Teologia prática

Em Tiago  •  Sermon  •  Submitted
0 ratings
· 18 views
Notes
Transcript

Estudo na carta de Tiago.

Nos versos 9-11, encontramos um paralelismo típico dos salmos e provérbios fazendo um contraste entre a humildade e o orgulho. Esses dois versículos revelam paralelismo e contraste comum nos Salmos e Provérbios. O paralelo encontra-se na expressão gloriar-se. As cláusulas irmão de condição humilde e o rico mostram contraste. Além disso, os substantivos dignidade e. insignificância opõem-se um ao outro. Observe que, apesar de Tiago evitar usar a palavra pobre nesse versículo, é evidente a intenção de se retratar pobreza (compare com 2.2,3,5,6). Ao homem de condição humilde ele chama irmão.
A. “O irmão”. Como pastor, Tiago escreve uma carta aos “cristãos espalhados entre as nações”. Ele sabe que muitos deles vivem em profunda pobreza e ocupam os cargos de menor remuneração na sociedade. Essas pessoas precisam de palavras de encorajamento, pois as condições econômicas são opressivas e difíceis de entender. Assim, Tiago exorta o irmão cristão a “orgulhar-se de sua posição elevada”. Apesar de o irmão viver em “condição humilde”, ele não apenas deve saber de sua posição elevada: é encorajado até mesmo a orgulhar-se dela. O contraste é gritante. Como pode um cristão sem recursos compreender que é grandemente exaltado? Antes que possa orgulhar-se de sua posição de honra, deve aprender primeiro a apreciar a importância de sua condição, isto é, deve olhar não para as posses materiais, mas para os tesouros espirituais.
Ele deve ter uma perspectiva completamente diferente da vida. Sua visão de mundo não nasce do materialismo, mas dos valores espirituais. Ele sabe que o próprio Deus exaltou o crente a uma posição mais elevada. Ele se vê como filho do Rei, filho ou filha de Deus. Como membro da família real de Deus, o irmão deve “orgulhar-se” de sua árvore genealógica. E com orgulho que aponta para seu Pai Celeste e seu irmão, Jesus Cristo. O cristão tem sangue nobre em suas veias. Tiago diz: “Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam?” (2.5). Não é de se admirar que o cristã o deva orgulhar-se de sua posição. Ele é herdeiro do reino de Deus.
B. “O rico”. O equivalente ao “irmão de condição humilde” é “o rico”. Tiago exorta ambos para que se orgulhem de suas respectivas posições. Quem é essa pessoa rica? Essa é uma pergunta que fica em aberto. Alguns intérpretes desejam completar o paralelo nos versículos 9 e 10 ao inserir a palavra irmão: “e o irmão rico na sua insignificância”. Assim, tanto o pobre quanto o rico são cristãos. Observamos, porém, algumas objeções. Em primeiro lugar, apesar de Tiago chamar claramente o homem de condição humilde de irmão, ele omite esse termo quando apresenta o homem rico. Em seguida, Tiago compara o homem rico com a erva que murcha e morre, ele desaparecerá (v. 11).
Ele não acrescenta nenhuma palavra de admoestação e não chama ao arrependimento. Assim, em outras partes da epístola, Tiago deixa a impressão de que o rico não pertence à comunhão dos cristãos (ver 2.6-9; 5.1-6). E, por fim, Tiago se dirige aos cristãos que foram perseguidos e dispersos. Eles são oprimidos pelos ricos nas regiões onde se assentaram.
Além disso, observamos que Tiago fala do homem rico, mas não das riquezas. Ele não repudia as posses terrenas a fim de alegrar-se na pobreza. Não, ele ensina que Deus é quem dá “toda dádiva boa e perfeita” (1.17). Tiago não está preocupado com as riquezas, mas com a pessoa que as possui. Concluo, portanto, que o homem rico não é um cristão. É clara a referência que Tiago faz do AT ao usar essa comparação ou paralelismo. Em Isaias. 40.6b-8 “Uma voz diz: Clama; e alguém pergunta: Que hei de clamar? Toda a carne é erva, e toda a sua glória, como a flor da erva; seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do SENHOR. Na verdade, o povo é erva; seca-se a erva, e cai a sua flor, [mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente.”]. fica muito claro que Tiago faz esse paralelismo para mostrar que o “gloriar-se” deve estar em Cristo, com base nos méritos de Cristo.
Quanto ao “rico” ele deve ser humilde em reconhecer a sua transitoriedade, que ele é passageiro neste mundo, e que, portanto, o resultado vira no mundo por vir. Outro texto que expõe isso é Salmos 103.15-16 “Quanto ao homem, os seus dias são como a relva; como a flor do campo, assim ele floresce; pois, soprando nela o vento, desaparece; e não conhecerá, daí em diante, o seu lugar”. E assim o rico, afirma Tiago, passará como a flor do campo. Duas imagens podem ser visas aqui: o julgamento escatológico e a transitoriedade. Me parece que a transitoriedade seja mais clara no texto.
“O irmão”: em questão está, portanto, o relacionamento no seio da igreja cristã. Na realidade conjuntural daquela época o contraste entre ricos e pobres era grande e, para muitos, algo natural. Como, porém, a igreja de Jesus Cristo lidava com este contraste no grupo reunido por meio de proclamação, fé e batismo, na família dos filhos de Deus, nos irmãos, posteriormente nascidos, do grande irmão Jesus Cristo, na “geração vindoura”, na vanguarda do esperado reino de paz de Jesus Cristo? Como se supera a realidade de que no seio da igreja há pessoas de diversas categorias sociais? Será que os humildes se enchem de sentimentos de inferioridade ou de rancor e amargura? Preparam uma revolução social? E os ricos? Será que sua vantagem burguesa também serve de base para sua autoconfiança e sentimento de valor e para sua posição no interior da igreja? Porventura aquilo que a riqueza propicia valeria mais do que aquilo que o Senhor concede no evangelho?
Será que a propriedade privada é anulada por princípio? Não se fala disso aqui, e evidentemente não há nada no evangelho que obrigue a isso (nem mesmo At 4.32 deve ser entendido assim). Tiago mostra muito simplesmente a nova valoração do ser humano em decorrência do evangelho.
