Gálatas 5.13-15: COMPREENDENDO A LIBERDADE CRISTÃ

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INTRODUÇÃO

No início deste capítulo, Paulo havia dito aos crentes da Galácia que “foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (5.1). A grande luta dele, nas igrejas da Galácia, se dava, justamente, porque falsos mestres adentraram às igrejas ensinando o legalismo como essencial para a aceitação do homem diante de Deus. Paulo, por outro lado, ensinava a doutrina da liberdade cristã. Contudo, esta doutrina, apesar de sabrada, nem sempre é bem compreendida pelo povo de Deus. Por isso, no presente texto, Paulo quer ensinar aos seus leitores o que é, de fato, a liberdade cristã. O modo como Paulo o faz isso é demonstrando o que ela não é.
Hoje nós veremos em quatro pontos o que não é a liberdade cristã.
O objetivo disto é que compreendamos melhor o termo e, consequentemente, vivamos corretamente a liberdade cristã.

I: A LIBERDADE CRISTÃ NÃO É AUTORIZAÇÃO PARA PECAR (13a)

Exposição
“Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne”
Qual o sentido de “chamados” na primeira sentença?
Os crentes da Galácia foram chamados para a liberdade. O sentido da palavra “chamados” aqui é “ser escolhido para receber um benefício ou experiência pessoal”.
Chamado aqui, nada tem a ver com um chamamento específico para alguma obra ou serviço cristão. Todo salvo foi chamado, ou seja, nomeado para viver em liberdade.
Do que se trata a liberdade cristã?
A liberdade cristã é a liberdade do cumprimento da Lei Mosaica como meio de aceitação do homem para com Deus.
Uma vez que a Lei não serve de parâmetro para a minha aceitação diante de Deus, eu posso viver de qualquer modo?
Paulo diz que não devemos usar “a liberdade para dar ocasião à vontade da carne”.
Devemos distinguir liberdade de libertinagem. Hernandes Dias Lopes diz que “a palavra ‘liberdade’ está profundamente desgastada”. E que “muitos defendem a liberdade do amor livre, a prática irrestrita do aborto, o uso indiscriminado das drogas e o homossexualismo”. Assim ele conclui: “Isso […] não é liberdade; é escravidão”.
Mais uma vez repito: liberdade aqui tem a ver com a minha aceitação diante de Deus. Estou livre de cumprir a Lei para ser aceito por Deus, mas ainda sou servo de Deus e preciso cumprir sua Lei.
William Hendriksen diz que “a vida cristã é semelhante a atravessar uma pinguela que cruza um lugar onde se encontram dois rios contaminados: um é o legalismo e o outro é a libertinagem. O crente não deve perder o equilíbrio para não cair dentro das faltas refinadas do judaísmo nem nos grosseiros vícios do paganismo”.
Portanto, a nossa liberdade cristã não é autorização para pecar. Não podemos usá-la como pretexto para servir à nossa natureza pecaminosa.
Síntese
O crente está livre da Lei para sua aceitação diante de Deus, mas não está sem Lei para viver diante de Deus de modo pecaminoso.
Ilustração
O que determina a filiação não é a aparência da criança, e sim o nascimento. Um filho não é filho porque se parece com os pais, mas porque nasceu deles. No entanto, os fatores genéticos, farão com o filho se pareça com seus progenitores. A Lei de Deus revela o seu caráter; revela quem Ele é. Ninguém é filho de Deus porque cumpre a Lei, mas por direito de nascimento. Todavia, assim como os fatores genéticos fazem com que filhos se pareçam com pais, os filhos de Deus se parecem com Ele na medida em que cumprem a sua Lei. Às vezes vemos uma criança e logo falamos para os pais: como ele se parece com vocês! Quando o mundo olha para o filho de Deus cumprindo a Lei de Deus, logo percebe-se a sua filiação.
Aplicação
Exemplos negativos
Crentes que são relaxados quanto aos mandamentos divinos e vivem como se nada tivesse a ver demonstram que não nasceram de novo.
Crentes que não se incomodam com a forma vulgar que se vestem estão desviados, ou não nasceram de novo.
Exemplos positivos
Crentes que reconhecem a liberdade e a utilizam no serviço do Reino demonstram que são filhos de Deus.
O que fazer/não fazer?
Cumpra o que a Lei exige de você: ame a Deus acima de tudo e ao seu próximo como a você mesmo.
Não cumpra a Lei para ser salvo; cumpra porque é salvo.
Peça forças a Deus para cumprir os seus mandamentos. Toda a boa ação que temos para com Deus vem dele mesmo.
Recapitulação e frase de ligação
O que é liberdade cristã? Talvez a melhor forma de entendermos a liberdade cristã é entendendo o que não é a liberdade cristã.
Vimos que a liberdade cristã não é autorização para pecar. Paulo continua sua argumentação sobre o que não é a liberdade cristã...

