Ex 18.13-26 | Escolhas responsáveis à luz da fé

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Reflexão a respeito de critérios para escolha de lideranças públicas para conduzir o país em eleições democráticas

Notes
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Introdução

[Leitura de Êxodo 18.13–26. Após a leitura, breve pausa.]
Irmãos, a quem nós confiamos responsabilidades importantes? Quando precisamos de alguém para cuidar de nossa saúde, administrar nossos recursos ou ensinar nossos filhos, procuramos saber alguma coisa sobre essa pessoa. Queremos conhecer seu preparo. Procuramos referências. Observamos seu histórico. Entendemos que uma escolha pode trazer consequências para pessoas que amamos.
Quando falamos da vida pública, essa responsabilidade se amplia. Decisões de quem exerce autoridade alcançam famílias que nunca conheceremos. Alcançam o trabalhador que sai de madrugada, a criança que precisa aprender, o comerciante que procura manter seu negócio, a pessoa ameaçada pela violência e quem não consegue se sustentar sem auxílio.
Por isso, nossa participação pública também precisa ser examinada diante de Deus. A fé que confessamos no culto alcança nossas decisões durante a semana. Ela orienta o modo como trabalhamos, educamos nossos filhos, usamos nosso dinheiro e tratamos nossos vizinhos. Também deve orientar o modo como participamos da sociedade.
Hoje vamos refletir sobre princípios. A igreja precisa ensinar a Palavra e ajudar seus membros a amadurecerem no discernimento. Cada um de nós responde diante de Deus pelo modo como usa sua consciência e pelas responsabilidades que recebe.
A passagem que lemos não descreve uma eleição moderna. Israel estava no deserto, e Moisés julgava as questões do povo. Mas havia um problema: a responsabilidade se concentrava nele, as pessoas esperavam durante muito tempo e aquela rotina estava esgotando tanto o líder quanto o povo. Jetro percebeu o problema e propôs uma organização melhor, com responsabilidades distribuídas entre pessoas qualificadas.
Desse texto partiremos para outras passagens. Em cada uma, vamos procurar entender o que Deus ensina e como esse ensino alcança nossa responsabilidade hoje.
Nossa ideia central é esta: nossa fé exige que avaliemos o caráter, a capacidade e o compromisso público daqueles a quem confiamos poder.
Precisamos reconhecer, desde o começo, nossos limites. Não conhecemos todos os fatos. Podemos interpretar mal uma informação e podemos nos decepcionar com alguém. A Bíblia não nos promete uma escolha infalível; ela nos chama a uma escolha responsável. E essa responsabilidade continua depois que fazemos a escolha.
Veremos 4 ensinos que nos ajudarão na escolha de nossas autoridades públicas.

1 Escolher pessoas capazes e íntegras

Texto principal: Êxodo 18.19–23, com destaque para o versículo 21.
Êxodo 18.19–23 NVI
19 Agora, ouça-me! Eu lhe darei um conselho, e que Deus esteja com você! Seja você o representante do povo diante de Deus e leve a Deus as suas questões. 20 Oriente-os quanto aos decretos e leis, mostrando-lhes como devem viver e o que devem fazer. 21 Mas escolha dentre todo o povo homens capazes, tementes a Deus, dignos de confiança e inimigos de ganho desonesto. Estabeleça-os como chefes de mil, de cem, de cinqüenta e de dez. 22 Eles estarão sempre à disposição do povo para julgar as questões. Trarão a você apenas as questões difíceis; as mais simples decidirão sozinhos. Isso tornará mais leve o seu fardo, porque eles o dividirão com você. 23 Se você assim fizer, e se assim Deus ordenar, você será capaz de suportar as dificuldades, e todo este povo voltará para casa satisfeito”.
Exposição
[Retomar Êxodo 18.21 na Bíblia.]
