Culpa

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Introdução

Começamos na semana passada a nossa série "Emoções". Como você tem lidado com os seus sentimentos? Na semana passada falamos sobre o medo, e refletimos sobre essa realidade na vida de todo o cristão. É normal sentir medo, o problema é quando somos dominados ou paralisados por ele.
Hoje falaremos sobre o sentimento de culpa, que assim como medo, não é um problema por si só, mas como nós lidamos com ele. Assim como viver sem medo de nada é muito perigoso, viver sem ter o sentimento de culpa por nada também é um grande problema. Mas ao mesmo tempo, não há nada pior do que ser escravo da culpa. Mas sentir culpa deve sempre nos trazer conciência que erramos e precisamos consertar algo.
Hoje, eu gostaria de caminhar com vocês a respeito de como lidamos com a culpa. Talvez nesse momento você esteja lidando com esse sentimento. Talvez por algo que você fez, ou até mesmo por algo que você deixou de fazer. Nos sentimos culpados não só quando erramos, mas também quando percebemos que não estamos dando conta (de ser mãe, de ser esposa, de ser pai, marido ou até mesmo de ser o filho que você imagine que o seus pais esperam).
Olhando para a Bíblia, não consigo pensar em exemplos melhores para nos ajudarem a pensar sobre a culpa do que dois homens. Muito parecidos em alguns aspectos, e bem diferentes em outros.
Eram dois discípulos de Jesus. Ambos desempenhavam funções importantes: Um era uma espécie de líder entre os demais, o outro era o tesoureiro do grupo. Ambos tiveram os pés lavados por Jesus, participaram da última Ceia. Mas ambos também foram usados por satanás em alguma ocasião do ministério de Jesus, porque tinham expectativas erradas sobre Ele e Seu ministério. Satanás entrou no coração de um para entregar Jesus e Satanás usou a boca de outro, quando diz a Jesus que Ele não deveria ir para a cruz. Seguindo com as semelhanças… Ambos foram chamados pelo próprio Mestre, mas ambos também pecaram contra o Senhor, o traindo. Sim, um deles foi propriamente o traidor e o outro negou Jesus, o que não deixa de ser também uma espécie de traição.
Se você conhece minimamente o texto bíblico, já deve ter percebido que estou falando de Pedro e Judas. Muitas semelhanças entre eles. Mas algumas diferenças também. E talvez a principal delas tenha a ver exatamente com a forma como lidaram com a culpa.
Quantos de vocês conhecem alguém chamado Pedro? Quantos de vocês conhecem alguém chamado Judas? Por que isso? Qual a diferença que nos faz admirar um e não admirar o outro?
Mateus 26.69–75 NAA
69 Pedro estava sentado fora no pátio. Uma empregada se aproximou e lhe disse: — Você também estava com Jesus, o galileu. 70 Mas ele negou diante de todos e disse: — Não sei o que você está dizendo. 71 Quando se dirigia para a porta, Pedro foi visto por outra empregada, que disse aos que estavam ali: — Este também estava com Jesus, o Nazareno. 72 E ele negou outra vez, com juramento: — Não conheço esse homem. 73 Pouco depois, aproximando-se os que estavam ali, disseram a Pedro: — Com certeza você também é um deles, porque o seu modo de falar o denuncia. 74 Então ele começou a praguejar e a jurar: — Não conheço esse homem! E no mesmo instante o galo cantou. 75 Então Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe tinha dito: “Antes que o galo cante, você me negará três vezes.” E Pedro, saindo dali, chorou amargamente.
Mateus 27.1–10 NAA
1 Ao romper o dia, todos os principais sacerdotes e os anciãos do povo entraram em conselho contra Jesus, para o matarem; 2 e, amarrando-o, levaram-no e o entregaram ao governador Pilatos. 3 Então Judas, que o traiu, vendo que Jesus havia sido condenado, tocado de remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos principais sacerdotes e aos anciãos, dizendo: 4 — Pequei, traindo sangue inocente. Eles, porém, responderam: — Que nos importa? Isso é com você. 5 Então Judas, atirando as moedas de prata para dentro do templo, retirou-se e se enforcou. 6 E os principais sacerdotes, pegando as moedas, disseram: — Não é lícito colocá-las no cofre das ofertas, porque é preço de sangue. 7 E, tendo deliberado, compraram com elas o campo do oleiro, para cemitério de forasteiros. 8 Por isso, aquele campo é chamado, até o dia de hoje, Campo de Sangue. 9 Então se cumpriu o que foi dito por meio do profeta Jeremias: “Pegaram as trinta moedas de prata, preço em que foi estimado aquele a quem alguns dos filhos de Israel avaliaram, 10 e as deram pelo campo do oleiro, assim como me ordenou o Senhor.”
Gostaria de observar com vocês alguns pontos que identificamos nesta narrativa do evangelho:

O Pecado

Os dois pecaram contra Jesus. Cada um pela sua razão, mas a raiz do pecado é exatamente a mesma. Podemos afirmar que Judas pecou por ganância, dinheiro. E Pedro por segurança, proteção e conveniência. Ele talvez tivesse medo de ser condenado também. Pecados, em certo sentido diferentes, mas com a mesma raiz: Preferir alguma coisa em detrimento do próprio Jesus. Observe, até mesmo questões legitimas podem nos levar a pecar como a nossa própria segurança. Somos especialistas em encontrar razões "legitimas" para desobedecer a Deus.
Mas, a verdae é que independente da razão, ambos experimentaram a culpa, perceberam que tinham errado. Pedro em Mt 26:75. Judas em Mt 27:3-4. Tiveram a consciência de que tinham pecado. Ou seja, tanto o pecado quanto a culpa unem Judas a Pedro, no sentido de que os torna parecidos.
E o que é mais interessante é que o mesmo pecado nos une tanto a Judas quanto a Pedro. Podemos ter pecados diferentes, pode ser que você diga: Eu nunca entregaria Jesus, nunca o trairia, nunca o negaria. Mas é exatamente isso que você faz quando busca em outros lugares o que somente Ele pode oferecer. É exatamente isso que você faz quando pensa no seu próprio prazer, conforto e satisfação em detrimento da vontade de Deus. Todos somos pecadores. Todos somos Pedro e Judas. Mas o que determina se diante do pecado e da culpa, eu serei como um ou como outro?

