Discipulo produz discipulos 2
INTRODUÇÃO:
1 - O DISCIPULADO E SUA CONTINUIDADE.
2 - O DISCIPULADO DE SAULO (PAULO).
3 - QUALIDADES DE BERNABÉ QUE TODO DISCIPULADOR DEVE TER.
4 - JESUS E SEU DISCIPULOS MT 4:18,19.
5 - A INCUBÊNCIA É PARA TODA Á IGREJA MT 28:19,20.
6 - QUANTO TEMPO DEVE DURAR O DISCIPULADO?
7 - PROBLEMAS DA FALTA DE DISCIPULADO HB 5:12.
8 - BENÇÃOS DO DISCIPULADO.
A grande comissão
Segundo Mateus, Jesus disse aos discípulos: Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado (v. 19–20a). Há quatro imperativos nesta comissão: (1) ir, (2) fazer discípulos, (3) batizar e (4) ensinar.
Nos registros dos evangelhos, vemos Jesus chamando pessoas em alguns momentos. Em um de seus convites mais conhecidos, ele disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Ele chamava as pessoas a fim de que encontrassem descanso, vida, provisão, conforto e ajuda de qualquer espécie. Porém, vemos também que, quando iam até ele, o Senhor muitas vezes as despedia com uma missão. Assim foi com os discípulos. Ele ordenou que saíssem por aí. A primeira ordem da grande comissão é “ir”.
No início de 2010, um terremoto devastador atingiu as proximidades de Porto Príncipe, no Haiti. Um conhecido falou-me a respeito de um médico que estava reunindo uma equipe com o objetivo de dar assistência aos haitianos gravemente feridos ou à beira da morte. Eu apresentei a situação à minha igreja, a Saint Andrew’s, e, em uma única manhã de domingo, arrecadamos mais de 10.000 dólares para aquela missão de socorro no Haiti. Recentemente, conversei com o médico, e ele falou: — Sproul, eu voltei ao Haiti na semana passada e encontrei muitas pessoas que eu achava que não conseguiriam sobreviver. Então ele me mostrou fotos de alguns indivíduos com quem havia trabalhado e começou a me contar sobre eles. Enquanto falava, entretanto, começou a chorar. Ele disse: — Eu não consigo acreditar no que Deus fez ali, e sua igreja foi uma parte importantíssima dessa obra. Este é o tipo de coisa que acontece quando decidimos ir.
Contudo, não devemos apenas ir; devemos fazer discípulos. Constatei que é relativamente fácil arrecadar fundos para sustentar missões focadas no evangelismo. As pessoas enxergam a importância de converter outras a Cristo. Da mesma forma, é fácil arrecadar dinheiro para ajudar crianças famintas ou outros tipos de ministério de misericórdia, pois necessidades assim são bem evidentes. Porém, nunca é fácil arrecadar dinheiro para missões que envolvem educação cristã. As pessoas não acham que educação cristã é tão importante. No entanto, quando um indivíduo se converte, seja com 10, 50 ou 90 anos de idade, ele é espiritualmente um recém-nascido. Precisa ser alimentado no aspecto espiritual e receber amadurecimento na fé.
Eu me lembro de ler uma biografia de Billy Graham na qual ele comenta que, com frequência, ficava acordado à noite pensando nas pessoas que tomaram uma decisão a favor de Cristo em suas reuniões. Ele se perguntava se havia alguém acompanhando-as, ensinando e ajudando a se firmar na fé. Fico feliz por ele ter esta preocupação, pois é uma preocupação bíblica. A grande comissão nos chama a ser mais do que instrumentos para a conversão de pessoas. Ela nos chama a ensiná-las, a firmá-las, a ajudá-las a crescer em conformidade com Cristo. Esta é a nossa missão.