“O irmão de condição humilde”: a humildade não é simplesmente negada. Por enquanto ela continua existindo. A realidade não é mudada pela via revolucionária. A “condição humilde” podia e pode incluir muitos aspectos: fazer parte da categoria dos escravos, não ter estudo (p.ex. analfabetos), ter poucos dons, renda baixa, poucas posses, profissão simples, falta de influência. – “Glorie-se na sua dignidade”: é justamente dele que se aproxima de modo especial nosso Senhor Jesus Cristo, que “se tornou pobre por amor a nós” (2Co 8.9), que “não tinha onde repousar a cabeça” (Mt 8.20). Por meio da pobreza de Jesus o humilde se torna rico (2Co 8.9). Por meio dele passa a ser filho de Deus, “co-herdeiro”, partícipe de tudo o que Jesus é e possui, e consequentemente também daquilo que Deus é e possui (Rm 8.17).
Passa a ter alta nobreza. Pode entrar e sair diariamente do lar do Rei de todos os reis. Seu Senhor lhe confere participação em sua glória para sempre (1Co 2.7; Rm 8.18; Cl 3.4) e em sua obra e seu domínio (Mt 25.21; Ap 3.21). – “Glorie-se”: lembre-se disso com louvor e ação de graças, encha-se com esses pensamentos, fale muito disso, para honra de seu Senhor. É assim que um cristão dá conta de sua própria condição humilde, seja por destino, seja ao sofrer por amor a Jesus. Não precisa se engalfinhar nem se “encrespar” em prol de sua honra e afirmação. Já possui uma honra incomparável. Por isso o sentimento de humildade não o esmaga e tampouco o deixa amargurado. Não o envenena nem destrói. O cristão pode encarar pessoas e situações com liberdade. Dessa maneira, a rigor já não é “humilde”.
No verso 12, Tiago volta ao tema que introduziu no começo de sua epístola: a perseverança durante a provação (vs. 2 a 4). Ele diz que o crente que persevera é bem-aventurado e lhe diz que, por causa de seu amor por Deus, o crente “receberá a coroa da vida”. Tiago faz uma ligação com versos precedentes trazendo uma complementação do ensino dado. Primeiro, ele faz um paralelo com a provação. Que ocorre nos versos 2 e 12 que está ligada a perseverança dos versos 3 e 4 e o provado do verso 12 com prova do verso 3. A expressão “bem-aventurado ou alegre” do verso 12 traz uma dupla possibilidade interpretativa. Pode significar que o resultado de suportar as provações deve ser a alegria em Cristo ou aquele que é bem-sucedido na provação demonstra alegria no passar por elas e chegar ao fim.
O termo para feliz ou bem-aventurado pode também significar ter sucesso, terminar ou concluir uma tarefa. Tiago nos diz que o crente deve ser feliz nas provações, pois o teste da fé produzirá perseverança. V. 2. Em seguida, ele promete recompensas para aqueles que foram bem-sucedidos em aguentar as provações permanecendo firmes em meio aos testes. A recompensa para a fiel firmeza nas provações foi declarada em termos do presente e do futuro. O homem que se mantém firme é verdadeiramente feliz agora; mas também receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam.
O genitivo (da vida) está em aposição à coroa. A coroa consiste em vida, um dom para todos aqueles que amam a Deus. Tasker (op. cit., pág. 45) comenta incisivamente que embora nem a nossa fé nem o nosso amor ganhe para nós a vida eterna, é, entretanto, "um axioma bíblico que Deus tenha abundantes bênçãos reservadas para aqueles que o amam, que guardam os Seus mandamentos e que o servem fielmente a qualquer custo. (cons. Mt. 19:28; I Co. 2:9)".
Essa fórmula “abençoar” é bem conhecida no AT (e.g., Sl 1.1) e no NT (e.g., Mt 5.3-12). Há duas possibilidades interpretativas aqui, a primeira é entender que é o homem que ele chama de “bem-aventurado”? É a pessoa que encontra felicidade completa em Deus. Ela pode ser pobre, fraca, faminta ou perseguida, mas é feliz. Isso parece uma contradição. Do ponto de vista do mundo, somente os ricos e aqueles que têm segurança pode ser feliz, mas as Escrituras dizem que “o homem que suporta com perseverança a provação” é bem-aventurado.
A segunda, é que nem sempre a pessoa bem-aventurada é alguém feliz. Pois nossa condição emocional pode variar e varia com as circunstâncias da vida. Mas podemos ter certeza de que, sejam quais forem essas circunstâncias, se as suportarmos com fé e compromisso com Deus, seremos os recipientes do favor de Deus. De acordo com a NVI, essa bênção vem para o homem que persevera na aprovação. Deus testa a fé do ser humano para saber se está é autêntica e verdadeira. Por exemplo, nós testamos a pureza de uma tigela feita de cristal batendo de leve na borda externa. Sabemos imediatamente que é autêntica quando ouvimos um som reverberante, quase musical.
Também sabemos que aquela tigela de cristal passou pelo fogo para ser feita. De maneira semelhante, Deus testa a fé do ser humano como fez, por exemplo, no caso de Jó. A fé que não é testada e aprovada não tem valor. Deus quer que o crente se achegue a ele durante a provação para que possa dar-lhe as forças a fim de suportá-la. Deus não está interessado em ver o crente vacilar e falhar. Seu desejo é que ele suporte, supere e seja aprovado. Veja como Pedro encoraja seus leitores a perseverar: “Pois que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais com paciência? Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isso é grato a Deus” (lPe 2.20).
Provação, como no verso 2, refere-se a qualquer dificuldade na vida que possa ameaçar nossa fidelidade a Cristo. Pode ser a doença física, o retrocesso financeiro, a morte de um ente querido. O vocabulário de Tiago sugere que ele não tem em mente uma provação particular, mas na natureza ou essência da “provação”. Lembremos que no verso 4 é dito que a perseverança produz um caráter cristão maduro e íntegro. E aqui também é a perseverança que traz a bênção de Deus. Por que o crente que persevera durante a provação é feliz? Porque ele “receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam”.