O alerta

Eu não sei quanto a vocês, mas às vezes me pego pensando: Como eles puderam trair Jesus? Os dois foram avisados que fariam isso. (Mt 26:25 e Mt 26:34). Como pode? Eles andaram com Jesus por três anos, viram e ouviram coisas maravilhosas, foram avisados do que fariam e mesmo assim, fizeram. Mas nós também temos a Palavra de Deus que nos ensina o que é pecado e o que não é e ainda assim, seguimos pecando. A verdade é que somos mais parecidos com Pedro e Judas do que gostaríamos de admitir.
Só que aqui, a gente começa a perceber algumas diferenças de atitude entre os dois, que podem nos trazer luz, uma vez que entendemos que todos somos pecadores e como consequência disso, culpados diante de Deus.
Judas, ao ser avisado, sai de imediato. Esse homem sai de imediato. Despreza a presença de Deus e dos demais discípulos. Além disso, ele mostra que tinha a mente cauterizada. É avisado e simplesmente sai. Aquilo não o incomodou. A indiferença é a pior coisa em relação ao pecado.
Pedro, não. Ele rebate, discute com Jesus. Embora, estivesse errado, isso nos mostra que ele não tinha como projeto obstinado fazer o que fez. Ele continuou com os demais discípulos, foi com Jesus para o monte. Negou Jesus sim, errou, foi fraco, foi carnal, mas não tinha a mente cauterizada. Isso não era um plano para Ele. Mesmo tentando se defender, Pedro em sua atitude demosntra que não era indiferente.
Os dois experimentaram a culpa como consequência do pecado. Mas apenas um deles tinha a mente cauterizada e um plano bem definido: Vou trair Jesus em troca do dinheiro.
Aqui precisamos tomar muito cuidado. A culpa é um indicativo de que algo não vai bem. E há um problema muito grande, quando ficamos cauterizados. O pecado não incomoda mais. É mais fácil abrir mão de estar perto de Jesus e dos outros discípulos do que estar próximo para perceberem o quanto sou vulnerável. Minha reputação vale mais do que ter o caráter transformado.
Outro ponto, em João 12:6, o texto diz que Judas era responsável pela bolsa de dinheiro e tinha como costume tirar o que era colocado nela. Esse homem já tinha problema com isso. Já era um ladrão. Mas provavelmente, pegava em pouca quantidade, senão os demais já teriam notado. O que isso nos ensina? Ninguém trai Jesus da noite para o dia. Ninguém chega a um pecado que o destrói totalmente, sem antes fazer pequenas concessões, abrir mão de alguns valores para benefício pessoal. Todo problema ético, aponta para uma deficiência de caráter. Os outros perceberem, que era um problema para Judas. Preocupado com reputação. Ninguém pode saber que faço tais coisas escondido. Sendo que a preocupação deveria ser: Jesus me conhece. Ele sabe. E eu quero ser curado.
Ambos eram pecadores, assim como você e eu. Ambos sabiam que estavam errados, logo sentiram culpa, assim como você e eu sentimos. Só um deles tinha a mente totalmente cauterizada, por isso, Mt 27:3, vai dizer que Judas experimenta remorso, em detrimento de arrependimento. E essa é a grande diferença entre eles…

O que fazer

Pode ser que você já tenha ouvido isso: Pedro se arrependeu e Judas sentiu remorso. E é exatamente isso. Mas o que nos leva a tais conclusões?
Judas logo se retirou. Pedro se manteve próximo aos demais discípulos. Judas tentou resolver as coisas do seu próprio jeito. Tentou devolver o dinheiro (só que o problema não eram as moedas, mas o seu coração). Teve uma morte terrível e feia. Foi se enforcar. Em Atos 1:18, diz que caiu de cabeça, tendo seu corpo partido ao meio, de modo que as suas vísceras se derramaram. A descrição do fim da vida de Judas é uma perfeita ilustração do que o pecado faz conosco. Ele sentiu culpa e reagiu com orgulho. Não pediu perdão, não se arrependeu. Não buscou ajuda nos outros discípulos.
Pedro, não (Mt 26:74) diz que ele chorou amargamente. Mas o que leva a crer que foi um arrependimento genuíno? O que ele fez a medida que o tempo foi passando. Quando o anjo apareceu às mulheres, diz para anunciarem a ressurreição aos discípulos e a Pedro (Mc 16:7). Pode ser que ele não estivesse se sentindo digno de ser um discípulo do Mestre, mas ele seguia por perto. A pior coisa que você pode fazer diante da culpa é se isolar de Jesus e dos seus irmãos, os outros discípulos. Quando as mulheres, em Lucas 24 deram a notícia que Jesus havia ressuscitado aos onze, os discípulos não acreditaram. Apenas um levantou-se e correu ao sepulcro: Pedro. Mesmo tomado pela culpa, um homem que se arrepende de verdade, vai ao encontro de Jesus. Quando os discípulos que estavam indo para Emaús (também falamos desse texto na série) retornaram para contar aos Onze que Jesus havia ressuscitado, eles responderam: É verdade, de fato. Jesus ressuscitou e apareceu a Simão, que é Pedro. E em João 21, há um dos diálogos mais interessantes da Bíblia onde Jesus restaura Pedro e o designa com o seguinte chamado: Cuide das minhas ovelhas.
Ambos erraram, pecaram e provavelmente pensaram a mesma coisa: Eu traí Jesus. Mas Judas pensou: EU traí Jesus. Enquanto Pedro pensou: Eu traí JESUS. Percebem a diferença na ênfase? Dependendo de como você olha essa questão, falando dos seus próprios pecados, isso te leva ao remorso ou ao arrependimento.
De forma prática, a melhor forma de lidar com a culpa é reconhecer a sua limitação. Ao reconhecer isso, buscar primeiramente em Deus sabedoria, rever decisões, exercitar dominio próprio e buscar agir em obediência a Deus em relação ao que você está vivendo (casamento, trabalho, etc…). Mas quando levamos a vida do nosso jeito e ignoramos o conselho de Deus o que sentimos é remorso a partir das consequências e nos tornamos escravos da culpa.
Pedro se volta ao mestre enquanto Judas tenta resolver por Si mesmo. O arrependimento verdadeiro é centrado em Cristo. O remorso, em mim mesmo. E é exatamente por isso que a gente não consegue abandonar alguns pecados: Porque não nos incomodamos por estarmos ferindo Jesus. Nos incomodamos porque estamos vacilando.

