EXPOSIÇÃO DE APOCALIPSE
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1. O título (Ap 1:1a)
1. O título (Ap 1:1a)
O termo grego apokalypsis dá origem à palavra "apocalipse" que, hoje em dia, infelizmente é sinônimo de caos e de catástrofe. O verbo significa, simplesmente, "descobrir, revelar, tornar manifesto". Daí, o título em extenso desse livro é “A Revelação de Deus a Jesus Cristo”.[1]
Neste livro, o Espírito Santo abre as cortinas e dá o privilégio de ver o Cristo glorificado no céu e o cumprimento de seus desígnios soberanos no mundo.
Em outras palavras, Apocalipse é um livro aberto, no qual Deus revela seus planos e propósitos para a Igreja. Quando Daniel terminou de escrever sua profecia, recebeu a seguinte instrução: "encerra as palavras e sela o livro" (Dn 12:4); mas João foi instruído a fazer exatamente o contrário: "Não seles as palavras da profecia deste livro" (Ap 22:10). Por quê? Desde o Calvário, a ressurreição e a vinda do Espírito Santo, Deus iniciou os "últimos dias" (Hb 1:1, 2) e está cumprindo seus desígnios ocultos neste mundo. "O tempo está próximo" (Ap 1:3; 22:10).
A profecia de João é, em primeiro lugar, a revelação de Jesus Cristo, não a revelação de acontecimentos futuros. Não se deve separar a Pessoa da profecia, pois sem a Pessoa, a profecia não poderia se cumprir. Nas palavras de Merrill Tenney: "Ele não é secundário à ação, mas sim o Tema central". Em Apocalipse 1.1-3.22, Cristo é apresentado como o Rei e Sacerdote exaltado ministrando às igrejas. Em Apocalipse 4 ; 5, é apresentado no céu como o Cordeiro glorificado de Deus, reinando no trono. Em Apocalipse 6.1- 18.24, Cristo é o Juiz de toda a Terra; em Apocalipse 19, ele volta à Terra como o Rei dos reis vitorioso. O livro encerra com o Noivo celestial conduzindo a noiva, a Igreja, à cidade celestial gloriosa.
Qualquer que seja a abordagem ao estudar este livro, o importante é conhecer melhor o Salvador.
2. O autor (Ap 1:1b, 2, 4, 9; 22:8)
2. O autor (Ap 1:1b, 2, 4, 9; 22:8)
O Espírito Santo usou o apóstolo João para oferecer três textos distintos: o Evangelho de João, as três epístolas e o Livro de Apocalipse. Seus objetivos podem ser resumidos da seguinte forma:
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João escreveu Apocalipse por volta do ano 95 d.C., durante o reinado do imperador romano Tito Flávio Domiciano. O imperador havia exigido que todos o adorassem como "Senhor e Deus", e a recusa dos cristãos em obedecer a seu édito resultou em intensa perseguição. De acordo com a tradição, foi Domiciano quem enviou João para a ilha de Patmos, uma colônia penal de Roma na costa da Ásia Menor. Uma vez que esse foi o local do exílio de João, talvez não seja surpreendente encontrar a palavra "mar" 23 vezes em Apocalipse.
Durante o ministério de Jesus aqui na Terra, João e seu irmão Tiago pediram a Jesus lugares especiais de honra junto a seu trono. O Senhor lhes disse que teriam de ser dignos desses lugares participando de seu sofrimento. Tiago foi o primeiro apóstolo martirizado (At 12:1, 2); João foi o último apóstolo a morrer, sofrendo, antes disso, no exílio em Patmos (ver Mt 20:20-23).
De que maneira o Senhor transmitiu o conteúdo deste livro a seu servo? De acordo com Apocalipse 1:1, 2, o Pai deu uma revelação ao Filho que, por sua vez, a compartilhou com o apóstolo usando "seu anjo" como intermediário. Em algumas ocasiões, é o próprio Cristo que transmite informações a João (Ap 1:10 ss); outras vezes é um ancião (Ap 7:13); e, com freqüência, é um anjo (Ap 17:1; 19:9, 10). Também há momentos em que uma "voz do céu" diz a João o que falar e fazer (Ap 10:4). Por mais variados que tenham sido os meios de comunicação, o livro foi transmitido por Deus a João e inteiramente inspirado pelo Espírito.