Depois que esse período de provação terminar, o crente receberá a coroa da vida. Nenhum dos competidores de um esporte recebe a coroa antes da competição ter acabado, e, então, só uma pessoa leva a coroa (ICo 9.24,25). Ao que parece, a frase coroa da vida era uma expressão bastante conhecida no século 1º. Ela é usada na carta dirigida à igreja de Esmirna: “Sê fiel até a morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2.10).
Nos versos 13 e 14, Tiago um termo que tem causado uma discussão a respeito da provação e tentação. É preciso definir com cautela os termos para não sermos pegos na narrativa de que provação é o mesmo que tentação. Vejamos como as traduções utilizam o termo.
NVI - Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: "Estou sendo tentado por Deus". Pois Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.
ARA - Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta.
KJA - Entretanto, ninguém ao ser tentado deverá dizer: “Estou sendo tentado por Deus”. Ora, Deus não pode ser tentado pelo mal, e a nenhuma pessoa tenta.
ARC - Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta.
VIVA - E lembrem-se: quando alguém quer fazer o mal, nunca é Deus quem o está tentando, pois Deus nunca deseja praticar o mal e nunca tenta ninguém a praticá-lo.
SBP - Mas quando alguém for tentado não diga: "Foi Deusque me mandou esta tentação." Porque Deus nem é tentado por nenhum mal, nem é causador de tentação para ninguém.
CATÓLICA - Quando tentado, que ninguém diga: ""Deus está me tentando."" Porque Deus não é tentado a fazer o mal nem tenta a ninguém.
A questão é: se Deus pode tentar alguém ou não. Ou se ele pode induzir alguém a tentação. A resposta é, não. Mas as versões parecem conduzir o leitor a esse entendimento. O ponto aqui é que ao dizer que Deus prova sem fazer uma distinção do sentido da palavra certamente nos levará a pensar que a tentação assim como a provação tem como fonte o próprio Deus. Tiago faz uma ligação com o verso 12, dizendo que o resultado da perseverança é a coroa da vida, mas somente para quem perseverar. Assim, ele conecta o verso 12 com o 13 e afirma que Deus não pode tentar ninguém porque ele não pode ser tentado.
A ideia de usar o termo provar quer dizer testar. Em forte contraste com qualquer tentativa de ter Deus como responsável pelos fracassos humanos, Tiago sustenta que Deus, sendo Ele próprio aperastos, é incapaz de ser tentado pelo maligno, e não tenta a ninguém, pelo contrário, socorre e salva da tentação. O que tem de ser entendido é que a tentação é um impulso para pecar, e uma vez que Deus não é suscetível a qualquer desejo para o mal, ele não pode ser visto desejando que isso se realize no homem. O que Tiago atribui ao homem é que a tentação decorre do mau desejo de cada pessoa.
O sentido que Tiago usa a palavra desejo é de forma mais ampla e quer dizer desejo carnal, ilícito. Essa palavra carrega com frequência carrega para nós um sentido sexual, mas também tem sentido mais abrangente, incluindo qualquer anseio humano pelo que Deus proíbe. Tiago não está interessado em explicar a origem do mal, pois ele sabe que não é Deus, mas Satanás, que é chamado de tentador. Assim, ele escreve: “Deus não pode ser tentado pelo mal, e ele mesmo a ninguém tenta”. Sua intenção é dizer que Deus, Criador de todas as coisas, não é a causa do mal. Em sua santidade, Deus está bem acima do mal e não pode ser influenciado por ele. Tiago coloca a questão nesses termos: é impossível Deus ser tentado. Por causa de sua perfeição, Deus não tem nenhum contato com o mal e o mal não tem poder de tentá-lo.
O termo “desejo” usado por Tiago nos traz muita luz sobre o que ele quer dizer com a origem da tentação e sua diferença com provação. A palavra “desejo” tem a ideia de: desejar intensamente fazer algo ou ter algo, querer ou desejar intensamente, ter um profundo desejo, ambição”. Também o termo pode trazer a ideia de: desejar intensamente ter o que pertence a outra pessoa ou participar de uma atividade moralmente inaceitável, cobiçar, ser lascivo, ter maus desejos, paixão, lascívia. Se observarmos o significado do termo na forma lexical, perceberemos que a conotação depende do uso e pode ser para o mau como para algo bom. Isso explicaria que quando a provação vem junto com ela também vem a tentação, ou seja, quando Deus nos prova ele permitiu que nossa natureza aja em conformidade com seus desejos.
O termo é usado de duas tanto no AT quanto no NT e dependendo da forma tem seu mau ou bom. Teologicamente, são mais importantes aquelas passagens nas quais se emprega (epithumia desejo mau) em um sentido mau, de “desejo maligno” ou “cobiça”. Paulo vê a epithumia, o desejo mau como uma expressão do pecado que rege o homem. Vê o poder de propulsor na carne do homem, no ser pecaminoso que se desviou de Deus. Assim, os desejos podem achar sua expressão em todas as direções, seja sexual, o prazer material, a cobiça das posses dos outros conf. Rm 1.24; 1 Tm 6.9; Tt 3.3; Gl 5.16-21.
Nas Epistolas Gerais, o emprego de epithumia ou é neutro ou demonstra a mesma tendência que se revela nas cartas de Paulo e João. Representa a “carne” e suas “paixões” conf. Pe 2.11 “Amados, insisto em que, como estrangeiros e peregrinos no mundo, vocês se abstenham dos desejos carnais que guerreiam contra a alma”. E 2 Pe 2.10. Relaciona-se com as demais concupiscências dos sentidos no seu desejo por aquilo que é material, em dissoluções, orgias, bebedices conf. 1 Pe 4.3, e libertinagens conf. 2 Pe 2.18. é um poder que atrai, seduz e engoda ou engana o homem dominando sobre ele conf. Tg 1.14; 1 Pe 1.14. tal desejo promete completa liberdade e independência, mas na realidade, escraviza-o de modo abjeto ou desprezível. Esse desejo mau sempre está à espreita dentro do homem, de tal modo que, no momento certo, este cede à epithumia, tornando-se sujeito a ela conf. Tg 1.14. quando isso acontece, “dá à luz” a ação pecaminosa, que faz com que o homem seja culpado diante de Deus conf. Tg 1.15. E assim, finalmente leva até à “morte” conf. Rm 7.5 e à corrupção conf. 2 Pe 1.4. No verso 15, Tiago dá continuidade a argumentação, só que agra ela usa um advérbio de tempo “então, depois, a seguir, em seguida” deixando claro a relação com o que estava sendo dito anteriormente. Ele nos fornece os elementos que estavam um tanto obscuros quanto a relação da tentação e provação.