Êxodo 18.21 NVI
21 Mas escolha dentre todo o povo homens capazes, tementes a Deus, dignos de confiança e inimigos de ganho desonesto. Estabeleça-os como chefes de mil, de cem, de cinqüenta e de dez.
Observem que a solução de Jetro envolve organização e pessoas. Não bastava criar funções; era necessário escolher quem teria condições de exercê-las. Uma boa estrutura pode ser comprometida por pessoas desonestas, assim como boas intenções podem se perder em uma administração incapaz de atender às necessidades reais.
O primeiro critério é capacidade. Havia questões para ouvir, conflitos para compreender e decisões para tomar. Era preciso discernimento. Aquelas pessoas deveriam reconhecer quais casos poderiam resolver e quais precisariam encaminhar a Moisés. Capacidade incluía conhecer os próprios limites.
Isso nos ensina a perguntar se alguém está preparado para a responsabilidade que deseja assumir. Sabe ouvir? Entende o que está sob sua competência? Consegue organizar o trabalho? Reconhece quando precisa de auxílio? Aceita ser corrigido? A simpatia de uma pessoa pode tornar a convivência agradável, mas não resolve, sozinha, os problemas de uma comunidade.
O texto também fala de temor de Deus. Em Israel, isso tinha um sentido religioso concreto: eram pessoas chamadas a viver sob a aliança e a reconhecer a autoridade do Senhor. Não devemos retirar esse sentido do texto. Ao aplicar o princípio à vida pública de uma sociedade plural, porém, não podemos tratar uma declaração religiosa como prova suficiente de qualificação. Dizer que teme a Deus e agir como quem não presta contas a ninguém são coisas incompatíveis.
O temor do Senhor confronta a presunção. Lembra ao ser humano que ele não é a medida final do bem e do mal. Uma pessoa pode receber autoridade sobre outras e continuar sendo responsável por suas decisões. Seu cargo não a coloca acima da verdade.
Jetro também destaca a confiabilidade e a rejeição ao ganho desonesto. Quem vai julgar precisa ser alguém cuja decisão não esteja à venda. Uma pessoa não pode receber uma responsabilidade para atender à justiça e utilizá-la para favorecer quem lhe oferece alguma vantagem.
Essas qualidades pertencem umas às outras. Capacidade sem integridade pode tornar a injustiça mais eficiente. Integridade sem preparo pode deixar problemas importantes sem resposta. Por isso, precisamos observar o conjunto, e não selecionar apenas a qualidade que confirma uma preferência que já tínhamos.
Ilustração
Pensem em uma situação simples. Um condomínio precisa contratar alguém para uma manutenção que envolve a segurança dos moradores. Um dos interessados é muito simpático e conhece várias pessoas do prédio. Outro fala pouco, mas apresenta experiência, referências e um orçamento que pode ser verificado. Ninguém deveria dispensar a avaliação técnica apenas porque gostou mais da conversa de um deles.
Agora imaginem que o profissional mais experiente propõe receber uma parte por fora e esconder informações dos moradores. Sua experiência deixa de ser suficiente. Precisamos de preparo e honestidade. Quanto maior a responsabilidade, mais sério deve ser o discernimento.
Aplicação
Na vida pública, observemos o histórico. Há coerência entre discurso e prática? As promessas respeitam as atribuições da função? As informações apresentadas podem ser verificadas? Como a pessoa reage quando é questionada? Como trata recursos que pertencem a todos?
Também precisamos avaliar propostas com humildade. Algumas parecem atraentes até perguntarmos como serão executadas, de onde virão os recursos e quais consequências podem produzir. A responsabilidade começa quando estamos dispostos a fazer perguntas que uma propaganda não responde.
E precisamos aplicar os mesmos critérios a todos. Se condenamos uma prática em alguém de quem discordamos, não podemos celebrá-la quando aparece em alguém de quem gostamos. Nossa consciência não pode mudar de padrão conforme o nome envolvido.