O texto original de Apocalipse 1:1 diz que a revelação foi "enviada através de um sinal". A palavra "sinal" é usada com um sentido semelhante em Apocalipse 12:1,3; 15:1; 19:20. Trata-se do mesmo termo empregado no Evangelho de João para falar dos milagres de Jesus Cristo, pois seus milagres transmitiam uma mensagem espiritual mais profunda e não eram, portanto, apenas demonstrações de poder. Em nosso estudo de Apocalipse encontraremos um bocado de simbolismo, grande parte dele relacionado ao Antigo Testamento.
Por que João valeu-se de simbolismo? Em primeiro lugar, esse tipo de "código espiritual" é compreendido somente pelos que conhecem a Cristo pessoalmente. Para um oficial romano que tentasse usar Apocalipse como prova contra os cristãos, o texto não passaria de um enigma. O motivo mais importante, porém, é que o simbolismo não sofre os efeitos do tempo. João lança mão das grandes "imagens" da revelação de Deus e as organiza na forma de um drama empolgante que tem encorajado santos perseguidos e aflitos ao longo dos séculos. No entanto, não se deve concluir que o uso de símbolos indique que os eventos sejam fictícios. O apóstolo descreve acontecimentos reais!
Existe um terceiro motivo pelo qual João se valeu de simbolismo: os símbolos não apenas transmitem informações, mas também comunicam valores e suscitam emoções. João poderia ter escrito: "o mundo será governado por um ditador"; em vez disso, porém, descreveu uma besta. O símbolo é muito mais significativo do que o título "ditador". Em lugar de explicar o sistema do mundo, o apóstolo apresenta "a grande Babilônia" e contrasta a "meretriz" com a "noiva". O nome Babilônia, por si mesmo, era suficiente para transmitir verdades espirituais profundas aos leitores que conheciam o Antigo Testamento.
Mas ao procurar entender o simbolismo de João, não se deve deixar a imaginação correr solta. Os símbolos bíblicos são coerentes com a revelação das Escrituras em sua totalidade. Alguns são explicados (Ap 1:20; 4:5; 5:8); outros podem ser compreendidos a partir a imageria do Antigo Testamento (Ap 2:7, 1 7; 4:7); e alguns não são acompanhados de explicação alguma (a "pedrinha branca" em Ap 2:17). Há em Apocalipse quase trezentas referências ao Antigo Testamento! Isso significa que se deve basear as interpretações no que Deus já revelou pois, de outro modo, acaba-se tirando conclusões equivocadas acerca deste livro profético tão importante.
3. Os destinatários (Ap 1:3, 4)
3. Os destinatários (Ap 1:3, 4)
Originalmente, o livro foi enviado a sete igrejas reais da Ásia Menor, mas João deixa claro que qualquer cristão pode ler e ser beneficiado (Ap 1:3). Aliás, Deus profetizou uma bênção especial para o que ler sua mensagem e obedecer a ela ("ler", aqui, significa "ler em voz alta"; inicialmente, Apocalipse foi lido em voz alta em reuniões das igrejas locais). O apóstolo Paulo enviou cartas a sete igrejas - Roma, Corinto, Galácia, Éfeso, Filipos, Colossos e Tessalô-nica - e, agora, João envia seu livro a outras sete igrejas. Logo no início do livro, o apóstolo apresenta uma mensagem especial de Cristo a cada igreja.
João não enviou este livro de profecias às congregações a fim de satisfazer a curiosidade de seus membros acerca do futuro. O povo de Deus passava por perseguições intensas e precisava ser encorajado. Quando o Livro de Apocalipse fosse lido para eles, sua mensagem lhes daria força e esperança. Mais do que isso, os ajudaria a examinar a própria vida (e cada congregação local) e definir as áreas que precisavam de correções. Não deveríam apenas ouvir a Palavra, mas também guardá-la como um tesouro e praticá-la. A bênção decorrente de praticar seria ainda maior do que a bênção decorrente de ouvir (ver Tg 1:22-25).