Jesus também comissionou sua igreja a batizar. Por que ele achou apropriado incluir este ritual na grande comissão? Assim como a aliança que Deus fez com Abraão foi selada com o sinal pactual da circuncisão, a nova aliança que Cristo fez com a igreja é selada com o sinal do batismo. O batismo comunica que nós fomos unidos a Jesus Cristo. Ele mostra que fomos purificados do pecado, regenerados pelo Espírito Santo, sepultados e ressuscitados com Jesus Cristo, dentre muitos outros significados. Deus promete que aqueles que têm fé no seu Filho, Jesus Cristo, participarão de todas as promessas, de todos os benefícios que Cristo garantiu. O batismo não é um sinal de fé; é um sinal da fidelidade de Deus em conceder seu Filho a todos os que creem. É por isso que os apóstolos não apenas pregavam, mas também batizavam pessoas e lares inteiros, isto é, todos aqueles que passavam a fazer parte do corpo de Cristo na igreja do primeiro século. Também é muito importante o fato de o batismo ser realizado na fórmula trinitária: Pai, Filho e Espírito Santo.
Por último, devemos ensinar. Jesus mandou que os discípulos ensinassem os outros a “guardar” – isto é, obedecer – “todas as coisas” que ele havia ordenado. Temos de tornar conhecido todo o conselho de Deus, inculcando-o no coração e na mente das pessoas.
MARCOS 9.9–50
O discipulado não é aprendido na sala de aula; ele só pode ser aprendido na estrada da vida. Muitos dos profundos ensinamentos de Jesus foram inspirados por incidentes aparentemente casuais ou por perguntas espontâneas. Além disso, as lições profundas surgem das tensões da vida conjunta dos discípulos. Como veremos nesse capítulo, Jesus transformou naturalmente tudo isso em situações de ensino.
A grande comissão de Jesus (28.16–20)
Carlos Osvaldo Pinto ressalta que esse último parágrafo do evangelho (28.16–20) deve ser comparado em primeiro lugar ao capítulo 10, para que a mudança seja vista em toda a sua magnitude. Ali (cap. 10), Cristo, o filho de Davi, delegou seu poder para a evangelização de Israel. Aqui, Cristo, o filho de Abraão, delega sua autoridade para a evangelização do mundo.
Os onze discípulos atenderam à ordem de Jesus e deixaram Jerusalém, rumando para a Galileia, e ali, no monte designado pelo Senhor, ele se deu a conhecer a eles. Logo que o viram, eles o adoraram. Alguns, porém, duvidaram. É nesse cenário, num dos montes da Galileia, que Jesus entrega a seus discípulos a grande comissão.
Todos os quatro evangelistas deram ênfase à grande comissão. Lucas ainda a repete no livro de Atos. Fica evidente, na grande comissão, que o propósito de Deus é o evangelho todo, por toda a igreja, em todo o mundo, a toda criatura. R. C. Sproul destaca o fato de que Jesus não está dando uma grande sugestão, mas uma grande comissão, ou seja, trata-se de uma ordem expressa do Rei dos reis, o qual possui toda a autoridade no céu e na terra.
Tasker, citando H. B. Swete, é oportuno, quando escreve:
Este evangelho começou com uma afirmação de que Jesus era da linhagem real de Davi, e registrou que, enquanto criança, foi reconhecido como “Rei dos judeus” pelos astrólogos vindos do oriente. Agora, depois de ser crucificado como “Rei dos judeus”, ressuscitou dos mortos; e em seu estado glorificado como o Cristo ressurreto, sem reservas arroga-se a posse de completa autoridade no céu e na terra. Com esta conotação termina o evangelho.
Cinco verdades devem ser aqui ressaltadas, como vemos a seguir.
Em primeiro lugar, a competência do comissionador (28.18). Que constrate havia nessa cena na Galileia com os gemidos no Getsêmani e com a escuridão do Gólgota! Jesus afirmou a sua onipotência e soberania universal. Na cruz, ele foi proclamado “rei dos judeus”, mas, quando João o vê glorificado em sua visão apocalíptica, na sua cabeça havia muitos diademas, e em seu manto e em sua coxa havia um nome escrito: “Rei dos reis e Senhor dos senhores”. Jesus tem toda a autoridade (ARA) e todo o poder (ARC). Exousia, “autoridade”, nesse contexto, refere-se ao poder e à jurisdição absolutos. Nada existe fora do controle soberano do Cristo ressurreto. É nesse fundamento que os discípulos deverão ir, fazendo discípulos de todos os povos.
