Nele encontram aquilo que não encontram no deserto (referência à pregação anterior em Mc 1).
É o Rei. E agora o Rei vai falar.
Por isso, quando chegamos ao versículo 20 e Jesus levanta os olhos para os seus discípulos, podemos esperar que o Rei nos oriente, nos ensine, nos diga como o Seu povo deve viver.
E isto muda tudo.
Porque, se Jesus for apenas um mestre, eu posso escolher aquilo com que concordo. E…
Posso guardar algumas frases…e rejeitar outras.
Posso dizer:
“Amar os inimigos? Isso já me parece excessivo.”
“Não julgar? Depende.”
“Dar a quem pede? Talvez.”
Mas, se Jesus é Rei, a questão deixa de ser se eu gosto — ou não — do que Ele diz. A questão passa a ser se eu estou disposto a ouvi-lo.
E é exatamente isso que esta passagem vai fazer.
Jesus escolhe os Seus, reúne-os à Sua volta, para depois ensinar:
— “Se vocês são o meu povo, então têm de aprender a olhar para a vida de uma maneira diferente.”
E é aí que entramos no segundo movimento deste texto.
Porque o Rei não forma apenas um povo: O Rei mostra como o seu povo vive.
2. O Rei mostra como o seu povo vive
2. O Rei mostra como o seu povo vive
Lucas 6.20–45
Jesus começa a falar.
Reparem no versículo 20 novamente:
20 Então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes:
Jesus não está, em primeiro lugar, a falar para uma multidão anónima.
Ele olha para os seus discípulos. Para aqueles que O seguem. Para aqueles que Ele está chamar, a formar como Seu povo.
E aquilo que vai dizer é surpreendente, porque Jesus começa por mexer numa das coisas mais profundas em nós: a forma como avaliamos se uma vida está a correr bem ou mal.
A. O Reino muda aquilo a que chamamos uma vida boa
A. O Reino muda aquilo a que chamamos uma vida boa
Jesus diz:
(…)
Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus.
21 Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos.
Bem-aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis de rir.
E depois acrescenta:
22 Bem-aventurados sois quando os homens vos odiarem e quando vos expulsarem da sua companhia, vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome como indigno, por causa do Filho do Homem.
Bem-aventuranças
Bem-aventuranças
Interessante que, primeiramente para os Seus, Jesus não traz lembrança de coisas boas, associadas à felicidade.
Se formos sinceros, esta não é a lista que nós faríamos.
Se nos perguntassem como é uma vida verdadeiramente feliz e abençoada, provavelmente falaríamos de saúde, estabilidade, uma boa família, segurança financeira, respeito. Dificilmente colocaríamos na lista pobreza, fome, choro e rejeição.
Mas o Rei, o Senhor Jesus, coloca.
E nunca é demais ressalvar que Jesus não está a romantizar a pobreza ou o sofrimento, nem a dizer simplesmente que todo o pobre pertence ao Reino e todo o rico está fora dele. O texto obriga-nos a olhar mais fundo.
Jesus está a falar aos seus discípulos.
E no versículo 22 explica que alguns deles serão rejeitados “por causa do Filho do Homem”.
O que Jesus está a fazer é mudar a forma como os seus discípulos avaliam a realidade.
Está a dizer:
— “Não decidam se Deus está convosco apenas olhando para aquilo que possuem agora.”
Porque uma pessoa pode ter pouco e possuir o Reino.
Pode chorar agora e ainda assim ter razões profundas para esperança.
Pode ser rejeitada pelos homens e, ainda assim, ser conhecida e recebida por Deus.
Ou seja: as circunstâncias presentes não contam toda a história.
E isto era importante para aqueles discípulos.
Seguir Jesus não lhes garantiria conforto, aprovação ou uma vida mais fácil. Aliás, Jesus está a avisar exatamente do contrário: que pode haver rejeição precisamente porque pertencem a Ele.
Aplicação
Aplicação
E isto continua a ser difícil também para nós.
Porque todos temos enorme facilidade em medir a bênção de Deus através das circunstâncias.
Quando tudo corre bem:
— “Deus tem sido tão bom para mim.” — E é verdade.