Essa passagem também nos examina. Valorizamos a integridade quando ela nos custa alguma coisa? Aceitamos perder uma vantagem para preservar o que é justo? Pedir honestidade de quem exerce autoridade faz parte de uma vida em que nós mesmos buscamos andar na verdade.
Antes de confiar uma responsabilidade, perguntemos: essa pessoa demonstra capacidade para servir e caráter para merecer confiança? Agora precisamos avançar: mesmo uma pessoa capaz e íntegra deve reconhecer os limites de seu poder.

2 Preservar a liberdade de consciência e participar da vida pública

Texto principal: Mateus 22.15–22. Apoio: Atos 5.27–29 e 1 Pedro 2.16–17.
Exposição
[Ler Mateus 22.15–22.]
Mateus 22.15–22 NVI
15 Então os fariseus saíram e começaram a planejar um meio de enredá-lo em suas próprias palavras. 16 Enviaram-lhe seus discípulos junto com os herodianos, que lhe disseram: “Mestre, sabemos que és íntegro e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. Tu não te deixas influenciar por ninguém, porque não te prendes à aparência dos homens. 17 Dize-nos, pois: Qual é a tua opinião? É certo pagar imposto a César ou não?” 18 Mas Jesus, percebendo a má intenção deles, perguntou: “Hipócritas! Por que vocês estão me pondo à prova? 19 Mostrem-me a moeda usada para pagar o imposto”. Eles lhe mostraram um denário,20 e ele lhes perguntou: “De quem é esta imagem e esta inscrição?” 21 “De César”, responderam eles. E ele lhes disse: “Então, dêem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. 22 Ao ouvirem isso, eles ficaram admirados; e, deixando-o, retiraram-se.
Jesus recebe uma pergunta preparada para colocá-lo em dificuldade. A questão sobre o tributo a César tinha implicações políticas e religiosas. Sua resposta reconhece uma obrigação civil, mas também afirma uma responsabilidade perante Deus que não pode ser absorvida pelo poder humano.
César tem uma esfera de responsabilidade. Ele não pode ocupar o lugar de Deus. Jesus não desenvolve aqui todos os detalhes de uma constituição ou de um sistema moderno de liberdade religiosa. Mas nos dá uma distinção decisiva: a autoridade humana não tem direito a tudo.
Em Atos dos Apóstolos 5, quando os apóstolos recebem uma ordem para abandonar sua obediência a Deus, essa fronteira se torna concreta. Eles afirmam a prioridade da obediência ao Senhor. Em 1Pedro 2.17, o imperador deve ser honrado, enquanto a Deus se deve temor. A honra ao governante não se transforma em entrega absoluta da consciência.
A partir desses fundamentos, nossa tradição batista reconhece que a igreja e o Estado possuem naturezas, finalidades e responsabilidades distintas. A igreja anuncia o evangelho, ensina a Palavra e forma discípulos. A autoridade civil administra responsabilidades públicas. Não possui meios para produzir arrependimento, fé ou novo nascimento.
Uma profissão de fé exigida pela força não demonstra conversão. O poder pode pressionar alguém a repetir palavras, mas não pode tornar essas palavras uma expressão verdadeira do coração. A fé é resposta a Deus; a coerção não pode ocupar o lugar da obra do Espírito e da proclamação do evangelho.
Ilustração histórica
É aqui que nossa história batista oferece uma contribuição importante. No século dezessete, Roger Williams defendeu a liberdade de consciência e estabeleceu Providence, em 1636, no território que se tornaria Rhode Island. Sua ligação formal com os batistas foi breve, mas seu papel nessa história foi significativo.
John Clarke era médico e pastor batista. Ele atuou durante anos na Inglaterra em favor da colônia e teve papel decisivo na obtenção da Carta Real de 1663. Essa carta assegurou ampla liberdade religiosa em um tempo marcado por perseguições e pela ligação entre poder político e religião oficial.