Convém observar que existem sete "bem-aventuranças" em Apocalipse: 1:3; 14:13; 16:15; 19:9; 20:6; 22:7,14. O número sete é importante neste livro, pois significa plenitude e consumação. Em Apocalipse, Deus diz como vai completar sua grande obra e trazer seu reino eterno. O livro fala de sete selos (Ap 5:1), sete trombetas (Ap 8:6), sete taças (Ap 16:1), sete estrelas (Ap 1:16) e sete candeeiros (Ap 1:12, 20). Outras formas de uso do número sete serão vistas ao longo deste estudo.
As mensagens especiais para cada uma das sete igrejas são aprêsentadas em Apocalipse 2; 3. Alguns estudiosos acreditam que essas Igrejas constituem um "panorama da história da Igreja", desde os tempos apostólicos (Éfeso) até os dias de apostasia de nosso tempo (Laodicéia). Apesar de ser possível que essas igrejas ilustrem vários estágios da história da Igreja, provavelmente não foi esse o motivo principal pelo qual tais assembléias foram escolhidas. Antes, essas cartas nos lembram que o Cabeça da Igreja, o Cristo exaltado no céu, sabe o que se passa em cada congregação e que a relação de cada cristão com ele e com sua Palavra define a vida e o ministério dos grupos locais.
Deve-se ter em mente que as congregações da Ásia Menor enfrentavam perseguições, e era importante se relacionarem corretamente com o Senhor e umas com as outras. Essas igrejas são retratadas como sete candeeiros, cada um irradiando sua luz em um mundo de trevas (Fp 2:15; Mt 5:14-16). Quanto mais escuro o dia, mais fulgurante deve ser a luz; infelizmente, em pelo menos cinco dessas congregações havia situações que precisavam ser corrigidas, a fim de que a luz brilhasse com mais intensidade. Ao ler Apocalipse 2; 3, é possível observar que o Senhor sempre os lembra de quem ele é e os encoraja a ser "vencedores".
Além disso, a promessa da vinda de Jesus Cristo deve ser motivo de obediência e de consagração para todos os cristãos de todas as épocas (Ap 1:3, 7; 2:5, 25; 3:3, 11; 22:7, 12, 20; ver também 1 Jo 1:1-3.3). Nenhum cristão deve estudar as profecias apenas para satisfazer sua curiosidade. Quando Daniel e João receberam a revelação de Deus acerca do futuro, ambos caíram como se estivessem mortos (Dn 10:7-10; Ap 1:1 7). Ficaram sobrepujados! Deve-se abordar este livro como admiradores e adoradores, não apenas como estudiosos acadêmicos.
4. A DEDICATÓRIA (Ap 1.4-6)
4. A DEDICATÓRIA (Ap 1.4-6)
Certa vez, um amigo me disse:
- Se você não parar de escrever livros, logo não vai ter mais a quem dedicá-los!
Aprecio o elogio, mas não concordo com a idéia. João não teve problema algum em saber a quem dedicar seu livro! Mas, antes de escrever a dedicatória, lembrou seus leitores de que era o Deus Triúno que os havia salvo e que os guardaria ao enfrentarem o sofrimento das tribulações abrasadoras.
Deus Pai é descrito como o Eterno (ver Ap 1:8; 4:8). Toda a história - inclusive a perseguição da Igreja - faz parte de seu plano eterno. Em seguida, o Espírito Santo é visto em sua plenitude, pois não há sete espíritos, mas somente um. É provável que essa idéia refira-se a Isaías 11:2.
Por fim, Jesus Cristo é visto nas três facetas de seu ministério como Profeta (Fiel Testemunha), Sacerdote (Primogênito dos mortos) e Rei (Soberano dos reis da Terra). Primogênito não significa "o primeiro a ser ressuscitado dentre os mortos", mas sim "o mais exaltado a ser ressuscitado dentre os mortos". A designação "primogênito" indica honra (ver Rm 8:29; Cl 1:15, 18).