Mas quando alguma coisa começa a falhar…
quando o dinheiro não chega como gostaríamos…
quando aparece doença…
quando uma relação se quebra…
quando somos rejeitados…
quando seguir Jesus nos custa alguma coisa…
começamos rapidamente a perguntar:
— “Então onde está Deus?”
E Jesus diz-te:
— “não avalies a tua relação com Deus apenas a partir daquilo que consegues ver agora.”
O Reino de Deus obriga-nos a olhar para a vida de uma outra maneira.
Mas depois Jesus vira o quadro.
Ais
Ais
24 Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação.
25 Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome.
Ai de vós, os que agora rides! Porque haveis de lamentar e chorar.
26 Ai de vós, quando todos vos louvarem! Porque assim procederam seus pais com os falsos profetas.
Jesus propositadamente e de forma abrupta, coloca o contraste.
E não é apenas uma divisão da humanidade em pobres bons e ricos maus. Mas um confronto naquilo em que confiamos.
Aplicação
Aplicação
É possível ter conforto, dinheiro, segurança e aprovação — tudo aquilo que o mundo chama uma vida bem-sucedida — e ainda assim não possuir aquilo que realmente importa.
E Jesus diz:
— “Tenham cuidado.”
Porque aquilo que HOJE parece segurança pode transformar-se precisamente naquilo que vos impede de perceber que precisam de Deus.
O Senhor Jesus propões duas maneiras de olhar para a vida.
Uma pergunta: “Quanto tenho?” e mede a vida pelo que é visível agora
A outra pergunta: “A quem pertenço?”, com os olhos no Reino
E talvez uma boa pergunta para nós possa ser:
— O que é que eu preciso de ter para sentir que a minha vida está bem?
O que é que, se desaparecesse amanhã, me faria sentir que tudo desabou?
Dinheiro?
Aprovação?
O controlo?
Jesus está a ensinar o Seu povo a colocar o peso da vida noutro lugar, que não se perder, nem desvanece.
No versículo 27, Jesus avança ainda mais. E reparem como começa:
27 Mas a vós, que ouvis, digo:
“Se estão realmente dispostos a ouvir-me, então atentem para isto. Porque agora o ensino torna-se-á ainda mais desconfortável.”
B. O Reino muda a forma como tratamos os outros
B. O Reino muda a forma como tratamos os outros
(…) amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam;
Amar os inimigos
Amar os inimigos
É muito fácil passar rapidamente por esta frase porque já a ouvimos muitas vezes, mas pensemos no que Jesus está realmente a expor.
Jesus não diz apenas: ‘Tolerem os inimigos’ ou ‘Não lhes façam mal’. O imperativo é: Amai. E Jesus torna esse amor concreto: façam bem, bendigam, orem. Não está a exigir uma emoção artificial; está a mostrar-nos como agir.
Aplicação
Aplicação
Porque é relativamente fácil dizer:
— “Eu amo toda a gente.”
O problema é quando começamos a dar nome à pessoa:
— Aquela pessoa que nos magoou.
— Aquela que falou de nós.
— Aquela que foi injusta.
— Aquela que nunca reconheceu o que fizemos.
— Aquela pessoa de quem preferimos manter distância porque, se formos sinceros, ainda temos alguma coisa guardada cá dentro.
É aí que este texto começa realmente a incomodar.
Porque a lógica normal das nossas relações é a reciprocidade.
Se me tratares bem, trato-te bem.
Se fores simpático comigo, sou simpático contigo.
Se me ajudares, ajudo-te.
Se me respeitares, respeito-te.
MAS se me magoares… então as regras mudam.
O Senhor Jesus diz:
— “não é assim que o meu povo vive.”
E deixa isso bem marcado nas repetições (três vezes) do versículos 32 a 34: amar quem nos ama, fazer bem a quem nos faz bem e dar esperando receber de volta não distingue o discípulo.
— “Também os pecadores fazem isso.”
Ou seja: não há nada distintivamente cristão em tratar bem quem nos trata bem. Qualquer pessoa consegue fazer isso.
O Reino começa a tornar-se visível precisamente quando a nossa resposta deixa de ser determinada pela forma como fomos tratados.