Essa foi uma experiência pioneira. O ponto não era simplesmente pedir que uma religião dominante suportasse a presença de outras. Tratava-se de reconhecer que a consciência religiosa não estava à disposição do governante. A liberdade não deveria depender da simpatia de quem ocupava o poder pela fé de determinado grupo.
Esses homens tinham convicções religiosas profundas. Defenderam a liberdade de consciência porque levavam suas convicções a sério. Podemos reconhecer a importância dessa contribuição sem transformar seus personagens em pessoas infalíveis ou atribuir a eles, sozinhos, toda a construção da democracia moderna. Ainda assim é evidente sua importância pública para a liberdade religiosa e democracia moderna por causa de suas convicções de fé.
Aplicação
A consequência para nós é clara. O Estado não precisa professar nossa fé para proteger nossa liberdade de vivê-la. E a liberdade que defendemos para nossa família e nossa igreja precisa alcançar também quem não crê como nós.
Isso não significa que todas as crenças sejam verdadeiras. Nós confessamos Jesus Cristo como Senhor. Anunciamos seu evangelho e convidamos as pessoas à fé. Ao mesmo tempo, reconhecemos que a autoridade civil não deve impor essa profissão de fé.
Quando defendemos um Estado laico nesse sentido, defendemos uma organização pública sem religião oficial, que também não imponha o ateísmo. A liberdade inclui crer, não crer e manifestar convicções, com respeito aos direitos das outras pessoas. Ela não coloca práticas violentas ou violações de direitos acima da responsabilidade pública simplesmente porque alguém lhes dá uma justificativa religiosa.
E não confundamos separação institucional com indiferença. Nossa fé deve orientar nossas convicções, escolhas e defesas no espaço público. Podemos participar de debates, trabalhar em instituições públicas, contribuir com projetos e assumir responsabilidades. Fazemos isso com preparo, honestidade e respeito ao próximo.
A igreja também precisa preservar sua liberdade para ensinar e confrontar. Quando entrega sua identidade a uma personalidade política, corre o risco de se sentir obrigada a justificar amanhã aquilo que hoje ensinaria a condenar. A fidelidade à Palavra precisa permanecer livre desses compromissos.
Perguntemos, então: quem pretende exercer autoridade respeita a consciência das pessoas? Aceita limites e fiscalização? Protege a liberdade inclusive de quem discorda? E nós: estamos dispostos a defender esses direitos quando não somos os beneficiários imediatos?
A liberdade preserva um espaço importante da vida humana. Agora precisamos considerar o que esperamos que a autoridade faça com as responsabilidades que legitimamente recebe.

3 Exigir justiça e condições para uma vida digna e produtiva

Texto principal: Salmo 72.1–4,12–14. Apoio: Deuteronômio 16.18–20; Romanos 13.3–4; Jeremias 29.4–7; Deuteronômio 24.14–15.
Exposição
[Ler Salmo 72.1–4 e Sl 72.12–14.]
Salmo 72.1–4 NVI
1 Reveste da tua justiça o rei, ó Deus, e o filho do rei, da tua retidão, 2 para que ele julgue com retidão e com justiça os teus que sofrem opressão. 3 Que os montes tragam prosperidade ao povo, e as colinas, o fruto da justiça. 4 Defenda ele os oprimidos entre o povo e liberte os filhos dos pobres; esmague ele o opressor!
Salmo 72.12–14 NVI
12 Pois ele liberta os pobres que pedem socorro, os oprimidos que não têm quem os ajude. 13 Ele se compadece dos fracos e dos pobres, e os salva da morte. 14 Ele os resgata da opressão e da violência, pois aos seus olhos a vida deles é preciosa
O Salmo 72 é uma oração pelo rei. O salmista pede a Deus que seu governo seja marcado pela justiça. E essa justiça aparece em situações concretas: o necessitado é ouvido, o oprimido é defendido e quem explora outras pessoas é enfrentado.