Conclusão

Irmãos, todos somos pecadores. Todos somos culpados. A grande questão é: Nos arrependemos de fato e vamos aos pés de Jesus? Se não, é possível que a tua primeira atitude seja se afastar de Deus, da igreja e dos demais discípulos de Jesus. Isso indica remorso. Queremos nos esconder de nós mesmos, assim como Adão fez ao pecar. Isso não é nada original e nem resolve nossos problemas. Só experimentaremos mais culpa. Esse é um caminho de morte, assim como foi para Judas.
Mas há um outro caminho, um caminho de vida e é um caminho centrado no evangelho, mesmo que sejamos tão pecadores e culpados: Arrependimento e confissão. Reconhecer que somos pecadores de fato. Assim como o pecado de Judas levou Jesus para a cruz, o pecado de Pedro também fez o mesmo e os nossos também (não com a mesma literalidade, mas certamente Ele morreu por nossos pecados. Mas venceu a morte e o fez por nós). Se nos arrependemos, trilhamos o caminho da restauração completa, pois se nem a morte é maior que Ele, os nossos pecados também não são.
Você é pecador sim. É culpado sim. Mas a boa notícia é que Jesus assumiu a tua culpa morrendo em teu lugar. Judas foi orgulhoso e não reconheceu isso. Pedro se arrependeu de fato e foi abraçado pela Graça. Não ache que teu pecado é maior que a graça do Deus que te perdoa em Jesus.
Salmo 32:2 diz: “Como é feliz aquele a quem, o Senhor não atribui culpa”. Não é que vamos aprender a conviver com a culpa, se cremos no evangelho. É que a nossa culpa já não nos é atribuída mais, porque Jesus tomou nosso lugar. Essa é a grande troca do Evangelho, como dizia Lutero, citando II Coríntios 5:21: “Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus”. O arrependimento remove a nossa culpa, pois nos faz descansar em Cristo. Se cremos em Cristo, nossos pecados já estão perdoados e nossa culpa foi cravada na cruz. De modo que se cremos no evangelho, podemos descansar, pois Paulo aos Romanos 8 vai dizer que não há nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus. Ou a tua culpa fica sobre os teus ombros, ou você crê que ela foi levada na cruz.
Todos somos pecadores e responsáveis por nossos pecados. Ou você tenta resolver por si mesmo e vai viver amargurado, dominado pelo remorso. Quem não busca arrependimento aprende a conviver com a culpa até sofrer de remorso pelas consequências do seu pecado. Ou você crê que Jesus pagou os teus pecados e levou a tua culpa, de modo que você é apresentado irrepreensível diante de Deus pelo que Ele fez. É assim que o evangelho nos ajuda a compreender a culpa. É assim que somos totalmente limpos pelo sangue que jorrou naquela cruz. Que Deus nos abençoe em nome de Jesus.
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