II: A LIBERDADE CRISTÃ NÃO É AUTORIZAÇÃO PARA EXPLORAR O MEU PRÓXIMO (13b)

Exposição
“…ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor”.
O paradoxo da liberdade cristã.
Parece haver uma grande contradição nas palavras de Paulo. Anteriormente ele havia dito que o cristão é livre, mas agora o cristão é um servo.
A palavra “sirvam” aqui vem da raiz “doulos”, escravo em português. Sendo assim o cristão, mesmo livre, é escravo.
John Stott diz que “a liberdade cristã é uma escravidão: não da escravidão para com a nossa carne, mas para com o nosso próximo”.
Portanto, somos escravos do próximo, e o nosso serviço a eles deve ser mediante o amor.
Mais uma vez faço coro a John Stott quando diz que “através do amor temos de nos tornar ‘escravos’ […] uns dos outros, ‘não um senhor com uma porção de escravos, mas sendo cada um um pobre escravo com uma porção de senhores’”.
Síntese
A nossa liberdade cristã deve ser usada para servir ao nosso próximo.
Ilustração
Se você tivesse que carregar um fardo de 100kg por 1km e alguém te livrasse desse fardo e te desse em troca um fardo de 20kg para você carregar, como reagiria? Certamente faria essa nova tarefa, ainda que difícil, com gratidão e alegria. A liberdade cristã é assim: estávamos presos ao fardo do pecado e teríamos de carregá-lo por toda eternidade. Cristo, em sua obra na cruz, tirou de nossos ombros este fardo pesadíssimo e colocou um mais leve para servirmos ao nosso próximo.
Aplicação
Exemplos negativos
O cristão que vem aos cultos, curte as canções, a palavra e vai embora para sua casa está preocupado em ser servido e não em servir.
O cristão que se beneficia da palavra, da música, do som agradável e de um templo aconchegante, e não ajuda a igreja com suas finanças, está preocupado em ser servido e não em servir.
Pseudo-pastores que se utilizam daquilo que é da igreja e não lhe pertence, está preocupado em ser servido e não em servir.
Exemplos positivos
O cristão ocupado com visitas, evangelismo e obras sociais está servindo em amor ao próximo.
O cristão que se preocupa em fazer as coisas acontecerem na igreja está servindo em amor ao próximo.
Pastores que oram pela igreja, que jejuam por ela e que zelam pela sã doutrina estão servindo em amor ao próximo.
Como encontrar motivação para servir em amor ao próximo
O entendimento do amor de Cristo por nós fará com que nós amemos ao nosso próximo. Quando percebermos tudo o que Jesus fez por nós, ao vir a este mundo, compreenderemos que devemos fazer o mesmo ao nosso próximo.
Recapitulação e frase de ligação
O que é liberdade cristã? Paulo nos ensina o que é liberdade cristã através de quatro pontos negativos. O primeiro é que a liberdade cristã não é autorização para pecar. O segundo é que liberdade cristã não é autorização para explorar o meu próximo.
Veremos agora mais o que não é liberdade cristã...

III: A LIBERDADE CRISTÃ NÃO É AUTORIZAÇÃO PARA IGNORAR A LEI (14)