Como vimos nos versos anteriores, o desejo mal em nós é o responsável em nos levar ao pecado. Esse desejo mal advém da natureza pecaminosa em nós e ela é a responsável em nos fazer cair. Veja, a tentação não é o problema, antes sim, o desejo ardente em nós pelo que é proibido. É esse desejo que faz conceber o pecado, e uma vez gerado pecado, isso nos leva a morte. V. 15. No verso 14, Tiago usa uma metáfora para dar mais ênfase quando diz que somos “seduzidos” pela nossa cobiça. Agora ele muda essa metáfora para descrever a devastação que o desejo pode causar na vida espiritual.
Vivemos num tempo em que o mundo prontamente faz do pecado motivo de riso, especialmente quando diz respeito ao sexo. Mas os pecados sexuais (prostituição, adultério, fornicação e homossexualismo) não devem ser tratados com humor. O pecado causa sofrimento e tristeza, e leva à destruição e morte. Essa linguagem metafórica de o desejo conceber e dar luz o pecado e o pecado uma vez existente, se consumado, produz a morte é o ponto central aqui. Ele não diz como o desejo concebe e dar a luz, mas com certeza, ele tem em mente a resposta ativa de uma pessoa que é tentada.
A tentação, diz Tiago, envolve o desejo inato em direção ao mal, pois é seduzido pela atratividade superficial do pecado. Se a pessoa acolhe a tentação, em vez de resistir a ela, o desejo é concebido; e se não é afastado de imediato, ele produz o pecado. Quando o desejo do mal se levanta na mente, não para aí. A cobiça dá à luz o pecado, e o pecado produz a morte. "A morte é assim o produto amadurecido ou terminado do pecado" (Moffatt, op. cit., pág. 19). A morte aqui é a morte espiritual em contraste com a vida que Deus dá àqueles que o amam (1:12).
Se pensarmos como uma incubação o que Tiago está dizendo, podemos imaginar à semelhança de um bacilo que traz enfermidade, damos espaço ao desejo em nós, quando não buscamos ajuda junto do Senhor em oração. Acontece a “incubação”, ainda não manifesta exteriormente, e então a irrupção visível da “doença”: “Dá à luz o pecado.”
Cobiça e pensamento geram, pois, ação. O peixe abocanha (a metáfora da isca e do peixe é a segunda utilizada por Tiago). Engoliu o anzol e passa a nadar com ele no corpo. Ainda está na água, mas fisgado pelo anzol. Quando toleramos uma ideia ou desejo por tempo suficiente em nós, ela (ou ele) finalmente se torna, com certa obrigatoriedade, uma ação.
“O pecado, porém, uma vez consumado, dá à luz a morte.” O bacilo de enfermidade, multiplicado infinitamente, é capaz de finalmente sufocar a vida de um ser humano. Ou, ilustrando com a outra metáfora aqui utilizada, a da “isca”: na sequência acontece um puxão com a vara de pesca, e o peixe sai voando do ambiente de vida para o ambiente de morte. Isso não acontece apenas quando alguém passou da morte para a “segunda morte”, a morte após a morte, para a eterna consciente condição de ter morrido para Deus (Mc 9.44; Ap 20.14). Vale igualmente agora, quando alguém “está morto em pecados” (Ef 2.5). É bem possível que os outros ainda nos considerem cristãos: “Tens o nome de que vives, e estás morto” (Ap 3.1).
O mais perigoso na realidade não seria o “abocanhar do peixe”, o ato maligno individual, mas o fato de que por meio dele o inimigo amarra o ser humano a si, afastando-o assim da comunhão de vida com Deus, com Jesus Cristo, seu ambiente de vida. Na desobediência concreta começamos a apostatar de Jesus.
No verso 16, Tiago afirma que a ajuda ainda continua e que não podemos empurrar a culpa para Deus e, dessa forma, justificar a nós mesmos: “Não vos enganeis, meus amados irmãos”, declara Tiago. Isso quer dizer: não tirem conclusões falsas por meio de uma lógica aparente (consciente ou inconsciente). O ser humano que tenta se afirmar contra Deus empenha de múltiplas maneiras sua capacidade mental para justificar essa atitude errada. Ver a situação corretamente constitui o primeiro passo para que possamos obter auxílio.
Tiago é um pastor que entende plenamente o coração daqueles que estão dispersos em países estrangeiros, longe de casa e de seus antigos bens. Ele sabe que passam por dificuldades e que começaram a voltar suas queixas para Deus. Como líder preparado, ele os aconselha, dirigindo-se a eles como “amados irmãos” e advertindo-os para não se enganarem. Ele quer que considerem a pessoa e as caracteristicas de Deus. Algo importante que devemos saber é que a tentação em si mesma e por si mesma, não é pecaminosa.
Só quando o desejo “concebe” tem permissão para produzir fruto. O pecado vem à existência. Isso é importante, pois alguns cristãos extremamente sinceros podem sentir que o fato de continuarem a experimentar tentação demonstra que estão fora da comunhão com o Senhor. Com certeza, à medida que alguém desenvolve cada vez mais uma “mente” cristã, a frequência e o poder da tentação diminuem. Mas a tentação faz parte de nossa experiência, como fez parte da experiência do Senhor conforme Hb 2.18 “Considerando, portanto, tudo o que Ele mesmo sofreu quando tentado, Ele é capaz de socorrer todos aqueles que semelhantemente estão sendo atacados pela tentação”. Ao longo do nosso tempo na terra.