35 Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei o bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus. 36 Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.
Aqui está o coração de todo este ensino.
O cristão não é chamado simplesmente a ser uma pessoa “boazinha”. O padrão do discípulo é o caráter do Pai. Ele é benigno até para com ingratos e maus. Por isso, eu não trato o outro segundo aquilo que ele fez comigo; trato-o à luz da misericórdia que eu próprio recebi de Deus Deus Pai, Criador e Senhor dos Céus e da Terra.
Isso muda tudo. Porque quando começamos a fazer contas…
— “Ele não merece.”, provavelmente não.
— “Ela nunca me pediu desculpa.” Talvez não.
— “Depois de tudo o que me fez?”…
Jesus não diz que aquilo que aconteceu deixa de ser errado.
Jesus não chama bem ao mal, nem nos pede para fingir que injustiça ou pecado deixaram de o ser. Mas o pecado do outro não tem de decidir a pessoa em que eu me transformo.
O comportamento dele não governa o meu.
O meu Pai Celeste deve governar.
Existe alguém a quem eu estou a tratar segundo aquilo que essa pessoa fez, em vez de a tratar segundo a misericórdia que eu próprio recebi de Deus?
Porque é muito fácil gostar da misericórdia de Deus quando somos nós a recebê-la. É bastante mais difícil quando Jesus nos chama a demonstrá-la.
E é neste contexto que Jesus continua, no versículo 37:
Julgamento
Julgamento
37 Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados;
É uma das frases mais citadas e mais mal entendidas de Jesus. Ele não está a abolir o discernimento entre certo e errado; os próprios versículos seguintes tornam isso impossível. O problema é outro: somos extremamente competentes a identificar o pecado do outro e estranhamente cegos para o nosso.
E Jesus usa uma imagem quase que cómica Lc 6.41
41 Por que vês o cisco no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho?
Imaginem a cena.
Eu tenho uma trave a sair do olho e digo:
“Vem cá, deixa-me ajudar-te. Parece-me que tens qualquer coisa no olho.”
É ridículo.
E é exatamente por isso que Jesus escolhe a imagem.
Porque é fácil sermos muito exigentes com os pecados que não são os nossos.
Muito lúcidos acerca das falhas das outras pessoas.
Muito rápidos a encontrar justificações para nós próprios.
“Sim, eu disse aquilo, mas estava cansado.”
“Sim, reagi mal, mas viste o que ele fez?”
“Sim, tenho este problema, mas não é tão grave como o dela.”
O ensino de Jesus é muito simples: começa por ti.
Não para permaneceres indiferente ao teu irmão.
Há lugar para corrigir e ajudar o irmão — mas não a partir de uma posição de superioridade.
Primeiro: olha para ti, tira o que te atrapalha, então ajuda.
Reparem que Jesus vai sendo cada vez mais profundo… e continua a mostrar-nos que…
C. O Reino muda-nos de dentro para fora
C. O Reino muda-nos de dentro para fora
E faz isso com ilustrações
43 Não há árvore boa que dê mau fruto; nem tampouco árvore má que dê bom fruto.
Jesus muda a imagem. As traves e ciscos agora dão lugar a árvores e frutos.
E o princípio é simples:
Uma árvore acaba por revelar aquilo que é através do fruto que produz.
Não precisamos de colocar uma placa à frente de uma macieira a dizer:
“Macieira.”
Esperamos algum tempo.
Quando aparecem maçãs, percebemos.
Aplicação
Aplicação
E Jesus diz que acontece a mesma coisa connosco.
O nosso comportamento acaba por revelar o que existe dentro de nós.
45 O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração.
Não se trata apenas de ter cuidado com o que dizemos…
As palavras são o fruto e o fruto revela a arvore.
Com certeza já nos aconteceu, debaixo de pressão — ou não — dizermos algo e de imediato:
— “Não era isso que eu queria dizer.”, o que provavelmente até é verdade.
Mas o ensino de Jesus leva-nos a questionar de onde é que isso veio.
A pressão não cria necessariamente aquilo que está no coração. Muitas vezes, revela-o.
A inveja revela.
A crítica constante revela.
A maneira como falamos de alguém quando essa pessoa não está presente revela.