Essa declaração mostra que quem dá a ordem tem autoridade e competência para fazê-lo. Havia autoridade em seus ensinamentos (7.29); ele exerceu autoridade para curar (8.1–13) e até mesmo para perdoar pecados (9.6). Jesus tinha autoridade sobre Satanás e delegou autoridade a seus apóstolos (10.1). Ao final de seu evangelho, Mateus deixa claro que Jesus tem toda a autoridade (28.18). A. T. Robertson diz que o Cristo ressurreto, sem dinheiro, ou exército, ou estado governamental, comissiona esse grupo num dos montes da Galileia para conquistar o mundo.29 Esse é o maior empreendimento que os seres humanos foram chamados a executar.
É condição básica de êxito, no cumprimento da grande comissão, sabermos que Jesus nos dará as condições de enfrentar o inimigo e as circunstâncias adversas sem temer e vacilar. Qualquer ordem dada pela autoridade máxima do universo exige atenção e respeito total. Portanto, ao proferir a ordem, Jesus quer ser obedecido de forma clara, completa e urgente.
Em segundo lugar, o cerne da grande comissão (28.19). A. T. Robertson diz corretamente que aqui está o programa mundial do Cristo ressurreto. Todos os verbos desse versículo estão no gerúndio, mas fazer discípulos é uma ordem. Indo + batizando + ensinando = fazei discípulos. Robert Mounce apresenta assim essa ideia: “Tanto baptizontes quanto didaskontes são particípios governados pelo imperativo matheteusate. A ideia principal da sentença é ‘fazer discípulos mediante o batismo e o ensino’ ”.
Fica claro que Jesus não mandou fazer fãs. Quem precisa de fãs são os artistas. Jesus não mandou fazer admiradores. Os atores e jogadores de futebol é que buscam admiradores. Jesus não mandou apenas evangelizar e ganhar almas, abandonando os bebês espirituais. Ele quer discípulos. Jesus não mandou apenas recrutar crentes e encher as igrejas de pessoas. Ele quer convertidos maduros.
Um discípulo é um seguidor. Isso implica: 1) fazer do reino de Deus seu tesouro; 2) renunciar a tudo por amor a Jesus; 3) guardar as palavras de Jesus. Hoje, temos muita adesão e pouca conversão. Temos grandes ajuntamentos e pouco quebrantamento. Temos igrejas cheias de pessoas vazias de Deus e vazias de pessoas cheias de Deus. Temos grandes multidões que buscam as bênçãos, mas não a Deus. São religiosos, mas não discípulos de Cristo.
Em terceiro lugar, o alcance da grande comissão (28.19). A ordem de Jesus é: Fazei discípulos de todas as nações. A palavra “nações” significa “etnias”. Onde houver um povo, com sua língua, cultura e raça, ali o evangelho deve chegar. Deus comprou com o sangue de Cristo aqueles que procedem de toda tribo, língua, povo e nação (Ap 5.9). Esses devem ser chamados e discipulados. Concordo com John A. Broadus quando ele diz que o cristianismo é essencialmente uma religião missionária.
Em quarto lugar, as implicações da grande comissão (28.19). Há duas implicações no cumprimento da grande comissão. A primeira delas é a integração dos novos convertidos. Fazer discípulo implica integrar o indivíduo à igreja, por meio do sacramento do batismo em nome do Pai, do filho e do Espírito Santo. David Stern é oportuno quando escreve: “O Novo Testamento não ensina o triteísmo, que é a crença em três deuses. Ele não ensina o unitarismo, que nega a divindade de Jesus, o filho, e do Espírito Santo. Não ensina o modalismo, que diz que Deus aparece às vezes como o Pai, às vezes como o filho, e às vezes como o Espírito Santo, como um ator trocando as máscaras”. Embora a palavra “Trindade” não apareça nas Escrituras, o conceito dela está por toda a Bíblia.
Todo convertido deve ser batizado e integrado à igreja. A igreja é importante. Não existe crente isolado, “desigrejado”, fora do corpo. Uma ovelha fora do rebanho é presa fácil do devorador. Uma brasa fora do braseiro logo se cobre de cinzas. A igreja foi instituída por Cristo, e os novos crentes devem ser integrados a ela pelo batismo.