Tiago usa um termo muito importante no verso 16, “se enganar”. Este termo está relacionado a um comportamento enganoso, ou seja, tal pessoa deixou de acreditar no que é verdadeiro e passou a acreditar no que é falso. Assim, percebemos uma mudança de comportamento moral de uma pessoa. O conjunto de verdades e a pessoa que as traz é Deus. Tiago está dizendo que esses crentes não devem “se deixar enganar” pelas circunstâncias, pelo sofrimento, provações e lutas da vida conferindo a origem da tentação a Deus.
No verso 17, ele confirma o que disse antes, que “toda boa dádiva” e “todo Dom perfeito” vem de Deus. A palavra “dádiva” significa: ato de dar, presente ou dádiva. Perceba que somente as dádivas vem de Deus. Tiago deixa claro que a tentação não. Tiago usa o termo Dom que significa: dádiva benefício. Podemos observar aqui um recurso literário chamado hexâmetro que é a repetição de palavras para formar seis seções rítmicas. No caso, dom para boa e dádivapara perfeito. O que podemos observar é uma intercambialidade de palavras, ou seja, são sinônimos.
Tiago faz de fato um contraste entre Deus e o homem. Ele mostra que em Deus não há “sombra” ou “variação” de mudança. Devemos observar muito bem o que ele quer dizer com essas palavras. A primeira sombra ou variação está relacionada com a expressão “Pai das luzes”, o que ele tem em mente aqui é o entendimento do judeu em relação a criação de Deus. Deus é o criador do universo, das estrelas, do sol, da lua. Naquele contexto, as luzes aqui são luzes celestiais, ou seja, ele estava se referindo a criação baseado no AT. Por exemplo, Sl 136.7-9; Jr 31.35.
àquele que fez os grandes luminares, porque a sua misericórdia dura para sempre; o sol para presidir o dia, porque a sua misericórdia dura para sempre; a lua e as estrelas para presidirem a noite, porque a sua misericórdia dura para sempre;” vejamos Jr 31.35 “Assim diz o SENHOR, que dá o sol para a luz do dia e as leis fixas à lua e às estrelas para a luz da noite, que agita o mar e faz bramir as suas ondas; SENHOR dos Exércitos é o seu nome. Nenhum dos textos está dizendo que ele é o Pai das luzes, mas que é o criador de todos eles. É interessante observar que na mente deles quando Deus é apresentado como pai, com frequência, pretende-se referir a seu poder criativo.
Portanto, Tiago cita a criação dos corpos celestes por Deus como uma evidência de seu poder e cuidado contínuo para o mundo. Ao se referir aos corpos celestiais, Tiago está dizendo que em Deus não há mudança como há mudança ou variação nas estações ou fases da lua por exemplo. Ele está afirmando que Deus não muda como os astros criados por ele. O termo variação conota os movimentos ordenados do sol, da lua e das estrelas e dos cometas. A sombra de variação pode se referir a constante variação da noite e do dia ligado as fases da lua. Portanto, não essa mudança ou variação em Deus com há no homem. Tiago os alerta sobre essa mudança em relação a crença em Deus.
Ainda assim, alguns cristãos que são provados e testados perdem a perspetiva correta e questionam a providência divina. Se Deus é Todo-Poderoso, por que ele não evita as tragédias e calamidades? O homem pode multiplicar as acusações verbais e não-verbais contra Deus, mas não deve fazê-lo. Ao invés disso, deve voltar sua atenção para o que Deus dá e para quem ele é. Podemos ver duas razões desse perigo no crente:
a. A bondade de Deus. Deus é a personificação da bondade, a fonte de tudo o que é bom, pois a bondade se origina dEle. Deus dá por meio da criação do céu e da terra; Deus dá quando envia seu Filho; Deus dá ao derramar seu Espírito. As dádivas que Deus coloca à disposição de seu povo são boas e perfeitas cada uma delas. Elas incluem dádivas espirituais e materiais.
Todas as coisas nos são dadas pelas mãos de Deus, pois recebemos dele tanto a prosperidade quanto a adversidade. Deus dá ao seu povo provações e testes que, por vezes, tomam a forma de calamidades. Assim diz o profeta Amós para o povo de Israel: “Sucederá algum mal à cidade sem que o Senhor o tenha feito?” (3.6). Deus está completamente no controle de cada situação e sabe o que é melhor para seus filhos. “Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará boas cousas aos que lhe pedirem?” (Mt 7.11; comparar com Lc 11.13).
b. O caráter de Deus. Depois de falar dos dons, Tiago volta-se para aquele que os oferece, isto é, o próprio Deus. Dádivas perfeitas e boas vêm lá do alto, “do Pai das luzes”. O escritor encoraja o leitor a olhar para o céu, onde verá a luz brilhante do sol durante o dia, a luz reflexiva da lua à noite e o brilho das estrelas. Ele é o criador dessas fontes de luz; ele próprio é somente luz. “Deus é luz, e não há nele treva nenhuma” (lJo 1.5). Assim, a escuridão não pode existir na presença de Deus. Sob essa luz, Deus mostra sua santidade, bondade, amor, integridade e caráter imutável.
Observe que Tiago chama Deus de “Pai” das luzes e usa essa figura de linguagem para ilustrar a estabilidade absoluta de Deus. Em Deus não há “sombra de mudança”. O ser, a natureza e as características de Deus são imutáveis (Ml 3.6). À medida que a terra, o sol, a lua e as estrelas seguem seu curso determinado, observamos as variações de luz e escuridão, dia e noite, o dia mais longo e o dia mais curto do ano, as fases da lua, eclipses e o movimento dos planetas. A natureza está sujeita a variações e mudanças, mas Deus não! Ele é o pai das luzes celestiais, que é sempre luz e não muda. Ele tem um interesse permanente em seus filhos.
No verso 18, parece que não vemos mais a ligação com o verso antecedente, contudo, Tiago nos informa que fomos gerados pela palavra da verdade, com o propósito de sermos primícias de suas criaturas. Devemos observar com cuidado o início do verso 18, atentando para a expressão “segundo o seu querer” esta expressão significa querer, vontade, desejar. Podemos relacionar a esta ideia a ideia de eleger, escolher demonstrando assim o seu desejo de fazer algo. A ideia implícita aqui é a regeneração do pecador pelo poder de sua palavra. Tal nascimento vem por meio da pregação da palavra. Talvez o exemplo mais contundente do poder da palavra seja a passagem de Ezequiel 37.1-10.