Mas, das três Pessoas da Trindade, é somente a Jesus Cristo que João dedica este livro, em função do que Cristo faz pelo povo. Em primeiro lugar, ele nos ama (tempo verbal presente na maioria dos manuscritos). Esse fato é paralelo à ênfase do Evangelho de João. Ele também, nos libertou dos pecados, ou, como dizem alguns textos, nos purificou. Esse fato é paralelo à mensagem das epístolas de João (ver 1 Jo 1:5ss). E, como ponto culminante, Cristo nos constituiu reino de sacerdotes, a ênfase do livro de Apocalipse. Hoje, Jesus Cristo é Rei e Sacerdote como Melquisedeque (Hb 7), e estamos assentados com ele em seu trono (Ef 2:1-10).
Em seu amor, Deus chamou Israel para ser um reino de sacerdotes (Êx 19:1-6), mas o povo fracassou, e seu reino lhes foi tirado (Mt 21:43). Hoje, os que fazem parte do povo de Deus (a Igreja) são seus reis e sacerdotes (1 Pe 2:1-10), exercendo autoridade espiritual e servindo a Deus neste mundo.
5. O tema (Ap 1:7, 8)
5. O tema (Ap 1:7, 8)
0 tema predominante do Livro de Apocalipse é a volta de Jesus Cristo para derrotar todo o mal e estabelecer seu reino. É, sem dúvida alguma, um livro de vitória, e os cristãos são considerados "vencedores" (ver Ap 2:7,11,17, 26; 3:5,12, 21; 11:7; 12:11; 15:2; 21:7). Em sua primeira epístola, João também considera o povo de Deus vencedor (ver 1 Jo 2:13, 14; 4:4; 5:4, 5). Para os olhos incrédulos, Jesus Cristo e sua Igreja não passam de derrotados neste mundo; mas para os olhos da fé, ele e seu povo são verdadeiros vencedores. Como Peter Marshall disse certa vez: "É melhor fracassar em uma causa que será bem-sucedida no final do que ser bem-sucedido em uma causa que fracassará no final".
A declaração em Apocalipse 1:7: "Eis que vem com as nuvens" é uma descrição da volta do Senhor â Terra, apresentada em mais detalhes em Apocalipse 19:11 ss. Não se trata da mesma ocasião em que ele voltará nos ares para arrebatar seu povo (1 Ts 4:13-18; 1 Co 15:51 ss). Quando vier para arrebatar sua Igreja, chegará "como ladrão" (Ap 3:3; 16:15), e somente os nascidos de novo poderão vê-lo (1 Jo 3:1-3). O acontecimento descrito em Apocalipse 1:7 será testemunhado por todo o mundo, especialmente pela nação arrependida de Israel (ver Dn 7:13; Zc 12:10-12). Será público, não secreto (Mt 24:30, 31), e constituirá o ponto culminante do período de Tribulação descrito em Apocalipse 6 a 19.
Mesmo os estudiosos mais sérios da Bíblia nem sempre apresentam um consenso quanto aos fatos que levarão ao estabelecimento do reino eterno de Deus (Ap 21; 22). É minha convicção pessoal que o próximo evento no cronograma de Deus será o arrebatamento, quando Cristo voltará nos ares e levará sua Igreja para a glória. A promessa de Cristo à Igreja em Apocalipse 3:10, 11 indica que a Igreja não passará pela Tribulação, o que é corroborado, ainda, por Paulo em 1 Tes 1:10; 5:9, 10. Para mim, é bastante significativo a palavra Igreja não aparecer nenhuma vez entre Apocalipse 3:22 ;22:16.