Observem como o valor de uma vida aparece na maneira como ela é protegida. Quem não tem recursos, influência ou pessoas importantes ao seu lado continua tendo dignidade. A justiça não pode ser um serviço disponível apenas para quem consegue pagar por atenção.
O mesmo salmo que pede socorro para o vulnerável pede o enfrentamento do opressor. Proteger quem sofre também exige conter quem produz sofrimento. Por isso, justiça envolve cuidado e responsabilização. Romanos 13.3–4 acrescenta que enfrentar o mal faz parte da função da autoridade civil.
Essa responsabilidade não autoriza crueldade ou vingança. Deuteronômio 16.18–20 exige julgamento justo, sem parcialidade e sem suborno. Não basta punir alguém; é necessário apurar a verdade e agir com justiça. Uma autoridade que trata inocentes como culpados produz o mal que deveria combater.
O Salmo 72 também descreve paz e abundância. Seu horizonte de reinado justo é maior do que qualquer governante humano e, na leitura cristã, aponta para a plenitude do reinado de Cristo. Não vamos atribuir essa plenitude a uma pessoa que ocupa um cargo. Mas o salmo nos ensina quais bens devemos desejar: uma sociedade em que a vida seja protegida e haja condições de desenvolvimento.
Jeremias 29 oferece outra perspectiva. Falando aos exilados na Babilônia, o profeta orienta a construção de casas, o cultivo da terra, a vida familiar e a busca do bem da cidade. O texto se dirige ao povo exilado, não apresenta um programa de governo. Ainda assim, mostra que o bem da comunidade na qual vivemos importa e que o povo de Deus deve contribuir para ele.
Ilustração
Pensem em uma família que procura construir sua vida. Os adultos trabalham, administram o que recebem e querem que os filhos aprendam. Precisam de segurança para sair de casa, de regras confiáveis para assumir compromissos e de oportunidades para desenvolver suas capacidades. Se todo esforço é consumido pela violência, pela fraude ou pela injustiça, o caminho dessa família se torna muito mais difícil.
Pensem também em uma pessoa que perdeu a renda, adoeceu ou tem uma limitação permanente. Falar de responsabilidade sem enxergar suas condições seria muito fácil para quem não enfrenta o mesmo problema. Uma sociedade justa precisa enxergar as pessoas reais, com suas possibilidades e seus limites.
Aplicação
Quando falamos de prosperidade nesta mensagem, falamos de condições para trabalhar, produzir, aprender e construir uma vida digna. Falamos de liberdade acompanhada de responsabilidade, segurança e justiça. O governo não consegue prometer êxito a cada pessoa, mas suas decisões podem favorecer ou prejudicar essas condições.
O respeito à propriedade protege bens e frutos do trabalho. Esse respeito caminha com deveres de honestidade e com a rejeição da exploração. Deuteronômio 24.14–15 proíbe o tratamento injusto do trabalhador necessitado e exige o pagamento devido. Não podemos defender o direito de possuir e ignorar o direito de receber pelo trabalho realizado.
A educação também participa desse horizonte. Famílias precisam de condições para formar seus filhos, e pessoas precisam de oportunidades para aprender e desenvolver suas capacidades. Reconhecer esse valor não resolve automaticamente qual proposta educacional é melhor. Exige que examinemos qualidade, viabilidade e resultados, em vez de nos satisfazermos com promessas bonitas.
O cuidado com os vulneráveis deve socorrer necessidades presentes e, sempre que possível, abrir caminhos de autonomia. Uma ajuda pode proteger uma família durante uma crise e permitir que ela retome sua vida. Também precisamos perguntar se existem oportunidades reais de trabalho, formação e recuperação de renda.
Mas há pessoas que precisarão de apoio duradouro. A dignidade delas não depende de produtividade. Não devemos chamar de acomodação aquilo que resulta de uma incapacidade real. Nosso discernimento precisa combinar responsabilidade com conhecimento da situação de quem sofre.