Aquilo que sai de nós quando não conseguimos o que queremos, revela.
Em momento algum, Jesus está apenas interessado em produzir discípulos com comportamentos mais bonitos e polidos. Ele vai à raiz. Ao coração.
Está a formar um povo diferente de dentro para fora.
E reparem no caminho que fizemos:
Jesus mudou a forma como vemos a vida, a forma como tratamos os outros e agora leva-nos ao nosso próprio coração.
Mas alguém pode ouvir tudo isto, concordar com tudo isto, até admirá-lo… e continuar exatamente igual.
Por isso, Jesus não termina com mais uma regra.
Termina com uma pergunta de confrontação:
“Porque me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?”
O Rei mostrou como o seu povo vive.
Agora vai perguntar: o que vais fazer com aquilo que acabaste de ouvir?
3. O Rei exige uma resposta
3. O Rei exige uma resposta
Lucas 6.46–49
Depois de tudo aquilo que Jesus acabou de ensinar, seria fácil terminar com uma lista.
“Então, esta semana tentem ser mais misericordiosos.”
“Julguem menos.”
“Perdoem mais.”
“Tenham cuidado com aquilo que dizem.”
Mas Jesus não termina assim. Ele termina com uma pergunta.
E talvez seja a pergunta mais desconfortável de toda a passagem:
46 Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?
Reparem bem no problema. Estas pessoas não rejeitam Jesus.
Não dizem:
— “Não acreditamos em ti.”
Não dizem:
— “Não queremos saber do teu ensino.”
Pelo contrário, chamam-lhe:
— “Senhor, Senhor.”
Conhecem a linguagem certa.
O problema está na distância entre aquilo que dizem… e aquilo que fazem.
E isto torna esta palavra particularmente séria para nós.
Porque, mais uma vez…
É possível estar na igreja, ouvir a Palavra durante anos e cantar ‘Jesus Cristo é Senhor’ — e, ainda assim, existir uma área da vida onde a nossa resposta prática continua a ser: “Aqui não.”.
Jesus não está a perguntar: — “Sabes aquilo que eu ensinei?”
Ele pergunta: — “Ouvindo, fazes tu aquilo que eu digo?”
E então conta uma pequena história para ilustrar dois ouvintes bem diferentes do Seu ensino Lc 6.47-48.
Um homem que constrói uma casa. Mas reparem no detalhe: este homem não escolheu o caminho mais rápido. Ele cavou. E depois continuou a cavar. Até encontrar fundamento firme. Provavelmente durante algum tempo não havia grande coisa para mostrar.
Enquanto um outro já podia estar a levantar paredes, este ainda estava a cavar.
E isso é importante.
Obedecer a Jesus nem sempre parece imediatamente vantajoso.
Amar quem nos magoa pode parecer fraqueza;
Perdoar pode parecer perda.
…
Mas aquele homem continua a cavar, porque percebe uma coisa: a parte mais importante de uma casa é precisamente aquela que, depois de construída, quase ninguém vê, o fundamento.
Na continuação da história, vem a tempestade.
Jesus não diz que o homem que lhe obedece não enfrenta a tormenta.
(sabemos que a tempestade chega às duas casas)
Seguir Jesus não significa construir uma vida onde nada de difícil acontece. A diferença não está na ausência de tempestade.
Está sim, no fundamento.
Depois Jesus descreve o segundo homem que constroi uma casa sobre a terra sem alicerces
E aqui está talvez o detalhe mais assustador da parábola: ele também ouviu. As duas pessoas ouviram Jesus.
A diferença entre elas não é que uma conhecia as palavras de Jesus e a outra nunca as tinha escutado.
As duas ouviram. Só uma praticou.
E durante algum tempo talvez as duas casas parecessem perfeitamente normais, com paredes, tetos, se calhar até portas bonitas.
Tinham paredes.
Tinham teto.
Podiam ter portas bonitas.
Vistas de fora, talvez ninguém percebesse a diferença.
Até chegar a terrível tempestade.
E então aquilo que estava escondido tornou-se evidente.
Uma tinha fundamento… a outra não.