Exposição
“Toda a Lei se resume num só mandamento: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’”
O cumprimento da Lei é o amor
Esta é uma citação de Levítico 19.18.
A Lei judaica é um compêndio de 613 preceitos que devem ser obedecidos.Ela se divide em Lei Moral, Lei Cerimonial e Lei Civil.
A Lei Moral são as que foram escritas nas tábuas da Lei, no Monte Sinai. Em uma tábua estavam quatro mandamentos do relacionamento do homem para com Deus, e seis mandamentos do relacionamento do homem para com o seu próximo.
Jesus resumiu a Lei como “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento [… e] amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.37-40). Perceba, portanto, que amando a Deus sobre todas as coisas, você está cumprindo as quatro leis referentes a Deus, e, amando o seu próximo como a ti mesmo, você está cumprindo as demais leis, que são referentes ao relacionamento com o próximo.
Por que Paulo disse que amar o próximo seja o cumprimento de toda a Lei?
Porque Deus escolheu ser amado no seu próximo.
Dizer "eu amo a Deus é fácil”. Ninguém pode provar o contrário. Mas, amar o próximo é preciso mais esforço e muita prática.
Síntese
A liberdade cristã não nos isenta de cumprir a lei de Deus.
Ilustração
Imagine que você ao mercado hoje comprar arroz. E que, por algum motivo, o governo zerou os impostos cobrados sobre o arroz. O que acontece? Você vai pagar mais barato no produto, mas, ainda assim, terá de pagar por ele. No caso da liberdade cristã, Deus faz algo parecido: o crente não tem de cumprir a Lei para ser salvo, mas também não está desobrigado de cumpri-la.
Aplicação
Exemplos negativos
Mensagens ou músicas voltadas para o nosso gosto em um culto de adoração a Deus é a quebra do primeiro mandamento. Isso é idolatria.
Usar o bom nome de Cristo em piadas, tornando-o vão, também é pecado, pois é a quebra do terceiro mandamento.
Exemplos positivos
Cuidar dos pais na velhice é um bom exemplo do cumprimento do quinto mandamento.
Lutar pela vida e contra o aborto também é um bom exemplo do cumprimento do sexto mandamento.
O que fazer?
Procure glorificar a Deus cumprindo os seus mandamentos.
Somente Deus pode te fortalecer para cumprir a sua Lei. Peça a Deus força e o fruto do Espírito.
Recapitulação e frase de ligação
O que é liberdade cristã? O método didático de Paulo consiste em dizer o que não é liberdade cristã. Primeiramente, Paulo destaca que liberdade cristã não é autorização para pecar. Depois, ele nos ensina que a liberdade cristã não é autorização para explorar o meu próximo. E, agora, aprendemos que a liberdade cristã não é autorização para ignorar a Lei. Vejamos, por fim, mais um exemplo.

IV: A LIBERDADE CRISTÃ NÃO É AUTORIZAÇÃO PARA DESTRUIR MEU PRÓXIMO (15)

Exposição
“Mas se vocês se mordem e se devoram uns aos outros, cuidado para não se destruírem mutuamente”
A linguagem figurada
Paulo utiliza a figura de lobos em uma alcateia, ou quem sabe de canibalismo.
O alerta
Diante da linguagem forte que Paulo usa, ele faz um alerta: “cuidado para não se destruírem mutuamente”.
Em uma luta, aquele que ataca também pode ser ferido. Essa era a principal preocupação de Paulo. Era como se dissesse: “cuidado, ao atacar alguém você pode ser ferido igualmente”. Desta forma, toda a comunidade poderia ser destruída.
O perigo das falsas doutrinas e dos falsos mestres
Os falsos mestres judaizantes certamente não conseguiram convencer todos os cristãos da Galácia. Isso deve ter criado uma disputa ferrenha entre eles. Uns tornaram-se legalistas. Outros, libertinos. Talvez alguns equilibrados. No entanto, parecia haver uma grande disputa por essas questões.
Quando falsos mestres e falsos ensinos entram nas igrejas podem causar destruição fatal.
Síntese
Nenhum debate teológico pode haver sem a presença do amor.
Ilustração
É comum haver, principalmente nas redes sociais, debates teológicos acalorados. Cada dia mais o povo que se diz de Deus tem perdido o amor ao próximo. O que importa é ganhar a disputa!
Aplicação
A sã doutrina deve ser defendida sempre, mas nem toda forma de defesa é correta!
Como defender sem ofender?
É preciso ter amor. Amor é a chave.
Cuide para que o seu tom de voz seja pacífico.
Tenha humildade para reconhecer que não é o dono da verdade.
A sinceridade é importante, mas não deve ser usada como pretexto de ofensa.
Por que devo defender a sã doutrina?
A defesa da sã doutrina preserva a igreja da destruição.
A sã doutrina dá sustentabilidade à vida do crente. Irmãos imaturos normalmente são aqueles que não tem um bom conhecimento das doutrinas bíblicas.
Crentes maduros não se deixam levar por modismos religiosos.
Por que devo defender a sã doutrina com amor?
O amor é a base para o cumprimento da Lei. Se quero ser parecido com Deus, preciso cumprir a Lei, viver como Jesus viveu e amar como Ele amou.

CONCLUSÃO

Vimos, portanto, que a liberdade cristã não é autorização para pecar. Vimos também que ela não é autorização para explorar o meu próximo. Tampouco, a liberdade cristã é autorização para ignorar a lei. Por fim, aprendemos que a liberdade cristã não é autorização para destruir meu próximo.
Vivamos, desta forma, a liberdade cristã!
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