Apocalipse 21
Os detalhes finais da última e definitiva intervenção de Deus na história humana descrevem o estabelecimento de um reino no qual Satanás não terá vez nem voz, reino em que a justiça é imposta pelo próprio Messias com vara de ferro. Este governo é, pela permissão divina, desafiado por influência de Satanás ao fim do Milênio, dando ensejo ao julgamento final sobre os ímpios, tanto os vivos quanto os mortos. A descrição do novo universo, recriado por Deus, recapitula e retoma o paraíso outrora perdido pela humanidade, e constitui também motivação à fidelidade e submissão ao Messias cuja vinda é iminente – a Jesus, o Cordeiro.
RESUMO DE APOCALIPSE 20–22
O novo mundo, 21:1–8
Em decorrência, a nova criação requer ser compreendida em sua ligação com a parusia. A cavalgada para fora do céu, realizada pelo cavaleiro branco em Ap 19:11, é seguida agora pela descida da presença irrestrita de Deus sobre a terra (agora naturalmente renovada).
Assim, a passagem de Ap 21:1–8 eleva-se para um clímax há muito esperado. O livro das revelações culmina na revelação de Deus. É como se duas mãos afastassem para o lado uma camada de fumaça, para depois da visão dos abismos da história e da perdição mais extrema finalmente deixar visível o que é santíssimo: Deus, tudo em todas as coisas.
Uma força poderosa mantém disciplinado o profeta tão intensamente interessado, de maneira que tudo o que nele ultrapassa os parâmetros espirituais e bíblicos prefigurados é tolhido, pois justamente quando se trata da nova criação e da consumação, nosso entendimento é pequeno demais para o assunto.
“Se pudermos ver como o mundo na verdade é terrível, como se revelou na perseguição aos cristãos, então compreenderemos que temos de esperar por um novo céu e uma nova terra. Então vemos que todas essas tentativas de cristianizar o mundo representam um projeto pequeno demais… É justamente por isso que no fim da Escritura Sagrada se encontra o Ap de João, para romper com todas essas utopias e ilusões e mostrar a esperança que persistirá face à realidade desse mundo.”
De forma alguma o Ap visa paralisar nossa ação com essa mensagem, porém deseja dar-lhe uma direção. As mensagens às igrejas (Ap 2,3) observam as “obras” com grande precisão, elogiam-nas, exigem-nas e esperam uma ação perseverante também no maior sofrimento. Contudo, toda a atuação do cristão tem o sentido de erigir sinais inequívocos neste velho mundo, os quais apontam para o Senhor vindouro e seu novo mundo.
Nessa constatação evidencia-se mais uma vez que o alvo mais elevado da profecia bíblica não consiste de um encontro meramente pessoal do ser humano com seu Deus. Pelo contrário, o homem tem o encontro com Deus no âmbito de uma comunhão humana, na qual todos os problemas comunitários estão solucionados (v. 2), e ele o encontra no contexto de um meio-ambiente, no qual todas as carências do mundo estão resolvidas (v. 1). Deus não apenas salva em termos pessoais, mas também universais.
Não se constrói de baixo para cima. Toda construção que partia da terra para cima levou à Babilônia, nunca à cidade de Deus e ao Estado de Deus, e nada que não seja do alto é realmente novo (Jo 3:3).
Esse “Santíssimo” possui arestas gigantescas de mais de 2.200 km,1064 ou seja, mais do que a distância entre São Paulo e Aracaju. Em comparação, a Babilônia, a cidade tão admirada na Antigüidade por causa de suas dimensões, era minúscula. São expressas, pois, medidas que excedem de longe as cifras experimentadas pelos leitores daquele tempo. Além disso, esse comprimento também deve ser aplicado à altura. Nela a maior montanha da terra, o Himalaia, desaparece mais de duzentas e quarenta vezes.
O início diminuto, muitas vezes com aparência de pequena seita, atingiu amplitude mundial. Do grão de mostarda, que é a menor de todas as sementes, formou-se a árvore dos mundos (Mt 13:32).
Por isso João ouve a pergunta impaciente do mundo ao seu redor: e o Templo? Afinal, quando é que vais falar do essencial? Como se tivesse a intenção de responder a isso, ele começa: Nela, não vi santuário (“E um templo — não o vi nela” [tradução do autor]). Essa frase representa um choque profundo para os ouvidos judaicos.
Santuários em forma de templo proclamam duas verdades. Primeiramente evidenciam que a área restante da cidade não é sagrada. As demais casas e a vida cotidiana não são mais lugar de encontro entre Deus e ser humano. Unicamente esse recinto separado, recortado, é santo. Ao mesmo tempo, porém, o templo também está numa cidade como sinal da fidelidade de Deus. O santo Deus não voltou inteiramente as costas à terra profana, mas deixou um penhor de sua volta, um dedo indicador levantado. Deus quer retornar e quer santificar novamente a cidade toda, a terra toda e o mundo inteiro.
“Pois a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o (chão do) mar”; “todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Hc 2:14; Is 11:9; 52:10). Como a água penetra em todos os cantos, em cada fenda, correndo para todos os declives e não deixando nada fora, assim Deus será tudo em todas as coisas (1Co 15:28). Ele penetra em tudo com densidade inimaginável e com consistência ininterrupta. Esse é o mistério da nova criação. Por isso ela é um mundo sem contradição, sem discórdia e aflição, mas também sem tédio e qualquer monotonia. Uma humanidade unificada louva a Deus sem esmorecer, ama-o sem se cansar e contempla-o sem fim.
Esse é o motivo mais profundo pelo qual os moradores da nova cidade não vêem nenhum templo: vêem a Deus! (Ap 22:4).
A consumação em Ap 21,22 não pode ser separada desse começo, ou seja, do Natal, da Sexta-Feira da Paixão e da Páscoa. Foi lá que aconteceu o verdadeiro nascimento do sol, ainda que permanecesse envolto por nuvens de neblina e lutasse contra fumaça e sombras. O presente capítulo traz a concretização total. Somente com esse entendimento é que a igreja cristã fala da nova Jerusalém, a saber, ela fala cristologicamente.
