BUSCANDO UM SENTIDO PARA A VIDA.
Os esforços humanos destituídos do temor do Senhor são desprovidos de significados em um mundo que não oferece realização pessoal (Ec 1.1-18)
BUSCANDO UM SENTIDO PARA A VIDA.
o estilo peculiar de Eclesiastes pode apontar para determinado gênero literário que tinha sua origem na Fenícia e se fez presente na corte cosmopolita de Salomão. Isso explicaria não apenas o estilo do livro, mas também seu vocabulário peculiar. O segundo fator é o grande número de paralelos entre Eclesiastes e os livros históricos, o que sugere Salomão como o melhor candidato à autoria de Eclesiastes.
Assim, encontramos:
Paralelos entre Eclesiastes e os livros históricos
Eclesiastes 1.16
1 Reis 3.12
sabedoria inigualável
Eclesiastes 2.4–10
1 Reis 4.27–32
tesouros incomparáveis
Eclesiastes 2.4–10
1 Reis 7.1–8
riqueza sem paralelo
Eclesiastes 2.4–10
1 Reis 9.17–19
servos numerosos
Eclesiastes 2.4–10
1 Reis 10.14–29
projetos arquitetônicos
Eclesiastes 12.9
1 Reis 4.32
atividade literária intensa
Eclesiastes 2.8; 7.28
1 Reis 11.3
mulheres em profusão
nem o contexto, nem o conteúdo, nem a língua oferecem provas que nos levem a rejeitar a autoria salomônica. As semelhanças entre Salomão e Qohelet são muitas e, legitimamente explicadas, apontam para o filho de Davi como o mais provável autor do livro.
Qohelet conseguiu produzir unidade com as melodias aparentemente conflitantes do otimismo cauteloso e de um pessimismo realista à medida que trata, dialeticamente, de temas como juventude e velhice, sabedoria e insensatez, esperança e desespero, trabalho e prazer, permanência e efemeridade, amizade e solidão, pobreza e riqueza.23
O livro serve, todavia, para retratar o fato do decreto da permissão do mal e a tentativa frequente do homem, como indivíduo, em resolver e explicar tal problema. A teodiceia de Eclesiastes consiste em demonstrar a impossibilidade humana em resolver o problema e a necessidade de viver na fé em um universo onde o Criador determinou que o mal exista até o dia em que Ele vai julgar os justos e os ímpios (3.17).
O nome exclusivo de Deus em Eclesiastes é אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm), usado quarenta vezes. Deus é transcendente (5.2), Criador (11.5; 12.1), doador da vida (8.15; 9.9) e organizador da vida (3.1–8). Ele controla os ciclos da existência terrena (1.5–7) e dela cuida como um Pastor (12.11).25
Qohelet atribui a Deus atividades de intelecto (percepção e discernimento [5.20]), de emoção (agrado [2.26; 7.26] e ira [5.6]), e de vontade (benevolência [2.24–26; 3.13; 5.18–19; 6.2] e generosidade [2.26; 5.19; 6.2]). Ele possui um caráter moral santo (5.1,2) e exercerá justiça (3.17; 8.13).
Qohelet demonstra com seu livro que mesmo a sabedoria do povo a quem Javé se revelou não consegue abranger todo o propósito divino e as maneiras pelas quais o Criador lida com as criaturas (3.11; 8.17; 9.1; 11.6). Tal inescrutabilidade, todavia, não é egoísta ou malévola, nem mesmo isolacionista; tem, antes, como objetivo, que o homem tema a Deus (3.14).
Qohelet usa duas palavras hebraicas para “homem”, אָדָם (ʾāḏām, usada 49 vezes no livro e ligada à origem “terrena” do homem),26 e אִישׁ (ʾîš, usada dez vezes no livro e ligada à ideia do homem como indivíduo).27 Além de sua carne ou corpo (heb. בָּשָׂר, ḇāśār), por meio da qual o homem experimenta as dificuldades do mundo paradoxal em que vive (11.10; 12.10), ele possui uma parte imaterial que funciona em três níveis: alma (נֶפֶשׁ, nep̄eš,), o centro dos desejos humanos de alegria e realização (6.2–3; 7.9) e sede da investigação e contemplação espiritual (7.28); espírito (רוּחַ, rûaḥ), que pode ser uma referência ao temperamento do indivíduo (7.8, 9) e ao princípio animador da vida (3.19, 21; 12.7);28 e coração (לֵב, lēḇ) a designação mais frequente do ser interior do homem e que inclui seu intelecto (1.13), suas emoções (7.3,4) e sua vontade (7.7; 8.11).
Qohelet cria na universalidade do pecado (7.20) e na depravação total do homem (9.3). Tais fatores redundam em várias formas de pecado, como a opressão (4.1–3; 5.8), a inveja (4.4), a ganância (5.10), o orgulho (7.8), a ira (10.4) e a imoralidade (7.26). A ideia do obscurecimento espiritual do homem está presente em Eclesiastes (3.11; 11.5).
A morte, em Eclesiastes, é um fato do qual não se pode escapar. Todos morrerão (2.14–16; 3.18–20) e o homem não pode alterar o que já está determinado, o dia de sua morte (3.2; 8.8). A morte significa a entrega do espírito a Deus (3.21; 12.7).
Diante de uma vida curta que não pode controlar, o homem deve, acima de tudo, temer a Deus (3.14; 5.7; 7.18; 8.12,13; 12.13). Deve ainda lembrar-se de Deus (12.1, 6), adorar sinceramente a Deus (5.1,2), ser sábio (2.13; 4.13–16; 8.5), ser diligente (9.10; 11.2–6), e desfrutar a vida (2.24–26; 3.12,13, 22; 5.18–20; 8.15; 9.7–9; 11.8,9).
O propósito aparente de Eclesiastes, estimular o temor do Senhor como a chave para uma vida significativa em um mundo que é, em tudo o mais, desprovido de significado, é obtido pela demonstração da incapacidade humana de obter proveito da vida, isto é, encontrar realização como indivíduo (1.12–6.9), e pela demonstração da incapacidade humana de encontrar ou perceber o sentido da vida (6.10–11.6).
Os esforços do homem são desprovidos de significado em um mundo que não lhe oferece realização pessoal (1.2–11).
Qohelet, nos versículos 1.12–18, apresenta um resumo de sua investigação e indica seu princípio direcionador. Seu escopo foi todo o campo do esforço (atividade) humano (1.13) e seu princípio direcionador foi a sabedoria (חָכְמָה, ḥoḵmâ, 1.13). Ele afirma que a vida se apresenta como uma série de paradoxos desprovidos de sentido (1.14,15) que mesmo a sabedoria humana sem paralelo não conseguiu resolver. Em última análise, sua capacidade de discernir e entender ideias e situações serviu apenas para torná-lo mais agudamente cônscio dos problemas insolúveis da vida.
se Salomão vai dar conselho, deve primeiro declarar suas qualificações para procurar a indagação proposta: “Que proveito (ou vantagem) tem o mortal nesta vida?”
Simplificando, suas qualificações incluíam:
• Ele vinha reinando (ou “fui rei”, como tempo passado, ou presente perfeito, “venho sendo rei”) sobre todo o Israel em Jerusalém (v. 12).
• Ele se aplicara diligentemente a responder essa questão (v. 13).
• Ele havia observado atentamente tudo o que se referia a essa questão (v. 14).
• Ele tinha alcançado mais sabedoria e conhecimento do que a maioria das pessoas (v. 16).
• Ele encontrou muita dor e pesar nas coisas tal como estavam (v. 17).