A segunda implicação é que a grande comissão envolve ensino aos novos convertidos. Três coisas merecem destaque nesse ensino. Primeiro, ensinar o que Jesus mandou (28.19). Não se trata de ensinar doutrinas de homens, modismos, tradições humanas e legalismo, mas ensinar o que Jesus ordenou. Segundo, ensinar todas as coisas (28.19). Ensinar não apenas as coisas mais agradáveis. Devemos ensinar toda a verdade, toda a Palavra, e dar não apenas o leite, mas também o alimento sólido. Terceiro, ensinar a guardar (28.19). Russell Norman Champlin tem razão ao dizer que devemos observar que o ensino precisa incluir os ensinamentos morais e éticos do Senhor Jesus, além de quaisquer outros ensinamentos que formam o corpo de doutrinas que ele nos deixou. Robert Mounce explica que o ensino aqui está estabelecido como algo ético, mais do que doutrinário.35 Ensinar não é apenas guardar na cabeça doutrinas certas, mas é obedecer a essas doutrinas. O discípulo é aquele que obedece. Hoje, as pessoas querem conhecer, mas não querem obedecer. Jesus disse: Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando (Jo 15.14).
Em quinto lugar, motivos para cumprir a grande comissão (28.18–20). Jesus oferece três motivos eloquentes para cumprirmos a grande comissão, como vemos a seguir.
Primeiro, o poder de Jesus à nossa disposição (28.18). Jesus expressou sua exousia, sua autoridade e liberdade absoluta de ação para enviar os apóstolos. Se Jesus tem todo o poder e toda a autoridade, não sobrou nada para o diabo. O diabo é astuto, ardiloso e sagaz, mas Jesus tem todo o poder no céu e na terra. O poder do diabo foi tirado na cruz (Cl 2.15). Ele foi despojado. Está oco, vazio. O diabo não tem poder nem no inferno. As chaves da morte e do inferno estão nas mãos de Jesus (Ap 1.18). As portas do inferno não prevalecem contra a igreja (16.18). Toda a suprema grandeza do seu poder está à nossa disposição (Ef 1.19).
Segundo, a ordem de Jesus (28.19). Se o Jesus ressurreto, o Rei soberano do universo, deu uma ordem, cabe-nos obedecer a ela de modo intransferível e impostergável. A grande comissão não pode transformar-se na grande omissão.
Terceiro, a presença de Jesus (28.20). O discipulado não constitui uma estrada solitária, porque o Senhor ressurreto promete que estará com os discípulos sempre, todos os dias, até a consumação dos séculos. Champlin esclarece que Jesus está conosco não meramente como um rádio orientador, mas como amigo e salvador. A presença de Jesus é contínua, em todo lugar. Ele nunca nos desampara, nunca nos deixa. Ele é como sombra à nossa direita. Ele é o vigia que não dormita nem dorme. Não há situação em que sua presença não esteja conosco. Ele está conosco na vida e na morte, no tempo e na eternidade. John Charles Ryle escreve da seguinte forma sobre a presença de Jesus conosco:
Cristo está conosco todos os dias. Cristo está conosco em todo lugar que vamos. Ele está conosco diariamente para perdoar e absolver; conosco diariamente para santificar e fortalecer; conosco diariamente para defender e guardar; conosco diariamente para conduzir e guiar; conosco em tristezas e alegrias; conosco em saúde ou enfermidade; conosco na vida e na morte; conosco no tempo e na eternidade.
A. T. Robertson diz que Jesus emprega aqui o presente profético. Ele está conosco todos os dias até que volte em glória. Ele há de estar com os discípulos quando for embora; estará com todos os discípulos, com todo o conhecimento, com todo o poder, com eles todos os dias (todos os tipos de dias: dias de fraqueza, tristeza, alegria e poder). O mesmo autor é oportuno quando alerta sobre o fato de que essa bem-aventurada esperança não é um sedativo para uma mente ociosa e uma consciência complacente. Trata-se de um incentivo ao mais pleno esforço de prosseguirmos energicamente, apesar das dificuldades, até os rincões mais distantes do mundo, para que todas as nações conheçam Jesus e o poder da sua vida ressurreta. Assim, o evangelho de Mateus se encerra em uma chama de glória.41
O Cristo ressurreto garante, assim, a seus discípulos e a todos os seus seguidores ao longo da história a maior conclusão que qualquer livro poderia ter. A Jesus, o Rei dos reis, glória pelos séculos sem fim. Amém!