Deus não apenas nos deu sua criação para que, com nossos olhos físicos, possamos ver seu cuidado amoroso. Ele também nos confiou sua revelação especial, isto é, a palavra da verdade. Por meio dessa palavra, sabemos que somos pessoas privilegiadas. Somos o povo do próprio Deus. Agora o somos. Deus nos escolheu. Que privilégio!
Podemos perceber que “primeiros frutos” é uma forma comum de denotar os cristãos no NT, por exemplo, 2Ts 2.13; Ap 14.4; Rm 16.5; 1Co 16.5. Mas a peça mais importante que evidência que “gerou” redentor, ou seja, regeneração é “palavra da verdade”. Esta palavra no texto sugere que essa “palavra” é o instrumento por meio do qual Deus traz as pessoas à vida. Todas as outras quatro ocorrências da frase no NT se referem ao evangelho como o agente da salvação conf. 2Co 6.7; Ef 1.13; Cl 1.5 e 2Tm 2.15. Assim, Tiago, por conseguinte, recorre ao “nascer de novo” dos cristãos como um exemplo notável do dar bom e fiel de Deus. Tiago enfatiza a natureza livre e irrestrita desse dar ao começar o verso 18, o termo que traz a ideia de dar planejado e com desejo envolvido.
Podemos observar ainda em outras traduções: ARC, “segundo sua vontade”, NVI, “por sua decisão”, NVB-P, “pela sua própria vontade”, VFL, decidiu”. ARA, “pois, segundo o seu querer”, CAT, “pela sua própria iniciativa”, KJA, “de acordo com sua vontade”. A graça de Deus é estendida por meio do evangelho às pessoas para trazer à existência um antegozo, ou pagamento inicial (primários frutos), de um plano redentor que, no fim, englobará toda a criação.
No verso 19, Tiago disse aos seus leitores que Deus os havia gerado espiritualmente
por meio da palavra de fé, isto é, o evangelho (1.18). Agora ele lhes diz para viver de acordo com essa palavra, quer ela chegue até eles de forma escrita ou falada. Essa palavra foi plantada em seu coração e tem poder para salvá-los. Ao longo de toda a carta, de um modo geral, e de maneira específica em certos trechos, Tiago fala diretamente aos seus leitores. Ele lhes diz o que fazer e o que não fazer. Aqui ele diz: “Atentem para isto”. Mas para que eles devem atentar? Num típico paralelismo semítico, ele declara o provérbio:
Todo homem, pois, seja:
pronto para ouvir
tardio para falar
tardio para se irar.
Preletores que têm o talento de se expressar com fluência e eloquência são altamente requisitados. Eles recebem reconhecimento, admiração e aclamação. Tiago, porém, coloca a ênfase não no falar, mas no ouvir. Isso é mais importante do que falar. Ouvir é uma arte difícil de se dominar, pois significa ter um forte interesse pela pessoa que está falando. Ouvir é a arte de fechar a boca e abrir os ouvidos e o coração.
Mas, o que é ser pronto para ouvir? A ideia é de: rápido, pronto, rapidamente. Isso fica mais claro no texto de Jo 11.29, quando Maria levantou-se rapidamente e foi se encontrar com Jesus. Provavelmente, essa expressão se refere ao período de tempo transcorrido entre o momento em que Maria ouviu falar de Jesus e o momento em que ela saiu para encontrar-se com ele. O que Tiago quer mostrar é a disposição, interesse e no menor espaço de tempo que uma pessoa deve parar para ouvir, refletir, meditar no que está sendo dito, falado.
Ouvir é amar o próximo como a si mesmo: suas preocupações e problemas são importantes o suficiente para serem ouvidos. Tiago adverte seus leitores a estarem plenamente cônscios das palavras que falam. Na verdade, ele reverbera o ditado de Jesus: “Digo que toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no dia de juízo; porque pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado” (Mt 12.36,37; consultar Ec 5.1,2). Quando Tiago diz que devemos ser tardios para falar, não defende a ideia de que devemos fazer um voto de silêncio. Pelo contrário, ele quer que sejamos sábios em nosso falar. Alguns dos provérbios judaicos prevalecentes nos dias de Tiago diziam: “Fale pouco e aja muito”.
“É sábio para o homem instruído manter-se calado, e mais ainda para os tolos”; “Até o estulto, quando se cala, é tido por sábio” (Pv 17.28).57 Salomão disse algo parecido neste provérbio: “No muito falar não falta transgressão, mas o que modera os seus lábios é prudente” (Pv 10.19). Palavras descuidadas, muitas vezes, acompanham um estado de espírito irado. É claro que há um lugar para a ira correta, mas o salmista nos diz que devemos conhecer o limite dessa ira: “Irai-vos, e não pequeis” (SI 4.4; Ef 4.26; e ver Mt 5.22). No tocante à raiva, Tiago pede que haja controle.
Temos prontas as nossas desculpas para a ira: estamos muito ocupados, sob muita pressão, é uma característica de família ou até mesmo dizemos: “Não posso evitar”. Tiago elimina qualquer possibilidade de desculpas quando diz: “Seja... tardio para se irar”. Isso significa que devemos ser capazes de prestar contas de todas as palavras que proferimos. “O de ânimo precipitado exalta a loucura” (Pv 14.29), a ira e o pecado (Ef 4.31; Cl 3.8; Tt 1.7). Um homem irado ouve a voz do maligno, e não a voz de Deus.
Então, o que Tiago quer dizer com ser “tardio em falar”? aqui ele faz um contraste muito claro, tal qual na poesia hebraica. Aquele que é rápido em ouvir, deve ser também vagaroso em falar. A palavra tardio significa um período de tempo que se estende dando a ideia de ser lento.Assim, Tiago está dizendo que devemos ser lentos e falar fazendo um contraste com o ser rápido em ouvir. Afinal, também é necessário que, enquanto prestamos atenção no outro, já reflitamos sobre uma resposta que o ajude e o leve adiante. Mas seria errado tentar dar o recado ao outro precipitadamente e às pressas. O outro não se sentiria levado a sério: “Ora, ele nem sequer se envolve com minha causa.”