Depois que a Igreja for arrebatada, sucederão os acontecimentos retratados em Apocalipse 6 a 19: a Tribulação, a ascensão do "homem da iniqüidade", a Grande Tribulação (o "furor da ira" de Deus), a destruição do governo mundial humano e, por fim, a volta de Cristo à Terra para estabelecer seu reino. Daniel indica que esse período de conturbação mundial durará sete anos (Dn 9:25-27). Ao longo de todo o Livro de Apocalipse, vêem-se certas medidas de tempo que coincidem com esse período de sete anos (Ap 11:2, 3; 12:6, 14; 13:5).
Os títulos dados a Deus em Apocalipse 1:8 deixam claro que ele certamente é capaz de realizar seus propósitos na história humana. Alfa e Ômega são a primeira e a última letra do alfabeto grego, de modo que Deus é o princípio de todas as coisas e também o fim. Como Deus eterno (ver Ap 1:4), ele não é limitado pelo tempo. Também é Todo-Poderoso, capaz de fazer qualquer coisa. To-do-Poderoso é uma designação importante usada para Deus em Apocalipse (Ap 1:8; 4:8; 11:17; 15:3; 16:7, 14; 19:6, 15; 21:22).
Deus o Pai é chamado de "Alfa e ômega" em Apocalipse 1:8 ; 21:6; mas esse nome também é aplicado ao Filho (Ap 1:11; 22:13). Trata-se de um forte argumento em favor da divindade de Cristo. O mesmo acontece com o título "primeiro e último" (ver Is 41:4; 44:6; 48:12, 13), outra prova de que Jesus é Deus.
6. A ocasião (Ap 1:9-18)
6. A ocasião (Ap 1:9-18)
Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus, achei-me na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus. Achei-me em espírito, no dia do Senhor, e ouvi, por detrás de mim, grande voz, como de trombeta, dizendo: O que vês escreve em livro e manda às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Voltei-me para ver quem falava comigo e, voltado, vi sete candeeiros de ouro e, no meio dos candeeiros, um semelhante a filho de homem, com vestes talares e cingido, à altura do peito, com uma cinta de ouro. A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo; os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas. Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força.
Quando o vi, caí a seus pés como morto. Porém ele pôs sobre mim a mão direita, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno.
O Livro de Apocalipse nasceu de uma experiência espiritual profunda de João durante o exílio em Patmos.
O que João ouviu (w. 9-11). No dia do Senhor, João ouviu uma voz como de uma trombeta atrás dele. Era Jesus Cristo falando! Tanto quanto sabemos, o apóstolo não havia ouvido a voz do Senhor desde a ascensão de Cristo mais de sessenta anos antes dessa ocasião. O Senhor incumbiu João de escrever este livro e de enviá-lo para as sete igrejas escolhidas. Posteriormente, João ouviu outra voz semelhante a uma trombeta, convocando-o para o céu (Ap 4:1). (Alguns estudiosos relacionam esse episódio a 1 Ts 4:13-18 e consideram o "arrebatamento" de João um retrato do arrebatamento da Igreja.)
O que João viu (w. 12-16). O apóstolo teve uma visão do Cristo glorificado. Apocalipse 1:20 deixa claro que não se deve interpretar essa visão literalmente, pois é constituída de símbolos. Os sete candeeiros representam as sete igrejas que receberíam o livro. Cada igreja local é portadora da luz de Deus neste mundo escuro. É interessante comparar essa visão com a de Daniel (Dn 7:9-14).
Cristo está vestido como Juiz e Rei, alguém com honra e autoridade. Os cabelos brancos simbolizam sua natureza eterna, "o Ancião de Dias" (Dn 7:9, 13, 22). Seus olhos vêem todas as coisas (Ap 19:12; Hb 4:12), permitindo que julgue com justiça. Seus pés de bronze polido também sugerem julgamento, uma vez que o altar de bronze era o lugar onde o fogo consumia o sacrifício pelo pecado. O Senhor veio para julgar as igrejas e o sistema perverso do mundo.
O som "como voz de muitas águas" (Ap 1:15) lembra-me das cataratas do Niágara!