O verdadeiro teste da nossa relação com a palavra de Deus não é aquilo que sabemos sobre ela É aquilo que construímos sobre ela.
E isto leva-nos de volta ao movimento de toda esta passagem:
O Rei formou o seu povo.
O Rei mostrou ao seu povo como viver.
E agora o Rei exige uma resposta.
Porque não basta estar perto do Rei. Não basta ouvi-Lo. Nem sequer basta chamar-lhe “Rei”.
O povo do Rei ouve o Rei, confia Nele e vive segundo a sua palavra.
Aplicação
Aplicação
Depois de ouvirmos tudo isto, podemos facilmente sair daqui com uma conclusão errada:
“Tenho de fazer melhor.”
“Tenho de amar mais.”
“Tenho de obedecer mais para provar que sou digno deste Reino.”
…
Queridos irmãos e amigos, não é isso que Lucas nos está a mostrar.
Lembrem-se onde começámos.
Jesus primeiro chamou os seus. Jesus primeiro formou o seu povo.
E só depois começou a ensinar como esse povo vive.
A obediência não é o preço de entrada no Reino.
A obediência é o fruto de pertencermos ao Rei.
E há algo ainda mais profundo.
Este Rei que nos chama à obediência não nos pede para percorrer um caminho que Ele próprio recusou percorrer.
Nós já o vimos.
Na tentação, quando lhe foi oferecido um caminho mais fácil, Jesus permaneceu fiel ao Pai.
E à medida que o Evangelho de Lucas avança, essa obediência vai tornar-se ainda mais evidente.
Jesus caminhará para Jerusalém, onde será rejeitado, traído, tratado como inimigo.
E aquilo que Ele ensinou aqui não ficará apenas nas Suas palavras.
No momento em que o crucificam, Lucas vai mostrar-nos Jesus a dizer:
— “Pai, perdoa-lhes.”
O Rei que diz: — “Amai os vossos inimigos”, é o Rei que amou os seus inimigos.
O Rei que diz: — “sede misericordiosos”, é o Rei cuja misericórdia nos alcançou.
O Rei que nos chama a obedecer é aquele que foi obediente ao Pai até ao fim.
E é por isso que ser cristão não é apenas tentar imitar um grande professor.
É confiar NO REI dos Reis, O Senhor Jesus!
É receber a sua misericórdia.
É pertencer-Lhe.
E, porque Lhe pertencemos, aprender a construir a nossa vida sobre aquilo que Ele diz.
Jesus não é apenas o Rei que nos diz como viver ou pede mudança de comportamento.
É o Rei que nos salva, nos recebe e nos transforma para vivermos debaixo do Seu governo.
Conclusão
Conclusão
No início fizemos uma pergunta:
O que significa, na prática, viver debaixo deste Rei?
Lucas 6 respondeu-nos.
Viver debaixo deste Rei significa aprender a olhar para a vida segundo os valores do Seu Reino, tratar os outros segundo a misericórdia do Pai e permitir que Ele confronte o nosso próprio coração. E, quando o Rei fala, não queremos apenas ouvir. Queremos obedecer.
Por isso, não saiamos daqui a questionar se:
— “Gostei do que Jesus ensinou?”
ou:
— “Concordo com aquilo que Ele disse?”
Que a pergunta seja muito mais pessoal e profunda:
— Se Jesus é realmente o meu Rei, onde é que isso se vê na minha vida?
E talvez também haja lugar para uma segunda pergunta:
— Onde é que ainda Lhe chamo “Senhor”, mas continuo a dizer: “aqui mando eu”?
Talvez seja no dinheiro.
Talvez numa relação.
Talvez na forma como continuo a tratar alguém que me magoou.
Não se trata de construir uma fachada cristã mais bonita.
Trata-se de cavar fundo, porque todos nós estamos a construir uma vida. E todos nós acabamos por colocar o peso dessa vida em algum lugar.
Começámos com uma pergunta:
— O que significa viver debaixo deste Rei?
A resposta de Jesus é extraordinariamente simples:
— O povo do Rei ouve o Rei, confia Nele e vive segundo a Sua palavra.
ORAR
e se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, orar e buscar a minha presença, e se desviar dos seus maus caminhos, então ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra.