Um cristão torna-se mais “vagaroso para falar” pelo fato de ao mesmo tempo conversar simultaneamente com seu Senhor: “Ó Senhor, o que devo dizer agora? Será correto o que penso? Por favor, concede-me agora a palavra certa. Autoriza-me. Usa a minha palavra, e até mesmo fala pessoalmente com essa pessoa.” Em Jesus presenciamos como, durante o diálogo com seus semelhantes, ele estava ao mesmo tempo conversando com seu Pai, atento para a vontade e o direcionamento dele (Jo 2.4; 11.6,41s). Ser “vagaroso para falar” importa principalmente também quando estamos “sob a palavra”. Sem dúvida existe igualmente o diálogo em torno da palavra: “Antes, direis, cada um ao seu companheiro e cada um ao seu irmão: Que respondeu o Senhor? Que falou o Senhor?” (Jr 23.35). Não obstante, as muitas discussões constituem hoje um perigo.
Com frequência não conseguimos ouvir ao mesmo tempo em que somos capazes de olhar por acima e para além do mensageiro, perguntando-nos: “Senhor, que pretendes me dizer agora?” – Importa “falar vagarosamente”, sob certas circunstâncias e em determinado sentido, até mesmo perante Deus. Também para orar precisamos de silêncio se quisermos rogar no sentido da vontade e dos alvos de Deus e, consequentemente, sob a promessa plena (1Jo 5.14).
Porém, ser “vagaroso para falar” de forma alguma significa que não devamos nunca falar, principalmente quando se trata de testemunhar em favor de nosso Senhor. Na Bíblia não consta o ditado “Falar é prata, e silenciar é ouro”.
Tiago nos leva agora para a ideia de ser tardio em irar-se. Esta palavra significa raiva ou ira. A ideia envolvida esta ligada a ira que leva ao descontrole, a perda do domínio próprio, ao estado de não usar a reflexão, o pensar antes de agir. “É sábio para o homem instruído manter-se calado, e mais ainda para os tolos”; “Até o insensato, quando se cala, é tido por sábio” (Pv 17.28). Salomão disse algo parecido neste provérbio: “No muito falar não falta transgressão, mas o que modera os seus lábios é prudente” (Pv 10.19). Palavras descuidadas, muitas vezes, acompanham um estado de espírito irado. É claro que há um lugar para a ira correta, mas o salmista nos diz que devemos conhecer o limite dessa ira: “Irai-vos, e não pequeis” (SI 4.4; Ef 4.26; e ver Mt 5.22). No tocante à raiva, Tiago pede que haja controle.
Temos prontas as nossas desculpas para a ira: estamos muito ocupados, sob muita pressão, é uma característica de família ou até mesmo dizemos: “Não posso evitar”. Tiago elimina qualquer possibilidade de desculpas quando diz: “Seja... tardio para se irar”. Isso significa que devemos ser capazes de prestar contas de todas as palavras que proferimos. “O de ânimo precipitado exalta a loucura” (Pv 14.29), a ira e o pecado (Ef 4.31; Cl 3.8; Tt 1.7). Um homem irado ouve a voz do maligno, e não a voz de Deus. Tiago é direto. Ele diz que “a ira do homem não produz a vida de justiça, que é da vontade de Deus”. A ira é um estorvo para as orações de um crente (lTm 2.8) e evita, assim, que ele promova a causa de Cristo. Com efeito, ela dá “lugar ao diabo” (Ef 4.27).
Considere Moisés, que se irou com os israelitas e não deu ouvidos às instruções que recebeu de Deus. Ele mostrou desobediência e, por isso, não foi autorizado a entrar na Terra Prometida (Nm 20.10- 12,24; 27.14; Dt 1.37; 3.26,27). Quando vivemos a vida de retidão que Deus quer para nós, ouvimos a Palavra de Deus com cuidado e obediência. Quando planejamos fazer ou dizer alguma coisa, devemos nos perguntar se nossas ações ou palavras serão para a glória de Deus e o progresso da causa da justiça e paz para nosso próximo. Quando nos deixamos ser guiados pela ira, não somos mais conduzidos pela lei de Deus. “O iracundo levanta contendas, e o furioso multiplica as transgressões” (Pv 29.22). Ao invés disso, o crente deve controlar o seu gênio, orar pedindo sabedoria e obedecer à lei de Deus.
A resposta de Tiago está no verso 20, “Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus”. Tiago usa uma palavra muito importante dentro do texto “produz” essa palavra significa fazer com sucesso, fazer de forma completa. E a pergunta que se faz é: o que devemos fazer? A resposta está na justiça de Deus. Ou seja, fazer aquilo que é a vontade de Deus. Por que Tiago diz isso? Porque a ira humana não produz um comportamento que agrada a Deus. Quando um cristão dá evasão à ira, fica incapaz de agir com justiça; além disso, ele não deixa lugar, ou pelo menos atrapalha, à vindicação da justiça divina no mundo.
Tiago é direto. Ele diz que “a ira do homem não produz a vida de justiça, que é da vontade de Deus”. A ira é um estorvo para as orações de um crente (lTm 2.8) e evita, assim, que ele promova a causa de Cristo. Com efeito, ela dá “lugar ao diabo” (Ef 4.27). Considere Moisés, que se irou com os israelitas e não deu ouvidos às instruções que recebeu de Deus. Ele mostrou desobediência e, por isso, não foi autorizado a entrar na Terra Prometida (Nm 20.10- 12,24; 27.14; Dt 1.37; 3.26,27).