É possível que sugira duas idéias: (1) Cristo reúne todas as "correntes de revelação" e é a "última Palavra" do Pai para os homens (Hb 1:1-3); (2) ele fala com poder e autoridade e deve ser ouvido. A espada de sua boca representa, sem dúvida alguma, a Palavra viva de Deus (Hb 4:12; Ef 6:17). Ele luta contra os inimigos usando sua Palavra (Ap 2:16; 19:19-21).
De acordo com Apocalipse 1:20, as estrelas no céu representam os anjos ("mensageiros", ver Lc 7:24, em que o termo grego é traduzido desse modo), ou, talvez, os pastores das sete igrejas. Deus tem seus servos em suas mãos e os coloca em lugares onde deseja que "brilhem" para ele. Em Daniel 12:3, os prudentes e os que ganham almas são comparados a estrelas brilhantes.
O rosto resplandecente do Senhor lembra sua transfiguração (Mt 1 7:2) e também a profecia de Malaquias 4:2 ("nascerá o sol da justiça"). O Sol é uma representação conhecida de Deus no Antigo Testamento (SI 84:11), lembrando não apenas suas bênçãos, mas também o julgamento. O Sol pode abençoar e também queimar!
Essa visão de Cristo é inteiramente distinta da aparição do Salvador que João viu "em carne", quando Jesus ministrava na terra. Não é o "dócil carpinteiro judeu" sobre o qual os sentimentalistas gostam de cantar. Antes, é o Filho de Deus ressurreto e exaltado, o Rei e Sacerdote que tem autoridade para julgar todos os homens, a começar pelo próprio povo (1 Pe 4:17).
O que João fez (vv. 17, 18). O apóstolo que se reclinara no peito de Jesus (Jo 13:23) prostrou-se aos pés do Senhor como se estivesse morto. Uma visão do Cristo exaltado não produz outra coisa senão grande reverência e temor (Dn 10:7-9). É preciso ter essa atitude de respeito hoje, quando tantos cristãos falam e agem com familiaridade indevida para com Deus. A reação de João ilustra o que Paulo escreveu em 2 Coríntios 5:16: "se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo". João não estava mais "aconchegado" junto ao coração do Senhor, relacionando-se com ele da forma que havia feito antes.
O Senhor tranqüilizou o apóstolo tocando-o e falando com ele (ver Dn 8:18; 9:21; 10:10, 16, 18). As palavras "Não temas!" são um grande encorajamento a todos os filhos de Deus. Não é preciso temer a vida, pois Cristo é "Aquele que vive". Não é preciso temer a morte, pois ele morreu, está vivo e conquistou a morte. E não é preciso temer a eternidade, pois ele tem as chaves da morte e do inferno. Aquele que tem as chaves é Aquele que tem autoridade.
Logo no início deste livro, Jesus apresenta-se a seu povo em glória majestosa. O que a Igreja de hoje precisa é de uma nova consciência de Cristo e de sua glória. É necessário vê-lo "assentado sobre um alto e sublime trono" (Is 6:1). Existe uma ausência perigosa de reverência e de adoração nas congregações de hoje. Orgulhamo-nos de estar firmes nos próprios pés quando deveriamos estar quebrantados e prostrados aos pés do Senhor. Durante anos, Evan Roberts orou: "Que-branta-me! Quebranta-me!", e, quando Deus respondeu, trouxe grande reavivamento no País de Gales.
7. O esboço (Ap 1:19)
7. O esboço (Ap 1:19)
Tanto quanto eu sei, Apocalipse é o único Livro da Bíblia que apresenta um esboço inspirado de seu conteúdo. "As coisas que viste" referem-se à visão em Apocalipse 1: "As coisas que são" referem-se a Apocalipse 2 ; 3, as mensagens especiais às sete igrejas. "As [coisas] que hão de acontecer depois destas" dizem respeito aos acontecimentos descritos em Apocalipse 4.1- 22.20. Aquilo que João ouve em Apocalipse 4:1 corrobora essa interpretação.