Por isso, avaliemos propostas por seus meios e consequências. Quem será atendido? Como a medida será sustentada? Existe informação que permita acompanhar o resultado? Há proteção contra favorecimentos?
Uma intenção boa merece ser acompanhada de uma execução responsável.
Cristãos podem compartilhar um valor e divergir sobre o melhor meio de realizá-lo. Precisamos distinguir uma exigência moral clara de uma avaliação técnica discutível. Essa distinção permite firmeza nas convicções e humildade no julgamento das soluções.
A pergunta é esta: o exercício do poder está protegendo as pessoas, promovendo justiça e criando condições para uma vida digna? Essa pergunta precisa continuar conosco depois da escolha.

4 Continuar responsáveis depois do voto

Texto principal: Efésios 5.8–11. Apoio: Provérbios 31.8–9 e 1 Timóteo 2.1–2.
Exposição
[Ler Efésios 5.8–11.]
Efésios 5.8–11 NVI
8 Porque outrora vocês eram trevas, mas agora são luz no Senhor. Vivam como filhos da luz, 9 pois o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade; 10 e aprendam a discernir o que é agradável ao Senhor. 11 Não participem das obras infrutíferas das trevas; antes, exponham-nas à luz.
Paulo fala a pessoas cuja identidade foi transformada por sua relação com o Senhor. Elas devem viver de modo correspondente a essa nova condição. A bondade, a justiça e a verdade precisam aparecer em sua conduta. Elas devem discernir o que agrada ao Senhor e recusar participação nas obras das trevas.
Esse texto não descreve mecanismos de fiscalização política. Ele trata da vida cristã. Mas, justamente porque trata da vida cristã, alcança o modo como nos relacionamos com tudo aquilo que exige nosso julgamento moral, inclusive o exercício do poder.
Se a verdade importa, ela continua importando quando contraria alguém que apoiamos. Se a justiça importa, ela continua importando quando produz consequências incômodas para nosso grupo. Se devemos recusar cumplicidade com o mal, não podemos oferecer proteção moral a uma prática injusta para preservar uma preferência.
Provérbios 31.8–9 chama o rei a defender quem precisa de voz e a julgar com justiça. A responsabilidade pública tem em vista pessoas concretas. Em 1Timóteo 2.1–2, a igreja é orientada a orar pelas autoridades, buscando uma vida pacífica. Podemos orar por alguém e, ao mesmo tempo, cobrar responsabilidade de seus atos. A oração não exige que chamemos de bom aquilo que está errado.
Ilustração
Aqui a comparação com o futebol pode nos ajudar. Quando assistimos a um jogo, percebemos como a preferência pelo nosso time influencia nossa reação. Um lance parece muito claro quando favorece o adversário e muito discutível quando a punição alcançaria nosso jogador. Às vezes, mudamos de argumento sem perceber, apenas para preservar o resultado que desejamos.
Essa disposição pode entrar na vida pública. Passamos a procurar explicações para qualquer erro de quem apoiamos e a negar qualquer acerto de quem rejeitamos. Quando isso acontece, o compromisso com a verdade vai cedendo espaço ao desejo de vencer a discussão.
Precisamos perceber essa tentação em nós. Não é suficiente apontá-la nas outras pessoas. Vale perguntar: eu verificaria essa informação com o mesmo cuidado se ela favorecesse alguém de quem gosto? Eu aceitaria essa desculpa se viesse de outra pessoa?
Aplicação
Depois do voto, acompanhemos decisões, compromissos e resultados. Busquemos informações verificáveis. Antes de compartilhar uma acusação, procuremos saber se ela é verdadeira. Antes de defender uma medida, procuremos compreender o que de fato foi decidido.
Podemos encaminhar perguntas, acompanhar o trabalho de representantes e utilizar meios legítimos de participação. Não precisamos fingir que sabemos tudo. Quando não entendemos um assunto, podemos procurar quem o conheça. A responsabilidade inclui a disposição de aprender.