Quando vivemos a vida de retidão que Deus quer para nós, ouvimos a Palavra de Deus com cuidado e obediência. Quando planejamos fazer ou dizer alguma coisa, devemos nos perguntar se nossas ações ou palavras serão para a glória de Deus e o progresso da causa da justiça e paz para nosso próximo. Quando nos deixamos ser guiados pela ira, não somos mais conduzidos pela lei de Deus. “O iracundo levanta contendas, e o furioso multiplica as transgressões” (Pv 29.22). Ao invés disso, o crente deve controlar o seu gênio, orar pedindo sabedoria e obedecer à lei de Deus.
No verso 21, Tiago nos dá de forma mais clara a razão ao usar a conjunção; portanto, pois, por esse motivo, por causa disso. Essa expressão serve como marcador de resultado para mostrar o resultado o que foi dito anteriormente. Assim, Tiago está claramente falando que a ira humana não está de acordo com a vontade de Deus e sua justiça. Na verdade, ela se opõe a justiça de Deus. Então, Tiago nesse verso, está afirmando que a causa devemos nos “despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade”. Essa impureza e maldade a que Tiago se refere nesse verso, advém da ira humana, por causa dela, o homem comete e acumula impureza e maldade.
Tiago explica que devemos nos despojar. O que significa está palavra? Remover ou tirar do caminho. Ou seja, precisamos tirar, remover de nossas vidas a ira descontrolada que sempre nos leva a contrariar a vontade de Deus. Ela sempre nos leva a ter um comportamento que desagrada e nos afasta de Deus. Tiago enfatiza que devemos acolher a palavra de Deus em cada um de nós. Os ensinos que nos ajudarão a viver de forma que agrade a Deus. Tiago usa a palavra acolher que significa; pegar, levar conosco, segurar. É essa atitude que devemos ter em relação a palavra de Deus.
Tiago explica que essa palavra é poderosa e que deve ser acolhida com atitude de mansidão sabendo que ela pode salvar nossa alma. Ele continua dizendo que podemos observar sua ênfase na prática do que foi aprendido e não apenas o ser ouvintes do ensino dado. Mais uma vez fica claro o contraste que ele faz entre prática e ser ouvintes. Tiago adverte os cristãos que se livrar do pecado envolve uma luta contra um inimigo com muitos soldados, ataca-nos de formas persistente e de muitos modos. Derruba-se um pecado e logo outro surge para tomar seu lugar no conflito espiritual no qual estamos engajados. (Moo, pág., 119). A ideia não está totalmente restrita ao trocar ou despojar as roupas, mas sim, a ênfase na influência da palavra de Deus na produção desse novo tipo de comportamento.
No verso 22, Tiago expressa uma ordem para que seus leitores sejam praticantes e não ouvintes da palavra. O verbo sejam traz o tempo presente e indica ação contínua e pede um hábito de vida. Outra observação importante é o uso do termo ouvir que aqui não quer dizer ouvir algo, mas sim obedecer ao que é dito ou ensinado. Portanto, o ouvir está intimamente ligado a obediência da pessoa que ouviu o ensinamento. Tiago faz uma exortação para os cristãos aceitarem a palavra implantada v.21 é o ponto central dos versos 21-27. Tiago chama a atenção para que entendam que aceitar a palavra é o mesmo que práticar e não apenas ouvir.
Observemos, em primeiro lugar, o termo ouvintes. Essa expressão está intimamente ligada à palavra desobediência no grego. O autor de Hebreus junta o verbo ouvir com o substantivo desobediência numa única sequência. “Importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos... e toda transgressão e desobediênciarecebeu justo castigo” (2.1,2). Tiago também adverte seus leitores a atentarem para a Palavra de Deus. Se deixarem de ouvir a mensagem de Deus, estão enganando-se a si mesmos. Simplesmente ouvem a pregação do evangelho e, no final do culto, vão embora como se a Palavra de Deus não tivesse nada a lhes falar.
Hernandes Dias Lopes faz um comentário muito interessante sobre esta passagem. Não basta ouvir ou ler a Palavra, é preciso praticá-la. Não basta apenas o conhecimento da verdade, é necessário também a prática da verdade. Muitos crentes marcam sua Bíblia, mas a Bíblia não os marca. Há grandes benefícios em se praticar a Palavra. Primeiro, quem pratica a Palavra conhece a si mesmo (1.23,24). A Palavra aqui é comparada não com a semente, mas com o espelho. O principal propósito do espelho é o autoexame.
Quando você olha para dentro da Palavra e compreende o que ela diz, você conhece a você mesmo: seus pecados, suas necessidades, seus deveres e suas recompensas. Ninguém olha no espelho e logo vai embora sem fazer nada. Você olha no espelho para saber se já penteou o cabelo, se já lavou o rosto ou se a roupa está bem passada. Você olha no espelho para ver as coisas como elas são. Quando você olha no espelho, você descobre que tipo de pessoa você é e como você está. (Hernandes, pág. 83). O espelho mostra quem nos somos e não quem nós queremos ser. Ele não mente, ele mostra exatamente o que somos. Lembrem-se que a figura do espelho no texto é a palavra de Deus.
O verso 23-24, mostra Tiago usa a ilustração de um espelho. Na verdade, sua ilustração
se aproxima do discurso por parábolas adotado por Jesus durante seu ministério na terra (comparar com Mt 7.26). Os espelhos do século l não eram feitos de vidro, mas de metal, que era polido regularmente. Os espelhos ficavam em posição horizontal sobre as mesas, de modo que a pessoa que desejasse ver seu reflexo precisava curvar-se e olhar para baixo. Podia, então, ver um parco reflexo de si mesma (Jó 37.18; 1Co 13.12; 2Co 3.18; Sabedoria de Salomão 7.26; Sir. 12.11).
Eis o ponto de comparação. A pessoa que olha no espelho para ver sua própria imagem e logo a esquece é como a pessoa que ouve a proclamação da Palavra de Deus, mas não responde. Ela vê seu reflexo no espelho, arruma rapidamente sua aparência externa e vai embora. Ela ouve o evangelho sendo pregado, faz pequenas mudanças e segue seu caminho. O evangelho, porém, não consegue penetrar no coração e não pode mudar a disposição interna do ser humano. O espelho é um objeto usado para alterar a aparência externa da pessoa.
No verso 25, Tiago mostra o homem que atenta para às Escrituras como a Lei perfeita,
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.