Recapitulando, é possível resumir as características básicas deste livro da seguinte maneira:
Seu tema central é Cristo. Por certo, todas as Escrituras falam do Salvador, mas o Livro de Apocalipse magnífica de maneira especial a grandeza e glória de Jesus Cristo. Afinal, o livro é a revelação de Jesus, não apenas de acontecimentos futuros.
Ê "aberto". João recebeu a ordem de não selar o livro (Ap 22:10), pois o povo de Deüs precisava de sua mensagem. Apesar de conter mistérios que talvez só sejam desvendados quando nos encontrarmos junto ao trono de Deus, Apocalipse pode ser compreendido. João enviou o livro para as sete igrejas da Ásia Menor na expectativa de que, quando lessem sua mensagem em voz alta, compreenderíam o suficiente de suas verdades de modo a serem grandemente encorajados nas situações difíceis que enfrentavam.
É repleto de símbolos. Os símbolos são eternos em sua mensagem e ilimitados em seu conteúdo. O símbolo da "Babilônia", por exemplo, teve origem em Gênesis 10; 11 e seu significado cresce à medida que é usado ao longo das Escrituras, chegando ao ápice em Apocalipse 17 ; 18. O mesmo vale para os símbolos do "Cordeiro" e da "noiva". É empolgante sondar os significados mais profundos transmitidos por esses símbolos.
Trata de profecias. Esse fato é declarado inequivocamente em Apocalipse 1:3; 22:7, 10, 18, 19; ver também 10:11. As cartas para as sete igrejas da Ásia Menor tratam de necessidades imediatas das congregações, que, aliás, continuam presentes nas igrejas de hoje; o restante do livro, porém, é dedicado quase inteiramente às revelações proféticas. Ao ver o Cristo vitorioso diante deles, os cristãos perseguidos encontraram encorajamento para a difícil tarefa de testemunhar. Quando estamos tranqüilos quanto ao futuro, temos estabilidade no presente. O próprio João sofria sob o poder de Roma (Ap 1:9), de modo que este é um livro nascido da aflição.
Contém uma bênção. Observamos anteriormente a promessa em Apocalipse 1:3, bem com outras seis "bem-aventuranças" espalhadas pelo livro. Não basta simplesmente ouvir (ou ler) o texto; é preciso responder à sua mensagem de coração, considerando-a pessoal e declarando "Amém!" com fé ao que ela diz (convém observar os vários "Améns" ao longo do livro: Ap 1:6, 7, 18; 3:14; 5:14; 7:12; 19:4; 22:20, 21).
É relevante. João escreveu sobre as coisas "que em breve devem acontecer" (Ap 1:1), "pois o tempo está próximo" (Ap 1:3) (ver também Ap 22:7, 10, 12, 20). A expressão "em breve" não significa logo" ou "de imediato", mas sim "rapidamente, velozmente", Deus não mede o tempo da mesma forma que nós (2 Pe 3:1-10), Ninguém sabe quando o Senhor voltará; mas quando ele começar a abrir os selos do livro (Ap 6:1 ss), os acontecimentos sucederão rapidamente e sem interrupção.
É majestoso, Apocalipse é o livro "do trono", pois a palavra "trono" é usada trinta e seis vezes ao longo do seu texto, O livro engrandece a soberania de Deus. Cristo é apresentado em sua glória e domínio!
É universal, João viu nações e povos (Ap 10:11; 11:9; 17:15) como parte do plano de Deus, lambem viu a sala do trono do céu e ouviu vozes dos confins do universo, í o ponto culminante. Apocalipse é o ápice da Bíblia, Tudo o que começou em Gênesis será completado e cumprido de acordo com a vontade soberana de Deus, Ele é o "Alfa e Ômega [„,] aquele que é, que era e que há de vir" (Ap 1:8), Deus termina tudo o que ele começa!
Mas antes de visitar a sala do trono do céu, é preciso parar e ouvir o homem "no meio dos candeeiros" revelando as necessidades pessoais das igrejas e do coração.
"Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas."
[1] Kistemaker, S. (2014). Apocalipse. (J. Hack, M. Hediger, & M. Lane, Trads.) (2a edição, p. 105). São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã.