Reconhecer um acerto não exige adesão incondicional. Apontar um erro não exige hostilidade pessoal. Podemos cobrar com firmeza sem mentir, humilhar ou tratar alguém como se tivesse perdido sua dignidade. O modo como fiscalizamos também precisa ser governado pela fé.
E, quando descobrimos que uma avaliação nossa estava errada, podemos corrigi-la. Nossa identidade em Cristo nos permite admitir um erro sem sentir que toda a nossa vida desmoronou. Não precisamos salvar a imagem de uma escolha anterior às custas da verdade.
Como igreja, devemos preservar essa liberdade. Uma comunidade vinculada à defesa de uma personalidade pode se tornar silenciosa justamente quando deveria falar. Nosso testemunho exige que os mesmos princípios alcancem qualquer pessoa, inclusive quem nos oferece reconhecimento ou vantagens.
Nosso voto não é uma promessa de defesa incondicional; é uma responsabilidade que continua depois da eleição. Os mesmos valores que orientam nosso voto devem orientar nossa fiscalização depois dele.
Conclusão
Texto: Salmo 146.3–5. Apoio cristológico: Marcos 10.42–45.
[Ler Salmo 146.3–5.]
Salmo 146.3–5 NVI
3 Não confiem em príncipes, em meros mortais, incapazes de salvar. 4 Quando o espírito deles se vai, eles voltam ao pó; naquele mesmo dia acabam-se os seus planos. 5 Como é feliz aquele cujo auxílio é o Deus de Jacó, cuja esperança está no Senhor, no seu Deus,
O salmo nos lembra da fragilidade humana. Quem hoje parece indispensável continua sendo mortal. Seus planos têm limites. Nenhuma pessoa consegue carregar a esperança última do povo de Deus.
Essa verdade não torna a vida pública irrelevante. As decisões continuam afetando nosso próximo. Devemos procurar pessoas capazes e íntegras, preservar a liberdade de consciência, exigir justiça e acompanhar o exercício da autoridade. Mas fazemos tudo isso sabendo onde está nossa confiança mais profunda.
Jesus mostrou a diferença de seu senhorio ao falar do modo como os poderosos dominam e do chamado de seus discípulos ao serviço. Em Marcos 10.45, ele apresenta sua própria missão como serviço e entrega da vida para resgatar muitos. O Senhor a quem pertencemos se entregou por pecadores.
Por isso, essa mensagem precisa alcançar nosso coração antes de se tornar uma régua para examinar outras pessoas. Também precisamos ser perdoados por mentiras, parcialidade, indiferença e pelo desejo de defender nossos interesses a qualquer custo. A mesma graça que nos reconcilia com Deus nos chama a uma vida diferente.
Não vamos sair daqui apenas pensando no caráter de quem exerce autoridade. Precisamos examinar o nosso. Como temos tratado quem discorda? O que temos compartilhado? Que injustiça estamos dispostos a tolerar quando parece nos favorecer? De que maneira estamos servindo às pessoas que vivem perto de nós?
Quero convidar a igreja a duas respostas.
Primeiro, submetamos nossa consciência ao Senhor. Onde houver pecado, confessemos. Onde houver orgulho, peçamos humildade. Onde houver informação insuficiente, assumamos a responsabilidade de buscar entendimento.
Segundo, assumamos uma participação perseverante. Oremos, procuremos a verdade, sirvamos ao próximo e cobremos responsabilidade com justiça. O cuidado com a sociedade continua na segunda-feira, em nossa conduta e nas oportunidades concretas de fazer o bem.
A Bíblia não nos promete uma escolha infalível; ela nos chama a uma escolha responsável. Nossa esperança permanece em Cristo. É debaixo de seu senhorio que desejamos escolher, participar e viver.
Nossa fé deve governar nossas escolhas e nossa participação na vida pública.
Oração final
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